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Rita Carmo

De Marcelo a Louçã, as reações à morte de José Mário Branco. Para ele “a morte nunca existirá”

Portugal acordou com a notícia da morte de José Mário Branco, aos 77 anos. Da cultura à política, ninguém o esquece

Um dos primeiros políticos a reagir à morte de José Mário Branco foi, sem surpresa, Marcelo Rebelo de Sousa. A figura mais alta da nação admitiu condecorar postumamente o artista, se a família deste concordar. “Tentei em vida, mas ele foi sempre reticente”, disse. O Presidente da República acrescentou que “o José Mário Branco era inconfundível, na sua voz e na sua independência”.

Seguiu-se outro presidente, o da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues, que se manifestou consternado com a notícia da morte do artista. Considerando José Mário Branco um “antifascista”, um dos maiores nomes da canção portuguesa e uma “figura ímpar da música de intervenção”, assinalou “um percurso que começou muito antes do 25 de Abril e que durou até aos dias de hoje. E que durará, na verdade, enquanto tivermos memória”.

“José Mário Branco foi uma figura ímpar da música de intervenção, da canção de Abril, tendo a sua música sido rica no recurso a vários géneros musicais, do cancioneiro popular à clássica, passando pelo rock, o jazz ou a música francesa”, escreve ainda Ferro Rodrigues na mensagem de pesar enviada à agência Lusa. Politicamente, destaca em José Mário Branco um “antifascista, perseguido pela PIDE” e a “intervenção cívica empenhada e atividade política” que o levaram ao exílio em França, “onde, apesar da distância, nunca deixou de aspirar e lutar pelo fim do regime”.

“Regressou a Portugal em 1974, com a liberdade, para ajudar a construir um País mais justo, propósito que nunca deixou de o inquietar. Hoje é um dia de enorme tristeza pessoal. À família (nomeadamente aos filhos e netos) e aos muitos amigos, quero transmitir, em meu nome e em nome da Assembleia da República, a expressão do mais sentido pesar, assim como reconhecer a importância da obra que José Mário Branco deixou ao país, bem como o seu exemplo de inconformismo, coerência e rebeldia”, acrescentou Ferro Rodrigues.

“Figura cimeira” da cultura portuguesa, diz António Costa

O primeiro-ministro António Costa reagiu à morte de José Mário Branco “com profunda tristeza”, lembrando o primeiro disco do artista, “Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades” (1971), que “foi prenúncio da revolução de Abril e de uma obra empenhada e combativa”. A mensagem de António Costa foi publicada na rede social Twitter.

“A erudição musical de José Mário Branco acolheu vários géneros, sem hierarquias, e estendeu-se a outros artistas, com quem colaborou, de José Afonso a fadistas como Carlos do Carmo ou Camané. Não esqueceremos a sua música, a sua inquietação”, completou o primeiro-ministro português.

Para figuras como José Mário Branco, “a morte nunca existirá”

Também os partidos políticos têm reagido à perda. O Livre chama-lhe um “incansável lutador antifascista”, que “começou o seu ativismo ainda adolescente, tendo mais tarde sido refratário da guerra colonial. Preferiu lutar noutro campo, o da música, afirmando a cantiga como uma arma. Em França, onde se refugiou do regime ditatorial português, José Mário Branco mobilizou os portugueses e os franceses para a causa democrática portuguesa.”

O partido da deputada Joacine Moreira afirma que o autor “cantou poetas e sonhos portugueses” e lembra que “a sua intervenção artística não se ficou pela música, tendo também dedicado a sua mestria ao cinema e ao teatro. Musicou Brecht e a sua peça “A Mãe”, onde pediu um casaco novo e não remendos e côdeas”, lê-se na nota de pesar enviada pelo partido.

O PCP recordou José Mário Branco como "um cantor que deu voz à luta", além do seu papel como divulgador cultural e personalidade de imensa "generosidade artística".

"É um cantor que deu voz à luta, às inquietações dos trabalhadores e do povo. Veio do Porto e, para nós, continuará sempre mais vivo do que morto", disse a deputada comunista Ana Mesquita, em declarações à Agência Lusa.

Já o Bloco de Esquerda (BE) salienta a passagem do artista pelo partido, que apoiou à nascença (1999) e “do qual foi dirigente, tendo integrado a Mesa Nacional”. Antes disso, lembra o BE, “no final de 74, foi fundador da UDP”, um dos partidos na origem do Bloco e no qual José Mário Branco também esteve anos depois, em 1980, como membro eleito Conselho Nacional. O Bloco reforça a ação artística de Branco, que “refletiu a desilusão da esquerda revolucionária no pós-PREC” e que “acompanhou a luta da esquerda, pela democracia e contra a injustiça”.

Outro dos fundadores do Bloco, Francisco Louçã escolheu o Facebook para prestar homenagem ao autor, lembrando os tempos em que os dois se cruzaram e fizeram amigos e camaradas de percurso.

Ainda no mesmo partido, a deputada Joana Mortágua usou o Twitter e, como tal, foi parca em palavras.

Não muito diferente, a líder do Bloco, Catarina Martins, escolheu uma banda sonora para acompanhar a mensagem.

Inês de Medeiros, presidente da Câmara Municipal de Almada, optou pelas fotografias, juntando três nomes que considera “pais espirituais” da sua geração.

Também no Facebook, Daniel Oliveira recordou uma mensagem enviada pelo próprio José Mário Branco e um texto que publicou num blogue já desaparecido. “Com saudades imensas do Zé Mário, já.”

“Resistir, em Portugal, terá sempre um disco [seu] como banda sonora”

A ministra da Cultura, Graça Fonseca, lamentou a morte do músico numa mensagem publicada na conta da tutela no Twitter. “[A] Ministra da Cultura lamenta profundamente a morte de José Mário Branco, nome maior da música portuguesa. Voz de luta e de intervenção, o seu legado é intemporal e é património coletivo”, lê-se.

Na mensagem, a ministra acrescenta que “resistir, em Portugal, terá sempre um disco [de José Mário Branco] como banda sonora”.

A esta publicação junta-se a nota de pesar enviada pelo próprio Ministério da Cultura às redações. Fazendo uma breve biografia do artista, a nota diz que “José Mário Branco escreveu e marcou a história contemporânea portuguesa, com voz ativa e braço erguido por um Portugal melhor, mais alerta, mais capaz, mais solidário”. Repete ainda a frase da banda sonora, não sem acrescentar que o legado de Branco “alcança um patamar intemporal”.

“A nossa responsabilidade, agora, é honrá-lo continuando a dar voz à sua inquietação”, lê-se ainda no comunicado que termina com as condolências à família e aos amigos.

O Partido Ecologista Os Verdes também emitiu um comunicado, em que fala num “profundo pesar” e num “homem comprometido com a construção de um mundo melhor”. “A sua obra não se cingiu à música de intervenção, tocou desde a música de intervenção e a canção de Abril até ao fado. O Mundo da Cultura fica mais pobre.”