Guitarra portuguesa, balanço africano e uma dedicatória emocionada. O triunfo de Slow J no Super Bock em Stock
24.11.2019 às 4h19
No palco do Coliseu dos Recreios, Slow J serviu, praticamente sozinho, um novo álbum que o confirma como uma das vozes mais seguras da música nacional
Desde que se estreou, em 2015, com "The Free Food Tape", Slow J tem vindo a defender uma visão muito própria do hip-hop. Vê-lo mostrar, num Coliseu cheio, que é capaz de dominar uma plateia totalmente sozinho durante mais de uma hora enquanto apresenta um álbum editado há uns curtos dois meses (de surpresa) não só é admirável como emocionante. O calor do público deslizou para cima do palco desde o início, com o rapper/cantor a demonstrar a sua satisfação com um sorriso de satisfação e alguma incredulidade.
'Também Sonhar', dueto com Sara Tavares que abre "You Are Forgiven", serve de arranque para uma atuação sem grandes artifícios que colocou a tónica nas rimas seguras e confessionais de um músico que não se deixa fechar numa gaveta. Se 'FAM', também apresentada no início, com a ajuda de Papillon, nos empurra para os sons quentes de África, o sofrido 'Lágrimas', momentos mais tarde, puxa-nos para a improbabilidade de um dueto de guitarras, com Francis Dale e o "meu primeiro professor de música" Nuno Cacho (na guitarra portuguesa).
“Muito obrigado Coliseu. É mesmo um prazer estar aqui com vocês para apresentar o meu álbum. Queria agradecer a todas as pessoas que participaram nele e a vocês por me deixarem fazer a minha música como eu gosto”. A densidade das novas composições - as confissões sufocantes de 'Teu Eternamente', as interrogações de 'Onde É que Estás?' e o existencialismo de 'Silêncio' não são para encarar de ânimo leve - é colocada em contraponto com temas mais rasgados de registos anteriores, como 'Arte' ("eu queria ser como os grandes cantores"), uma magnífica 'Às Vezes', com a sua batida cortante, ou mesmo o single suave que gravou em parceria com Richie Campbell, 'Water'.
É a voz densa, muitas vezes intransponível, de J que guia o público por um labirinto de sons e palavras, mas no meio da escuridão o músico vai incentivando o público a seguir os seus sonhos. "Passamos por momentos difíceis mas devemos continuar a perseguir os nossos sonhos. Acreditem em vocês, que vale a pena", atira, depois de 'Muros' o levar a uma pausa para dedicar a atuação ao avô Augusto, que morreu este ano, ao filho (que herdou o nome do avô) e à avó, que estava na sala a assistir ao concerto.
O encore começou intempestivo com 'Comida', com rimas cuspidas em todas as direções, mas a noite só terminaria depois de o músico se sentar na extremidade do palco para servir, em registo íntimo, um "velhinho" 'Cristalina' e, claro, 'Vida Boa', hino cantado em coro pelo público ("esta é mesmo a nossa última oportunidade") que resistiu até ao final à tentação de seguir viagem para outras salas do Super Bock em Stock. "Muito obrigado, Coliseu", despede-se, já fora de palco, bem perto dos fiéis admiradores.
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