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Ramones ao vivo em 1977

Adrian Boot

O melhor álbum ao vivo de todos os tempos faz 40 anos. A história de “It’s Alive”, a maior rajada punk dos Ramones

A 31 de dezembro de 1977, em Londres, os Ramones davam o maior concerto da sua carreira até então, agarrando o futuro com unhas e dentes perante uma plateia carregada de notáveis, dos Sex Pistols a... Elton John. Saíram do palco com um álbum ao vivo inesquecível (agora reeditado) e uma vontade enorme de comer hambúrgueres. Ed Stasium, o produtor, lembra-se de tudo e conta-nos como foi carregar no REC

É possível dizer que o futuro dos Ramones começou em Londres, na noite de 31 de dezembro de 1977. Quando chegaram ao Rainbow Theatre, situado em Finsbury Park, Johnny, Dee Dee, Tommy e Joey vinham “oleados” com três apresentações prévias em Birmingham, Stoke-On-Trent e Aylesbury, e assinaram uma histórica performance que resultou num dos mais celebrados álbuns ao vivo de todos os tempos. Como Live at the Apollo de James Brown, Absolutely Live dos Doors ou David Live de Bowie, também este registo tem o condão de reter a imagem de uma banda no olho do furacão, quando a lenda ainda não superava a realidade e quando o mundo ainda estava à espera de os descobrir.

Editado em Portugal em 1979, bem como em muitos outros pontos do mundo – da Nova Zelândia à Alemanha, da Escandinávia a Itália e de Espanha ao Reino Unido – este álbum assumiu a condição de artefacto identitário de toda uma geração, permitindo, muito antes das digressões globais, um vislumbre do desempenho de palco de uma banda que se sentia estar a acender o rastilho de uma grande explosão. E com reportório recolhido nos três álbuns que os rapazes de Forest Hills editaram de rajada entre 1976 e 1977 – a saber Ramones, Leave Home e Rocket to Russia – este It’s Alive funcionava como uma espécie de Greatest Hits daquele que é, muito provavelmente, o melhor período da banda de “Blitzkrieg Bop” ou “Rockaway Beach”. Estranhamente, este clássico dos registos de palco só mereceria edição nos Estados Unidos, em CD, em 1995, obrigando os punks originais de Nova Iorque a adquirir importações europeias se quisessem experimentar em casa um pouco do banho de energia que periodicamente poderiam levar em lugares como o CBGB.

Agora, 40 anos após o lançamento original em 1979, It’s Alive merece finalmente uma edição definitiva que inclui, além do registo original da noite de 31 de dezembro no Rainbow Theatre, os concertos anteriores no clube Top Rank de Birmingham (28 de dezembro), no Victoria Hall de Stoke-on-Trent (a 29 de dezembro) e no clube Friars de Aylsbury (30 de dezembro). Nessa curta digressão de 1977, precisamente na época em que o punk assumia o ataque no complexo tabuleiro em que se jogava o futuro do rock, Ed Stasium foi incumbido de gravar os quatro concertos e de produzir o que viria a ser It’s Alive, missão que o conduziu depois à assinatura da produção de Road to Ruin, álbum que os Ramones editaram logo em 1978, antes ainda do seu primeiro registo ao vivo ter visto a luz do dia na Europa e noutros mercados.

Stasium, que haveria de produzir bandas como os Talking Heads, Motörhead, Smithereens ou Misfits, entre tantas outras, falou em exclusivo à BLITZ, recordou a aventura londrina dos Ramones – em que Elton John teve um curioso, embora discreto, papel – e revelou o que encontrou nas fitas que não ouvia há quatro décadas.

Ramones, "It's Alive", dezembro de 1977

Ramones, "It's Alive", dezembro de 1977

Adrian Boot

“Tirando o CBGB, não havia uma cena na América. Os Ramones só pegaram muitos anos mais tarde e hoje, por estranho que pareça, são mais populares do que nunca”

Como é que as fitas soavam, todos estes anos depois?
Eu tinha-me esquecido delas completamente. As gravações tiveram lugar em vésperas do ano novo de 1978 e só pegámos nas fitas para misturar e fazer o que viria a ser o It’s Alive na Primavera de 1978, antes das gravações do Road to Ruin terem começado. A verdade é que nunca mais pensei nestas gravações até que a ideia de fazer esta edição especial apareceu. É que mesmo em 1978 nós concentrámos as atenções na gravação da noite de 31 de Dezembro de 1977, o concerto do Rainbow Theatre, em Londres, mas antes desse concerto gravámos mais datas e penso que nunca tinha ouvido essas fitas. E não é que soavam ótimas, tantos anos depois? Gravámos os Ramones no que eu penso ter sido o seu auge em termos de performance ao vivo, com um alinhamento que era uma espécie de Greatest Hits. Eles tocaram muito bem, a gravação para o que se podia fazer na época está excelente.

