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Lisboa, Coliseu dos Recreios, 12 de janeiro de 2020. Madonna com a Orquestra Batukadeiras, de Cabo Verde, no primeiro concerto europeu da digressão "Madame X"

Stufish

Como Madonna dinamitou o espectáculo da super estrela pop

De ora em diante será muito difícil aos maiores astros da música popular voltarem, incólumes, aos concertos de estádio e às digressões em mega arenas. Madonna volta este sábado ao Coliseu de Lisboa

A 17 de setembro do ano passado, quando Madonna deu início à digressão “Madame X”, poucos imaginariam que estaria em curso a apresentação de um dos mais brilhantes espetáculos do ano. Se nos cingirmos ao universo das estrelas da música popular, não é impróprio falar de uma revolução no show business: o modelo de negócio dos grandes concertos para enormes multidões pode estar a ser posto em causa de forma irreversível. Desde então, a personagem “Madame X” entrou em cena 49 vezes, em seis cidades dos Estados Unidos da América – Nova Iorque, Chicago, São Francisco, Las Vegas, Los Angeles, Filadélfia e Miami. Sete apresentações foram canceladas por motivos de saúde do actor principal, a meças com uma lesão num pé. Na Europa, só três cidades foram contempladas com esta tournée: Londres, Paris e Lisboa, num total de 37 espectáculos. Em Lisboa já aconteceram três récitas, estando agendadas mais cinco. Neste caso, proximidade não quer apenas dizer que esta história começou em Lisboa.

Madonna em Lisboa, janeiro de 2020. Vista do palco e da sala do Coliseu dos Recreios durante o espectáculo

Madonna em Lisboa, janeiro de 2020. Vista do palco e da sala do Coliseu dos Recreios durante o espectáculo

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O pequeno número de espectáculos desta digressão, se comparado com as grandes digressões mundiais levadas a cabo até agora por nomes como os U2, Rolling Stones, Ed Sheeran ou a própria Madonna, só não é gritante porque a dimensão das salas é incrivelmente inferior. Desde 1985, quando encetou a sua primeira digressão, a “Virgin Tour”, que as salas não eram tão acanhadas ou intimistas. Na verdade, estes concertos acontecem em espaços que têm uma lotação que é 30 vezes mais pequena que a de um estádio. No Coliseu, em cada noite há 2700 lugares sentados, muito menos do que os seus primeiros concertos em Portugal, no Pavilhão Atlântico (17 mil), no Parque da Bela Vista – onde se terá batido um recorde de audiência com cerca de 75 mil espectadores – ou no Estádio Cidade de Coimbra (cerca de 40 mil), onde se tinha apresentado pela última vez. Todas as suas anteriores digressões, com excepção da primeira, passaram por estádios e arenas.

Muito menos gente na plateia e nenhuma mega ecrã com milhões de pixéis a ladear o palco. Nas mãos dos espectadores, também não se encontrava o brilho dos pequenos ecrãs dos telemóveis. O pormenor das bolsas em que se guardam os telemóveis, logo à entrada do Coliseu, não é um pormenor. A interdição do seu uso (ou de qualquer outro meio que permita gravar imagem, som ou ambos), é essencial para o conceito de “Madame X Tour”.

No palco também há menos aparato e não só porque este é dramaticamente menor do que um palco montado num estádio, num festival ou numa arena construída para albergar eventos desportivos. Não se vê bateria, guitarras eléctricas ou teclados. Na verdade, os músicos que acompanham Madonna são quase todos oriundos da lusofonia. Tal como o Expresso noticiou, eles são Gaspar Varela (guitarra portuguesa), Miroca Paris (guitarra, percussão), Carlos Mil Homens (percussão), Jéssica Pina (trompete) e a Orquestra Batukadeiras, a que se juntou uma secção de cordas e um ou outro músico. Mas também não são eles, que estão longe de serem vedetas entre os seus pares, quem se encontra no centro das atenções.

Ao longo de mais de duas horas e meia desfilam 25 canções, mas o espectáculo de “Madame X” é muito mais do que as canções desse mais recente álbum, polvilhadas com meia dúzia de hits de outras eras. Em palco, está uma peça de teatro que corre a história da luta pela liberdade, desde a fundação dos Estados Unidos da América até aos dias de hoje. Desde o início, com uma citação a James Baldwin, há dançarinos, coro de gospel, quatro filhos de Madonna e mudanças de cenografia, mas aquilo que está em cena é ela própria. Madonna pode cantar pouco mas fala que se farta. Num registo que é capaz de interpelar cada um dos presentes. Adopta um tom ora confessional, ora de stand up comedy. Pressente-se que cada momento pode ser único, como quando leiloa uma polaroid feita no momento, e que passa entre as suas pernas, aceitando várias propostas vindas da plateia. Conta a história da sua estada em Portugal e faz intervenções de carácter político, amiudadas vezes contra Donald Trump, até à saída vitoriosa de palco, de punho no ar, com toda a equipa, por entre os espectadores que finalmente lhe podem tocar.

