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Diogo Piçarra

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“Fui descobrindo o caminho sozinho no meio do nevoeiro e de vez em quando batia na parede”. A viagem solitária de Diogo Piçarra até ao topo

Com disco novo acabado de lançar e concerto grande marcado para 2020, Diogo Piçarra falou com a BLITZ sobre a importância da família na sua vida, os seus grandes ídolos musicais e também sobre as mudanças prestes a chegar ao seu núcleo mais íntimo

Lia Pereira

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Jornalista

Rita Carmo

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Fotojornalista

“South Side Boy”, terceiro álbum em cinco anos, é o mais recente trabalho de Diogo Piçarra, que em março do próximo ano o apresentará com um grande espetáculo na Altice Arena, em Lisboa. À BLITZ, falou-nos um pouco sobre o disco no qual assumiu boa parte da produção e colaborou com Carolina Deslandes e o produtor Lhast, bem como sobre o caminho que o trouxe até ao presente momento de felicidade.

Acaba de lançar o terceiro álbum em quatro anos. Como sente que tem sido a sua evolução, desde o primeiro disco?
Acima de tudo tentei não me repetir. Vou fazer uma analogia parva, mas é quase como comer arroz com frango todos os dias: ninguém gosta disso, não é? Sabe bem ao início, mas durante dois meses ou três não tem piada nenhuma. Na música penso o mesmo. Quando fazemos canções, a determinada altura nem nos dá gozo cantar sempre igual: os concertos tornam-se monótonos e eu tento não me repetir na forma como escrevo música e como produzo. Inclui sempre algumas nuances diferentes e tento dar um conceito novo a cada álbum.

Mas quando ouve o primeiro disco, por exemplo, ele ainda faz sentido? Ainda se identifica?
Faz sentido, só com algumas coisas de produção é que não me identifico tanto. A parte das letras está atual, porque escrevo sempre com muita atenção, com muita consideração; tento escrever as músicas de forma quase intemporal. Quando pego no papel e na caneta, ou mesmo no telemóvel, penso: “será que daqui a 20 anos vou cantar isto e orgulhar-me?”. Tento sempre fazer esse exercício. Na parte da produção é que sigo as linhas do que ouço na altura, e no primeiro disco, por exemplo, há coisas com que já não me identifico tanto.

Com os arranjos?
Com os arranjos e duas ou três músicas que eu tinha, mais folk… hoje em dia não é esse o meu estilo principal.

Tem alguma canção de que se orgulhe particularmente?
Pode ser a música ‘Volta’, que é bastante forte. Foi a primeira de todas, antes do single, ‘Tu e Eu’. Lancei-a como homenagem a uma amiga que tinha falecido, e de repente tornou-se um hino para muitas pessoas que já perderam alguém. Até àquela altura, eu não conhecia muitas músicas portuguesas que homenageassem alguém que tivesse falecido... Eu quis que a música fosse para todos. Primeiro escrevi para esta minha amiga e de repente é uma música de muita gente. E se não a cantar no concerto as pessoas caem-me em cima.

É “aquela” canção?
É “aquela”, mas há várias. Claro que os singles são muito fortes, mas aquela é mais pessoal… As pessoas são masoquistas, porque parece que querem sofrer e ouvir essa música. É um bocadinho estranho quereres ouvir, ou pedires, a música mais triste. Talvez seja uma parte do concerto ou da semana em que as pessoas querem soltar tudo; vejo algumas a chorar nessa música, se calhar querem mesmo libertar tudo e voltar a casa mais leves.

Nos concertos a que vai assistir, também é esse tipo de fã?
Sim! Na parte musical sou sentimental, no dia-a-dia sou palhaço, sou normal. Pareço duas pessoas diferentes. Mas quando vou a um concerto também sou essa pessoa sentimental e lembro-me que o último concerto em que me emocionei foi o do Sam Smith no Altice Arena; foi muito minimal, muito simples, e numa das partes ele quase fez um manifesto de orgulho gay e eu fiquei sensibilizado, porque senti-o livre, pela primeira vez. Tenho um enorme respeito por pessoas assim.

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Nasceu em Faro, em 1990. O Algarve nessa altura não tinha muita oferta cultural?
É uma cidade universitária, vive muito dessa sazonalidade. No primeiro semestre da faculdade, de setembro a janeiro, está cheiíssimo, depois chega ao período de férias e está mais vazio, depois vem o novo semestre… o verão é o verão.

