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Capicua

Rita Carmo

As visões “Madrepérola” de Capicua. Uma conversa intensa sobre libertação, gentrificação, feminismo, ecologia e redes sociais

Ao terceiro álbum, Capicua fala de si e daquilo que a apoquenta. Numa longa e intensa conversa, a rapper do Porto esmiúça “Madrepérola” e as temáticas que a atravessam, da ecologia ao feminismo

Rita Carmo

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Fotojornalista

Desde que se estreou, em 2012, com um álbum homónimo, Capicua tornou-se numa das vozes mais fortes do rap nacional. E uma das poucas a fazer-se ouvir do lado feminino do espectro. Ao terceiro disco, "Madrepérola", acabado de editar, a artista pegou nas experiências paralelas que teve nos últimos anos - no projeto "Mão Verde", com Pedro Geraldes, e em Língua Franca, que partilhou com Valete, Emicida e Rael - e construiu uma imaculada coleção de canções, solares e irónicas em igual medida, que tanto falam de si, e da sua nova condição de mãe, como do cansaço das redes sociais, dos perigos da gentrificação na sua cidade, o Porto, das ameaças ambientais e da "liga à parte" que existe para as mulheres no hip-hop. Numa conversa longa e sumarenta com a BLITZ, a rapper portuense esmiuçou estas e outras temáticas que continuam a fazer dela uma "Mafaldinha de megafone na mão".

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Foram seis anos sem álbum novo, mas com muito trabalho pelo meio, com Língua Franca e Mão Verde… A Ana que temos hoje à nossa frente é uma Capicua muito diferente?
Acho que não é muito diferente no essencial, mas no que tem a ver com o trabalho é uma Capicua mais calejada e com mais experiência. E, depois, nos últimos meses, é uma Capicua bastante diferente, talvez por ter sido mãe e isso mudar a parte mais privada da Capicua. Portanto, no essencial, sou a mesma pessoa, a mesma otimista, a mesma romântica, a mesma Mafaldinha de megafone na mão, mas tenho mais experiência e agora sou mamã e isso faz com que as coisas sejam relativizadas, digamos assim.

A sofreguidão na voz e nas palavras em ‘Passiflora’, especialmente, transporta consigo uma sensação de grande liberdade. Sentiu necessidade de ser ainda mais imperativa nas novas canções?
Sempre tentei cultivar uma espontaneidade que, culturalmente, é pouco estimulada nas mulheres. Quase por uma questão de subversão sempre fiz questão de ser eu própria, de ser o mais livre e com menos filtros possível. Mas, no meu trabalho, com o tempo, fui-me desfazendo de alguns filtros e de algumas reservas porque… Primeiro, hoje sinto-me mais confiante e com menos coisas a provar e isso dá-me uma certa liberdade. Já me estou um bocado a marimbar para o que as pessoas possam pensar. E, depois, também acho que o facto de ter trabalhado com o Emicida e o Rael [nos Língua Franca] e a minha experiência de tocar com eles no Brasil, tornou a minha escrita menos cerebral. Eles são muito intuitivos na forma de criar e fui aprender com eles essa forma menos racional e mais livre de escrever. Depois, acho que o mundo está demasiado falso, a música está demasiado plástica e as redes sociais tornam as pessoas demasiado condicionadas… Se a minha música não for o oposto disso tudo estou a falhar, de alguma forma. Então, tentei ser o mais real e o mais crua possível. Sobretudo nesse tema, ‘Passiflora’, que é uma espécie de fado, no verdadeiro sentido da palavra: as palavras são cuspidas com emoção, há um crescendo, é uma música visceral e emocional, em que falo de coisas que me incomodam. Achei que tinha de ser o mais intensa e frontal possível. Estava grávida quando o escrevi e gravei, aliás, estava muito grávida, e acho que isso me deixou um bocadinho mais emocional e hormonal, se quiseres, então foi o que saiu. Tenho muito orgulho nessa frontalidade.