Que surpresas é que teve?
Na verdade, fui surpreendido pela solidez da performance da banda, com a velocidade dos temas a manter-se de concerto para concerto. Gravámos quatro noites consecutivas e os três concertos antes do Rainbow mostravam consistência, qualidade. Eu vi o concerto dos Ramones a degradar-se ao longo dos anos, mas nesta fase eles estavam incríveis. Sim, há alguns pormenores, umas “escorregadelas”, pequenos saltos, mas a performance é de elevada qualidade, ainda assim. O alinhamento é basicamente o mesmo, de noite para noite, mas como as salas eram diferentes, cada um deles tem uma ressonância própria. O clube de Birmingham, o Top Rank, era pequeno e isso é fantástico, porque soa mesmo a clube pequeno, mas depois o concerto no Victoria Hall, em Stoke-On-Trent, já tem uma personalidade diferente, era um grande salão, com muito mais ambiência. E penso até que dos três concertos até agora inéditos, esse é o melhor. E depois o Friars, em Aylesbury, era outro clube, um pouco maior do que o Top Rank, e por isso cada um tinha uma vibração própria, e, claro, com públicos com respostas diferentes – da proximidade própria dos clubes mais pequenos, uma coisa mais visceral, e depois a sala grande, com a resposta da multidão bem mais amplificada.

Tinha ideia de que aqueles miúdos estavam a fazer história e a mudar a face da música para sempre?
(risos) Não, de forma alguma. Para mim, aquilo era apenas rock and roll. Estava consciente de que havia uma cena, mas nunca lhe prestei grande atenção. A minha vida girava em torno da atividade de fazer discos, de estar no estúdio. Gravar esta banda ao vivo foi uma experiência excitante, poder ver a reacção entusiástica do público aos concertos foi, de certa maneira, esclarecedor. Quando eles tocaram no Rainbow deu para perceber que eles eram enormes em Inglaterra, sobretudo tendo em conta que quando regressaram à América, em janeiro de 1978, voltaram a tocar em clubes à volta de Nova Iorque para 200 pessoas. Tirando o CBGB, não havia uma cena na América. Os Ramones só pegaram muitos anos mais tarde e hoje, por estranho que pareça, são mais populares do que alguma vez chegaram a ser, mas naquele tempo as coisas eram bem diferentes.

Viajou com a banda para esses quatro concertos, partilhou o autocarro com eles. Ainda se lembra de algumas peripécias?
(risos) Oh boy... Foi há muito tempo... Aquilo nem era bem um tour bus a sério com as comodidades modernas que hoje esses autocarros têm. Era mais um autocarro de excursões, como o autocarro da "Magical Mystery Tour" dos Beatles, com janelas grandes, nem sequer tinha beliches, e cada um parecia ter um lugar fixo... Hotel, viagem, montagem, concerto, e de novo para o hotel... foi isso.

Nada de televisores a serem atirados de janelas de hotel?
Só me lembro de me baterem à porta de manhã e chamarem-me para sair, nada de histórias malucas. Mas o concerto no Rainbow foi glorioso. Aí sim, há pelo menos uma história engraçada. A sala estava cheia até às costuras, e toda a gente que era gente parecia estar lá, até o Elton John, os tipos dos Sex Pistols e dos Clash, o Joe Jackson. O manager do Elton John, John Reid, estava a organizar uma festa de fim-de-ano, no seu restaurante, e nós fomos todos convidados. Entrámos todos para uma grande limusine, eu, os Ramones, o Monte Melnick, tour manager, a Linda [Stein, manager dos Ramones, com Danny Fields] e o Seymour Stein [presidente da Sire Records], e o condutor, por alguma razão, achou que seria boa ideia irmos para o restaurante por Trafalgar Square. Na noite de fim-de-ano, em Londres, Trafalgar Square é como Times Square, em Nova Iorque, e está cheia de gente. Devemos ter demorado mais de uma hora e meia a chegar ao restaurante, deviam ser umas duas da manhã. O Johnny fartou-se de protestar... Mas quando chegámos, o Johnny tinha hambúrgueres à espera – a Linda Stein tinha pedido ao John Reid para os preparar: “certifica-te que há hambúrgueres e ketchup porque o Johnny odeia comida indiana e parece que nesta digressão não havia mais nada para comer”. Quando chegámos, tudo correu bem, porque o Johnny conseguiu finalmente comer um bom hambúrguer.

Não imaginaria que alguém como o Elton John estivesse interessado em ver uma banda como os Ramones nesta altura...
O Elton era muito amigo da Linda Stein, de há muito tempo. Muito amigo da Linda e do Seymour, e como estavam todos em Londres, numa noite de fim de ano, eles convidaram-no. E ele adorou, divertiu-se muito.

O Jimi Hendrix foi apenas um dos grandes que passou pelo Rainbow. Os Ramones não estavam habituados a este tipo de sala, pois não?
De maneira nenhuma. Na época eles só sabiam o que era tocar em pequenos clubes na zona de Nova Iorque. Da primeira vez que foram a Londres tocaram no Roundhouse, em 1976, mas nada que se comparasse a esta noite, com milhares de fãs entusiasmados. Foi incrível.

