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Holly Herndon

Mãe de um bebé de inteligência artificial mas “terrível” nas redes sociais. A entrevista com Holly Herndon, autora de um dos álbuns de 2019

Passou recentemente por Lisboa e tem um dos álbuns mais celebrados do ano. Vimos Holly Herndon ao vivo e falámos com ela sobre o futuro da música, a importância cultural da cidade de Berlim e a influência dos Radiohead na sua música

Nasceu e cresceu nos Estados Unidos, entre os estados do Tennessee e da Califórnia, mas adotou a cidade de Berlim como casa há vários anos. Holly Herndon, que este ano apresentou ao mundo o seu terceiro álbum, “Proto”, passou recentemente por Portugal para um concerto na Culturgest, provando, ao vivo e a cores, que as canções que criou com a ajuda de Spawn, o seu “bebé” de Inteligência Artificial, têm mais humanidade em si do que seria expectável. “Estou a tentar perceber onde é que nós, enquanto humanos, nos encaixamos, onde pertencemos num ambiente performativo altamente tecnológico e mediado”, explicou-nos numa conversa que decorreu poucos dias depois da passagem por Lisboa. Numa entrevista reveladora, a artista fala sobre as influências dos Radiohead, a ditadura das playlists e algoritmos e o papel de uma cidade como Berlim na criação artística. “A minha música é do presente, mas como há tanta música ‘retro’ parece futurista”.

Na sua perspetiva, a história entre humanos e máquinas é um romance ou uma batalha? É homem versus máquina ou homem e máquina?
É homem versus homem, penso eu. As máquinas são extensões de nós próprios, são uma criação nossa. A inteligência das máquinas é apenas uma recolha de inteligência humana, portanto é um braço de ferro entre humanos.

Mas devemos ter medo disso?
Sim! Sempre que há uma dinâmica de poder, devemos ter medo e não deixar o medo paralisar-nos, mantendo uma voz forte nessa conversa.

É em ‘Fear, Uncertainty, Doubt’, uma das canções mais bonitas de “Proto”, que se percebe melhor a forma como molda a sua voz. Olha para ela como um instrumento ou algo para lá disso?
É engraçado, porque sinto que a minha relação com a minha voz tem vindo a mudar ao longo do tempo. Fiz parte de um coro de igreja, de um coro de escola, de um coro de competição, portanto as minhas primeiras memórias musicais com outras pessoas estão relacionadas com a utilização da minha voz. Depois, quando comecei a usar o computador como instrumento principal, voltei a pegar nela de forma a que o laptop se transformasse mais num instrumento performativo, recorrendo a muito processamento digital customizado de forma a perceber onde o meu corpo humano, a minha voz humana, encaixa numa paisagem altamente tecnológica. E, portanto, nessa altura, via a minha voz mais como uma espécie de controlador para o meu laptop. Ao trabalhar agora com um grupo vocal ainda se tornou mais isso, mas também estou a gostar muito da experiência como uma técnica de comunicação entre seres humanos. É uma das nossas tecnologias iniciais, das mais antigas, portanto vejo isto como um fio que vem das antigas tradições vocais da folk até à utilização que fazemos das máquinas para organizar e compreender a comunicação humana. Portanto, encaro a voz como uma forma de me divertir musicalmente com as pessoas em palco.

Foi devido a isso que nasceu Spawn, o seu “bebé” de inteligência artificial? Qual era a sua intenção ao desenvolver esse projeto com Mat Dryhurst?
Por que razão nasceu o Spawn? Penso que, simplesmente, estávamos os dois realmente curiosos e queríamos embrenhar-nos no mundo das máquinas e percebê-lo melhor. Tínhamos lido artigos sobre algumas descobertas recentes, portanto como pessoas curiosas com a tecnologia que somos quisemos entendê-la um pouco melhor. Para compreender as suas capacidades e formular a minha opinião acerca do assunto, senti que tinha de sujar as mãos. Portanto, eu e o Mat começámos a trabalhar com o Jules LaPlace, um developer baseado em Berlim. No início, não fazia necessariamente parte do novo álbum, era apenas algo que estávamos a investigar, à parte, e depois tornou-se interessante o suficiente, em termos sonoros, para nos fazer sentir que era algo que queríamos explorar com o coletivo de vozes. Entretanto, apareceram outras ligações teóricas pelo caminho, relacionadas com o continuum desta perseguição do intelecto humano que é a inteligência artificial.