Na verdade, tem dois bebés nas mãos…
Foram dois partos no mesmo ano… Foi difícil (risos). Depois de ter o bebé, decidi gravar mais uma música, o ‘Último Mergulho’, que tem a Lena d’Água, e regravar algumas músicas porque achei que não estavam com a emoção certa. E também senti que quando gravei tinha a voz diferente, menos fôlego, porque o diafragma estava subido. Nalgumas músicas isso resultou mas noutras achei que não me estava a identificar. A minha voz ficou menos grave, não tinha energia suficiente, se calhar, não sei. Estava com outro espírito. E, portanto, decidi regravar. Houve um refrão que teve de ser refeito, o do ‘Quadrado Perfeito’, com o Ricardo Ribeiro. O refrão da Mallu também ainda não tinha sido gravado, houve assim algumas coisas que fui fechando depois. Esse processo, depois de ter o bebé, acabou por mudar bastante o disco… Estruturas de músicas que alterei, instrumentos que regravámos, arranjos que ficaram diferentes, várias coisas. Já para não falar da mistura, da masterização, dessas partes mais técnicas.

Camané, Catarina Salinas, Pedro Lamares, Karol Conka, Mallu Magalhães, Ricardo Ribeiro, Lena d’Água, Emicida, Rael e Rincon Sapiência. Em que fase da construção de “Madrepérola” percebeu que não seria uma aventura solitária?
Quando me apercebi que queria fazer um disco mais solar do que é habitual. Tenho um processo muito solitário de criar, de pensar e escrever canções, apesar de depois depender dos produtores e do meu produtor, o D-One, na parte dos arranjos e da pós-produção. Não mostro as coisas que estou a fazer durante meses. Estou ali a viver aquilo sozinha. Mas quando me apercebi que queria trabalhar músicas mais dançáveis, mais solares, mais cantadas, também, e mais em formato canção percebi que, como não canto, infelizmente não nasci com esse superpoder, tinha de recorrer a pessoas que pudessem acrescentar essa musicalidade às canções. E fui, muito naturalmente, encontrando essas pessoas, à medida que a escrita ia fluindo e eu percebia “aqui falta a Catarina Salinas, tem que ser. Aqui falta o Ricardo Ribeiro e aquela voz grave. Aqui falta a Karol Conka”. Fui encontrando as pessoas à medida que ia escrevendo e tive a sorte de elas aceitarem e de conseguir gravar com elas. Só aí me apercebi que era um disco com muitos convidados, muito partilhado. Parece uma contradição, mas continua a ser muito pessoal, no sentido em que as músicas nasceram só comigo, na minha casa. Esses encontros foram sendo acrescentados posteriormente. No fim, percebi que tinha imensa gente no disco, muitos brasileiros e muitos portugueses, de músicas diferentes, de vozes e de estilos diferentes… Até foi uma surpresa para mim, porque não pensei “ah, neste disco quero ter muitas participações”. Tinha feito aquilo tudo sozinha e depois abri ao mundo e às outras vozes. No final, percebi que fazia todo o sentido enquanto trabalho, ainda assim, muito autoral. Estou contente, porque tive o privilégio de trabalhar com pessoas muito talentosas.

Há pouca visibilidade de vozes femininas no hip-hop nacional, a tal “liga à parte para o rap de raparigas” a que se refere em ‘Cartas a Jovens Poetas’, mas também do lado da produção…
É verdade, é verdade. A Da Chick agora tem um disco produzido por ela e acho que a tendência é para haver cada vez mais. De facto, eu tenho dificuldade em encontrar produtores e instrumentistas habituados a tocar hip-hop que sejam mulheres. E tento equilibrar a coisa de outra forma. Ando a tornar a minha equipa de estrada paritária. Ainda não consegui chegar aos 50/50, mas tenho uma técnica de luzes, por exemplo, já tive várias vezes uma técnica de som, tenho duas cantoras a acompanhar-me… A minha agente é uma mulher, a condutora da carrinha também é uma mulher. Vou gerindo a equipa. Mas do ponto de vista musical, tenho colaborado mais com homens. É uma coisa que acontece desde o princípio da minha carreira, porque no hip-hop, de facto, eles são a esmagadora maioria. Mas também acontece uma outra coisa… É habitual eu começar a trabalhar com as pessoas e depois cria-se uma ligação e há uma recorrência. Estou a lembrar-me do Ride, do Stereossauro, com quem já trabalhei mil vezes e com quem adoro trabalhar. Essas parcerias também vão-se repetindo e depois é mais difícil fazer amigos novos, digamos assim. Não quer dizer que não haja. Em cada disco, tento enquadrar novas pessoas e novos contributos. Mas, de facto, com o tempo é inevitável que acabem por aparecer mais mulheres a produzir. Acho que isso está cada vez mais perto. Na música eletrónica, tens a Nídia, sei lá… Começas a ter, não no hip-hop, mas noutros campos da música eletrónica muitas mulheres a marcar pontos. Somos poucas, depois começamos a ser cada vez mais, aparecem muitas sazonalmente que depois acabam por não construir uma carreira, mas acho que é uma questão de proporção. Quanto mais começarem, mais vão chegar à longevidade da carreira daqui a dez anos. E pronto, estou a torcer para isso.

