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Mind da Gap, Sam The Kid, General D, Da Weasel, "Rapública", Black Company

Como nasceu o hip-hop em Portugal. Dos bairros suburbanos para todo o país

Há muitas histórias que pontuam um quarto de século da cultura hip-hop em Portugal, uma viagem que recua a “Rapública” e chega ao presente. No primeiro dia de 2020 recuperamos um longo artigo sobre a caminhada que o hip-hop 'tuga' fez até chegar aos primeiros lugares dos tops de vendas em Portugal

É possível ler no cartaz de um festival no mais remoto Alto Alentejo uma metáfora para a história do hip-hop ‘tuga’: de um lado Boss AC, o mais resistente dos veteranos da cena nacional, representante da primeira leva que assolou o país em 1994, com a edição de “Rapública”; do outro lado, os Wet Bed Gang, representantes de uma nova escola que aprendeu a funcionar no presente com outras ferramentas de afirmação; no meio, Gabriel, O Pensador, rapper brasileiro com responsabilidades diretas em toda esta saga – rima Boss AC em ‘O Verdadeiro’, tema do seu mais recente trabalho, “A Vida Continua”, que “aos poucos fez-se justiça”, antes de rematar com “o Pensador mostrou que a língua lusa era a premissa”. De facto, a língua portuguesa tornou-se o barro que inúmeros artistas moldaram numa mensagem de apelo universal que um quarto de século depois das primeiras experiências se afirmou perante uma nova geração que oferece milhões de views aos principais artistas nas plataformas de streaming e que enche concertos e festivais por todo o país. Houve, no entanto, um longo caminho a percorrer.

Da autoria de Emanuel Ferreira e António Contador, o livro “Ritmo e Poesia” dava conta em 1997 – invulgarmente em cima do acontecimento – das raízes exteriores e interiores desta cultura. Logo a abrir, identificava-se uma série de parâmetros bem diferentes dos que hoje regem o movimento. “Porquê um livro sobre rap? Porquê um livro sobre um género musical incómodo movimentando-se nas águas conturbadas do politicamente incorreto? O que é que faz do rap um estilo, social e mediaticamente, opaco, e consequentemente pouco visível à superfície do panorama musical? Que tipo de particularismos se inserem nas letras do rap para que delas se discuta unicamente a sua controvérsia? Por que é que a construção do seu ritmo parece tão linear e a melodia tão ausente? Como se define um rapper e que tipo de atributos ostenta, permitindo que se distinga sem ambiguidades de um outro artista-músico qualquer?”. Algumas das perguntas levantadas em 1997 continuam, claro, a fazer sentido (“como se define um rapper e que tipo de atributos ostenta, permitindo que se distinga sem ambiguidades de um outro artista-músico qualquer?”), mas outras já foram definitivamente ultrapassadas pelo correr dos tempos (“O que é que faz do rap um estilo, social e mediaticamente, opaco, e consequentemente pouco visível à superfície do panorama musical?”) e dão hoje plena conta do período de inocência desta cultura em Portugal.

"Rapública", pioneira compilação editada em 1994

"Rapública", pioneira compilação editada em 1994

Há 25 anos, quem entrava no hip-hop fazia-o por militância e amor, sabendo que seria quase sempre invisível aos olhos dos media, com as playlists das principais rádios a revelarem-se impermeáveis às suas propostas, com espaço nulo na televisão. Hoje, nas novas plataformas de media é o inverso que sucede, e artistas como ProfJam, Wet Bed Gang ou Piruka colecionam com facilidade dezenas de milhões de views nos seus clips, eclipsando os números de nomes que continuam a ser vistos como a elite da cena musical portuguesa.