Mas não havia muitos concertos para ver?
Não, havia muito concertos de bares, de bandas de versões. Eu próprio tinha a minha banda de originais mas depois, quando acabou, fiz parte desse leque de artistas que cantavam covers nos bares e acho que corri os bares todos da minha cidade.

Isso deu-lhe muita estaleca?
Deu-me imensa experiência, sobretudo nas noites em que tinha de tocar quase quatro horas e chegava àquela última hora em que o repertório era Xutos & Pontapés, só para fechar a noite em grande, senão as pessoas que já estavam com uns copos a mais iam achar que não era um bom concerto. (risos)

Aprendeu a lidar com públicos mais hostis?
Hostis, difíceis… mas a palavra certa é hostis. Em muitas noites cheguei a levar com cervejas na cabeça. Havia lutas estilo faroeste no meio do bar enquanto a minha banda tocava… Mas nessa noite até fui eu que comecei essa luta: dois rapazes tinham entrado no bar e via-se claramente que iam arranjar problemas, começaram a apalpar as miúdas, e eu disse logo: “tirem-me esses gajos, esses filhos da…”. Eles empurram-me para fora do palco e foi aí que começou a porrada. E também há o público mais indiferente, que até é pior. Aquele público que está lá mas nem reage, está de costas, não canta… Tive um bocadinho disso tudo e deu-me imensa experiência. Mas não voltava atrás. Não queria nada voltar a isso.

E achou sempre que ia valer a pena, que ia ter algum retorno?
De alguma maneira, sim. Tinha lá as pessoas mais importantes da minha vida, os meus pais e o meu irmão, que sempre me acompanharam. Por mais vazio que estivesse o bar, tinha sempre essas pessoas, e por isso já valia a pena.

Tornou-se conhecido do grande público quando ganhou o Ídolos. Mas muitos concorrentes vencedores não conseguem ter sucesso no meio da música. Qual foi o seu segredo?
A quantidade de programas também influencia. Acho que, se fizermos muitos programas, muitas edições, umas a seguir às outras, a probabilidade de encontrar um novo talento ou uma nova estrela diminui. Portugal é um país pequeno para tantos programas, e eu próprio vivi isso, porque participei em muitos. E a cada casting a que ia já conhecia os outros cantores. Não sei se hoje em dia ainda será assim - a indústria mudou um pouco: há mais acesso, mais informação, mais música e os miúdos parece que começam a cantar mais cedo - mas na altura havia pouca diversidade. Depois eu tive a sorte de receber um prémio composto por um contrato discográfico, uma ida a Londres para estudar durante seis meses, um carro… davam-me ali as ferramentas para começar a fazer uma carreira, se quisesse. O que eu acho é que há pessoas que participam mas cujo objetivo nem é a música: é aparecer, tornar-se uma figura pública e a partir daí escrever uma história diferente, como ser ator, trabalhar como jornalista, na comunicação... Eu quando participei no programa, nos vários castings, fui sempre com o foco na música porque acho que não sei fazer mais nada. (risos)

Como foi estudar e viver numa grande cidade como Londres?
Foi juntar o útil ao agradável. Era a minha cidade de sonho e ia finalmente estudar música, oportunidade que nunca tinha tido. E esforcei-me ao máximo, porque era para ter aulas só de voz - o programa do Ídolos é de canto - mas tinha tanto tempo livre que escolhi as disciplinas todas. Tive bateria, teoria musical, produção - e esta disciplina é que me abriu os horizontes. Pela primeira vez comecei a fazer instrumentais com mais profissionalismo, a perceber melhor os programas com que já brincava antes, a estudar a fundo. Hoje em dia, são essas as bases que uso para produzir os meus discos.

Em Londres conheceu pessoas de todo o mundo?
Pessoas de todo o mundo, mas uma em especial. A cada mês que passava nós dávamos concertos em bares, para testar o que tínhamos estudado. Um dia estava ao lado do técnico de som, a falar em inglês, e percebi que ele tinha sotaque tuga. E perguntei: “tu és português?” E ele: “sim, sim”. E eu: “quem és tu?” E ele: “deves conhecer-me de Portugal, sou o [músico] Walter Benjamim”. Foi uma coincidência muito estranha. Hoje em dia é o Benjamim, que muita gente conhece. Não imaginava encontrá-lo ali no meio de Hackney, que é um bairro londrino, a trabalhar como técnico de som..