Porque sente que isso acontece? Há resistência da parte do público, por parte da indústria?
São muitos fatores. Tem a ver, primeiro, com falta de referência. Se não vires ninguém a fazer vais achar que não é possível. Isso acontece bastante em vários exemplos da vida, as faltas de referência serem pelo menos uma falta de estímulo. Não um impedimento, mas uma falta de estímulo. Depois, acho que tem a ver também com a questão do estímulo cultural para as mulheres desenvolverem os seus talentos. Nós não somos socializadas para priorizar os nossos hobbies, os nossos talentos, as nossas vocações e somos mais estimuladas a priorizar outras coisas. E vais ver isso nos adolescentes e é uma coisa que me entristece bastante: vês os rapazes, que jogam à bola, outros têm bandas de garagem, outros andam de skate e a esmagadora maioria das miúdas tem muito poucos hobbies e estão à espera que os rapazes saiam da sala de ensaios para ver se têm cinco minutos de atenção. Isto é uma coisa que me entristece, desde a minha adolescência que observo isso e não acho que esteja propriamente a mudar. Acho que as miúdas que têm hobby e, sei lá, bandas de garagem ou fazem parte de associações são sempre uma minoria. Isso não é culpa delas, não é falta de interesse delas, é uma questão cultural que tem a ver com o facto de estarem mais concentradas a tentar ter a atenção dos rapazes, cultivar o aspeto físico, ter interesse por coisas mais do espaço doméstico e menos do espaço público, não há aquela coisa de ir conquistar o mundo e a atenção das pessoas não pelo que parecemos mas pelo que somos e pelos nossos talentos. Apesar de haver tendência para evoluir, acontece muito lentamente. Mesmo que haja uma miúda que queira fazer isso, depois olha à volta e não existe, não vê referências, não sabe a quem se há de dirigir para pedir uma orientação. Depois, os rapazes também, dentro do hip-hop, nomeadamente, mas também na música eletrónica no geral, fazem uma espécie de clube de rapazes.

E no rock…
E no rock, muitas vezes, também. Muitas vezes nem é um machismo consciente… São gajos sem amigas, como eu digo numa das músicas do disco. São gajos que não têm amigas, não têm hábito de comunicar com miúdas a não ser a namorada ou a irmã. Não numa dinâmica mais de igual para igual. Acho que isto, tudo acumulado, faz com que o meio seja pouco convidativo, não haja referências e depois, culturalmente, também não seja muito estimulado a miúda ficar a tarde inteira no computador a fazer beats, a tocar um instrumento ou a ir ensaiar com a banda. É uma questão demasiado multifatorial para definirmos uma coisa só.

“Se fosses mais bonita, mais sexy, na moda ou um homem, mais jovem, mais dentro da norma… Terias mais alcance, mais chance na indústria”, novamente de ‘Passiflora’. Sente alguma evolução positiva nesse discurso, desde que começou a fazer música?
Não, acho que não. O público tem muito mais dificuldade em identificar-se com uma mulher que faz rap, porque o público é muito juvenil e maioritariamente masculino, eu diria. Apesar de isso estar a mudar, ao longo do tempo identificou-se mais com um homem a fazer rap. Os códigos identitários, o estilo, a forma de estar, a forma de falar, a forma de vestir, o arquétipo é muito marcadamente masculino, muito juvenil. Se vais ver os rappers que se mantêm no ativo até aos 40, 45 anos, continuam a vestir-se como se vestiam com 16. Se calhar umas calças um bocadinho menos largas porque entretanto as modas mudam, mas no geral têm o mesmo estilo de vida, o mesmo grupo de amigos, a mesma forma de vestir, a mesma forma de falar, o mesmo calão. E o público identifica-se com isso. O facto de ser mulher dificulta um bocado. No meu caso, o facto de não cumprir com maior parte desses critérios e arquétipos acho que ainda me torna mais distante daquilo que é identificado como rap. Acho que o público estranha um bocadinho, no geral, o facto de eu ter feito uma carreira que, de certa forma, muito propositadamente, chegou a públicos mais diversos, fora do nicho. Isso é uma coisa de que me orgulho, mas faz com que o público mais hip-hop, mais juvenil e mais da tribo, muitas vezes perca essa identificação ainda mais. Acaba por não me reconhecer nem em mim nem no meu público aquilo que é associado à ideia de rapper. Isso faz com que às vezes me sinta um bocadinho órfã. Parece que me excluíram da tribo unilateralmente quando aquilo que eu faço é hip-hop. E nem sequer é hip-hop assim muito misturado, é hip-hop clássico. Nesse sentido, se fosse um homem, mais jovem, mais dentro da norma, teria mais hipóteses de criar essa identificação. E se eu fosse um bocadinho menos alternativa e um bocadinho menos sofisticada na minha escrita, se eu simplificasse e azeiteirasse, então ainda mais. Mas isso já são outros critérios de expansão de público.