De regresso a “Ritmo e Poesia”: “Miratejo está para o rap em Portugal, como o Bronx está para o rap nos Estados Unidos. Em suma, é a Meca dos estetas lusos dos ritmos & poesia, nesta fase inicial, ainda copiada do irmão mais velho americano e à procura de uma maior clarividência que irá passar decisivamente por um período de rodagem em black english. Os rappers americanos encontram aqui uma base recetiva à sua mensagem, tanto mais que as semelhanças entre as condições de sobrevivência em South Bronx e a Margem Sul são facilmente apreendidas por estes potenciais MCs. A escassez de meios é crucial na fraca visibilidade daquilo que se vai dizendo gritando, mas não é impedimento suficiente para calar as suas vozes, bem pelo contrário. O recurso ao beatboxing e outras técnicas de improviso vai ditando o desenvolvimento, crucial nesta altura, da base, sustentáculo fundamental do rap em qualquer lado. Em qualquer lado o rap começa por ser underground. Portugal não é exceção”.

Começou na Margem Sul

De facto, não foi exceção. As origens desta cultura em Portugal estão profundamente ligadas à Margem Sul do Tejo – o ‘nosso’ Bronx – e aos fluxos migratórios que, pelo menos, desde os anos 80 possibilitaram que chegassem ao nosso país e às comunidades africanas – mas não só – ecos dessa revolucionária cultura americana. É, por exemplo, bem conhecida a forte implantação de comunidades cabo-verdianas em Boston, tal como portuguesas em Newark, também nos Estados Unidos – ou Paris, França. Estas comunidades foram importantes pois começaram a fazer chegar até Portugal cassetes com gravações de programas de rádio em que o hip-hop era prato forte. E foram essas cassetes as principais disseminadoras do ‘vírus’ num primeiro momento.

Esta ideia foi confirmada, em 1992, numa reportagem assinada para o então semanário BLITZ pelo jornalista Miguel Cadete e pela fotojornalista Rita Carmo que, em Almada, foram encontrar artistas como General D, One Equal, Machine Gun Poetry ou The New Decade naquela que terá, certamente, sido a primeira reportagem sobre a nascente cena rap portuguesa: “Quisemos saber como tinha começado tudo, de onde tinham vindo as ideias de fazer rap e quais as influências. Eles não esconderam nada: ‘foi através de influências da comunidade negra americana. Entrou e pronto. Ouvimos sons radicais vindos do outro lado do Atlântico como Public Enemy, Run DMC, NWA... Radicais, mesmo. Isto já há uns bons anitos. Há uns quatro ou cinco anos’. Essa foi a instrução básica que os rappers portugas receberam e que lhes permitiu, a partir de 89, começar a filtrar essas influências e a tornar seu um som que, sem dúvida, preenchia as suas preferências”, escrevia-se então, a 10 de novembro de 1992, praticamente dois anos antes da edição de “Rapública”.

À época, a ideia de integrar uma indústria e lançar discos parecia ainda vir muito longe: “Para chegar aos concertos é preciso ter uma coisa boa para apresentar ao público. Os discos são uma coisa que ainda está muito longe. As pessoas não confiam, têm medo... As editoras têm medo de arriscar, apesar de ser um estilo que na Europa já está implantado. Aqui em Portugal, como sempre... pode ser que no futuro... Mas também não estou preocupado com isso. Eu gostava de, principalmente, ter uma coisa para o pessoal curtir. Desde que o pessoal esteja bem, é o que me interessa”, desabafavam, então, à reportagem BLITZ.

Black Company
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Black Company

General D
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General D

Rita Carmo

A base das Lajes, na Ilha Terceira, é também frequentemente apontada como porta de entrada de hip-hop no nosso país, uma vez que funcionários portugueses aí colocados tinham acesso à loja da base bem apetrechada de CDs ao gosto dos jovens soldados americanos. Boss AC toca no assunto no tema que divide com os Black Company no seu último álbum e que funciona como um retrato das origens desta cultura. Rima o veterano: “Isto é amor para a vida inteira / Começou em 86 nas Lajes na Ilha Terceira / O Tony fez lá a tropa, trazia-me as novidades / Mixtapes americanas com as novas sonoridades”.

