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Diogo Varela Silva, em dezembro, quando a digressão "Madame X", de Madonna, passou por Boston

Madonna no Coliseu: “É uma bela homenagem a Lisboa”

O realizador Diogo Varela Silva acompanhou a primeira parte da digressão de Madonna nos EUA e sabe tudo sobre o espetáculo que Madonna traz a Lisboa. Além de autor de documentários sobre Zé Pedro ou Celeste Rodrigues, de quem é neto, é pai do mais jovem prodígio da guitarra portuguesa, Gaspar Varela, que aos 16 anos se estreou enquanto acompanhante da cantora americana na digressão “Madame X” - o espetáculo que a partir de domingo ocupará o Coliseu dos Recreios durante oito noites

“Foi uma lição de vida e uma lição de produção, acompanhar a montagem deste espetáculo”. A declaração é de Diogo Varela Silva, realizador português, neto da fadista Celeste Rodrigo e pai de Gaspar Varela, guitarrista de 16 anos escolhido por Madonna para a acompanhar na “Madame X Tour”. A nova digressão da rainha da pop chega este domingo ao Coliseu de Lisboa — prolongando-se até dia 23, num total de oito concertos — e o Expresso falou com o cineasta sobre o que o público português vai poder ver em palco. Reconhecendo que assistiu a quase meia centena de concertos em solo norte-americano, entre 17 de setembro e 21 de dezembro do ano passado, Varela Silva, que nunca tinha visto Madonna ao vivo antes, garante que a artista “não fez nenhuma concessão, não abdicou de nenhuma das ideias que teve” para o novo espetáculo, “teve um trabalho exaustivo. É uma workaholic”.

Depois de se mudar de armas e bagagens para a capital portuguesa, em 2017, Madonna apaixonou-se pelo fado ao ouvir Celeste Rodrigues, entretanto falecida, e entrou em contacto com ela. “Pediu-lhe que escolhesse o melhor sítio para se conhecerem e acabaram por combinar na [casa de fado] Mesa de Frades”, no bairro de Alfama: “passaram uma noite muito gira lá e depois ficaram amigas. Ela convidou-nos para irmos passar o fim de ano a casa dela, nesse ano, em Nova Iorque, e foi aí que as coisas começaram”. Quando a avó do realizador, irmã de Amália Rodrigues, faleceu, a 1 de agosto de 2018, a artista norte-americana deixou uma mensagem carinhosa nas redes sociais: “tenho muita sorte por ter conhecido e cantado com esta lenda absoluta do fado. Que descanse em paz”.

Por essa altura, a artista estava já a trabalhar em “Madame X”, o seu 14º álbum de originais, e um ano depois chegava a confirmação: Gaspar Varela, bisneto de Celeste Rodrigues, levaria a sua guitarra portuguesa para a digressão de promoção ao disco. “As coisas estão a correr lindamente”, assume o pai do jovem músico, “tenho a certeza de que está a ser uma experiência super gratificante para ele. E é enorme! A primeira tour mundial que ele faz é com a Madonna. Digo-lhe, por piada, ‘se aos 16 estás a fazer digressão com a Madonna, aos 30 estás na Casa do Artista’”.

As poucas imagens disponíveis dos concertos, visto que está proibida a utilização de telemóveis e outros aparelhos eletrónicos que permitam a captação de vídeo ou fotografia, são partilhadas nas redes sociais oficiais da rainha da pop, pelo que o fator surpresa é um ingrediente importante nas atuações que se avizinham. Sabe-se, pelas reportagens de publicações norte-americanas, que há uma forte componente portuguesa em palco. “É um espetáculo riquíssimo e, acima de tudo, uma bela homenagem a Lisboa”, garante Varela Silva, “ouvi-a falar de Lisboa lá fora, mas estou mortinho por ver o que ela diz aqui, como vai ser a adaptação do espetáculo a Lisboa”.

Madonna durante a atual digressão, "Madame X Tour", com as Batukadeiras de Cabo Verde

Madonna durante a atual digressão, "Madame X Tour", com as Batukadeiras de Cabo Verde

Além de Gaspar Varela, apresentam-se em palco os também portugueses Carlos Mil-Homens (percussão) e Jéssica Pina (trompete), bem como músicos cabo-verdianos (a Orquestra Batukadeiras e o cantor e multi-instrumentista Miroca Paris, antigo colaborador de Cesária Évora).

Depois das grandes digressões de estádios, Madonna decidiu, desta vez, presentear os fãs com um espetáculo “intimista”. “Há uma maior proximidade do público neste género de espetáculos”, defende o cineasta, “da maneira como ela apresenta o álbum, faz completamente sentido ser este formato e não em estádios. Agora, se calhar é mais cansativo, porque faz mais concertos no mesmo local do que faria se fossem grandes arenas”.

Gaspar Varela com Madonna

Gaspar Varela com Madonna

Sobre aquilo que esta experiência representará para o filho, no futuro, Varela Silva acredita que “há mais gente curiosa em ver o trabalho dele” e que as suas atuações em nome próprio “se calhar vão funcionar melhor”. “Já há alguns convites, mas também já havia antes algumas datas confirmadas no estrangeiro”, continua, “aliás, uns dias antes de viajar para os ensaios da tournée em Nova Iorque, estava a abrir para o Tomatito num concerto em Espanha”. Diogo Varela Silva, que tem no currículo os documentários “O Fado da Bia” (2012, sobre a fadista Beatriz da Conceição), “Celeste” (2015, sobre a avó) e “Zé Pedro Rock’n’Roll” (2019, sobre o falecido guitarrista dos Xutos & Pontapés), diz estar já a trabalhar num projeto novo: “ainda não posso divulgar. É outra coisa, mas também ligado a uma pessoa da música”.

Publicado originalmente no Expresso Diário de 10 de janeiro de 2020