‘Circunvalação’ é uma carta de amor ao Porto… O facto de, por razões profissionais ou pessoais, ter de vir mais vezes a Lisboa fez com que se apaixonasse ainda mais pela sua cidade?
Não, essa canção teve a ver mais com este boom turístico do Porto “best european destination” gourmet cenas 2019. Essa coisa de vivermos numa cidade, aliás, como acontece em Lisboa também, em que há cada vez menos espaço para a autenticidade e parece que, de repente, todos os restaurantes que abriram na semana passada dizem que estão ali há 200 anos. Metade das ruas… a Rua de Santa Catarina é da Inditex, começam a fechar cafés para abrir Starbucks e tu começas a perceber que a tua cidade, que tinha uma cena tão especial, tão castiça e tão particular, está a ficar igual a todas as outras cidades europeias e que para perceberes o que é o Porto dos portuenses tens de ir cada vez mais para a franja da cidade, para a Circunvalação, que é a estrada que contorna o Porto pelo lado que não é o rio. Escolhi falar da cidade do Porto pela perspetiva da Circunvalação, da franja, porque queria falar sobre essa ideia de gentrificação, de estarmos a perder autenticidade, celebrando o Porto castiço. O Porto tem uma coisa de que gosto muito: é tão monumental e bonito e gourmet como é tosco, fechado, sujo e inóspito. É simultaneamente belo e fica bem nas fotografias como…

É luxo e é lixo.
É luxo e é lixo, ao mesmo tempo. Essa característica é que torna a cidade tão engraçada. Estamos a assistir a uma espécie de limpeza, que começou no centro histórico mas agora vai expandindo. Tudo, de repente, é limpo e minimalista, até o que parece castiço é falso… O bacalhau à porta da mercearia já não é real, é de plástico… Tudo se torna limpo e estandardizado. Há um luto que acho que muitos portuenses estão a viver. Claro que há coisas boas e criam-se empregos e recuperam-se as casas que estavam a cair e, de facto, contraria-se um bocadinho a desertificação de algumas zonas, mas o preço que estamos a pagar e que vamos pagar a curto-prazo eu já o vi em Barcelona quando vivi lá. E não é bonito. Vamos viver cada vez para mais longe, vamos reconhecer cada vez menos a nossa cidade. Não com uma espécie de saudosismo de quando estava em crise ou quando estava a cair, mas de quando havia mercearias, tascas, roupa a secar nas janelas. Agora, deixa de haver isso. Passa a ser um cenário. Essa música, a ‘Circunvalação’ pretende celebrar o Porto dos portuenses, que também está aberto aos turistas e aos estrangeiros que queiram vir, não exclui ninguém, mas que é esse Porto real. Não é o Porto do cartão postal, é o Porto do dia-a-dia. Queria fazer um álbum solar, mas sem deixar de falar de coisas sérias e decidi fazer essa música, que acho que os portuenses vão achar piada. Os outros não sei vão perceber todas as referências e piadas, mas acho que vão entender a ideia geral. Quando todas as cidades da Europa forem iguais e depois todas as cidades do mundo passarem a ser iguais já não vai valer a pena fazer turismo porque é tudo igual. E a piada do turismo é essa, é ires a uma cidade e veres lojas que não existem em mais lado nenhum, restaurantes que não existem em mais lado nenhum, as pessoas da cidade nas praças, nas varandas. Até porque o Porto, especificamente, é um caso paradigmático. A UNESCO deu-lhe a classificação de Património Mundial, ao centro histórico do Porto, não porque tem uma grande monumentalidade, não pelos edifícios serem especialmente interessantes, mas porque é um conjunto vivido. Está lá escrito isso, no documento. As pessoas vivem lá, têm a roupa a secar nas janelas. É essa a diferença. Quando aquilo passar a ser um cenário, deixa de ser o Porto e isso é uma coisa que me custa especialmente. As pessoas acham que os portuenses são muito orgulhosos da sua cidade, que somos bairristas… Somos muito orgulhosos da cidade e sempre defendemos o Porto, a história prova que os portuenses deram sempre o corpo ao manifesto e defenderam o Porto em guerras, em cercos, em tudo, mas acho que o Porto não está a defender os portuenses hoje em dia. Sei que o poder público não tem todos os poderes de controlar a especulação imobiliária, mas pode controlar as licenças, pegar no dinheiro do turismo e aplicar no bem-estar das pessoas, na recolha do lixo, nos transportes públicos, que ficam sobrecarregados, tentar manter as rendas a preços controlados nas lojas antigas, criar habitação para jovens que queiram manter-se na cidade, o que é cada vez mais difícil. Há mil coisas que podem ser feitas para controlar a voragem do turismo, que come tudo à frente. É bom para o PIB, mas é péssimo, a curto-prazo, porque é insustentável. E nós vamos pagar o preço rapidamente. É por isso que fiz essa canção.