Ainda na década de 80 há a registar o fenómeno do breakdance, que se alastrou a todo o planeta por via de filmes de Hollywood como “Beat Street”. O público português também se rendeu a estes filmes, e ainda nos anos 80 houve a formação de uma série de crews de breakdance no nosso país. Contudo, o rap começou a despontar através de cassetes. E no início dos anos 90 estavam bem implantadas entre nós as sementes de um movimento que haveria de ganhar contornos definidos com a edição em 1994 do EP de estreia de General D, “Portukkkal É Um Erro”, e sobretudo da compilação “Rapública”, que colocaria no mapa uma série de protagonistas do movimento ainda hoje estão ativos. É o caso de Boss AC, Melo D, D-Mars, e, claro, dos Black Company, responsáveis pelo primeiro mega êxito do hip-hop tuga: ‘Nadar’, o tal tema que ficou célebre graças ao aproveitamento político do seu refrão em favor das gravuras de Foz Côa.

“O lançamento da compilação Rapública, em 1994, parecia indiciar que Portugal havia acordado para o fenómeno hip-hop. Afinal, apesar da edição nos últimos anos de discos dos Da Weasel, Mind Da Gap, Black Company, Boss AC, Ithaka ou General D – todos eles com ligações, nem sempre assumidas, ao género – a sensação com que se fica é que a de que a visibilidade que o hip-hop conheceu nesse período foi algo extemporânea”, escrevia no ‘Público’ Vítor Belanciano, em 2000, sobre o então ainda imberbe movimento hip-hop nacional. “Alguma ingenuidade dos diversos agentes envolvidos, a pouca tradição em Portugal no que toca ao consumo da ‘música negra’, o facto de não existirem pequenas editoras que fomentassem o género e a quase inexistência de um circuito do qual fazem parte disc-jockeys ou lojas de discos são algumas explicações possíveis para que o hip-hop nunca se tenha verdadeiramente imposto em Portugal. No entanto, nos últimos anos a conjuntura mudou”, notava o jornalista.

Depois de “Rapública”, Mind Da Gap

Depois do tal sucesso dos Black Company, que levou a que o grupo de Gutto editasse “Geração Rasca” em 1995, o hip-hop voltou a mergulhar no underground, sendo notória exceção a atividade da editora Nortesul durante a segunda metade dos anos 90 com a edição de registos de Mind Da Gap e Boss AC e também Cool Hipnoise (grupo de Melo D pós Family) ou Ithaka (projeto do norte-americano Darin Pappas). Para lá da reduzida visibilidade destes nomes, o que existia era subterrâneo.

“Sem Cerimónias”, o álbum com que os Mind Da Gap se afirmaram, sucessor de um EP homónimo editado em 1997, é visto como um clássico ainda hoje. Terá sido o primeiro registo nacional criado com as condições certas, num estúdio de topo, com acesso a um engenheiro de som americano, Troy Hightower, que lhe deu o boost certo nas misturas. “O ‘Sem Cerimónias’ representa a possibilidade de existir um álbum português que podes comparar com outra coisa qualquer que viesse dos Estados Unidos”, explicava Ace a Rui Correia, na revista digital ‘Rimas e Batidas’ por ocasião dos 20 anos da edição do primeiro álbum do seu grupo. “Portanto, é como se tivesse sido o nascimento do hip-hop nacional da maneira como foi feito daí para a frente. Existe um rap ‘antes’ e um rap ‘depois’ do Sem Cerimónias. É engraçado, porque nós na altura só queríamos ser tão bons como os gajos que ouvíamos, queríamos igualar em qualidade, queríamos que os nosso flows fossem tão bons como os dos gajos que nós ouvíamos, como por exemplo os dos Boot Camp Click”.

Mind Da Gap

Mind Da Gap

O MC, que continua no ativo e que em 2017 editou em nome próprio o álbum “Marlon Brando”, prossegue na sua descrição do impacto da estreia em formato grande dos Mind Da Gap: “Acabamos por conseguir, fazendo isso, dar origem ao álbum que para mim é o começar de uma nova era, pós-boom do ‘Rapública’, o começar de uma nova forma do rap nacional. Já havia outros discos rap, os Da Weasel já tinham discos… mas em termos de linguagem: és um fã de rap, só ouves rap americano e o ‘Sem Cerimónias’ é o álbum [dessa época] que tu podes pôr no meio dos teus do Nas e de Wu-Tang Clan. Queríamos que o som do disco soasse igual ou parecido, em termos de qualidade, ao que ouvíamos em casa ou no carro”.

