“Vocês têm de saber que estão no meu coração”. Bryan Adams em Lisboa numa noite de emoções, memórias de infância e rock and roll
07.12.2019 às 10h27
Durante duas horas e perante uma Altice Arena completamente cheia, Bryan Adams foi rei e senhor uma vez mais. Praticamente sem pausas e sempre a rasgar, mesmo durante as tradicionais baladas, o cantautor canadiano fez juras de amor por Portugal e recordou – uma vez mais – a sua infância por cá. Para sempre nos nossos corações
Há uma cena em “Alta Fidelidade”, filme com John Cusack e Jack Black inspirado pelo livro de Nick Hornby com o mesmo nome, na qual o cáustico empregado Barry (interpretado por Black) questiona se é injusto criticar um artista “anteriormente genial” pelos seus “pecados musicais”, referindo-se a Stevie Wonder e às canções inanes que este compôs nos anos 80 ('I Just Called to Say I Love You' à cabeça). O mesmo princípio se poderia aplicar a Bryan Adams e a um certo movimento rock que se recusa a olhar para além do óbvio – isto é, das baladas muitas que o canadiano compôs ao longo da carreira e que, nos anos 90, encheram tudo quanto era rádios.
Esse mesmo movimento, que olvida grandes temas rock boa-onda como o êxito descomunal 'Summer of '69' ao falar sobre o mesmo artista que lançou baladonas como '(Everything I Do) I Do It For You' ou 'Have You Ever Really Loved a Woman?' (onde a guitarra espanhola continua a provocar pesadelos), terá muita dificuldade em encarar Bryan Adams como algo sério. Para esses, Bryan Adams é pouco mais que o Tony Carreira do rock: um artista cujo êxito se mede pela generosa quantidade de fãs femininas que atrai até todos os palcos que pisa. Injusto.
Em mais uma incursão de um dos canadianos mais portugueses de sempre (só Nelly Furtado e, até certo ponto, Shawn Mendes poderão com ele rivalizar) por uma grande sala nacional, esse movimento esteve à espreita. Sempre que a sua voz – e que voz!, os anos não passam por ele quando mais puxava pela garganta – se calava para deixar o público divertir-se um pouco, como é habitual neste género de espetáculos, o tom produzido era mais estridente que tonitruante. Mas reduzir Adams à condição de “rock para mulheres”, que é o que o supracitado movimento tende a fazer, não só é sexista como é profunda e determinantemente desajustado.
Bastaram pouco mais de três minutos para o perceber quando, para além da hora marcada, o canadiano sobe ao palco com a sua banda e arranca com um riff cheio de pinta e de distorção, tão maior quanto os maiores riffs, aqueles que nos arrancam do torpor em que por vezes nos vemos atolados. Era 'The Last Night on Earth', tema retirado de “Shine a Light”, novo álbum de Bryan Adams, pretexto para apresentação em Lisboa antes de subir até Braga. Mesmo que dentro de um registo amigo da rádio, é um daqueles temas que, chocando de frente com a ignorância, levam a todo um repensar da carreira ou, até, da importância que Adams tem dentro da história do rock. Não é um baladeiro para choramingas ou fãs do pegajoso xarope. É um tipo que segue fielmente a lição lírica e melódica dada por progenitores como Chuck Berry: poucas coisas há no mundo mais relevantes que mulheres e carros.
'Tonight', o slow enxuto que se lhe seguiu, poderia ter colocado um travão na defesa desta ideia. Mas haveria mais, muito mais – duas horas de guitarradas e cânticos, de música para sorrir e para nos sentirmos bem connosco. Duas horas em que poucas pausas houve, e as que houve foi para o português da praxe (que Adams pronuncia com sotaque inglês) e para os “obrigado!”s que se exigem de um artista como ele, sob pena de o rotularmos de arrogante. Bryan Adams será tudo menos isso: parece estar plenamente ciente do lugar que ocupa e, ao melhor jeito punk, quer lá saber. Importa é alegrar 20 mil desconhecidos durante uma noite.
Em palco, foi correndo de um microfone a outro e a outro, estrategicamente colocados para que pudesse sorrir e acenar a todos os quadrantes da Arena. A comunhão entre artista e público foi total. 'Shine a Light', tema escrito em parceria com Ed Sheeran (mais uma razão para “a malta do rock” não gostar dele, porque os ódios atraem-se), provocou o acender de um gigantesco mar de luzes de telemóveis, os mesmos que mais tarde, no encore, dariam uma emoção diferente a 'All For Love'.
'Heaven' deu a eventuais candidatos ao “Ídolos” uma oportunidade para brilhar – e foi fascinante como, a partir daqui, todas as letras cantadas por Adams foram entoadas pelos presentes até à exaustão, exceção feita a uma versão de 'I Fought the Law', canção dos Crickets, popularizada pelos Clash, melhorada pelos Dead Kennedys, e que só acolheu olhares do mais profundo desconhecimento (mas se a Billie Eilish é permtido não saber quem foram os Van Halen, os fãs de Bryan Adams também podem levar um livre-passe nesta).
'Go Down Rockin', outra canção que prova que a simplicidade é o melhor remédio (eletricidade, dança, promessas de juventude eterna através do elixir guitarral), antecedeu um solo de fazer corar de inveja muitos aspirantes a estrelas, de tão sujo e distorcido. A simplicidade e o humor, e por arrasto a boa disposição: como quando pede ao público que mostre os seus melhores passos de dança (floss, twerk ou fado (!), tudo foi permitido), ou quando se diverte a dar umas pequenas palmadas no seu rabiosque e no do guitarrista vizinho.
Para final, uma espécie de amnésia: "tenho 14 discos e não me lembro de todos", que foi o momento ideal (ou teatral... convenhamos que nem tudo tem de ser honesto no espetáculo de um rocker) para pedir ao público que escolhesse alguns temas: 'Do I Have to Say the Words?' foi dedicado a Maria, Carla mereceu um agradecimento por ter estado «em todos os concertos em Portugal, e Anabela até teve direito a uma curtíssima melodia improvisada antes de 'Please Forgive Me'.
'Summer of '69' foi o gatilho para a loucura, cantada a plenos pulmões e corações por uma sala cheia. E no encore, não houve quem não se emocionasse ao ver as fotografias de infância que Bryan Adams fez surgir no ecrã de fundo, tiradas em Portugal: Cascais, ex-professoras, equipas de futebol, romances que nunca foram, penteados à tigela e as suas próprias filhas. "Vocês têm de saber que estão no meu coração", afirmou. Que se lhe faça justiça: mesmo considerando alguns “pecados”, ele também esteve sempre no nosso.
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