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Os Ornatos Violeta em estúdio com Mário Barreiros (primeiro à direita), produtor de “O Monstro Precisa de Amigos”

“O Monstro Precisa de Amigos”, dos Ornatos Violeta, faz precisamente 20 anos. História do álbum que marcou os anos 90 e atravessou gerações

Um dos álbuns mais estimados da música em Portugal nos anos 90 celebra hoje o 20º aniversário com uma reedição especial acabada de chegar às lojas. Recuperamos a história do disco de 'Ouvi Dizer' e 'Capitão Romance'

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

“O Monstro Precisa de Amigos”, segundo e derradeiro álbum dos Ornatos Violeta, saiu há precisamente 20 anos.

A 22 de novembro de 1999, a banda do Porto apresentava o sucessor de “Cão!”, lançado dois anos antes.

Antecipado pelo single 'Ouvi Dizer' e produzido, tal como a estreia, por Mário Barreiros, “O Monstro Precisa de Amigos” tornaria mais populares os Ornatos Violeta, que no entanto se separariam, três anos mais tarde.

Em 2019, o quinteto está de volta aos palcos; depois de vários concertos nos últimos meses, a última data está marcada para o Campo Pequeno, em Lisboa, a 6 de dezembro.

Para assinalar o aniversário, chega hoje às lojas uma caixa especial de “O Monstro Precisa de Amigos”.

Com um artwork renovado, que reflete o olhar do designer (Koia Studio) sobre o universo da banda, esta caixa inclui o CD, de grafismo renovado, um vinil branco e uma cassete (formato em que a música dos Ornatos Violeta nunca tinha sido editado).

Hoje chegam também às lojas edições individuais, em vinil, de “O Monstro Precisa de Amigos” e “Cão!”, com o grafismo original.

Em setembro de 2015, a revista BLITZ incluía “O Monstro Precisa de Amigos” numa lista de melhores álbuns de sempre feitos no Porto.

Recorde aqui esse artigo.

“O Monstro Precisa de Amigos”

Reza a lenda que o título do segundo álbum dos Ornatos Violeta nasceu num sonho de Manel Cruz, voz escrita e cantada da banda do Porto. Ainda que o significado da frase, tal como o de tantos sonhos, nunca tenha sido totalmente decifrado ou revelado pelo músico, a escolha de “O Monstro Precisa de Amigos” para nome do disco apontava, desde logo, numa direção muito distinta da de “Cão!”, a estreia de Cruz, Peixe, Nuno Prata, Elísio Donas e Kinörm, dois anos antes.

Onde “Cão!era sexo e alguma fúria, humor desbragado e a vontade inigualável de dizer tudo pela primeira vez, de uma só vez, “O Monstro…” revelava, em consonância com a sua inspiração onírica, uma faceta mais nebulosa e introvertida, menos sôfrega e juvenil. Dos pontos cardeais de “Cão!” – Violent Femmes e Red Wing Mosquito Stings, segundo os próprios autores, sempre no altar; os Red Hot Chili Peppers por perto, espreitando naquele funk-rock ginasticado mas assaz personalizado – os Ornatos Violeta dão em 1999 um salto de elegância felina, aterrando num planeta algo diferente. 'Tanque', primeira canção do disco, surpreende desde logo pela atmosfera carregada, algo monolítica, e pelo uso de programações, algo que se repete, mais à frente, na imponente 'Coisas', uma das composições mais buriladas da banda.

Desde sempre um ponto importante na construção de uma relação entre os Ornatos Violeta e os seus fãs, as letras de Manel Cruz mantêm-se pessoais e singulares, versando sentimentos universais (amor, perda, traição – em entrevistas, a banda fala mesmo em “dor de corno”, e é provável que a experiência que os cinco encetaram, de viverem juntos na mesma casa durante alguns meses até à inevitável saturação, tenha determinado parcialmente o ambiente por vezes sombrio do disco). Contudo, e por comparação com os tratados de “Cão!” (dono de algumas das letras mais longas e intricadas, ainda que informais, do rock português), a prosa de Manel Cruz perde algum fôlego narrativo para ganhar um impacto mais transversal.