O trajeto dos Mind Da Gap acabou por ser importante também por ter escancarado as portas de uma nova escola, decididamente portuense, que viria a dar ao país uma série de grandes nomes, dos Dealema, que prosseguem no seu caminho, a nomes mais recentes, como Deau ou Keso. “Acho que aqui acabamos por abrir portas a que os MCs tivessem mais coragem para se mostrarem a eles próprios. E, quando digo ‘eu’ falo de uma coisa mais interior, emocional, espiritual, às vezes a roçar o esotérico. E isso é uma marca que acho que começou por ser dos Mind Da Gap. Acho que é o traço genético mais forte no rap do Porto em relação aos outros: é haver muito a cena do ‘eu’, mas não é um ‘eu’ banal, é uma coisa mais profunda…”, argumentava ainda Ace, procurando clarificar a identidade do rap da Invicta.

A era das mixtapes

Mesmo a fechar a década de 90, o hip-hop nacional registou uma curiosa reação à atenção quase folclórica dedicada à geração “Rapública” e mergulhou no underground. A segunda metade dos anos 90 foi a época das mixtapes de DJs como Bomberjack, Assassino e Kronic, e dos longos freestyles que mais tarde ganhariam exposição na Rádio Marginal com o programa ‘Hip-hop Don’t Stop’. Sobretudo havia o grande elemento de união nacional desta cultura que era o programa ‘Rapto’, de José Mariño, hoje diretor da ‘Antena 3’. Aqui passaram, por exemplo, as primeiras maquetes dos Mind Da Gap e de todos os futuros protagonistas deste movimento. Com um circuito próprio de espetáculos e de distribuição das mixtapes, o movimento hip-hop ganhou força entre nós e em 1999 deu-se um outro passo crucial na evolução até ao presente: a edição do primeiro álbum de Sam the Kid, “Entre(tanto)”; Filhos de Um Deus Menor, duo em que militava NBC, o rapper-cantor que este ano conquistou o segundo lugar no Festival da Canção, lançam “A Longa Caminhada”; e Micro, grupo do veterano D-Mars, rapper e produtor que também responde ao nome Rocky Marsiano, estreiam-se com “Microestática”, registo importante que apontou direções a uma geração que fazia as coisas de forma independente.

“É um momento que me abre para o resto do underground, foi bué importante para mim, e também foi uma honra. O álbum influenciou-nos a todos. É importante porque vimos daquela era pós-“Rapública”, tinha havido uma editora que tinha pegado nos rappers e feito o que quis… e o que os Micro vêm dizer é: ‘não, mano, a gente pode’. Já estava a acontecer com as mixtapes, mas ‘a gente pode fazer esta merda do it yourself, como o hip hop é, e distribuir, podemos pôr isto na nossa mão’. Esse disco é que também vai influenciar essa época que sucede a todos os independentes todos que forjam o hip-hop português”, contava, há um par de anos, Chullage a Ricardo Farinha, da revista ‘Rimas e Batidas’. Estes registos vieram provar a todo o movimento que havia espaço criativo para a exploração do formato álbum, mais refletido do que os freestyles das mixtapes, e deram origem à segunda vida do movimento com a entrada no novo século.

Bem-vindos ao século XXI

O hip-hop nacional percebeu muito rapidamente que havia um espaço por preencher com a entrada da nova década. O aumento dos concertos, a intensificação do ritmo de edição das mixtapes e toda a atmosfera que rodeava o movimento indicavam que esta seria a década do hip-hop português. Com os media mais atentos, havia terreno para avançar. O primeiro a fazê-lo a sério foi Chullage, com a edição em 2001 de “Rapresálias” na primeira editora de hip-hop nacional, a Lisafonia.

