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Devendra Banhart

Devendra Banhart este fim de semana em Portugal: “Gostamos de fingir que somos blocos de cimento, mas somos casas cheias de janelas”

Está em Los Angeles quando nos atende o telefone com um jovial “tudo bem?”, em bom português. Fala-nos sobre o seu belíssimo novo álbum, “Ma”, mas também sobre a situação no seu país de origem, a Venezuela, ou a paixão por Chico Buarque e Caetano Veloso. Recuperamos uma entrevista de setembro de 2019 para ir preparando os concertos no Porto e em Lisboa este sábado e nos próximos dias

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Chamou ao disco "Ma" e fala, no comunicado de imprensa, sobre a universalidade da palavra mãe. Sabe se foi a primeira palavra que disse, em criança?
É uma das primeiras palavras que a maioria de nós aprende a dizer, das primeiras palavras que produzimos. Poderá ser uma palavra que surge naturalmente, à medida que o equipamento de um bebé novinho em folha começa a adaptar-se ao oxigénio. Poderá ser o som natural de quando carregas no botão de ligar, para começares a existir. É como se essa palavra estivesse embutida em nós, de forma fisiológica. Há sempre uma pessoa a quem chamamos "ma", e uma das definições de crescimento, evolução e expansão é a capacidade de identificarmos mais do que uma pessoa como mãe. Lembro-me de uma passagem muito bonita que li, sobre a mulher [do guru] Swami Vishwananda, segundo a qual no fim da sua vida ele dizia: "ma em todo o lado". E pensei: que bonito, poder ver mãe em todo o lado. No budismo, há algo chamado "reconhecimento da mãe"; independentemente de acreditarmos ou não na reencarnação, isso pode ser aplicado de forma muito prática. Esse ensinamento passa por nos lembrarmos que, a certa altura, toda a gente foi nossa mãe e que nós fomos mãe de toda a gente. E não precisas de acreditar nisto! Mas, se viveres assim, a tua vida será melhor. Será mais fácil lidares com as pessoas e serás menos reprovador e menos zangado. Ser-te-á mais fácil responder, em vez de reagir.

Fala também sobre o facto de os seus amigos já serem pais, ao contrário de si. O desejo de ser pai é pouco falado, por oposição ao de ser mãe?
Não sei! Por mim, estou numa posição muito bonita, porque sempre quis ser a "tiazinha", para poder ensinar as minhas sobrinhas e os meus sobrinhos a andar de skate e a pintar. Mas sou tão egoísta que, depois, gosto de voltar para casa e ter o meu espaço, ficar sozinho. Por isso, para mim é até um privilégio, porque tenho a oportunidade e o luxo, na verdade, de escrever sobre isso. Quando tens filhos, não podes escrever sobre isso! É um trabalho de 24 horas por dia. Passo tempo com os filhos daqueles que conheço desde que eram crianças: os meus amigos mais próximos, com quem faço música. Mas tenho muito mais espaço e tempo do que eles.

No final da canção 'Carolina', neste disco, canta "eu deveria aprender português". Mas sabe falar um pouco, verdade?
Nã! É uma enorme fonte de embaraço, para mim. Nem inglês falo tão bem como gostaria. Espanhol certamente não domino como gostaria, mesmo nas canções em espanhol engano-me muito. Mas, para a quantidade de música que ouço em português, é uma grande vergonha não falar a língua. Quanto a esta canção, não conheço nenhuma Carolina. É apenas uma canção para essa canção ['Carolina', de Chico Buarque, gravada depois por Caetano Veloso], na qual admito que devia aprender a falar português! "Desculpa, desculpa!" [em português].

Diz que a música é uma das suas mães. Lembra-se da primeira música que o fez sentir assim?
Não sei se me lembro das primeiras canções que ouvi, mas sei que adorava música. Aos 9 anos, escrevi uma canção que mostrei à minha família, mas antes, quando era muito pequenino, lembro-me de estar no banho, a cantar. E de pensar: uau, isto é como viajar! É uma forma de explorar esta paisagem! Quase que conseguia ver uma realidade virtual, parecia que tinha acabado de conhecer uma entidade diferente. Apercebes-te do teu peito, do ar à tua volta. Nós somos casas cheias de janelas. Gostamos de fingir que somos um bloco de cimento, fechado, cheio de fechaduras, porque queremos proteger-nos e sentir-nos seguros. Mas se vires bem, somos tão vulneráveis, em constante interação com o que está lá fora. E, para mim, a música foi uma ponte muito bela para isso tudo. E sei que falo muito disso, mas também me lembro do momento em que senti que não conseguia cantar, que tinha uma voz esquisita e muito aguda e que não cantava como os outros tipos! E de pôr o vestido da minha mãe, o que abriu a porta a toda uma outra energia, a todo um outro mundo. E aí já me sentia muito confortável a cantar. Era aquilo a que chamarias uma perspetiva ou uma energia feminina, que estava em mim. Esse momento foi muito libertador e inspirador. Uma canção em particular, não me recordo. Talvez a primeira cassete que tenha comprado, pensando: "esta é a minha música, a música que eu adoro" tenha sido a 'Unbelievable', dos E.M.F.

