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José Mário Branco

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Músicos e companheiros despedem-se de José Mário Branco. “Ter trabalhado com ele foi a coisa mais importante que me aconteceu”

Um dos nomes maiores da música portuguesa dos últimos 50 anos, morreu esta terça-feira, aos 77 anos. As reações, como a de Camané, sucedem-se

O país acordou esta terça-feira com a notícia da morte de José Mário Branco, músico, autor, poeta, produtor e um dos nomes mais importantes da música portuguesa dos últimos 50 anos. As reações ao desaparecimento físico do artista não se fizeram esperar. E foi exatamente aí que David Ferreira, antigo editor de José Mário Branco, colocou o tom.

“É um artista que continua por todo o lado. A morte física choca, mas nós continuamos a vê-lo por todo o lado”, disse David Ferreira à RTP, acrescentando a importância do produtor no início da carreira de Sérgio Godinho e nos anos mais marcantes de Zeca Afonso. Na fase final da carreira, lembra David Ferreira, o “papel importantíssimo [que teve] no fado: é ele que traz uma nova visão do que o fado poderia ser”.

Dessa última fase é Camané a principal testemunha. A maior parte da discografia do fadista foi produzida por José Mário Branco. Foi por isso um Camané emocionado que reagiu à notícia, em direto para a RTP3. Ter colaborado com o músico “foi a coisa mais importante que me aconteceu”. “Era um artista fantástico, muito para além de um artista de intervenção.” Como produtor, prossegue Camané, “era extraordinário, de bom gosto e de respeito pela estética musical”. O fadista disse ter aprendido muito com José Mário Branco, destacando desses ensinamentos “a importância da palavra, da poesia. Era um fora de série.”

Pouco depois, Camané falou também à SIC sobre o desaparecimento do produtor e amigo.

“Teve exigência e rigor em tudo onde pôs a mão”

Luís Represas foi outro dos músicos tocados pelo génio de José Mário Branco. “Tinha sempre um cunho de exigência e rigor em tudo onde pôs a mão”, lembrou, também em direto para a RTP 3. O artista destaca o “exemplo de coerência em relação ao que pensava como músico e cidadão” como marca de água da carreira de José Mário Branco. “Preservo muito essa memória daqueles que, antes e depois do 25 de Abril, fizeram com que a sua música transmitisse ideias e conceitos políticos, sociais e estéticos.”

Como produtor, “fez parte de uma série de discos que nos abalaram e nos fizeram abrir a pestana. É isso que devemos preservar. É o acervo que deixa e que que não pode ficar eclipsado.”

Dentro desse leque de artistas está também Janita Salomé. Ainda à RTP 3: “deixa um legado que vai ser sempre referência. O país deve imenso ao Zé Mário Branco, não só enquanto músico. Enriqueceu o trabalho de muitos colegas dele. Enriqueceu a música portuguesa e isso ficará para sempre.”

“Morreu um amigo”

No Instagram, a rapper Capicua escreveu: “Que possa sempre honrar o seu exemplo. Não esquecendo nunca que a música não é só estética, e muito menos técnica, porque a ética é a sua dimensão mais importante. Que pena nunca o ter conhecido pessoalmente para lhe agradecer. Para lhe dizer que o primeiro CD que tive era dele (oferecido pelo meu pai). Para lhe dizer como cresci com a sua voz, acreditando que a 'Ronda do Soldadinho' era música para crianças. E para lhe dizer que uma das coisas que mais me orgulha na minha cidade é ter feito nascer um tipo com a sua fibra! Já liguei ao meu Pai. Morreu um amigo. Um abraço à sua família!”.

Por seu turno, Legendary Tiger Man escreveu: “Nunca nos cruzámos, e foste dos primeiros músicos portugueses que me tocou no coração, adolescente, sedento de justiça e contestação. E a tua música foi ficando, ao longo dos anos, sempre”.

Adolfo Luxúria Canibal, dos Mão Morta, lamentou hoje a morte do “amigo” José Mário Branco, “alguém de quem gostava muito”. “Estou em estado de choque. É um amigo que se perde”, disse, emocionado.

Também o escritor Valter Hugo Mãe dedicou algumas palavras a José Mário Branco: “Que insuportável notícia, a da morte de José Mário Branco. Toda a música portuguesa empalidece. Que génio perdemos agora. Que tristeza esta porcaria chamada morte”.

Também emocionada, a cantora Cristina Branco falou num panorama musical português mais pobre a partir de hoje. “A forma como ele ensina a dar importância às palavras é absolutamente única.”