Madonna em Lisboa, janeiro de 2020. Não é permitido o uso de telemóveis ou de qualquer outro meio de captação de imagem e de som. As fotografias disponibilizadas pelo departamento de promoção - a entrada a fotojornalistas está vedada - mostram pouco ou nada

Madonna em Lisboa, janeiro de 2020. Não é permitido o uso de telemóveis ou de qualquer outro meio de captação de imagem e de som. As fotografias disponibilizadas pelo departamento de promoção - a entrada a fotojornalistas está vedada - mostram pouco ou nada

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Tal como se ouve na gravação que dá início ao espectáculo: “aqui não há nada entre mim e ti”. Isso quer dizer que a acção não é observada através de ecrãs gigantes, que a interacção entre os espectadores não é relevante, que os imprevistos podem suceder, que a distância para o palco é sempre muito inferior aquela a que está o bar, que não importa comunicar para fora daquele mundo o que ali está a acontecer. Porque o mais importante é a música, o artista e o espectador.

Em Lisboa, o preço dos bilhetes para cada uma das oito apresentações de “Madame X” vai de €75 a €400. Já em Londres, onde Madonna vai ocupar o Palladium ao longo de 15 noites, a entrada mais barata custa £61,50 e a mais cara £481,5 (entre €72 e €562). Depois de dois concertos no Coliseu dos Recreios ficou claro que este espectáculo vai muito para lá do mero entretenimento dispensado aos fãs mais ou menos hardcore. Há coisas que se repetem, como a narrativa da mulher brava que se impõe à história, um clássico desde o início da sua carreira. Mas, desta vez, o que Madonna poderá estar a tentar impor é um novo modelo de negócio para a indústria da música, em que a componente do espectáculo se aproxima radicalmente do teatro. Ali, é só para quem gosta, deixando o caos e o ruído dos grandes festivais para os mais jovens artistas que ainda não têm currículo e que necessitam de alargar o seu perímetro de fãs. Sim, o preço dos bilhetes pode ser considerado exorbitante. Mas não é assim quando estamos perante momentos únicos?

Nos Estados Unidos, o valor médio de cada bilhete para a digressão de Madonna rondou os $500 (cerca de €448), o que lhe permitiu uma facturação à volta de 106 milhões de dólares (cerca de 95 milhões de euros) em 49 espectáculos, segundo o “Financial Times”. O tiro de partida para a digressão foi dado em Brooklyn, em Nova Iorque, na Howard Gilman Opera House, um teatro com capacidade para 2097 pessoas.

Bruce Springsteen pode ter iniciado este novo modelo de negócio na indústria da música ao vivo. Em 2017 e 2018 protagonizou uma temporada na Broadway que durou 14 meses

Bruce Springsteen pode ter iniciado este novo modelo de negócio na indústria da música ao vivo. Em 2017 e 2018 protagonizou uma temporada na Broadway que durou 14 meses

DR

Apesar do preço dos bilhetes estar para lá do que hoje consideramos carote, a facturação não excede a das digressões anteriores, que agora podemos ver como tradicionais e que passavam por estádios ou grandes recintos desportivos fechados. Os custos sim, esses são muito inferiores, no que respeita à produção, a viagens ou até a músicos e bailarinos. Quem tentar entender o novo conceito à luz de espectáculo agora proposto à luz da ganância poderá desiludir-se. O que aqui fica notório – e torna este esforço notável – é a tentativa de recentrar a experiência proporcionada naquilo que acontece em palco, no artista e na mensagem veiculada.

Se acha que esta pode ser apenas mais uma excentricidade de Madonna, saiba então que Bruce Springsteen apresentou uma temporada de 236 espectáculos ao longo de 14 meses na Broadway, iniciada em Dezembro de 2017. Em palco, apenas uma guitarra, um piano e 15 canções, a somar às inúmeras histórias que contou e que já podem ser apreciadas num especial estreado no Netflix ou no álbum ao vivo entretanto publicado. O lado familiar volta a ser importante: a mulher do Boss, Paty Scialfa, surge em duas ou três ocasiões.

É o regresso às temporadas, ao teatro e aos artistas de carne e osso que dispensam a imagem dos ecrãs.

Ou como David Byrne e Nick Cave também demonstraram no ano que passou, nada se deve intrometer entre o público e artista. A ideia é tudo menos nova, ainda que, muito provavelmente, não seja para todos. É preciso encenação: José Mário Branco passou temporadas no Teatro Aberto – onde aliás gravou o seu disco mais pungente. E Sérgio Godinho experimentou o mesmo no Instituto Franco Português.

A música percorre círculos até se voltar a encontrar com modelos experimentados no passado. No futuro, é pouco provável que os U2 ou Lady Gaga queiram regressar à megalomania dos estádios e das grandes arenas.

Publicado originalmente no Expresso Diário de 15 de janeiro de 2020