Perfil

Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

Notícias

Adolfo Luxúria Canibal e José Mário Branco

Rita Carmo (foto José Mário Branco)

“É como se fosse um gancho na queixada do ouvinte”. Adolfo Luxúria Canibal escreveu sobre José Mário Branco, na BLITZ, em 2008

As palavras que o líder dos Mão Morta dedicou na BLITZ a José Mário Branco, em 2008. O autor de 'FMI' faleceu esta terça-feira, 19 de novembro, aos 77 anos

Adolfo Luxúria Canibal

Lembro-me perfeitamente da primeira vez que ouvi algo de José Mário Branco, sabendo que era José Mário Branco ou identificando José Mário Branco enquanto autor - foi numa versão dos Corpo Diplomático do tema 'Engrenagem', que eles fizeram sair na face B do single [Festa do Bruno], na altura do primeiro e único álbum da banda, por volta de 1979. Antes disso, devo ter ouvido o José Mário Branco no meio de outros cantores de intervenção, nomeadamente em 1974 e 1975, mas não tenho a certeza. Dessa época, lembro-me [melhor] do Sérgio Godinho e do Zeca Afonso. Posteriormente, já nos anos 1980, vi-o ao vivo na Aula Magna, e gostei [tanto] que acabei por ir comprar os discos mais antigos, os primeiros, como o Ser Solidário e o FMI. Lembro-me da primeira vez que ouvi o FMI e de ter ficado perfeitamente siderado. [Julgo que essa] foi a primeira canção que ouvi mesmo interessado pelo José Mário Branco; foi a que mais me tocou e me fez ir procurar o resto.

O que mais me impressionou foi a força da interpretação, que é a característica mais relevante e mais galvanizante do José Mário Branco. Mais do que a voz, mais do que a capacidade de compositor, é a capacidade de interpretação. A forma como ele entra dentro do tema, como entra dentro da canção, e a partilha. Não há dúvida que puxa logo, é como se fosse um gancho na queixada do ouvinte e o puxasse para a canção; não lhe dá qualquer hipótese de fuga.

É evidente que partilho com o José Mário Branco muita coisa [a nível ideológico], mas quando fui descobrir a sua música, nomeadamente os discos mais antigos, havia muito texto que eu considerava perfeitamente datado e no qual nem sequer me revia. No 'FMI', por exemplo, há coisas nas quais, se analisar friamente, sem ser emotivamente, não me revejo propriamente mas mais importante do que isso é a forma como o texto, a ideia, o raciocínio e a emoção de uma pessoa nos é transmitida. E aí, independentemente de eu me rever ou não a 100 por cento, fico completamente solidário ao escutar os discos dele.

O 'FMI', de certo modo, tinha a ver com um contexto muito concreto. Mas se o assunto é contextual e datado, a forma como é abordado, com o José Mário Branco a extravasar do assunto para se passar a uma coisa mais geral, a um estado de espírito que é permanente relativamente ao nosso país e à maneira como os portugueses vivem o seu país, [faz com que seja] perfeitamente literário. Sai do contexto local, do contexto datado, para se tornar universal e intemporal.

Não vejo influências de José Mário Branco nos Mão Morta ou em mim, mas acho que há pontos de comunhão, nomeadamente essa tal entrega. Mas a entrega aconteceu por outros motivos, paralelamente, até porque quando os Mão Morta começaram, nem sequer conhecia particularmente a música do José Mário Branco. Não há uma influência directa, evidente e necessária, mas há essa empatia e essa particularidade das semelhanças, na entrega e na forma como se interpreta as canções.

O José Mário Branco tem um percurso que não é propriamente um percurso de carreira, até porque se divide em várias actividades. Eu acho-o exemplar, como percurso individual de coerência e de entrega, não só política mas [entrega] às suas ideias e à sua forma de ver o mundo e o país. De contribuir para mudar o que acha que está mal, dentro das actividades que pratica, quer seja na música, no teatro, na composição... Há várias actividades onde ele exerce mister que não têm necessariamente a ver com uma carreira. Mas independentemente de não ser uma carreira, é exemplar.

A escolher um momento do seu percurso seria o FMI, apesar de o Ser Solidário pela forma como foi lançado, e por ter correspondido ao momento em que vi o primeiro espectáculo do José Mário Branco, o tal que me fez procurar outras músicas ser também significativo para mim. Eu poria o Ser Solidário e o FMI como os dois grandes momentos, para mim, não da carreira mas do percurso musical do José Mário Branco.

Não posso dizer que sou amigo do José Mário Branco, porque não tenho essa intimidade, mas é uma pessoa conhecida, que respeito muito e com quem me dou muito bem. E tenho muita honra e prazer nisso!

Publicado originalmente na BLITZ de março de 2008