Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Notícias

José Mário Branco. Como definir o futuro da música portuguesa com uma mão cheia de álbuns

A sua marca, patente também em álbuns de José Afonso e Sérgio Godinho, definiu o futuro da música em Portugal logo nos alvores da década de 70

É impossível distinguir a vida e a obra de José Mário Branco da luta política. O espírito de missão percorre, como a seiva, todas as canções que escreveu, cantou, arranjou ou produziu. Mas é, com toda a certeza, um erro avaliar ou somente escutar a sua música à luz das convicções políticas e ideológicas que tão denodadamente defendeu.

A prova é simples: há seis álbuns decisivos na música portuguesa, todos eles gravados na primeira metade dos anos 1970 que têm a marca indelével de José Mário Branco. Não é irrevelante - antes pelo contrário - terem sido escritos, cantados e gravados imediatamente antes do 25 de Abril de 1974 mas é muito mais do que uma coincidência o facto de "Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades" (1971), "Os Sobreviventes" (Sérgio Godinho, 1971), "Cantigas do Maio" (José Afonso, 1971), "Margem de Certa Maneira" (1973)", "Venham Mais Cinco" (José Afonso, 1973) terem sido produzidos ou sido gravados sob a direção musical de José Mário Branco.

Não aconteceu por cá. Mas o estrépito não deixou de se fazer sentir. Para o caso, é necessário sublinhar que essa meia dúzia de álbuns foi gravada na sua maioria em França, mercê do exílio a que se votaram os seus protagonistas. E logo no estúdio Strawberry, que como diz a propaganda desses discos, já haviam sido utilizados pelos Pink Floyd. Não é um pormenor.

Ao lado de uma "raiva a nascer nos dentes" era necessária precisão técnica e logística. Da mesma forma que era indispensável o saber fazer. José Afonso era possuidor, tal como Sérgio Godinho, de um talento musical inato. Mas a forma de arranjar instrumentalmente as canções e gravá-las era sabedoria que cabia a José Mário Branco. No tempo em que despontava uma nova geração de escritores de canções portugueses, era Branco quem sabia gravar discos e, já agora, verter para fita magnética o imenso talento que possuíam.

José Mário Branco foi o orquestrador de uma nova música portuguesa, que viria a destronar o nacional cançonetismo da rádio e da televisão nos meses seguintes à publicação desta mão cheia de discos. E assim foi porque além, de entre todos, ele ser aquele que mais à vontade se encontrava na direção musical - a forma como relata a gravação de "Grândola Vila Morena" mostra que estava bastante à frente do seu tempo, em termos nacionais ou mesmo internacionais - também era detentor de faro apurado no que respeitava ao impacto da música no público.

Não que tivesse forjado êxitos comerciais, mas sabia como marcar um tempo e um lugar como poucos, como aliás revela a constante reapropriação dos seus temas, cujo exemplo maior será "FMI". É que além dessa sabedoria que lhe permitia passar a vinilo a música de maneira inteira, clara e limpa, também a sabia contextualizar e ir buscar à raíz da cultura portuguesa as sementes do seu futuro. Camões, Natália, O'Neill e muitos outros forneceram letras, tal como os mondadeiros lhe deram a ideia do arrastar o passo no saibro que se ouve em "Grândola" ou a tradição musical portuguesa lhe fornecia pistas, fossem elas malhões, chulas, o cante alentejano ou os coros revolucionários.

Por isso ele terá sido dos primeiros entre a esquerda portuguesa a entender, depois do 25 de Abril, a vertente profundamente anti-liberal do fado, recuperando-o para um campo político que até há ainda bem pouco tempo o abominava. Apesar de ter nascido contra a burguesia e crescido nos circuitos anarco-sindicalistas, a apropriação do fado pelo Estado Novo criou urticária na esquerda portuguesa. Ele soube sará-la pois não só gravou a "dita "canção nacional" no seu reportório como a relançou em "Um Homem no Pais" (1983) de Carlos do Carmo e, sobretudo, a partir de 1995, em toda a discografia de Camané, essencial para o fim do estigma fadista.

Para isso era necessário saber ouvir mas, acima de tudo, saber fazer ouvir. E assim José Mário Branco mudou a música que ainda hoje ouvimos.