Por aqui foi o vinil do ‘Nikita’, do Elton John…
Já viste o “Rocketman” [biopic do Elton John]? Eu ainda não vi, mas achei o “Bohemian
Rhapsody” um filme terrível. Mas [o Rami Malek] é tão bom que me fez esquecer como o filme era mau. Fiquei muito feliz por ter ganho os Óscares, porque acreditei mesmo nele e esqueci-me completamente que ele estava a representar, parecia uma pessoa a sério num grande filme. Ele impressionou-me mesmo muito. Ainda não vi o “Rocketman”, mas algumas pessoas disseram-me que gostaram muito mais do que do “Bohemian Rhapsody”, por isso te perguntei.

“Bohemian Rhapsody” tem a vantagem de poder “servir-se” do catálogo de êxitos dos Queen…
Pois, és capaz de ter razão. Há uma pequena coisa chamada “alguma da maior música alguma vez feita”. Já me tinha esquecido dessa parte. (risos)


A canção 'Abre Las Manos', deste novo disco, tem uma letra curiosa: inicialmente solar, depois bem mais trágica. E é cantada em espanhol. Que reações teve?
A grande reação foi receber mensagens de texto do meu primo, que tem um grande conhecimento da língua espanhola e de quem sou muito próximo. ele é médico, em Nashville. Só te queria dar algum contexto: é um médico venezuelano, não é um maluco qualquer que cai aqui de paraquedas. Quando lancei a canção, esse meu primo mandou-me mensagens a dizer: "pronunciaste mal esta palavra, e aquela. tens de voltar para a escola, que tens o vocabulário de um miúdo de dois anos". Foi essa a grande reação que tive a essa canção. [risos]

No vídeo de 'Abre Las Manos', vemos imagens da Venezuela, enviadas pelos seus fãs. Como estão os seus familiares que vivem no país?
Muito obrigado por perguntares! Estão lá, basicamente a suster a respiração. Sentem que esta é uma altura crítica. Estão otimistas, porque as coisas têm de mudar! Mas estão também extremamente pessimistas quanto à possibilidade de virem a mudar de forma pacífica. Viver no meio daquela situação, como eles vivem, é aterrador. É assustador tentares contactar a tua família mas saberes que não vais conseguir, porque nos próximos três dias não vais ter eletricidade. Portanto, é um sítio assustador para se estar neste momento mas também há algum otimismo... ao longo dos últimos 20 anos, as coisas têm estado a ir pelo cano abaixo. Agora estão tão más que vão ter de mudar.

O que sente quando se diz que a cultura e a língua hispânicas estão mais presentes na cultura mainstream, graças a artistas como Rosalía, Camila Cabello ou J Balvin?
Não sei. Achas que o espanhol está mais presente na cultura pop?

Há mais artistas a cantar em castelhano nos media internacionais…
És capaz de ter razão! Outro dia eu e a Alison Mosshart, dos The Kills, entrevistámo-nos um ao outro. E ela contou que estava a aprender espanhol e que tinha acabado de gravar uma canção em espanhol, creio que de uma banda da América Latina [os colombianos Diamante Eléctrico]. Espero que seja um sinal de expansão e de maturidade coletiva, que torne as pessoas menos tribais e mais abertas a outras culturas e a celebrarem outras línguas e outras formas de ser! E talvez o comuniquem pela música. Talvez seja uma coisa bonita e uma forma de combater este racismo incrível que vem do Governo dos Estados Unidos. E não só, também do Brasil e de Bolsonaro. Pessoas que têm uma influência tremenda e um grande alcance quando falam, que têm os olhos da população neles, dizem coisas incrivelmente sexistas e racistas. Talvez essa seja uma forma de combater, de forma consciente ou subconsciente, este retrocesso que está a acontecer. É muito estranho: devias esperar que uma pessoa como o Presidente fosse equilibrada e harmoniosa. Mas tem aquele comportamento. Talvez isso nos tenha aberto a outras línguas, combatendo o aspeto político, que suprime essas culturas, com o lado cultural.

Para terminar, como foi ter a Vashti Bunyan, que tanto admira, a cantar consigo na bela 'Will I See You Tonight?', que fecha o disco?
Para mim significa tudo: que alguém que eu admiro, adoro, ouço e respeito e valorizo há mais de duas décadas [cante comigo]. Ainda ouço a música da Vashti quando estou de coração partido, ou me sinto sozinho, ou assustado ou apenas triste. Ouço a sua música quando preciso de consolo e conforto, e também quando estou muito feliz, porque torna tudo mais bonito e amplifica a alegria. Eu ainda faço isso, e ela ainda escreve música nova e a sua música nova ainda me proporciona esse consolo incrível e essa alegria incrível. A Vashti é o arquétipo dessa energia maternal muito forte. É uma artista incrível cuja música me ajudou muito. E também é muito minha amiga, então tenho a sorte de poder convidá-la para cantar numa canção. O disco tem muito a ver com a minha gratidão pela música, tem esse lado do acarinhar. Outra pessoa que representa isso para mim é a Carole King. E o Ryuichi Sakamoto. E obviamente o Caetano Veloso e o Chico Buarque! A 'Carolina' é uma ode à sua canção e, num sentido mais lato, à música em si. A música e a arte são grandes mães. São um oceano cultural.

E músicos como o Caetano Veloso parecem estar cada vez mais jovens...
Não diria melhor. Recentemente vi o Caetano ao vivo e fiquei lixado. Estragou-me a noite. Porque ele está cada vez mais refinado! [risos] Podia estar ali e já se esquecer das coisas, mas não: é lindo.

Versão integral de entrevista publicada originalmente na revista E, do Expresso, de 28 de setembro de 2019