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Rita Carmo

Os Tindersticks desligaram computador, desligaram telemóveis e tocaram música: “Quis fazer algo humano”. A entrevista com Stuart Staples

Stuart Staples veio a Lisboa de comboio para falar sobre “No Treasure But Hope”, o novo disco dos Tindersticks. A sua nova vida na ilha grega de Ítaca, o Brexit e a “relação difícil” com as palavras foram alguns dos temas da conversa

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Rita Carmo

Rita Carmo

Fotojornalista

Chegou a Santa Apolónia às sete da manhã, vindo de Madrid. A viagem de dez horas adequa-se ao seu gosto por andar de comboio e ao pouco amor por aeroportos. “O aeroporto de Lisboa até é capaz de ser um dos mais fáceis de usar mas, no geral, é bom poder evitar aeroportos, se quisermos ir a algum lado”, disse-nos, num hotel no Bairro Alto. Conversa com um ícone inglês com raízes em França e uma nova morada em Ítaca.

Veio a Portugal para falar do novo álbum dos Tindersticks. Está entusiasmado com estas novas canções?
Confio nelas! Não diria que estou entusiasmado, mas confio nelas. Esse é o sentimento essencial. O álbum foi feito tão rapidamente que ainda estou a aprender coisas sobre ele. Ainda é um enigma para mim, ainda estou a tentar percebê-lo. Mas tenho a certeza que, dentro do disco, há algo de muito forte.

É esse o critério para decidir que canções gravar? Confiar nelas?
Sem dúvida. As novas canções nasceram na mesma sala, com nós os cinco. Talvez tenhamos começado com 20 ideias, e gradualmente algumas delas ganharam força e conquistaram o nosso entusiasmo; foi assim que o álbum foi nascendo. E nós somos o nosso público mais difícil. Se uma ideia não estiver a resultar para todos nós, é porque não é suficientemente forte. Acho que as canções selecionaram-se a si mesmas.

Depois de algum tempo em França, agora vive em Ítaca, a ilha grega...
O meu estúdio é em França, por isso nunca poderei deixar o país, mas temos passado cada vez mais tempo em Ítaca, sim.

Como é que foram lá parar?
Há 25 anos que temos uma relação com Ítaca. Tenho um amigo que é meio itacense e que há 25 anos nos convidou para irmos lá. Desde então, temos sido amigos.

Como é um dia típico em Ítaca?
Não me parece que haja um dia típico, mas todos os dias acabam com um mergulho no mar, o que é ótimo! Ter isso na nossa vida é maravilhoso. (risos)

Numa das últimas vezes que falámos, disse que se sentia mais britânico desde que tinha saído do Reino Unido. E agora?
Serei sempre britânico, fui criado de uma certa forma. E sim, sinto. Mas ao mesmo tempo sinto-me cada vez mais europeu. Fico muito feliz por ser britânico e europeu. Para mim, faz todo o sentido estar aqui sentado contigo, uma pessoa portuguesa e europeia… Sinto-me britânico, mas não no sentido de pensar que a Grã Bretanha está separada de tudo o resto.

Qual a sua opinião sobre o Brexit?
Consigo perceber porque é que acontece, mas o que me preocupa mais é o facto de ser parte de uma tendência, ou de um momento, de uma época na Europa em que parece que cada pessoa se está a retirar para o seu cantinho. Isso preocupa-me e o Brexit é apenas uma parte disso - e está a acontecer em todo o lado. Talvez aqui em Portugal ou em Espanha menos, porque têm memórias tão recentes [da ditadura]. Mas essas lições não existem em Inglaterra.

E na Grécia?
Penso que a Grécia é diferente porque, tal como Portugal, sofreram tanto com a crise financeira que tiveram de confrontar imensas coisas na sua sociedade, nessa altura. Agora, existe um sentimento, não propriamente avassalador, de que se está a virar uma página e há alguma esperança de que venha a haver progressos. Para mim, tem tudo a ver com as pessoas. E este álbum tem a ver com pessoas, com seres humanos que sofrem nestas circunstâncias. Acaba por ser político, mas apenas pela forma como se liga às pessoas e aos seus sentimentos do dia-a-dia. Os gregos sofreram muito, tal como vocês.