‘Gaudí’ é uma espécie de recado para si própria? Da frustração e aborrecimento pode surgir arte?
Ainda é mais “note to self” do que isso, porque essa música surgiu num momento em que estava mesmo a bater no fundo de frustração, cansaço… Tinha uma dor nas costas há meses, já tinha levado uma injeção e tudo para conseguir viver, não conseguia dormir com as dores e todo o cansaço e tensão muscular. Foi uma altura em que tive alguns problemas também em termos profissionais, as coisas não estavam a correr bem e tive alguns contratempos… Estava em burnout absoluto, e disse essa frase: “tenho que colar esses caquinhos e fazer um Gaudí”. Saiu-me essa frase, tinha de fazer uma música com ela. Espero que seja um sucesso, no sentido em que chegue às pessoas, porque aí vai ter valido a pena. Acho que vivemos num momento especialmente cansativo da história da humanidade. Há muitas coisas boas, mas não há um minuto de silêncio. Não há. É tudo demasiado… está tudo assoberbado de informação, de estímulos, de conetividade. Tu nunca sais do trabalho, porque o trabalho está sempre no telemóvel a piscar, o email, a mensagem, o telefonema. Nunca há um dia totalmente off. Se estiveres a par do que se passa, se estiveres informado, tens de estar, ao minuto, sempre a receber informação. É demasiado intenso e as pessoas ficam cansadas. Só que nem se apercebem, vão acumulado, acumulando, o exagero, o ruído, o cansaço, a saturação, e depois há um ponto em que, de facto, explodem. E essa música é um bocadinho sobre isso. Como é que nós, num mundo tão exagerado, tão cansativo, e tão rápido, conseguimos ter a capacidade de olhar para nós próprios, sentirmo-nos bem connosco próprios, dentro da nossa imperfeição, e fazer o melhor possível. Porque a exigência é tão grande, de estar a par, de fazer o melhor, de ser competitivo, de estar online, de saber o que se passa, o medo de ficar por fora, tudo isso nos leva para um estado de espírito, para um mindset, como se diz, que é demasiado exigente para aquilo que conseguimos humanamente suportar. A música fala sobre isso. Estamos todos os dias tão cansados, tão saturados, tão assoberbados, tão fartos, que… “Epá, bora pegar nos nossos caquinhos e fazer o melhor possível”. A própria metáfora do disco, que se chama “Madrepérola”, de fazermos dos nossos incómodos as nossas pérolas. Há um grão de areia que nos incomoda e nós vamos ter de tornar isso numa coisa boa. Essa música foi mesmo isso. Foi tornar aquele dia de m*rda numa frase boa para fazer uma música.