Portanto, ‘Godmother’, o single que lançou no ano passado com Jlin, foi a primeira experiência que fizeram com Spawn?
Não! Houve muitas experiências antes disso. ‘Godmother’ surgiu quando chegámos àquele ponto em que pensámos que valia a pena partilhar. Mas, na verdade, a faixa ‘Birth’, onde se ouve a minha voz a aparecer e a desaparecer, foi a primeira descoberta importante que conquistámos.

Em palco, a sua voz é uma espécie de maestro que comanda tudo, mas, ao mesmo tempo, surge como uma espécie de agente provocador. É uma estratégia para tentar encontrar algo novo?
Estou a tentar perceber onde é que nós, enquanto humanos, nos encaixamos, onde pertencemos num ambiente performativo altamente tecnológico e mediado. Quando andei em digressão com o álbum “Platform” percebi que, especialmente em espetáculos de música eletrónica, havia uma tendência para deslocar muita da performance para as luzes e o projetor e menos para as pessoas. Não tenho uma visão romantizada ou idealizada do passado nem acho que era tudo melhor, nada disso, estou é a tentar perceber onde ficamos quando estamos a substituir-nos pelas luzes e estes projetores. Onde pertencemos neste paradigma? E, portanto, foi por isso que quis voltar a inserir o corpo humano na performance, com um coletivo, e aprender com isso. Ainda adoro ter as luzes, as projeções e uma situação altamente tecnológica, com os computadores a mediarem muitas das nossas interações, mas ter interação humana ao vivo, em palco, é algo que nunca consegui substituir em termos tecnológicos. O amor, as emoções que se trocam em palco, entre mim e os performers que me acompanham, era algo que desejava muito.

Holly Herndon na Culturgest, em Lisboa
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Holly Herndon na Culturgest, em Lisboa

Vera Marmelo

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Vera Marmelo

Andou em digressão com os Radiohead, que tentaram ir mais a fundo nessa ligação entre homem e máquina em álbuns como “OK Computer” ou “Kid A”. Olha para esses álbuns como uma influência?
Sinto que, especialmente com o trabalho que estou a desenvolver agora, muitas das minhas influências vêm de fora da música. Vou buscar coisas de fora e tento traduzi-las para uma linguagem musical. Para este álbum, centrei-me muito nas formas antigas de comunicação e na minha pesquisa deparei-me como tradições vocais muito antigas… Mas tenho imenso respeito por artistas como os Radiohead, que têm conseguido infiltrar-se num público mais vasto enquanto mantêm a sua integridade sonora e experimental. Cresci em território apalache rural, portanto não tínhamos lojas de discos artesanais onde pudéssemos ir, só podíamos comprar música no Walmart. E os discos dos Radiohead estavam à venda no Walmart. Acho que eles tiveram um impacto gigante na música e na forma como escrevemos canções dentro da música eletrónica, portanto tenho a certeza de que há alguma influência deles algures naquilo que faço.

Quanto daquilo que ouvimos neste álbum é resultado de improvisação?
Isso é uma questão filosófica relacionada com a definição de improvisação (risos).