Tindersticks no Coliseu de Lisboa, em 2013

Tindersticks no Coliseu de Lisboa, em 2013

Rita Carmo

O título, “No Treasure But Hope”, é um título otimista?
Otimista não diria, mas não é totalmente desprovido de otimismo. A esperança é a última a morrer. Há sempre esperança. É algo a que nos agarramos.

Escreveu o refrão de 'Pinky in the Daylight' depois de uma viagem de barco, de saída de Ítaca. A Grécia está a deixar a música dos Tindersticks mais solar?
Essa canção para mim é muito especial, porque surgiu-me num momento de satisfação. Nunca escrevo canções nesses momentos. Quando as canções me surgem, ou as aceito ou não. E se as aceitar, tenho de ser verdadeiro para com elas. Independentemente do ambiente ou do seu assunto, é disso que se trata. 'Pinky in the Daylight' nasceu de um momento de felicidade. Escrevi-a ao sol e isso está presente na canção.

Até diz que é a sua primeira canção de amor de sempre...
E é! No sentido em que é uma canção que não tem dúvidas. Para mim, é o momento mais alegre e com mais esperança do disco. Já 'No Treasure But Hope', a última canção, é um momento desolado. Esses são os dois extremos do disco, entre os quais existem as outras canções. A primeira canção, 'For the Beauty', fala da relação entre beleza e dor, neste mundo. E de como aprendemos a viver com a dor que temos, aprendemos a lidar com ela no quotidiano, mas a beleza será sempre algo que não podemos simplesmente aceitar ou tomar por garantido. Penso que esse é o tema mais constante do disco: o espaço entre a beleza e a dor.

E a 'See My Girls', uma das canções mais curiosas do disco, como nasceu?
É uma canção com uma longa viagem. Começou como uma ideia pequenina, há muito tempo, de um tipo que estava numa ilha remota, com mulheres a enviarem-lhe momentos de todo o mundo… talvez me tenha identificado com isso, porque as mulheres que conheço e que amo enfrentam o mundo de frente, como a Claire Denis ou a Lhasa ou a Suzanne, a minha mulher, e a minha filha… Eu sou o tipo que fica sentado, à espera de receber essa informação do mundo. Quis divertir-me com essa ideia. Mas, à medida que a canção cresceu, as partes do mundo que elas lhe mandavam precisaram de ficar mais negras, porque o mundo já não era um sítio tão espetacular para enviar aqueles recados, e a ilha talvez já não fosse tão bonita, o mar já não era tão idílico… uma data de sentimentos mais negros contaminaram a canção, e quando isso aconteceu, a canção estava acabada. (risos)

Por falar em longas viagens, no próximo ano vão estar em digressão de janeiro a maio. Ainda retira prazer de andar tanto tempo na estrada?
Estou ansioso por estar com o resto da banda, por tocarmos música juntos. Mas sim, olho para essa lista e fico: eh lá. (risos)

São muitas datas!
Sim, mas ao mesmo tempo é uma oportunidade para tocar as pessoas, emocioná-las e conversar com elas. E isso, por si só, é algo que precisamos de fazer. Nós fazemos música, gravamos álbuns, e é tudo muito abstrato. Só quando tocamos para outras pessoas, com outras pessoas, é que há algum tipo de verdade no que fazemos.

Stuart Staples, Tindersticks
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Numa entrevista que fizemos a Adrianne Lenker, dos Big Thief, ela disse que se sente uma mera portadora das canções que escreve, isto a propósito de quem lhe diz que a sua música é uma parte importante da sua vida. Também tem esse feedback dos seus fãs?
Sim, contam-nos muitas histórias de casamento e de funerais. Mas concordo, em parte, com o que ela diz, não num sentido místico, de ser um portador de canções... mas penso que, para eu entrar em palco e cantar uma canção, tem de haver algo maior do que a ideia de mim a cantar canções, em palco. Caso contrário, não conseguiria fazê-lo. Aprendi que o que preciso de retirar disto é uma ligação. Pessoas a fazer coisas, juntas numa sala, a criar uma coisa poderosa. Enquanto músico, songwriter ou cantor, conseguir fazer isso é muito animador; faz com que encontres o teu espaço no mundo e passes a ter um propósito.