“O Monstro Precisa de Amigos” saiu a 22 de novembro de 1999

“O Monstro Precisa de Amigos” saiu a 22 de novembro de 1999

'Ouvi Dizer', o primeiro single, era um êxito à espera de acontecer. À época da edição, não foi além de algum airplay radiofónico, ajudando a banda a conhecer uma maior popularidade, visível na maior afluência aos concertos. Anos mais tarde, e por vias travessas, acabou por catapultar os Ornatos Violeta para uma popularidade “póstuma”, a par de outros pontas-de-lança de’ “O Monstro…”, como 'Chaga' e 'Dia Mau', usados na banda-sonora de uma série televisiva. “Antes de [o 'Ouvi Dizer'] ter nome dizíamos entre nós que era a que tinha um arranjo tipo Roberto Carlos”, contavam em 1999, ano de edição do álbum, ao jornal Expresso. O humor que a banda sempre prezara, e cuja extinção precipitaria o “encerramento de atividades”, permitiu, em 'Ouvi Dizer«, que os Ornatos assumissem o gosto por um certo “nacional cançonetismo”, que a presença de Vítor Espadinha, declamando de forma imponente e sem ironias o monólogo final, ajudava a encarnar.

No final de 2011, na entrevista em que pela primeira vez abordou a possibilidade de um ou mais “concertos de celebração”, Manel Cruz admitia que, na era d’ “O Monstro…”, acreditava que os Ornatos ainda não tinham atingido uma identidade una. “Nesse disco, não achava que os Ornatos já tivessem uma identidade”, disse. “Achava que ainda estávamos na procura, embora formalmente já tivéssemos maior coerência”.

Desde sempre abertos a experiências estilísticas que os fizeram, ao longe de dez anos, 'petiscar' dos pratos do psicadelismo, da pop-cabaré, do rock mais épico e da balada sentida e escorreita, os portuenses continuavam, ao segundo álbum, a atirar em várias direções. 'Chaga', uma das canções mais diretas e infalíveis da banda, nascida a partir de um riff de guitarra de Peixe, é um momento sem paralelo na obra violeta – ainda que “O Monstro…” albergue no seu seio uma “gémea falsa” desta descarga elétrica com letra sentimental, 'Nuvem'. Quer uma quer outra cumpririam, de certa forma, a sua promessa nos concertos de 2012, mostrando uma insuspeita força rock incapaz de ofuscar a força das palavras – mais humildes que no fogoso “Cão!”, invariavelmente sentidas e candidatas, como poucas vezes terá acontecido no pop-rock português, a enfeitar cadernos distraídos e muros de cidades desertas.

Não se haviam eclipsado os Ornatos mais sanguíneos, que nos palcos, desde sempre, faziam de cada concerto uma ocasião de festa: 'Dia Mau', descrita pelo baterista Kinörm como um “fado punk”, recupera, também, a paixão pelo ska numa cadência de corridinho irresistível; 'O.M.E.M.' e 'Pára de Olhar Para Mim' são Ornatos no seu mais teatral e catártico.. Mas, por oposição à euforia fluorescente de “Cão!”, “O Monstro…” pintava-se, no geral, com cores mais suaves e meditativas. “OK Computer”, a obra-prima dos Radiohead que definiu a década de 90, saíra há dois anos e há algo da banda de Thom Yorke na languidez de 'Notícias do Fundo' e na carta de intenções, sem filtros sarcáticos nem pressa de chegar ao fim, de 'Para Nunca Mais Menti'». A dupla 'Deixa Morrer' e 'Fim da Canção', por seu turno, estabelecia-se discretamente no cantinho das melodias mais felizes da banda. Mas talvez não haja momento capaz de definir melhor o estado de graça dos Ornatos, n’ “O Monstro…”, que «Capitão Romance»: a música que esteve para não entrar no disco e que, mesmo com a participação algo alienígena do herói do grupo, Gordon Gano, congrega em tons lusófonos (Cabo Verde, Brasil) e até mediterrânicos um sentimento indizível de saudade e nostalgia. Até hoje, soa-nos a uma banda que, sem querer, tocou no seu próprio âmago – e a seguir acabou, como qualquer sonho bom.

Ornatos Violeta
O Monstro Precisa de Amigos
Editado a 22 de novembro de 1999

Alinhamento:

Tanque
Chaga
Dia Mau
Para Nunca Mais Mentir
Ouvi Dizer
Capitão Romance
Pára de Olhar Para Mim
O.M.E.M
Coisas
Nuvem
Deixa Morrer
Notícias do Fundo
Fim da Canção