Num momento em que falamos dos terríveis incêndios na Austrália e na Amazónia, de que forma aborda essa questão em ‘Todo o Chão Quer Ser Floresta’?
É um tema otimista dentro do pessimismo de não haver solução para o nosso problema, praticamente. Ou seja, perante a iminência da destruição da nossa espécie, porque o planeta vai continuar aqui, nós é que não, traço de forma otimista um cenário pós-apocalíptico, que normalmente é traçado como uma coisa terrível, dizendo: “depois de nós nos irmos embora, de sermos extintos, por nossa própria culpa, todo o chão vai voltar a ser floresta”. Primeiro, as ervas daninhas vão começar a rasgar o alcatrão, as heras vão trepar as paredes e começar a deitá-las abaixo. Depois, as ervas vão crescer e transformar-se em arbustos, os arbustos vão transformar-se em árvores, as árvores vão atrair chuva, a chuva vai jorrar e tudo voltará a ser verde. A natureza tem uma capacidade de regeneração que faz com que cada pedaço de chão que nós tentarmos destruir inevitavelmente se tornará floresta quando nós nos formos. Essa é uma ideia de esperança dentro de um cenário desesperançoso. E, de facto, há muitas coisas que podemos fazer ainda para tentar travar ou pelo menos minimizar os estragos. A ciência já evoluiu bastante, temos capacidade de regenerar os ecossistemas de uma forma mais veloz do que ela se regeneraria a si própria… Se quiséssemos fazer um corte radical, uma rutura, com o nosso estilo de vida, mas não há essa vontade. Não acredito que haja uma solução para isto dentro do sistema da sociedade capitalista, que prevê um crescimento permanente. Isto não é viável com um crescimento permanente, no sentido em que um crescimento permanente é incompatível com a sustentabilidade. É impossível estarmos sempre a retirar recursos sem que o impacto seja negativo. Se estamos sempre a tirar, tirar, tirar, há de chegar um dia que vai deixar de haver recursos. E, nesse sentido, acho que não estamos preparados para as mudanças que se exigem. Apesar de achar que seria possível, não há vontade para isso. E dentro dessa ideia pessimista, criei uma ideia otimista do pós-apocalipse. Nós vamos embora e a terra vai voltar a ser verde porque todo o chão quer ser floresta. Acredito nisso. Acho mesmo que a natureza tem essa capacidade de se regenerar e de voltar a tornar verde aquilo que nós quisemos tornar deserto.

O que pensa do discurso da Greta Thunberg?
Não acho que seja a salvação da lavoura nem que seja irrelevante. É importante no sentido em que todas as gerações precisam de símbolos, ícones e pessoas que nos inspirem a fazer mudanças profundas na nossa forma de viver. Todas as gerações tiveram esses ícones e eles são importantes, mais por uma questão de motivação e de exemplo e de referência. Para as gerações mais jovens, a Greta tem sido uma forte força de mobilização e isso é essencial, mas acho que não é só na nossa iconografia coletiva que isso muda, tem que mudar profundamente. A forma como organizamos a produção daquilo que comemos, a forma como nos movemos, a forma como organizamos o nosso território, a forma como as nossas empresas se comportam a nível de organização, do impacto dos resíduos que criam e da forma como perseguem o lucro acima de todas as outras coisas. São muitos fatores que não têm só a ver com essas referências. Agora, claro que acho que a Greta tem sido muito corajosa e vê-se pela resistência anti-Greta que ela tem mudado muitos comportamentos e tem sido inspiradora para muitas pessoas. Se fosse assim tão inócua, não havia tanta resistência.

