Perfil

Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

Notícias

Simone de Oliveira no Teatro São Luiz, em Lisboa, em 1969

Arquivo A Capital/IP

101 canções que marcaram Portugal #1: 'Desfolhada Portuguesa', por Simone de Oliveira

Se Portugal pudesse escolher uma só cantiga do Festival da Canção, escolheria com certeza a ‘Desfolhada’. Simone de Oliveira deporia em 1969 a sua condição de menina. Tomaria balanço para mais cinco décadas de emoção – sentida e feita sentir. Sempre a conjugar com o verso de Ary, com um fogo posto. Esta é a primeira de 101 canções que marcaram Portugal, uma rubrica que homenageia as cantigas, os compositores e os intérpretes que ficaram para história da música portuguesa

101 canções que marcaram Portugal é uma rubrica que visa homenagear as cantigas, os compositores e os intérpretes que marcaram a história da música portuguesa em Portugal. Sem ordem cronológica rígida, são um retrato pessoal (com foco na petit histoire) do autor. Mais do que uma contextualização e de um inventário de factos conhecidos, é sobretudo uma associação de estórias e de muitos episódios não registados. São histórias com estórias para além da música. Às vezes o lado errado das canções. Sobretudo o lado errado das canções.

Desfolhada Portuguesa”, Simone de Oliveira
(1969)

Simone nasceu para ser Simone. Porque Portugal se poderia chamar Simone. A história de Simone começa bem antes daquele festival e da letra do Ary, mas a Simone nasce ali. Já levava muitos anos de palco, mas 1969 foi o ano de transição para Simone. Há uma Simone antes e depois de 1969. Há um Portugal antes e um Portugal depois de Simone.

Ary dos Santos apaixonou-se por aquela rapariga com excesso de peso e uma amplitude vocal fora do comum. Mas isso também tem Adele dos dias de hoje e é certo que Ary não se apaixonaria por Adéle. Apaixonou-se por Simone pela sua verticalidade. Pela sua força ciclópica. Por aquelas mãos grandes. Por aquela elegância. Por aquela determinação. Por aquele magnetismo. Ary apaixonou-se por Simone porque o país estava apaixonado por Simone. Porque não há alternativa que não seja apaixonarmo-nos por aquela mulher.

Alternativa havia para cantar a 'Desfolhada', composição musical de Nuno Nazareth Fernandes, e Simone fora apenas a quarta escolha. Fora um recurso de última hora, a uma semana do festival. Simone tinha engordado, estava a passar por uma fase torrencial na sua vida afetiva e foi-lhe difícil reter aquela letra intrincada e ritmo voraz. No dia do festival enfiou a custo um vestido que não achava que a favorecesse – e não favorecia. Estava mal cosido, desenhado à pressa e desleixado, um espelho dela mesmo – menos da sua voz. Para mais, não achava que conseguiria discorrer toda a canção com segurança.

No dia do festival, o astro da televisão em quem depositara apego e vida em comum estava na plateia. As vozes pequenas avisavam Simone que ele lá estava – o que não seria descabido não fosse toda a gente saber o segredo. Toda a gente tinha medo de que, naquela terceira fila, por aquele dandy ter tido a coragem de ali estar, de ali estar como estava, isso pudesse desconcentrar Simone a cantar aquela letra sobressaltada de Ary dos Santos.

A Simone calhou em sorte (?) ser a primeira a pisar aquele palco do São Luís. Assim, a seco. E lá desceu a rampa, nervosa, valendo-lhe pouco mais que a firmeza da sua tarimba de palco de anos. Na 3.ª fila, estava o homem que costumava ver em casa, mas com outra que não ela, o casalinho de braço dado, com a outra que partilhava aquele colo com Simone.

Há muito que Simone sabia que não lhe chegava como mulher, mas não previra a ousadia, a provocação, a falta de respeito. E se o objetivo foi o de desconcentrar Simone, diminuí-la, deveria saber que em Simone as fraquezas se tornam tónico para olhar em frente. E lá desceu as escadas, nervosa. E viu-o. E disse para si: “já ganhei esta merda”. E ganhou. Começa com versos que nada tinham a ver consigo, branda, até soltar a sua raiva e soltar uma frase que Ary, sem adivinhar, escrevera para ela naquele momento: “meu fogo posto”. E foi por ali fora a partir de “meu fogo posto”. Cantou os versos sem errar um que fosse, escreveria com a sua voz o verso mais polémico de sempre da música portuguesa: “quem faz um filho fá-lo por gosto”.

Era a melhor canção do festival RTP e seria a melhor canção do festival da Eurovisão. De lá, de Madrid, trouxe um 15.º lugar em 16. Tanto se lhe dava. Dera o seu melhor e sabia ter sido vítima da guerra colonial, da ditadura, dos presos de Caxias, do país pequeno, da ONU, das mentes esclarecidas da Europa; não de si. Dera o seu melhor. E o povo sabia. No regresso de Madrid, ia o comboio parando em todos os apeadeiros porque a gente humilde queria dar-lhe a pontuação máxima. Queriam juntar as mãos em concha e agradecer-lhe. Todos viram Simone. O país parou para a ver. E Lisboa também parou quando Simone chegou. Foi engolida por 20.000 pessoas em delírio – que cantavam de cor cada verso de Ary.

Nas semanas seguintes, nos meses seguintes, passaria a ser obrigatória na playlist do Rádio Clube e da Emissora Nacional, em onda média. Nessa fase, semanas depois, quando Simone se ouvia a si própria na rádio, já não se conseguia acompanhar. Perdera a voz. Veredicto médico: Simone nunca mais cantaria. Como assim? A Simone? A mesma da Desfolhada? Ah pois não, que não cantaria... Estava só a tomar balanço para mais cinco décadas de canções – desta vez mais roucas, mais cavas, mas mais cuidadas, com mais veneração.

A nossa Bette Davis continuou a viver a sua vida, até hoje, como naquele quarto verso da 'Desfolhada'. Com um fogo posto. Com rugas. Muitas. Com alegrias e agruras. Fazendo de cada frase banal uma citação para recordar. Porque aqueles olhos grandes à Bette Davis, aquela voz grave, aqueles gestos, aquela intensidade, são potenciados sobretudo por aquilo que viveu. E se a vida não lhe prega partidas, Simone força-as. Que vestir o robe da candura e da serenidade não deveria servir a Portugal. Mas em Simone cai-lhe frouxo como àquele vestido de 1969.

Corpo de linho
lábios de mosto
meu corpo lindo
meu fogo posto.
Eira de milho
luar de Agosto
quem faz um filho
fá-lo por gosto.

Ouvir também: Sol de Inverno (1965)