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Madonna nos bastidores do Coliseu de Lisboa

Uma Madonna “mais real, mais calorosa, mais próxima”. E um palavrão começado por 'c'. O relato da noite no Coliseu por um super fã português

Rui Clemente é fã de Madonna desde os 7 anos e ontem viu-a como nunca. O relato de uma “experiência mística” no Coliseu de Lisboa. “Ao fim que quase 40 anos, ela continua a surpreender-nos”

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Rui Clemente lembra-se perfeitamente da primeira vez que viu Madonna, até hoje uma das suas grandes referências na música.

Sou fã desde 1984”, recorda à BLITZ. “O momento: quando vi o videoclip do 'Like a Virgin' no [programa] Top Disco. Ela tinha qualquer coisa de diferente, de desafiador. Tinha uma aura de mistério e destacava-se de todos os outros artistas que desfilavam na TV. E o estilo... Senti um magnetismo inexplicável. Tinha 7 anos”.

Impressionado não só pelas canções como pela mensagem de Madonna, Rui Clemente cresceu inspirado por aquilo que considera ser “um modelo de liberdade de expressão, de coragem, de perseverança. [Ela é] uma guerreira. A Madonna é mais do que a sua música. É música, imagem, performance, a capacidade de criar personagens, de contar histórias, de nos fazer sonhar. E, claro, a controvérsia: provocadora por natureza, agitadora, sempre quis fazer as pessoas pensar, questionar, mudar os paradigmas. Desbravou caminho para as gerações seguintes”.

Entre 1993 e 2012, Rui Clemente viu Madonna ao vivo por dez vezes, em concertos em Paris, Barcelona, Lisboa e Coimbra. A estreia aconteceu em 1993, na passagem da digressão Girlie Show por Paris. “Lembro-me do instante em que vi a Madonna pela primeira vez, como se fosse ontem: a entrada em palco ao som de 'Erotica'”.

Rui Clemente é fã de Madonna desde 1984

Rui Clemente é fã de Madonna desde 1984

Quanto ao concerto de ontem, o primeiro da digressão Madame X no Coliseu de Lisboa, o português quis “preservar o fator surpresa”, evitando assim ler o que a imprensa foi escrevendo sobre os espetáculos nos Estados Unidos.

Apesar de preparado para um concerto diferente, mais intimista, Rui Clemente saiu do Coliseu verdadeiramente surpreendido.

Confesso que, nas duas primeiras músicas, estranhei muito. Estamos habituados a associar a Madonna a espectáculos monumentais: entradas épicas, cenários gigantescos, plataformas que sobem e descem, ecrãs por todo o lado, passereles com quilómetros...”, diz. “Desta vez, não há nada disso. Tudo acontece à escala de uma peça de teatro. Há uma simplicidade, um despojamento, uma honestidade que são realmente supreendentes”.

Ontem, vi uma Madonna mais real, mais calorosa, mais próxima. Como nunca antes a vi”, resume, comparando a sua postura em palco com a de digressões anteriores, em que a interação era mais “cronometrada”.

Madonna

Madonna

Ela está genuinamente feliz por atuar em Lisboa”

No Coliseu, Madonna mostrou-se “conversadora, [fazendo] alguns desabafos (muito devido à lesão do joelho, de que ainda não conseguiu recuperar), mas com o sentido de humor mordaz que sempre teve, contando anedotas, interagindo imenso com o público – chegou a sentar-se numa das cadeiras da plateia para conversar com um fã. Ao fim que quase 40 anos de carreira, ela continua a supreender-nos”.

Elogiando a mensagem do espetáculo – “uma mensagem de amor, liberdade, igualdade, da urgência em acordar para os problemas do mundo, assumir responsabilidade, agir” –, Rui Clemente considera o espetáculo da Madame X Tour “o mais elevado” da carreira da artista.

A ligação de Madonna a Lisboa, cidade onde tem vivido nos últimos anos, está também bem presente ao longo das duas horas de atuação.

“Ela está genuinamente feliz por atuar em Lisboa. Disse-nos mesmo: 'estou cheia de dores, mas este é o momento em que me sinto mais feliz nesta digressão, porque estou finalmente em Lisboa'. Esse amor sentiu-se, fez uma sentida homenagem a Portugal – contou-nos a sua história de como se apaixonou pelo nosso país e pela cultura lusófona, homenageou Celeste Rodrigues, até cantou um fado em português e disse um belíssimo palavrão começado por 'c'. Ver e ouvir o meu ídolo de sempre fazer isto em palco é qualquer coisa de surreal”.

No final de uma noite de emoções muito fortes, Madonna terminou o espetáculo “a cantar a capella o refrão de 'I Rise', de punho erguido no ar. E começa a descer as escadas do palco em direção ao corredor central da plateia!”, exclama o fã que voltará a ver Madonna no Coliseu por mais duas vezes, ao longo desta semana.

“Eu não queria acreditar no que estava prestes a acontecer: ela ia sair pela entrada da sala do Coliseu! Do ponto onde estava, só conseguia ver a agitação à volta do corredor, seguranças, cameramen, os bailarinos, os fãs a apinharem-se, numa histeria que só ela sabe gerar... e o topo da cabeça dela, no meio daquela confusão toda. E a voz dela, a cantar 'I Rise'. Num instinto de 'velho fã', olho para baixo e percebo que tenho o caminho livre até ao corredor central, já mesmo junto à porta onde ela ia sair. Saltei os dois lances de escadas e, numa correria desenfreada, consigo chegar ao separador e, nesse momento, ela passa. Mesmo à minha frente. E sai. Fiquei todo a tremer. Numa questão de segundos, tive uma experiência mística”, emociona-se Rui Clemente.

Os próximos concertos de Madonna no Coliseu de Lisboa, que marcam o arranque da digressão europeia de Madame X, acontecem a 14, 16, 18, 19, 21, 22 e 23 de janeiro.