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David Bowie

Barry Marsden

A morte vende. Mas não estará o negócio David Bowie a ir longe demais?

Os mais arreigados fãs de David Bowie tiveram em 2019 de despender mais de 600 euros para levar para casa tudo o que saiu para as lojas. Há uma razão para tamanha profusão de edições (16!) em apenas um ano - e tem mais a ver com negócio do que com arte

Os fãs mais dedicados de David Bowie tiveram um ano em cheio, e os mais completistas desse séquito poderão, caso as carteiras o tenham permitido, ter adicionado 16 novas edições às suas coleções. Desses 16 títulos lançados em 2019 (mais do que um por mês, portanto), vários são caixas ou edições de luxo - caso do recente Conversation Piece, objeto que se foca nos primórdios do desenvolvimento de David Bowie, entre 1968 e 1969, e que reúne maquetas caseiras, sessões da BBC, uma nova mistura de Space Oddity e mais algumas pontas soltas de um passado que parece já não esconder nenhum segredo.

A Parlophone, etiqueta da Warner que assume a curadoria do legado do artista mais camaleónico de todos os tempos, editou ainda durante o corrente ano as caixas Spying Through a Keyhole, Clareville Grove Demos e The Mercury Demos, todas em vinil, com material que surge agora integralmente reunido em Conversation Piece. Só nestas quatro caixas, todas disponíveis no nosso país, um fã terá que investir cerca de 285 euros se fizer questão de as incluir a todas no seu sapatinho este Natal.

Mas o tal admirador hardcore do artista que teve mais fases do que a lua poderá ter tido um 2019 bem mais dispendioso se por acaso tiver feito questão de levar para casa todas as edições especiais disponibilizadas este ano. Além dos títulos já citados, o presente calendário acomodou ainda, entre 15 de fevereiro e 15 de novembro (um espaço de 9 meses, portanto), o lançamento de edições remasterizadas de Never Let Me Down, Tonight e Let’s Dance em CD e vinil, dois duplos CDs ao vivo – Glass Spider (Live Montreal ’87) e Serious Moonlight (Live ’83) – edições picture disc do LP Pin Ups e dos singles “Boys Keep Swinging” e “DJ”, prensagem em vinil vermelho de Diamond Dogs, duplo single de vinil para “Space Oddity” por ocasião dos 50 anos do tema, duplo LP VH1 Storytellers e, finalmente, edição em CD e LP da nova mistura que Tony Visconti assinou este ano para o álbum Space Oddity. Ou seja, 16 títulos ao todo em 20 edições diferentes. Depois de tudo somado, conclui-se que a coleção Bowie integral de 2019 ultrapassa os 600 euros (mais 60 euros se um fã quiser mesmo adquirir não apenas as edições em vinil, mas também em CD dos álbuns remasterizados e da nova mistura de Space Oddity).

"Conversation Piece", de David Bowie

"Conversation Piece", de David Bowie

A gestão do fundo de catálogo de David Bowie após o seu desaparecimento em janeiro de 2016 reflete uma dinâmica muito particular da indústria que percebeu que ao Natal, que foi o tradicional balão de oxigénio que durante décadas serviu para salvar muitos anos contabilísticos de fluxos mais fracos, pode hoje adicionar oportunidades adicionais de faturação como o Record Store Day ou a tão propalada Black Friday. Se é verdade que é no streaming que hoje as maiores editoras recolhem a parte de leão dos seus dividendos, não é menos verdade que o mercado das edições físicas, sobretudo as de luxo, tem vindo igualmente a consolidar-se, sobretudo o das edições em vinil que ano após ano tem registado números suficientemente interessantes para que as grandes editoras continuem a dar-lhe atenção.

Haverá outra razão para a profusão de edições de David Bowie em 2019, sobretudo as mais luxuosas: é que ao lançar todas as maquetas e material raro de 1969 - e boa parte desse acervo já é bem conhecido dos fãs com espírito detetivesco mais pronunciado que poderão, por exemplo, ter adquirido essas gravações em bootlegs (edições “pirata” não autorizadas e portanto ilegais) nos anos 90 -, a Parlophone garante a manutenção dos direitos sobre essas versões durante pelo menos mais um par de décadas. Essa tem sido a motivação real por trás do mergulho nos arquivos mais obscuros de artistas como Bob Dylan, gente que gerou cultos suficientemente fortes para que os seus editores tenham a certeza que, a menos que limpem o pó às fitas arquivadas, editando-as e prolongando assim o copyright desse material, alguém tratará de os colocar no mercado assim que os direitos caiam no domínio público.