Esta foi a primeira estrutura a pensar-se como hip-hop e para o hip-hop e foi igualmente a primeira a perceber as dificuldades que havia que enfrentar. Chullage, explicava então ao jornal BLITZ as dificuldades de criar em Portugal: “Senti-o em todos os aspetos. Primeiro, as pessoas começam a dizer-me que não vai ser possível fazer um álbum de hip-hop, ou então comentam que ninguém vai ouvir o disco. Depois, é preciso juntar bastante dinheiro para se usar um estúdio, uma quantia que não temos. É necessário obter-se dinheiro aqui, ali e ali, e é sempre com descrédito porque as pessoas nem sequer acreditam que vamos conseguir fazer um álbum de hip-hop. Há também uma cena muito má: os técnicos de som nunca tratam o hip-hop com respeito; para eles, o som de uma música de hip-hop está sempre bom, pois não trabalham com o mesmo fervor que fariam se fosse uma música que eles sentissem. Isso é muito mau. Depois, existe aquele problema com as editoras: a promoção faz-se dificilmente, colocar-se um álbum nas lojas é também complicado. Para se fazer hip-hop é necessário uma luta que não se trava noutros géneros musicais”.

Rapidamente se seguiram outras experiências editoriais, como a Loop:Recordings (que se estreou em 2001) ou o coletivo Kombate (que surgiu em cena no final de 2002), que reunia uma série de selos que mais tarde seguiriam caminhos separados, como a Lisafonia ou a Footmovin’. Outros selos, como a Matarroa, criada em 2003, também se afirmaram nesta década.

Em 2002, D-Mars, dos Micro, dava conta da nova realidade que o hip-hop de produção nacional tinha que enfrentar: “dentro da indústria, se calhar, temos mais noção do que é necessário do que muitos grupos que não tiveram que passar pelo que nós passámos. Temos mais a noção do sacrifício que às vezes é necessário. Muitos artistas pensam que só por fazerem música e estarem numa editora estão isentos de contribuírem com o seu esforço, e depois ainda se queixam que as editoras os exploram, quando na verdade muitos deles nada fazem. Creio que agora percebemos muito melhor como funciona todo o negócio. Ao nível criativo, também nos ajudou muito o facto de mantermos a nossa independência total o tempo todo”. As regras do jogo começavam, de facto, a mudar.

Sam the Kid ao vivo em 2002

Sam the Kid ao vivo em 2002

Arquivo BLITZ

O período de transição para o novo milénio foi decisivo na caminhada do hip hop tuga. Foram os anos que conheceram ritmo mais intenso de edições, que marcaram definitivamente o derrube de barreiras no que à atenção dos media diz respeito, que assistiram à chegada de artistas como Sam The Kid ou Boss AC aos palcos principais dos nossos festivais de verão. Terão sido, igualmente, os anos da massificação, com a chegada à era da série ‘Morangos com Açúcar’. Mas o sucesso não toldou as ideias de nenhum dos protagonistas, que nunca se esqueceram de onde vinham. Em 2003, o discurso de Boss AC ainda era o de uma desilusão pela distração do público: “Sem dúvida. A desilusão que me acompanha é por demais evidente no álbum todo. É uma desilusão a todos os níveis, com a imprensa, a rádio, as editoras, os espetáculos, os espaços… É muito difícil sobreviver a fazer aquilo que gostas neste estado de coisas. Neste sentido, é um recado para quem quer ouvir, para os mais atentos,” desabafava o rapper ao jornal BLITZ.

Boss AC em 2005

Boss AC em 2005

Rita Carmo

Em meados da década passada o discurso mudou. A persistência de AC levou-o a alcançar o sucesso que o seu talento há muito reclamava e marcou, finalmente, o encontro do hip-hop português com o topo das tabelas de vendas. Paralelamente, uma nova geração – com gente como Sir Scratch, Twism, Raptor ou SP & Wilson – veio juntar-se a protagonistas já firmados como Dealema, Xeg ou NBC na construção de uma saudável cena nacional com todos os sabores possíveis – da política inflamada de Valete à militância com pronúncia do norte de Mundo Segundo e restantes companheiros.