Este disco viajou muitas milhas, do estúdio em Gaia a Los Angeles, na Califórnia, onde gravou com o produtor Lhast...
Los Angeles, Gaia, Faro, Lisboa… já passeei o mundo com este disco! Sem dúvida que viajou muitas milhas e mesmo na minha cabeça já andou aqui de um lado para o outro. Houve músicas que saíram e entraram, mas este foi o disco em que produzi e toquei mais. No primeiro tive a mão do Fred [Ferreira], como produtor, no segundo foram mais produtores: Karetos, Suave, Branco, Red Mojo… e o Fred também. Neste tive apenas três produtores em três canções e o resto do disco fui eu que o fiz. Fica mais pessoal.

O facto de produzir e tocar no disco faz com que seja mais perfeccionista ou “protecionista” em relação à sua música?
Já fui mais perfecionista, ou esquisitinho com coisinhas que as pessoas nem vão ouvir, como o sonzinho daquela tarola ou a nota que não foi a certa. Produzir o meu próprio trabalho é mais uma questão de imaginar uma coisa e achar que só eu é que consigo alcançar aquela visão. Sinto que, se algum produtor quiser meter a mão na música, vai desvirtuar a minha visão. Mas há outras canções que não quero ser eu a produzir e tocar e dou de bom grado - e até agradeço.

Há alguns anos fez uma tatuagem do Chester Bennington, dos Linkin Park, um dos seus heróis. Quem foram os outros músicos que o inspiraram?
Um grande ídolo, com quem não tive o privilégio de falar ou privar mais tempo, é o Manel Cruz. É uma pessoa que admiro muito e cujo trabalho acompanhei sempre, desde Ornatos, Supernada, Pluto, Foge Foge Bandido: suguei tudo o que era Manel Cruz. Adorava conhecê-lo e quem sabe um dia partilhar palco e até uma canção com ele. Grande parte da minha inspiração de escrever em português vem dele. E também dos Da Weasel, Yellow W Van... muitas bandas que apareceram nessa altura, ou eu é que comecei a dar-lhes mais atenção então. Foram elas que me deram o bichinho para começar a escrever em português, mas principalmente do Manel Cruz. Devorei tudo o que era dele.

partilhou palco com os 30 Seconds To Mars. É uma banda com cuja estética se identifica?
Notam-se bem as influências [deles no meu trabalho], principalmente no mais rock. Eu sou muito melancólico, nas produções e nos discos. Claro que ao vivo transformo-me e sou um bocadinho de todas as influências do que venho a ouvir, seja dos Linkin Park, 30 Seconds To Mars ou mesmo Ornatos. Se calhar à primeira vista eu tocar com os 30 Seconds To Mars parece estranho, mas faz todo o sentido e foi um momento mágico, que recordo com muita emoção. Imaginem estar ao lado daquela pessoa [Jared Leto] e ouvi-lo a falar, ouvi-lo a cantar, ao meu ouvido, aos berros… foi emocionante!

Ao subir ao palco num concerto dessa envergadura, nota muito a diferença de escala, ou os concertos em Portugal também já têm uma dimensão considerável?
Há sempre sítios onde as pessoas são mais efusivas, mas nunca tive razão de queixa. Tenho sido um privilegiado por tocar quase sempre em casas cheias. E quando subi ao palco com os 30 Seconds To Mars, tinha portugueses na plateia: eu estava em casa. Acho que até estava mais confortável que ele, porque sabia como interagir com as pessoas. Já tive a oportunidade de cantar em Madrid, no Wizink Center, que é quase como se fosse a Altice Arena deles, e aí notei uma grande diferença entre o público português e o espanhol. Talvez pelas próprias raízes e cultura, as pessoas vibram ainda mais. A única diferença é que o público português não se deixa levar logo. Mas também depende do festival, do concerto, do ambiente. E tenho dado concertos incríveis de norte a sul, nas ilhas… por todo o lado.