Ainda por cima tem canções novas para mostrar, não está só a apresentar coisas antigas...
Acho que não conseguiríamos existir, se assim fosse. Não é que eu não queira tocar as canções antigas, mas não quero viver delas.

Este é o álbum de estúdio número 12 para os Tindersticks. Quando começaram a banda, alguma vez imaginou que estaria aqui agora, a falar disso?
A última vez que vim de Madrid para Lisboa de comboio foi em 1993! Até acho que era o mesmo comboio. (risos)

É um comboio velho, então...
E já na altura era velho! (risos) Mas é bem poético. Para mim, tudo passou sempre por escrever uma canção, aprender alguma coisa, escrever outra… são mil passos pequeninos, e não grandes saltos. Embora tenha havido alguns saltos, e muito excitantes, mas [o nosso trajeto] tem passado mais por aprender com o que fazemos, consecutivamente. E quando olhamos para trás, pensamos: uau, já passou tanto tempo!

E até costuma dizer que esta última década tem sido a melhor dos Tindersticks...
Para mim foi a melhor época desta banda. A mais criativa e recompensadora, sem dúvida.

Como foi trabalhar com o ator Robert Pattinson na banda-sonora do filme “High Life”?
Foi ótimo! Eu sabia que ele cantava, mas não sabia como. Mas quando me sentei ao piano com o Dan [McKinna, baixista] a trabalhar na canção 'Willow', ela foi ficando muito forte. Não quis dizer à produção do filme ou à Claire [Denis] que tinha escrito uma canção para o filme, mas sabia que tinha algo a ver com a personagem principal, e já tinha falado com o Robert, porque comecei a fazer a música para o filme antes de ele começar a ser feito. Então disse-lhe: “escrevi uma canção, queres tentar cantá-la? Se gostares e eu também, damos à Claire”. Os timings foram um pouco mais complicados do que isto, mas lá nos juntámos em Londres, fomos para estúdio e assim que ele abriu a boca para cantar o primeiro verso, vi logo que ia correr bem.

A voz dele adapta-se bem à canção...
Parecia completa. Canto essa canção ao vivo e adoro-a, mas naquela gravação… parecia completa. Geralmente os atores querem fazer as coisas bem.

Este disco não tem convidados?
Não! Somos só nós os cinco. É muito ao vivo… eu quis fazer algo que fosse humano. Desligámos os computadores, desligámos os telefones, tocámos música e aproveitámos o momento de ligação uns com os outros e as nossas ideias. Este disco é isso. Quis fazer música assim.

Para terminar, o silêncio continua a ser essencial para si?
Ah, claro! As pessoas acham que, como sou cantor, é muito fácil cantar. Mas, para mim, mais importante do que a primeira vez que cantei foi a primeira vez que tive um gravador de dois decks, onde podia gravar coisas de uma cassete para a outra e fazer os meus sons. A voz era só uma coisa que eu tinha. Pouco a pouco, aprendi a gostar dela, a ter cuidado com ela e a dar-lhe espaço. Mas, acima de tudo, eu imagino música. Imagino música e a minha voz está lá. E na minha imaginação está também o som das coisas, a integridade desse som, o que significa, o que ele tem a dizer. Assim sendo, o som da bateria, para mim, é tão importante como o som da minha voz. Faz parte de quem eu sou.

Dantes nem anotava as letras das canções, não era? Tinha-as só na cabeça...

Pois não. As canções sempre estiveram na minha cabeça. Se as pessoas alguma vez me compararem ao Leonard Cohen ou Nick Cave, não faz sentido. No caso deles, boa parte da inspiração vem de escrever letras, e isso para mim não dá. Eu procuro palavras como parte de um puzzle, para embrulhar o sentimento que procuro alcançar. As palavras para mim são muito difíceis, nunca tive uma relação fácil com elas.

“No Treasure But Hope”, o novo disco dos Tindersticks, já está nas lojas. No próximo ano, a banda faz uma pequena digressão por Portugal: datas aqui.