Valete, que em 2006 lançou o seu segundo álbum, “Serviço Público”, registo de que ainda se aguarda sucessor, explicava à revista BLITZ uns anos mais tarde, aquando da edição da sua compilação de participações “Na Batida dos Outros”, que o hip-hop fez um importante trabalho no nosso país, fruto de uma luta de denúncia cerrada que o acompanhou praticamente desde o início: “o hip-hop foi dos movimentos que melhor fez o combate ao racismo. E foi um combate silencioso. Há inúmeros grupos multirraciais. É lindo. Os Grognation, por exemplo: é um grupo que tem um moçambicano, tem um rapaz de Cabo Verde, tem pessoal português. Existem muitos grupos assim em Lisboa. Normalmente as plateias de hip-hop são multirraciais. E isto não se vê em quase lado nenhum. Os africanos dizem-me que as discotecas em que eles conseguem entrar são discotecas africanas. Têm muita dificuldade em entrar noutras discotecas. Para tu veres uma plateia multirracial provavelmente só num concerto de hip-hop. Mesmo num estádio de futebol, até porque a comunidade negra ficava arrumada numa classe social baixa e os preços dos bilhetes são cada vez mais altos, tu não vês muita plateia multirracial. Tu vês isso num concerto de hip-hop. Os miúdos já crescem a ver esta coisa da raça de outra forma. Muitos jovens portugueses cresceram a idolatrar rappers negros. Ou seja, se é possível hoje catapultar o Anselmo Ralph como um dos maiores artistas em Portugal, acho que isso deve-se também muito ao hip-hop português”.

Outro importante protagonista desta era é Regula. O rapper do Catujal que se estreou em 2002 com “1ª Jornada”, haveria de lançar em 2005 uma mais séria afirmação do seu singular talento com “Tira Teimas”, revelando-se um artista sem papas na língua, carregado de punchlines e com flows imaginativos. Ele haveria de ser pioneiro a apontar para outras direções, porventura mais comerciais, que serviriam de inspiração para a geração que nos últimos anos finalmente colocou o hip-hop português no topo da pirâmide de streamings.

Pode dizer-se que quando lançou “Gancho”, em 2013, o equilíbrio de forças no panorama nacional mudou drasticamente. Editado com selo da sua própria Superbad, em que haveriam de despontar os talentos de Here’s Johnny, na produção, ou Holly Hood, Gancho provou definitivamente que se vivia uma nova era: “o papel das editoras esvaziou-se um bocado nesta era de redes sociais. É certo que podem dar uma ajuda na promoção, mas mais nada. Foram mais valia quando a internet não tinha o alcance de hoje e os discos se vendiam em números consideráveis. Hoje não me oferecem nada que eu não possa conseguir sozinho. E querem ganhar dinheiro até nos concertos. Não percebo isso. Prefiro investir sozinho e colher os dividendos sozinho. Faço o caminho mais devagar, mas pelos meus próprios termos. Também por isso mesmo, ninguém vai encontrar o meu disco na Fnac, que é uma empresa enorme e que, ainda assim, trabalha à consignação. Sei o que me tem custado investir dinheiro desde as mixtapes. Prefiro estar sozinho, embora rodeado de amigos com as competências certas,” explicava o rapper à BLITZ.

O verdadeiro boom

Vinte anos depois do arranque de uma discografia hip-hop em Portugal, os catálogos das principais editoras continuavam estranhamente impermeáveis ao verdadeiro dilúvio de talentos com que este género ia inundado a nossa cena musical. Sam The Kid, Valete, Mind Da Gap, Dealema, Capicua, NBC, Halloween, Bob da Rage Sense, Jimmy P, NGA, Xeg: em comum, todos estes nomes possuíam discografias independentes, por vezes até construídas em regime de auto edição, o que significa que boa parte desta corrente tem evoluído sem investimento de estruturas com maior poder na nossa indústria. Exceções claras talvez só a carreira dos Da Weasel ou a de Boss AC, que puderam contar com os favores de máquinas de marketing mais oleadas com os efeitos comerciais que se conhecem.

Daí que a estreia dos 5-30 no catálogo da Warner, seguindo-se a um período de reajustamento do mapa das majors em Portugal após a venda internacional da EMI, tenha sido uma surpresa e, potencialmente, o gesto que finalmente escancarou as portas da primeira divisão a um género que não se tem cansado de oferecer clássicos à memória musical nacional.

