Perfil

Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

Notícias

Rolling Loud

Facebook Rolling Loud

Festas de liceu, sucesso na América, agora Portugal. Como o festival Rolling Loud se tornou um gigante do hip-hop ao vivo

Foi esta semana anunciada com estrondo a estreia do festival Rolling Loud na Europa, com uma edição de três dias marcada para julho em Portimão, recheada de grandes nomes do hip-hop. Que festival é este que agora chega ao nosso país, vindo dos Estados Unidos?

Foi esta quarta-feira anunciada a estreia em Portugal do autoproclamado "maior festival do mundo de hip-hop", Rolling Loud. O evento que nos Estados Unidos já decorreu em várias cidades, de Miami a Nova Iorque, e que atrai perto de 200 mil pessoas ao longo de três dias de cada uma das suas edições, terá a sua estreia europeia na praia da Rocha, em Portimão, nos dias 8, 9 e 10 de julho contando com A$ap Rocky, Future e Wiz Khalifa como cabeças de um cartaz que lista seis dezenas de artistas, incluindo os portugueses Lon3r Johny, Sippinpurp e Yuzi (todos ligados à Think Music de ProfJam) e ainda Minguito e Piruka.

O anúncio foi recebido com estrondo nas redes sociais depois de algum tempo de circulação de rumores: o primeiro tweet com que a organização americana formalizou o anúncio foi retweetado cerca de 15 mil vezes, levando a uma barragem de outros tweets, alimentando assim a agitação na plataforma em que o Rolling Loud melhor comunica: “Nem nos deixam fazer o espetáculo na praia de Miami. PORTUGAL, MAL PODEMOS ESPERAR”, “Portugal, isto é apenas o começo de algo maravilhoso” ou até “Vamos lá família @cristiano”, num ostensivo convite a Cristiano Ronaldo, foram algumas das comunicações promocionais feitas pela organização. Não demorou a que Rolling Loud chegasse ao topo de trends do twitter em Portugal, com milhares de posts de utilizadores a propagarem a notícia.

Entretanto, os bilhetes para o evento que marca a estreia do Rolling Loud na Europa começam sexta-feira a ser vendidos, mas o processo de reservas já teve início. O bilhete mais simples, de entrada geral, está à venda no site da Festicket por €179,37. O passe geral pode ser também adquirido em três prestações, contudo para essa modalidade o preço mais barato ascende a €210,47. Os passes VIP mais económicos (incluem entrada prioritária, uma área VIP dedicada e bar privado, mas não "as bebidas e as mesas privadas") custam €299,47. Através do plano de pagamento em prestações, a despesa total dos passes VIP chega aos €330.74. No mesmo site, há também uma oferta muito alargada de entradas que incluem alojamento ou hotéis que vão de uma classificação com duas estrelas até alguns mais sofisticados. Nesses casos, os preços variam de €349 até €913 por pessoa.

A notícia obteve eco na imprensa internacional com publicações como o New Musical Express, em Inglaterra, ou a Billboard, nos Estados Unidos, a comunicarem a chegada à Europa do Rolling Loud. Já em 2018 tinha manifestado a intenção de expandir a marca com eventos fora dos Estados Unidos: “A China para já está em pausa até que eles decidam quanto hip-hop estão dispostos a aceitar”, explicava um dos organizadores, Tariq Cherif, à importante publicação norte-americana All Hip Hop, em finais de 2018. “Mas estamos a olhar para Hong Kong e vamos para a Austrália [confirmou-se em 2019] e Europa. Estamos a falar com uma série de territórios e mesmo que essas edições não aconteçam no ano que vem, poderão certamente ter lugar no ano seguinte. Depende do que o futuro nos reserva”.

A operação europeia conta com a Event Horizon Entertainment, sediada em Londres, na produção, contando a organização com parceiros específicos para cada área, provenientes sobretudo do Reino Unido: a Festicket para a bilhética, a Mustard Media para as redes sociais e meios de comunicação e a Catalyst no 'management' de talento. Localmente, a portuguesa MOT, responsável pelo RFM Somnii e também ligada ao Afro Nation (festival que teve a sua primeira edição em 2019 e decorre em Portimão uma semana depois do Rolling Loud) assegura uma parte da produção.

O Rolling Loud estreou-se apenas em 2015, mas escalar até à dimensão de venda de 60 mil bilhetes por dia em eventos de três dias apenas com artistas de hip-hop permitiu a Tariq Cherif e ao seu sócio Matt Zingler rapidamente reclamarem o título de "maior evento de hip-hop do mundo". Com edições realizadas em Miami, Los Angeles, Oakland ou Nova Iorque, o Rolling Loud estabeleceu-se com estrondo na cena musical americana. Depois de, no liceu, estarem à frente da produção de festas para estudantes, os dois amigos de infância começaram em 2010 por promover pequenas festas em clubes com capacidade para algumas centenas de pessoas. Matt Zingler, de 32 anos, e Tariq Cherif, de 30, afirmaram à Complex que a intenção nunca foi ‘vamos fazer um festival’, mas antes algo como ‘vamos organizar a nossa maior festa até agora" - falavam do triunfo em Miami, em 2018, que firmou o peso da marca e que deu sustentação às suas ambições de expansão global. Cherif é o sócio mais preocupado com a programação, enquanto Zingler, "tatuado da cabeça aos pés", é o dono da visão, o rebelde que personifica o público a que o evento se dirige.

Matt Zingler e Tariq Cherif em 2018

Matt Zingler e Tariq Cherif em 2018

Getty Images

Em entrevistas, o duo tem discutido a sua política de programação, e defende-se da acusação de falta de mulheres no cartaz, alegando que se limitam a contratar os nomes que mais furor causam em playlists de referência como a Rap Caviar, que graças aos mais de 12 milhões de seguidores no Spotify tem a possibilidade de ditar quem tem e quem não tem lugar nos grandes cartazes. “Se houver uma mulher a fazer furor nas playlists ou um rapper mais lírico ou mais trap ou o que seja, esse é o que vamos querer programar”, explicou Cherif à All Hip Hop.

Nos Estados Unidos, o Rolling Loud tem praticado a política de ter acesso aberto a público de todas as idades, decisão estratégica que lhes permite também apresentar no cartaz artistas que são menores de idade. Em Portugal, como sublinhado nas comunicações da organização no twitter, no entanto, o Rolling Loud exige aos seus espectadores a idade mínima de 18 anos, uma cautela que terá, certamente, que ver com questões de segurança. Aliás, a segurança tem sido uma preocupação constante da organização. O ano passado, a Rolling Stone noticiou que exactamente por causa dessas preocupações cinco rappers foram subtraídos ao cartaz da edição de Nova Iorque por indicações da polícia local. Os artistas Pop Smoke, Casanova, Don Q, Sheff G e 22gz foram apontados numa carta do chefe de polícia Martin Morales dirigida à organização: “Os artistas mencionados foram associados a recentes casos de violência por toda a cidade. O Departamento de Polícia da Cidade de Nova Iorque acredita que se estes artistas se apresentarem o risco de violência será mais elevado”. A decisão gerou polémica, com agentes dos artistas a acusarem as autoridades de injusta perseguição, com a comunicação a ser feita estrategicamente numa sexta feira ao fim do dia, impedindo os advogados dos artistas de interpelarem os tribunais de forma a obterem carta verde para as apresentações. À Rolling Stone, Tariq Cherif confessou: “Se queremos que o evento volte a ter lugar em Nova Iorque temos mesmo que obedecer à directiva da polícia”. O artista Pop Smoke, um dos que foi retirado do cartaz de Nova Iorque, consta do cartaz da edição de Portimão.