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101 canções que marcaram Portugal #2: 'Pérola, Rosa, Verde, Limão, Marfim', por Dina

Dina. Dinamite. A meia dose, como lhe chamava Kris Köpke. Bebeu música de África e do rock, e com elas compôs baladas. Pouco tempo antes da reclusão, teve direito a celebração com músicos insuspeitos. Como insuspeito foi construído o seu percurso na canção em Portugal. Esta é a segunda de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas, os compositores e os intérpretes que ficaram para história da música portuguesa

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petit histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

'Pérola, Rosa, Verde, Limão, Marfim', Dina
(1982)

Quando naquela noite de 2016 Bernardo Fachada se juntou ao seu amigo Samuel Úria para cantar, versão despida, o ‘Amor de Água Fresca’, a homenageada era uma mulher que, caso os seus pulmões fossem o seu coração, não teriam tido com certeza força suficiente para aguentar tamanha emoção. Era a sua noite. Era a sua derradeira noite. A noite da despedida: da carreira, dos palcos, do público. Fechar-se-ia, nesse dia, no São Luís, a carreira da Dinamite. Na plateia estavam amigos que tinham feito parte da sua vida – da sua vida artística e da sua vida enquanto mulher, amiga e ídolo. Todos eles se emocionaram ao vê-la fazer um último esforço para pegar na sua guitarra e cantar ainda, e acompanhar ainda, as suas canções ali com malta de boa cepa. Essa homenagem a todos espantou pela juventude insuspeita (não é demais repetir: malta de boa cepa) que ali prestavam homenagem à compositora que admiravam – apesar de esta nunca ter sido uma figura consensual, sobretudo por nunca ter sido uma figura consensual.

Estendeu a saúde até onde lhe fora possível. Ela que alternara períodos de dinamite com períodos de recolhimento, ela que se enfurecera pelas injustiças de que fora alvo e que encolhera os ombros com tantas outras tristezas, escolhera ali desistir, render-se. Era uma batalha que não poderia ganhar. E que voz tão bonita tinha – a Dina. E que canções tão boas compôs ou interpretou. E que figura estranha – a Dina. Se passaria hoje à segunda fase de um concurso de talentos descartáveis? Sim, passaria. Mas dir-se-ia à boca pequena que tinha uma boa voz, verdade, mas que a sua figura nunca lhe permitiria ser um ídolo. Ah sim? Pois estais redondamente enganados. Dina sempre se preocupou menos com a aparência do que com a substância. E a sua substância eram as canções que compunha, que cantava. Eram as canções que aprendera em Carregal do Sal com retornados de Angola. Era o rock que trazia em si. Era a música ligeira. Era a guitarra. Eram os poetas que lera e com quem aprendera – com Pessoa, Camões, O’Neill ou Gedeão. Era a sua vida. Dina provava, prova e provará que o importante é esta substância que foge ao rímel, às unhas de gel, aos rabos torneados, aos ventres definidos. Tudo isso e uma boa voz não são mais que um visto de turismo no mundo da canção.

Quando Kris Köpke (dos SaraBanda) e Teresa Miguel (das Doce) viram aquela moça vinda de Viseu, guitarra na mão e aspeto de rapazinho de 11 anos, tiveram a mesma reação do júri quando olharam para Susan Boyle. Mas as evidências encarregam-se de provar que as expectativas baixas têm mais validade que o seu oposto. E Dina começou a cantar. E a inverter as expectativas. Aquela mulher andrógina com aspeto de rapazinho de 11 anos provava, naquele estúdio da Polygram, que sabia tudo. Sabia cantar de qualquer maneira. Tinha carisma na voz. Era meia dose, como lhe chamava Köpke, mas não precisava nem de mais altura nem de um corte no Ayer do Variações nem de outfit da Maçã da Ana Salazar. Só precisava de si.

Ah, e de um produtor. Sim, talvez de músicos (que o rock tocado a solo é blues – e Dina era alegre). E essencialmente de um palco. E de um festival da canção, disseram-lhe. Como? Festival da Canção? Com certeza, sou da música e não sei dizer que não; nem sei se se pode dizer que não. Naquela época, o festival era como participar em 5 programas de talentos atuais de uma só enfiada. E lá foi. E lá lhe pintaram os lábios. E lá lhe puseram uma blusinha feminina e umas calças balão. Não foi, como é bem de ver, suficiente, até porque nesse ano havia José Cid para arrasar (Addio, adieu...), como haveria as Doce dois anos depois (já mereciam) quando lá regressou. E zangou-se com o festival.

Que ela, Ondina Veloso, a Miss Dinamite, não era de modas – apesar de aquele palco ser um must step. Só lá voltou dez anos depois - para ganhar, que fique claro – numa fase em que a sua carreira, se nada feito, caminhava para o ocaso, para o nicho e para a reclusão. E teve novo ânimo. Levou um Addio, adieu em forma de fruta, pronunciou abrunho pela primeira vez em letra de canção. E ganhou. Foi lá para ganhar. Já muitos anos depois de ter lançado um álbum do que era a sua essência (nunca em formato ‘fórmula’), o "Dinamite". Já muitos anos depois de ter cantado ‘Há sempre música entre nós’, ‘Pérola, Rosa, Verde, Limão, Marfim’ ou ‘Pássaro Doido’. E lá foi Ondina Veloso, cadenciada na vida como nas canções.

Até lhe ter sucedido tudo. Até lhe terem morrido amores e terem nascido outros improváveis. Até precisar de dizer ‘Vou-me embora’ para ser consagrada. Até Samuel Úria, B. Fachada, Ana Bacalhau e outros jovens de boa cepa terem alertado Portugal que Portugal estava a perder uma das suas figuras mais talentosas, ainda que improváveis. E Dina, sempre a inverter probabilidades, despediu-se serena, a rir-se de si. Com pena não de não poder cantar mais. Não com pena de não de ter sido injustiçada, não de ter sido incompreendida, não de não poder compor baladas nem rockalhadas -, mas de não poder ir à praia, de não poder aparecer ("não me tirem fotos que gostava de preservar a imagem que o público tem de mim"), de não poder partilhar com todos o muito que tinha para dizer. E tanta falta que faz esta mulher doce, esta nossa Joan Baez musculada; esta a quem Jorge Palma poderia ter resumido num verso: esta miúda é um exagero.

Cabelo loiro luz seduz-me só vê-lo
Na pele amar o mar a morena cor

Ouvir também: Guardado em Mim (1980). Concorrente ao festival RTP deste ano, é uma balada banal até ao refrão (sensivelmente a meio da canção). Sofre uma inflexão repentina e percebe-se aí a subtileza da magia de Dina.

  • 101 canções que marcaram Portugal #1: 'Desfolhada Portuguesa', por Simone de Oliveira

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    Se Portugal pudesse escolher uma só cantiga do Festival da Canção, escolheria com certeza a ‘Desfolhada’. Simone de Oliveira deporia em 1969 a sua condição de menina. Tomaria balanço para mais cinco décadas de emoção – sentida e feita sentir. Sempre a conjugar com o verso de Ary, com um fogo posto. Esta é a primeira de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas, os compositores e os intérpretes que ficaram para história da música portuguesa