Mas o facto de trabalhar com Spawn certamente fez com tenha sido um processo de experimentação e aprendizagem…
A questão com Spawn é que nada acontece realmente em tempo real. É um processo muito lento. Consigo improvisar quando estou a fazer os meus sets de instruções, treino-a e ela dá-me resultados, mas não estou ali em tempo real a alimentá-la e ela a dar-me uma resposta imediata. É um processo muito laborioso e longo, quase como nos tempos iniciais da música feita em computador, quando o Stockhausen entrava num computador do tamanho de uma sala e usava cartões perfurados para tentar fazer sequências diferentes… E voltava no dia seguinte para ver o que tinha acontecido. É mais parecido com esse processo, demorou mesmo muito tempo, mas claro que há imensa improvisação na criação dos sets de instruções. Criámos tudo, não usámos nada disponível, o que significa que nos gravámos a fazer vários exercícios para treinar a Spawn com eles. Há muita improvisação aí. Depois, eu escrevia uma partitura e quando estávamos em estúdio, o Mat e eu, pedíamos aos performers que a apresentassem de forma diferente para que pudéssemos ver como resultava. De seguida, pedíamos para traduzirem essa ideia para a sua própria improvisação. Portanto, acredito que sempre que estás a trabalhar com outra pessoa e tentas comunicar uma partitura há uma interpretação ou improvisação, o que lhe queiras chamar… As coisas nunca são muito claras, mas houve certamente improvisação do lado do conjunto de performers e no meu processo de composição.

Ouvir “Proto” ao vivo é como um ataque aos nossos sentidos, mas também uma espécie de jogo de silêncios. Quão importante é o silêncio na sua música?
É um elemento como qualquer outro. Foi com o advento da rádio que vimos o crescimento da canção pop de três minutos, resultava melhor nas rádios, mas agora temos o Spotify, com as suas playlists, que diz aos compositores que devem ter o gancho nos primeiros 20 segundos para o ouvinte não passar a canção à frente. A infraestrutura de distribuição da música afeta, obviamente, o processo de composição em si. É por isso que editamos álbuns de 45 a 60 minutos: no início enchia dois lados de um vinil. Quanto ao silêncio na minha música, não sei… O silêncio pode ser bastante profundo quando está mesmo ao lado de algo. Não tenho medo do silêncio. Penso que quem trabalha na área da pop tem medo do silêncio porque receia que as pessoas passem à frente, mas sinto que pode ser muito poderoso.

Como lida com as redes sociais e a forma como elas estão a mudar a forma como comunicamos uns com os outros?
Sou terrível nas redes sociais. Não sei… Lido com isso como qualquer outra pessoa, tentando utilizá-las de uma forma que não me leve à loucura ou me faça perder totalmente a noção de privacidade. Não tenho uma fantástica estratégia para as redes sociais, provavelmente é algo que poderia melhorar (risos). O Instagram, que se tornou mais popular, é um meio de comunicação visual e a música pop, em específico, sempre foi muito visual, além de musical, portanto vejo que, nos dias que correm, se dá muito mais ênfase ao aspeto visual. Vemos tratamentos visuais bastante interessantes a surgir e tratamentos de áudio menos interessantes a surgir. Enquanto audiófila, prefiro tratamentos de áudio mais interessantes. No que diz respeito ao Spotify, o que posso dizer sobre ele? Acho que podia ficar aqui uma hora inteira a falar.

Sente a pressão dos algoritmos e dos números de visualizações e audições?
Simplesmente não lido com isso. Se queres ser a maior estrela pop do mundo, tens de pensar nessas coisas, mas eu estou concentrada em algo bastante diferente. É uma coisa muito competitiva e percebo que as pessoas se sintam atraídas por ela mas não é para mim, não é isso que estou a fazer. Tento manter-me concentrada naquilo que sinto que é interessante, fora daquilo que o algoritmo me pede para fazer. E penso que haverá sempre pessoas interessadas em trabalho novo e interessante, não determinado pelo algoritmo. Mas claro que não vivo numa bolha e sei que nos é permitido fazer uma produção maior se tivermos as visualizações e os cliques. A melhor música não tem necessariamente as melhores oportunidades. É uma indústria complicada. O que tento fazer é criar trabalho que considero interessante, pertinente e crucial para o tempo e espaço em que me insiro e isso é tudo o que consigo fazer. Têm-me sido dadas oportunidades e privilégios incríveis para poder trabalhar com uma editora como a 4AD e com as pessoas com quem colaboro e aceder a palcos como o da Culturgest. Por vezes, pergunto-me se, enquanto esquisita que faz música de computador, teria as mesmas oportunidades se começasse agora… Tenho as minhas dúvidas. O cenário muda tão rapidamente e as pressões são tão diferentes. Sinto que já me consegui estabelecer, de certa forma, mas vejo que as pessoas mais jovens com quem trabalho a sofrerem pressões muito diferentes e a lidarem com coisasa que podem ser frustrantes.