E em 2020 vai dar um concerto especial na Altice Arena. Já começou a prepará-lo?
Sim, já comecei a ensaiar com a minha banda. Vou apostar na parte mais cénica, de produção, pois nunca tive [um espetáculo desta] envergadura, com ecrãs, luzes e tudo o mais. Se é para ser na Altice Arena tem de ser em grande. Pela primeira vez estou a fazer a apresentação de um disco numa sala deste tamanho e quero [empenhar-me a] 100%. Deixo o apelo para as pessoas virem à Altice Arena, porque não vão ter a oportunidade de ver este concerto noutro sítio do país. Se no mês seguinte for ao Porto, ao Algarve ou à Madeira apresentar o disco, os espetáculos não vão ter a mesma produção, por motivos óbvios.

Diogo Piçarra no Rock in Rio Lisboa'18
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Como lida com o contacto com os seus fãs? É muito abordado, recebe muitas mensagens?
A toda a hora respondo às pessoas, mesmo na rua… Sendo que Lisboa é mais tranquilo, porque na capital é mais comum ver alguém que reconhecemos da televisão ou outro meio. No interior é mais normal abordarem-me e pedirem-me uma foto, ou mesmo termos uma conversa, já que a probabilidade de me encontrarem novamente é mínima. Mas sinto que o nosso país é muito tranquilo em relação a esse tipo de contacto com figuras públicas. Às vezes até acho que sou um bocadinho alien quando estou, não diria na festa do croquete, mas nesse tipo de situação. Nunca me vou habituar à ideia de ser famoso ou figura pública. Posso estar ao lado de um cantor que admiro, o Pedro Abrunhosa, por exemplo, e aos olhos de muitas pessoas somos iguais – os dois compositores, os dois figuras públicas – mas cá dentro nunca me vou habituar a essa ideia, porque regresso sempre à base, à minha casa, ao meu núcleo, e aí sou sempre o Diogo de sempre.

O rapaz de Faro...
O rapaz do sul, sempre. E quando vou a Faro é que me desabituo mesmo do que tenho construído, quase que me esqueço do que está a acontecer à minha volta. Hoje vou a Faro sobretudo nas épocas festivas, mas com as tecnologias é mais fácil manter o contacto. Todos os dias falo com os meus pais e o meu irmão, nem que seja só uma mensagem de bom dia ou a dizer: “vou estar no programa tal”, “vou estar na rádio às sete da manhã!”.

O seu irmão não é gémeo idêntico?
Não, somos falsos! Mas muito parecidos, nalgumas coisinhas.

Nunca o confundiram consigo?
Não, nunca! Infelizmente, nunca deu para enganar ninguém. (Risos)

Podia trabalhar como seu sósia...
Ele trabalha comigo, mas no design. Desde o primeiro disco que faz o design, os cartazes... Também já me tirou fotos e tratou de alguns vídeos. Trabalhamos juntos e acho que vai ser assim para sempre.

Há alguns anos lançou o livro “Diogo Piçarra em Pessoa”, inspirado pela poesia de Fernando Pessoa, e com ele fez uma digressão por escolas. Como foi essa experiência?
Foi um desafio que aceitei sem saber onde me estava a meter. Achei que era interessante sair da área da música, da minha zona de conforto, e fazer algo que também estudei, na área das línguas, da linguística. Pegar nos poemas do Fernando Pessoa e escrevê-los à minha maneira. Tenho esse e outro, “Os Tvgas”, mais direcionado ao Luís de Camões, inspirado na obra d' “Os Lusíadas”. É uma manhã diferente com os miúdos que, quando me veem, já parece que estão num concerto. Por outro lado, tento aproveitar esse momento para inspirá-los, incentivá-los à leitura e à escrita. Mesmo aqueles que não gostam de ler e escrever tento pelo menos incentivá-los a pensar no futuro. Acabo sempre com uma nota de: “pelo menos pensem no vosso futuro, trabalhem muito, tenham planos B”. É quase como uma lavagem cerebral.

Também teve esse tipo de incentivo, na sua juventude?
Não! Esse foi o principal motivo para eu aceitar este desafio. Gostava de ter tido mais cedo esse incentivo, quer por empresas ou figuras públicas que fossem às escolas falar diretamente com os alunos. Adorava que os Da Weasel ou o João Pedro Pais, malta que eu e a nossa família ouvíamos, tivessem ido à minha escola. Acho que me ia dar um clique para pensar de outra maneira no futuro. O que eu tenho feito é uma descoberta: ninguém na minha família canta ou toca, eu fui descobrindo o caminho sozinho no meio do nevoeiro. De vez em quando batia na parede e encontrava a porta ao lado. Sempre fui solitário neste meu caminho.