5-30: Carlão, Fred e Regula

5-30: Carlão, Fred e Regula

"Nunca me coloquei em divisão nenhuma”, ressalvava então Regula que no ano anterior, com Gancho, tinha dado um sério sinal de que poderia ir mais longe do que as limitações da sua independência permitem. “Só me via a chegar a uma estrutura destas no seio de um grupo, porque sempre funcionei sozinho, através de pequenas independentes, sem nunca ter temas a tocar na rádio”, explicava o MC. Carlão, o ex-Da Weasel que se reinventou com os 5-30, concordava e sublinhava então que mesmo Sam The Kid “só assinou os contratos que quis, porque convites certamente não lhe faltaram”.

Carlão, que se afirmou com uma das mais seguidas vozes nacionais quando respondia pelo nome Pacman no seio dos Da Weasel, aparentemente terá feito um voto íntimo de não retornar às rimas e chegou mesmo a avisar os seus companheiros de aventura nos 5-30 para a sua indisponibilidade de assumir cadências mais rap no discurso. “Quando tens dois melhores rappers da tuga ao teu lado, a rimar, e pronto, é verdade, um gajo sente-se contagiado. O Regula metia uma rima e eu só pensava ‘e agora?’, mas sempre com aquela vontade de também rimar”.

Em 2015, com a edição de “Quarenta”, Carlão reclamou um novo espaço no panorama nacional, que começava, definitivamente, a agitar-se. Carlão, desenhava então um retrato da nova realidade de ascensão do hip-hop a uma divisão cimeira nas páginas da BLITZ: “acho que isso já está a acontecer, um pouco por todo o lado, aliás. As novas ‘rock stars’ vêm do hip-hop e há mosh nos concertos de rapalhada. Em 1994 olhou-se para o ‘Rapública’ como o boom do rap em Portugal e isso foi uma mentira, porque havia um desconhecimento completo – não havia estúdios, nem técnicos, nada. Foi preciso os protagonistas fazerem todo um percurso de aprendizagem para isto rebentar. Agora, sim, há um boom”.

Capicua em 2012

Capicua em 2012

Nesse mesmo período, Portugal assistiu impávido e sereno, à imposição de uma nova voz rap no nosso país, diferente porque ostentava sotaque do Porto, diferente porque impunha uma visão feminina do mundo, diferente porque as suas palavras pareciam abrir um outro tipo de espaço. Capicua deu os primeiros sinais mais sérios com a edição de um EP na Optimus Discos em 2012, a que se seguiriam dois álbuns, em 2014 e 2015, na Valentim de Carvalho: “Sereia Louca” e o registo de remisturas “Medusa”. Capicua, em conversa para um dos livros da série ‘Debaixo da Língua’ (edição do festival O Sol da Caparica), colocava-se no centro da história do hip-hop tuga, assumindo ser descendente de grupos como os Dealema, guardiões até aos dias de hoje de uma chama original desta cultura.

“Sim, os Dealema”, sublinhava Capicua quando interrogada sobre os seus mestres. “Não só a nível musical, pela linguagem, pelos temas, mas pela postura ética que têm no hip-hop até à relação que mantêm com os media, a postura discreta, que sempre me influenciou. Os Dealema ensinaram-me a manter uma postura de genuinidade e verdade. Não estou a falar da cena de ‘ser real’, mas sermos nós próprios, fazermos a nossa música, para nós mesmos, termos uma postura despretensiosa, fazermos isto porque gostamos muito, acho que esse exemplo é mesmo importante. Esse sentido de comunidade, de ética, de estética, em relação ao hip-hop e à valorização da nossa língua local foi-me transmitida pelos Dealema, e até hoje deve ter sido a banda que mais vezes vi ao vivo. Hoje, se hoje for a um concerto deles, sei que me vou emocionar como me emocionava”.

Dealema em 2013

Dealema em 2013

A nova geração

Emoções fortes é o que se sente no ar de cada vez que um dos nomes de uma nova leva de rappers em perfeita sintonia com as novas gerações sobe a um palco. Ao mesmo tempo que as editoras foram finalmente abrindo espaço nos seus catálogos a jovens artistas vindos destes terrenos – a Universal inaugurou a tendência com a assinatura de Valas e a Sony seguiu-lhe os passos com a contratação de Bispo – continuam a existir nomes de primeira linha que preferem trilhar o seu próprio caminho, sem esses amparos mais corporativos.