A sua música parece centrada no futuro. Sente-se entusiasmada com o que está para vir, mesmo num momento em que há tanta coisa de errado a acontecer no mundo?
Penso que a minha música está muito situada no presente, mas como tanta música que é feita hoje é retro a minha parece futurista. É como a ficção científica: parece que é sobre o futuro mas é uma crítica social ao presente. Acho que isso também se aplica à minha música. Se tenho esperança no futuro? É um pau de dois bicos. No passado, fui descrita como uma otimista no que diz respeito à tecnologia, mas não me parece que isso seja inteiramente correto. Sou bastante crítica no que diz respeito à tecnologia e a estruturas de poder, só que tento não dar tanta importância a uma narrativa negra e distópica porque isso passa o poder para as mãos daqueles que já estão no controlo. É mais útil tentar trazer contranarrativas, novas fantasias, e através delas criar novas exigências para que consigamos ver-nos como seres humanos com algo a dizer em vez de simplesmente nos entregarmos a uma catarse niilista.

O que é que a cidade de Berlim lhe dá que os Estados Unidos não lhe conseguiram dar?
Bom. Houve um tempo em que andava a tentar encontrar o sítio perfeito para viver… É uma falácia. Nenhum sítio é perfeito. Tem mais a ver com apreciarmos um lugar por aquilo que ele é e aquilo que nos oferece em períodos diferentes da nossa vida. Foi incrível viver na Califórnia, porque para uma pessoa interessada em tecnologia era interessante estar numa parte do mundo tão desenvolvida em termos tecnológicos. Há tantas mentes brilhantes lá às quais podia ter acesso. Gostei muito de experienciar isso lá. Viver em Berlim… É uma cidade com uma história de contracultura tão importante, tem uma história geopolítica tão única e interessante, como se fosse um ponto de encontro de ideologias. E claro que há o alívio económico, porque é menos caro viver aqui, portanto tenho a possibilidade de dispor de espaço e tempo com as pessoas de que não conseguia necessariamente dispor noutros lugares. Berlim também é uma espécie de imã para músicos e artistas. É bom fazer parte de uma comunidade. Em Los Angeles o foco é a indústria do entretenimento, Berlim tem uma história artística tão diversa… O teatro político radical, como o Berliner Ensemble, e a produção cultural são apoiados há muito tempo, o que apela mais ao meu interesse pessoal. Há uma combinação de artes diferentes, portanto gosto de estar aqui. Mas também tenho a possibilidade de viajar muito.

O que quer da sua música hoje?
Compor é uma coisa estranha, algo que tens de fazer se o fizeres (risos). Não sei como dizer isto de outra forma. Mesmo que seja doloroso às vezes e muito enervante, se tiveres esse impulso é algo que vais fazer, aconteça o que acontecer. É um desejo que está lá e mesmo que as pessoas não ouvissem a minha música eu fá-la-ia na mesma, porque é algo que sinto que tenho de fazer. Sinto-me muito sortuda pelo facto de as pessoas me ouvirem. O que quero dela? Não sei. Quero sentir-me realizada em termos criativos, quero aquele sentido de comunidade, continuar a desafiar-me intelectualmente e ter a possibilidade de criar uma ligação com as pessoas através dela.