Como é que arrumou na sua cabeça a história do Festival da Canção? [Diogo Piçarra desistiu do concurso, depois de circularem boatos de que a sua canção seria um plágio de um tema religioso]
Arrumei logo no dia seguinte. Achei que era uma coincidência triste e que não era preciso mais discussão . Daí o comunicado a dizer: “ok, as canções são parecidas, e eu vou sair porque não quero estar no meio desta confusão”. A minha vida não foi feita através de polémicas. E muito menos no início da carreira queria ser acusado desse tipo de coisas. E nem fui bem acusado… foi mais uma insinuação. Porque ser acusado é mais sério, tens de ir a tribunal, cometeste um crime. Neste caso foi mais uma insinuação digital. Senti o apoio de muita gente e ficou arrumado porque senti que foi algo que aconteceu na internet. Tive um conselho de uma grande pessoa, o Ricardo Araújo Pereira. Um dia jantámos na mesma mesa. Era um evento da rádio. Eu cheguei atrasado, ele também, jantámos juntos e falámos sobre isso. E um conselho que ele me deu foi: “às vezes, basta olhar por cima do monitor e parece que está tudo bem”. Basta fechar o computador e não se passa nada. Está tudo a acontecer no ecrã, na internet…

Mas é difícil desligarmo-nos completamente...
É difícil mas é importante e às vezes percebemos isso da pior maneira. Nós, artistas, temos a tendência de ver os comentários, as mensagens. Mas importante é pormo-nos no papel da pessoa que escreve aquela mensagem menos positiva e vai à vida dela. Ela já nem se lembra que a escreveu. E para muitas pessoas que a lerem, a mensagem vai estragar o dia ou a semana. O artista vai sentir-se mais inseguro, até pode adiar o lançamento de um disco ou de uma música ou não aparecer em público, num certo evento. Temos de nos pôr no papel de uma pessoa que está simplesmente a ser inconsciente e seguir em frente. Às vezes leio os comentários, e nem tenho muitos - sou sortudo, acho que não atraio comentários negativos. Mas sempre que tenho, leio-os em voz alta e é o suficiente para achar ridículo, rir e seguir em frente.

uma rubrica de um talk show americano que consiste em ler alto os tweets mais maldosos...
Já fazia esse exercício muito antes. Houve um ou dois comentários que me deixavam muito magoados e depois comecei a pensar: “esta pessoa escreveu, foi à vida dela e estou aqui a preocupar-me com isto?” Em 100 mensagens, só me vou preocupar com uma, que é negativa? E as outras? Têm muito mais valor. Tento perspetivar.

Vai ser pai no próximo ano. O que planeia transmitir ao seu filho, ou filha?
Filha. Vou tentar ao máximo demonstrar que nada se consegue sem esforço e sem trabalho. Foi assim que os meus pais me ensinaram e que aprenderam, e eu e a Mel [sua namorada] queremos continuar a passar esse exemplo. Esperando que a minha carreira continue durante muitos anos, a filha vai ter uma vida um bocadinho mais facilitada. No entanto quero mostrar que não consegui isto por obra do acaso. Tive de sair de casa, de me esforçar, de trabalhar muito, treinar muito. E ela só o irá conseguir dessa maneira e não por ser filha de quem é.

A praia continua a ser o seu refúgio favorito, para encontrar a paz?
Menos. Agora há menos tempo para ir à praia, até porque gosto mais de estar na minha privacidade. A praia é uma zona pública, com muita exposição, e eu dou muito valor à minha casa, a estar sozinho ou com a minha namorada, e tem sido esse o meu refúgio. Estar no meu estúdio, em casa, ter tempo: é importante termos tempo, porque parece que está a passar cada vez mais rápido e quanto mais unidos estivermos, melhor.

Está a fazer o ninho?
Sempre fizemos o nosso ninho. E tive sorte na pessoa que encontrei, porque somos ambos muito caseiros. Encontrei uma pessoa parecida comigo nesse aspeto, que às vezes até para sair de casa é um filme. Aproveitamos muito para ver um filme, uma série, falar, fazer brincadeiras. É o nosso momento.

Diogo Piçarra atua na Altice Arena a 28 de março. Os bilhetes custam 20 euros.