Piruka ou Slow J são exemplos opostos nesse panorama, separados pela força dos números obtidos nas redes, mas unidos pelo facto de cada um ser dono do seu destino. Há um par de anos, Piruka, admitia à BLITZ não ter grande noção do volume de streams alcançado nas plataformas digitais: “Sei que já passámos os 25 milhões de plays do álbum no Youtube, porque os números aparecem quando espreito os vídeos”. Contando hoje com mais de meio milhão de subscritores no seu canal de YouTube, o rapper tem vários vídeos que já ultrapassaram folgadamente a marca dos 20 milhões de visualizações, facto que o catapultou para um lugar cimeiro neste competitivo ecossistema. Como se chega aí? “Em primeiro lugar, nunca me colei a nenhum rapper com nome”, justifica. “Até do meu amigo Dillaz me afastei para poder seguir o meu próprio caminho. Tenho ídolos, claro – o Sam (The Kid), o Regula... – mas nunca me colei a ninguém”. Quando questionado sobre a receita para o sucesso de que atualmente goza, Piruka é claro: “Pensei sempre pela minha cabeça. Ouço críticas ou elogios, vindos das pessoas que me rodeiam, mas na hora de decidir a minha cabeça é que conta”.

Slow J fez um outro caminho e tem outra ideia, apesar de se afirmar igualmente independente (pelo menos para já...). Estreou-se com o EP “The Free Food Tape” em 2015 e firmou-se com “The Art of Slowing Down”, em 2017, com o seu percurso em três cartazes sucessivos do festival Super Bock Super Rock a ser indicador da sua ascensão: começou pelo mais pequeno dos palcos, na altura programado pela Antena 3, ascendeu à divisão ‘média’ representada pelo palco EDP, e em 2017 subiu ao palco principal do evento, Super Bock, tendo direito a performance recebida efusivamente na Altice Arena.

Slow J

Slow J

Rita Carmo

Uma vez mais, como é quase sempre comum em todos os rappers, há também a noção de um fio condutor, um sentido de dívida para quem antes de si preparou o caminho. Slow J acredita que o hip-hop mudou a face do nosso país. “De certeza que mudou, de certeza que transformou porque eu e a minha geração crescemos a ouvir hip-hop e muita gente da minha idade ouviu álbuns inteiros do Valete, do Sam – eu cresci muito com isso e com essa noção ‘valetiana’ de rebeldia e, acima de tudo, de valorização das próprias ideias. O Valete para mim sempre foi muito um símbolo do quanto eu podia acreditar naquilo em que acredito. Não sei se havia outro símbolo parecido que fosse tão empowering. Agora, em termos de mudanças concretas, eu não tenho bem a certeza. Teria que fazer um estudo sociológico”.

“#FFFFFF”, álbum de estreia a sério de ProfJam, acabado de lançar com carimbo da Sony, logrou há pouco tempo alcançar o primeiro lugar da tabela de vendas portuguesa. É um facto significativo para o rapper que se afirmou como “o prof dos putos da nova gen” e que este ano, à semelhança do que já tinha sucedido com Slow J, deverá ascender ao principal palco do Super Super Super Rock depois de uma triunfal apresentação em 2018 no espaço intermédio do festival. Em 2019, o rapper de Telheiras é, sem a menor sombra de dúvida, uma das mais sólidas referências no complexo tabuleiro tuga. Em entrevista ao ‘Rimas e Batidas’, o rapper assume essa condição de farol: “agora cada vez mais sinto que há essa cena mais patente. Foi profético nesse sentido. Pessoas que cresceram com as músicas que eu lancei. Putos que tinham 15, agora têm 20. Conheço pessoas que me ouviram muito novos. É fixe saber que já tenho mesmo algumas pessoas que foram brought up comigo na playlist. Ya, sinto cada vez mais isso. Que pelo menos a minha contribuição seja de liberdade com juízo. Sinto que tenho putos que dão esse props e fico bué contente. Eu fui aluno de muitos e já ter alunos é fixe”. A história faz-se.