“Mudam-se os tempo, mudam-se as vontades", citou o apresentador Jorge Gabriel, ao passo que o jornalista Daniel Oliveira partilhou um e-mail que José Mário Branco lhe enviou em 2010, com a versão correta do seu clássico, 'FMI'.

Hélio Morais, dos Linda Martini e PAUS, louvou ainda o facto de José Mário Branco ter autorizado, em 2006, que os Linda Martini usassem “um pedaço de uma obra maior ['FMI'] numa música nossa, 'Partir Para Ficar'” e Pedro da Silva Martins (Deolinda) afirmou que, nas conversas que teve com o autor, aprendeu muito sobre “música e o seu fundamento. Recordo uma fase em que ele, convalescente (creio que de uma intervenção cirúrgica), com muita dificuldade em sentar-se e levantar-se, agarrava uma melodia da nossa conversa e levantava-se, ágil, desenhando a melodia no ar, como se naquele momento nada mais pesasse, nada mais doesse, nada mais interessasse. Deve ter sido incrível a melodia que o levou hoje. Adeus, mestre”.

André Henriques, seu companheiro nos Linda Martini, fez também o seguinte post no Instagram:

Desde miúdo que este disco ['FMI] me fascinava. Na capa um homem de ar zangado, microfone em riste, cabelo desgrenhado e bigode farto. Depois o autocolante que o selava e onde se lia 'por determinação do autor fica proibida a audição pública parcial ou total desta obra'. Era um disco proibido, perigoso. Um disco tão visceral que me fazia tremer a cada audição. E apesar de não ter guitarras eléctricas nem bateria nem baixo era o disco mais rock que os meus pais tinham lá em casa. Depois as perguntas que me meteu na boca sobre o 25 de Abril, a censura, a PIDE, o PREC, o FMI e sobre aquela intensidade desarmante em cada palavra. Em 2006 tive uma alegria enorme quando consentiu que utilizássemos um sample desse disco numa canção de Linda Martini. Ainda hoje é das coisas de que mais me orgulho na música. Obrigado por me mostrares como se faz”.

Luís Nunes, o músico e produtor mais conhecido como Benjamim, escreveu apenas “Até sempre, José Mário”, partilhando no seu Instagram a capa de “Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades”.

Por seu turno, Luís Severo, que sempre mostrou a sua admiração por José Mário Branco, escreveu um artigo para o Público no qual confessa ter-se interessado pelas suas canções “ainda [em] criança, muito antes de as compreender”. As virtudes de José Mário Branco enquanto intérprete, compositor e letrista são elogiadas pelo cantor-compositor, que revela ainda que foi nas canções do portuense que teve o seu “primeiro contacto com a história recente da Palestina”.

“Ao chegar à idade adulta, quando me interessei por música popular portuguesa, comecei a ouvir o nosso cancioneiro alentejano, minhoto e, principalmente, o transmontano. Percebi que muito daquilo já me soava familiar. Era mais uma vez o Zé Mário, que já me tinha apresentado aquele mundo sob a sua incrível e legítima apropriação”, diz ainda Luís Severo, mencionando também o talento de José Mário Branco como produtor e renovador do fado.

“[Foi] alguém a quem evitaria mostrar a minha música por saber que ao pé da sua seria sempre uma valente porcaria, alguém com quem morreria de medo de ter uma interacção que implicasse falar e não apenas ouvir”, remata Luís Severo, no Público.

No Facebook, Jorge Cruz escreveu: “Em 1971, aquilo a que se chamou a Nova Canção Portuguesa deu um salto de gigante em direcção ao futuro. Os álbuns 'Cantigas Do Maio' de José Afonso, 'Os Sobreviventes' de Sérgio Godinho e 'Mudam-se Os Tempos, Mudam-se As Vontades' tinham um director musical em comum, José Mário Branco, e apontavam diversos caminhos para o que veio a ser uma explosão de ideias musicais e ideológicas nos anos que se seguiram. Para mim, pensar no Zé Mário não é pensar na revolução dos cravos. É pensar em revolução cultural. É pensar em trabalho e luta pela dignificação da canção portuguesa. É pensar num exemplo pioneiro e numa inspiração constante para continuar a avançar sem medo, a sonhar com ilusão e a arrojar com método, seriedade e dedicação. Obrigado Zé Mário. Hoje fazemos luto. Mas aquilo que nos ofereceste, continuaremos a tentar aprender e a fazer questão de celebrar”.