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Madonna com a Orquestra Batukadeiras no Coliseu dos Recreios (fotografia do primeiro concerto na sala lisboeta)

Madonna ainda é a rainha desta pop toda. Uma noite de fado, liberdade e muita “sodade” no Coliseu de Lisboa

No segundo concerto dos oito que leva ao palco do Coliseu dos Recreios, Madonna afinou o discurso político, cantou fado e revisitou alguns clássicos entre as canções de "Madame X", o seu "álbum português"

Nos parcos concertos de Madonna a que Portugal assistiu até hoje, o que sempre sobressaiu mais foi a monumentalidade dos palcos, a espetacularidade das coreografias (e acrobacias) e os cenários rocambolescos. Provando que, por vezes, menos pode ser melhor, o espetáculo de apresentação de "Madame X", o seu mais recente álbum, é o mais recompensador que a rainha da pop poderia oferecer aos fãs. Na segunda de oito noites que passa na companhia íntima dos admiradores portugueses (e espanhóis, e alemães, e brasileiros, e...) no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, a artista norte-americana admitiu que era bom estar de volta à sua "segunda casa" e ao local onde a aventura do novo álbum começou.

Depois de os músicos portugueses (nativos e adotivos) que a acompanham nesta digressão - Gaspar Varela na guitarra portuguesa, Jéssica Pina no trompete, Carlos Mil-Homens na percussão e Miroca Paris na guitarra - darem início à festa com uma curta atuação que terminou em gigante ovação (e durante a qual misturaram sons tradicionais, portugueses e cabo-verdianos, com versões inesperadas de 'Secret', 'Don't Tell Me', 'Like a Virgin' ou 'Who's That Girl'), Madonna acolheu os presentes com uma mensagem de agradecimento e um aviso: "não se esqueçam, nada disto é real". Antes ainda de entrar a fundo na música, reiterou um dos seus grandes lemas, citando o escritor James Baldwin: "os artistas estão aqui para perturbar a paz".

Madonna no Coliseu dos Recreios (fotografia do primeiro concerto na sala lisboeta)

Madonna no Coliseu dos Recreios (fotografia do primeiro concerto na sala lisboeta)

Stufish

Ao longo de duas horas e meia de concerto, foram muitos os momentos especiais, mas a termos de eleger apenas um, escolheríamos a colaboração eletrizante com a Orquestra Batukadeiras numa fervilhante 'Batuka', momento mais livre de "Madame X". Rodeada de um respeitoso grupo de batukadeiras cabo-verdianas, a artista soube tirar o chapéu de protagonista e entregá-lo nas mãos do coletivo de mulheres que conheceu "há quase três anos", quando se mudou para Lisboa para ser uma "soccer mom" (recorde-se que a razão principal da mudança para a capital portuguesa foi a integração do filho David Banda na equipa juvenil de futebol do Benfica).

Entre danças e gritos de ordem, 'Batuka' deu início à secção do espetáculo dedicada a Lisboa, durante a qual não só cantou 'Sodade', celebrizado por Cesária Évora, com o convidado de honra e "rei do funaná" Dino D'Santiago, como se atirou a um fado, apenas acompanhada pela guitarra portuguesa de Gaspar Varela, cantando os versos "perguntei a um fadista qual é a sua devoção / apontou-me uma guitarra e bateu no coração", num português esforçado. Juntando variadas influências latinas e de outras coordenadas geográficas, abraçou ainda na sua casa de fado os temas 'Killers Who Are Partying' e 'Crazy', ambas retiradas de "Madame X", e misturou-os com uma versão de 'La Isla Bonita' entrecruzada com excertos de 'Welcome to My Fado Club', 'Medellín' (que, sem Maluma presente, perde alguma força em palco) e o momento semi-bollywoodesco de 'Extreme Occident'. Tudo isto pontuado por um redondo e ruidoso "cara**o", "o único palavrão que sei dizer em português".

Claro que os fãs "a sério" estavam ali para ouvir as canções de "Madame X" mas sempre na esperança de serem brindados com a sua canção favorita do já longo cancioneiro de Madonna. Depois de abrir a atuação com o momento disco sound politizado de 'God Control' (bola de espelhos bem lá no alto) e as experimentações de 'Dark Ballet', a artista presenteou a plateia com um mashup inspirado de 'Express Yourself' e 'Human Nature'. "Não imaginam há quanto tempo esperava por este momento, por este regresso a Lisboa para vos mostrar o que me inspirou aqui", exclamou entre as afirmações feministas das filhas gémeas, Estere e Stelle (#timesup e "Deus é uma mulher") e uma anedota sobre homens com pénis pequenos com Donald Trump à mistura... E irrompe a batida contundente de 'Vogue', um dos clássicos mais aplaudidos da sua carreira.

Madonna no Coliseu dos Recreios (fotografia do primeiro concerto na sala lisboeta)

Madonna no Coliseu dos Recreios (fotografia do primeiro concerto na sala lisboeta)

Stufish

Os momentos mais politizados, com a artista a defender sempre que um artista pode ter como tarefa perturbar a paz mas no fundo o que quer conquistar é essa mesma paz, chegaram com um 'American Life' (bandeira norte-americana rasgada e gasta em pano de fundo) que aponta o dedo a Donald Trump e à "guerra que inventou com o Irão" para distrair o seu país do processo de impugnação, e com 'I Rise', canção com que encerrou a atuação em jeito de resistência, juntando no pano de fundo imagens de protestos contra o uso de armas, de celebração dos direitos LGBTQ+ e defesa de imigrantes ("poder ao povo", foi o grito de ordem com que se despediu). Antes do curto encore, contudo, ainda juntou mais três temas de "Madame X" - 'Come Alive', 'Future' e 'Crave' - entre uma belíssima recuperação do apocalíptico 'Frozen', apresentado com a ajuda de um vídeo de dança protagonizado pela filha mais velha, Lourdes Leon, e a sempre muito celebrada e emocionada 'Like a Prayer', servida na escadaria em X que compôs o cenário do concerto.

Nesta segunda noite de concertos em Lisboa, Madonna conquistou a plateia sobretudo pela forma comunicativa como se aproximou dos fãs e pela ironia com que polvilhou as suas interações, fosse no momento em que tirou uma selfie com uma Polaroid e a vendeu por mil euros, para ajudar a sua organização sem fins lucrativos Raising Malawi, a um espanhol ("anteontem um brasileiro deu-me cinco mil"), fosse a queixar-se das suas 25 lesões ("não prestem atenção ao que se passa da cintura para baixo"), fosse a falar com um médico assistente alemão que lhe ofereceu um pouco da sua cerveja quando se sentou ao seu lado numa cadeira da plateia. Por muito que nunca se saiba quando está a cantar de verdade ou a deixar uma "backing track" fazer o serviço (o reverb ajuda no momento de camuflar as suas fragilidades vocais), a ilusão que Madonna vende é tão pertinente em 2020 quanto era em 1985. Não há mesmo quem conheça os recantos da pop como "Madame X".