Jeff Rougvie, que produziu as reedições de Bowie na série Sound + Vision da Rykodisc nos anos 90 (e que tem um currículo que se estende a trabalho em edições de artistas como Big Star, Bootsy Collins, Elvis Costello, Devo, Galaxie 500 ou Jimi Hendrix, entre muitos outros), tem sido uma das vozes mais críticas da exploração do catálogo de David Bowie em edições de luxo, muitas vezes inacessíveis para a maior parte dos fãs. A edição de Mercury Demos, já este ano, foi duramente criticada nas comunidades online de fãs por se tratar, basicamente, de um LP apenas (embora embalado em caixa de luxo com material gráfico diverso) que chegou às lojas inicialmente com um preço de mais de 100 euros (custa 96 euros no site português da Fnac, por exemplo). Rougvie argumenta num longo texto publicado no seu site oficial que estas edições foram desenhadas especialmente para desencorajar o grosso dos fãs (já que o primeiro objetivo da editora será o prolongamento dos direitos, mantendo estas gravações longe do domínio público que daria azo a edições budget) e não necessariamente a sua ampla divulgação. “Ninguém quer que se ouça estas coisas”, escreve o produtor que garante que o interesse dos curadores do catálogo está em garantir que a maioria dos fãs continue a ouvir “os 5% da música que rendem 99% do dinheiro”

"Mercury Demos", de David Bowie

"Mercury Demos", de David Bowie

Seja qual for a motivação de quem este colocou todos estes títulos no mercado, para qualquer fã sério de David Bowie que entenda a sua carreira como um dos mais extraordinários feitos da era da pop, cada um destes objetos, sobretudo os que olham para os primórdios da sua carreira, tem bastos argumentos que justificam a sua aquisição. Spying Through a Keyhole, Clareville Grove Demos e The Mercury Demos são, de facto, apontadas para os mais fervorosos e completistas fãs de Bowie, mas surgem carregadas de razões que sustentam o seu acrescento às mais sérias coleções do génio: grafismos cuidados, profusão de documentação gráfica, textos de qualidade e, claro, música tratada corretamente em prensagens e masterizações de elevado rigor técnico, com restauros áudio que as colocam bem longe dos parâmetros duvidosos dos tais bootlegs dos anos 90. Não serão para todas as bolsas, é verdade, mas ainda bem que existem. E, claro, quem quiser arrumar o assunto de uma só vez e puder dispensar o charme das edições em vinil poderá optar por Conversation Piece (116 euros na Fnac), que arruma todas essas demos e a nova mistura de Tony Visconti de Space Oddity em 5 CDs e ainda acrescenta 12 faixas não disponíveis em nenhuma das caixas de vinil anteriores.

Sobre a nova mistura, Visconti, o produtor que melhor terá conhecido a visão de David Bowie, explicou que uma segunda tentativa garante sempre melhores resultados: “Foi tão bom encontrar pérolas de musicalidade agora que tive mais tempo para misturar desta segunda vez, um toque numa guitarra aqui, um berro de trombone ali, a voz de Marc Bolan num coro e mais detalhes em geral que descurámos naquele tempo, quando a editora nos deu apenas uma semana no máximo para misturar este álbum. E nesses detalhes encontra-se um David Bowie de 22 anos que em breve tomaria o mundo de assalto”.

A acompanhar essa redescoberta do passado com a perspetiva que só o tempo permite, há um espantoso livro de capa dura com 120 páginas com muitas imagens de memorabilia que estava na posse do manager Ken Pitt bem como fotos dos arquivos de Bowie da autoria de Ray Stevenson, Vernon Dewhurst, David Bebbington, Ken Pitt, Alec Byrne, Tony Visconti e Jojanneke Claasen. A isso juntam-se notas de Mark Adams, Tris Penna e Kevin Cann com valiosos contributos de “insiders” como George Underwood, Tony Visconti, Vernon Dewhurst, Dana Gillespie e John ‘Hutch’ Hutchinson, o que permite ao estudioso mais sério da obra de Bowie o acesso a preciosas memórias. Um nicho 'premium' na era do streaming.