Fala das redes sociais em ‘O Quadrado Perfeito’. Elas desajudam mais do que ajudam, neste momento, em termos de comunicação?
Ai, pelo menos cansam. Não sei. Por um lado ajudam porque há um veículo entre as pessoas e o público, o que não acontecia no passado. Dependíamos da imprensa, da rádio, de outros meios para chegar às pessoas, hoje em dia podemos informar o nosso público de tudo no mesmo segundo. Esteja ele na nossa cidade ou noutro país do mundo. Por outro lado, há tanto ruído, tanta gente, tanta informação, tanta foto, tanta notícia, tanta coisa, que as pessoas começam a ficar um bocadinho insensíveis e há uma voragem de tal forma rápida que as coisas se diluem e misturam-se umas coisas ou outras. E, de repente, uma pessoa que tem um disco ou está a promover um livro ou que fez uma coisa qualquer importante pelo mundo, que quer marcar uma manifestação, por exemplo, está em competição pelos cinco minutos de atenção com a blogger e a sua tosta de abacate. É a democracia da Internet, não é? Mas de facto, às vezes, é um bocadinho ingrato porque parece que estás ali a dizer “olhem para mim! Olhem para mim! Eu estou aqui”. E depois as pessoas, nas redes sociais, estão mais interessadas em saber como é o teu cão, como é o teu pijama, a tua casa ou a tua criança do que propriamente em que disco é que fizeste. E isso é uma coisa perversa. Parece que tens de vender a tua privacidade para ganhar a atenção das pessoas para o teu disco. Há pessoas que querem pagar esse preço e outras que não querem. Isso subverte um bocadinho a lógica da ideia de promover arte. Não é arte que se promove, é o artista. E de repente já nem é o artista, é a pessoa real por trás do artista. Estamos cada vez mais a destruir as barreiras da privacidade e misturamos tudo no mesmo feed: tens a tua prima de biquíni, a tua blogger favorita, a tua banda favorita e o Marcelo Rebelo de Sousa tudo de seguida. E é tudo a mesma coisa. E, de facto, é, porque são tudo pessoas que estão no mundo, na Internet, mas depois parece que a selfie da blogger tem o mesmo valor do livro do Saramago. E não é assim. Um livro demora muito tempo a fazer e uma selfie não… Quer dizer, se calhar também demora (risos). Nada contra as bloggers e as influenciadoras e as selfies, que eu também as faço, é raro mas também as faço, isto é para dizer que se misturam as coisas todas e as pessoas estão ali a pedir atenção… Para mim, é um bocado incómodo estar nessa situação e sinto que não é só para mim. Muitos músicos usam as redes sociais quase como quem toma uma pastilha para o colesterol: “tem que ser, pronto”, com água, a ver se não custa muito. Tem que ser. E eu, no ‘Quadrado Perfeito’, faço uma crítica das redes sociais para depois no fim dizer “mas como tem que ser, não se esqueçam de fazer like no post”. É aquela ironia que eu transportei para este disco para o tornar mais solar, mas que não deixa de ser mordaz. Dizer: toda a gente critica isso mas toda a gente se rende. Muito raras exceções… Sei lá, o Ricardo Araújo Pereira não tem redes sociais, mas muito poucas pessoas podem fazer o que o Ricardo Araújo Pereira faz, porque é o Ricardo Araújo Pereira. Muito poucas pessoas se podem dar ao luxo de dizer “não tenho Facebook, não tenho Instagram, não tenho Twitter”, porque têm de promover o seu trabalho. E hoje em dia não chega a imprensa, não chega a rádio. Até porque a imprensa e a rádio estão a correr atrás do que se passa na Internet.

O que quer da música hoje?
Para já, queria que me desse identificação, que me espelhasse nela. Que fosse o mais fiel possível da pessoa que sou agora e do momento que estou a viver. E, depois, queria que ela espelhasse a minha cultura, também, perceber que eu sou essa amante da lusofonia, que tanto gosto do fado como gosto das misturas que a língua portuguesa faz com o Brasil, que gosto de misturar a poesia que leio na minha música. Ou seja, que espelhasse todas as coisas que me inspiram enquanto artista. E gostava ainda que ela mostrasse os meus valores, as minhas causas, sempre fiz isso, as minhas preocupações, aquilo que acho que é importante enquanto estímulo em cada momento e, um bocadinho como digo no fim de ‘Mátria’: “eu faço parte da tribo mas cruzo-me com outros cantos” e “sou um indivíduo e vivo com outros tantos”. Se isso é ser diverso, eu sinto que para ser do verso tenho que ser livre, o mais possível, para me misturar e para falar sobre aquilo em que acredito. E depois digo “e quando tudo é adverso, eu faço o verso para que equilibre”, ou seja, quanto mais o mundo estiver pesado, mais eu vou fazer o inverso e tentar trazer a luz, a alegria, para equilibrar as coisas. É um bocadinho isso que eu quero da minha música, para já. Na próxima aventura, se houver outro disco, pode ser outro exercício, outra vontade.

A BLITZ agradece ao Pavilhão Chinês pela cedência do espaço para a realização da entrevista com a Capicua.