Essa energia sente-se na gravação, claro. Quando estava no camião, de auscultadores postos, a escutar a performance, teve logo a certeza que esta seria uma noite para a história?
Percebi que estava a ser um belo concerto. Só que não lhe medi o alcance, não. Tinha que estar preocupado com as máquinas de 24 pistas, tínhamos que ter sempre uma a postos quando era necessário trocar de bobines e às vezes isso significava ficar com o princípio de uma canção numa bobine e o fim noutra...

As bobines só gravavam uns 15 minutos, certo?
Sim, corriam a 30 ips (inches per second, polegadas por segundo), davam para 15 ou 16 minutos, e quando uma fita estava prestes a acabar era preciso começar a outra máquina, havia muitas coisas envolvidas. Depois era necessário colar os takes, fazer novas bobines. E, na verdade, quando recebi as fitas, elas não vinham por uma ordem específica, pelo que foi necessário fazer muita montagem, muita edição. Não se nota que a gravação foi feita em duas máquinas diferentes.

It’s Alive nunca chegou a ser editado em vinil nos Estados Unidos. Em Portugal, para uma certa geração, parecia impossível entrar no quarto de um adolescente e não encontrar uma cópia desse álbum, normalmente já muito maltratada de tanto ser escutada. Porque é que não foi, à época (1979), editado na América?
Não faço ideia. Nós fizemos o It’s Alive antes de termos começado o Road to Ruin, em finais de maio. O disco saiu na Europa e eu fiquei à espera que fosse editado nos Estados Unidos também, mas não chegou a acontecer. Não penso que essa tenha sido uma decisão do Seymour Stein, o patrão da Sire. Na altura a distribuição pertencia à Warner Brothers e eu penso que terão sido os poderes mais elevados a tomar essa decisão, talvez não acreditassem que os Ramones eram suficientemente populares para justificarem um álbum duplo ao vivo. Penso que só comprei o meu exemplar quando regressei à Europa, julgo que em 1980: sei que tenho a edição inglesa e penso que a edição alemã também. Mas mais vale tarde do que nunca e finalmente o disco tem a edição que merece nos Estados Unidos, não só em CD, mas também em vinil, numa prensagem fantástica. O Greg Calbi do Sterling Sound fez uma óptima masterização, com o Joe Nino-Hernes a carimbar o corte de acetato, também no Sterling Sound. Quando eu recebi os test pressings para aprovação, o som estava espantoso, muito melhor do que qualquer uma das prensagens originais de 1979.

Os Ramones no final dos anos 70: Johnny, Joey, Tommy e Dee Dee. Em 2019, nenhum permanece vivo

Os Ramones no final dos anos 70: Johnny, Joey, Tommy e Dee Dee. Em 2019, nenhum permanece vivo

Norman Seeff

“Metal, rock, punk... os Ramones são os padrinhos disso tudo”

Produziu os Ramones em 1979, de novo em 1984 e outra vez nos anos 90. Tem uma perspectiva muito singular da carreira desta banda. O que acha da posição que a história do rock lhe reservou?
Eles, muito simplesmente, revitalizaram o rock and roll. Na época tínhamos os Fleetwood Mac, os Eagles, os Yes, todo o prog rock, o rock meloso da Califórnia, e os 'irmãos' de Forest Hills apareceram e deram-nos a todos um choque de rock and roll a sério uma vez mais. Era rock que os miúdos podiam aspirar a tocar e eles tinham um incrível sentido de humor. Claro que poucos perceberam isso na altura e há que fazer uma vénia ao Seymour Stein porque mesmo não estando eles a vender discos, isso não os impediu de continuarem a gravar, porque havia quem acreditasse neles. E, claro, o tempo deu-lhe razão porque hoje não seria possível ter bandas como os Blink-182 ou os Green Day, que são completamente influenciadas pelos Ramones. E até bandas como os Metallica reconhecem essa influência, o Kirk Hammett nunca escondeu isso. Metal, rock, punk... os Ramones são os padrinhos disso tudo.

Trabalhou com outra grande banda, os Talking Heads, que surgiu no mesmo circuito do CBGB. Em estúdio, uma banda completamente diferente dos Ramones...
Sim, formas muito diferentes de trabalhar, personalidades muito diferentes também. Os Talking Heads eram muito mais... Qual a palavra?...

Artísticos...?
Os Ramones eram mais street, mais mentalidade operária, ao passo que os Talking Heads vinham da escola de arte, eram de outro mundo, não posso dizer que fossem mais educados, mas certamente mais sofisticados. Os Ramones saíram do liceu e frequentaram a escola de artes para aí durante um minuto, tal como eu, e talvez por isso eu me tenha ligado logo a eles, porque vínhamos de uma mesma realidade social, éramos influenciados pelas mesmas bandas. Eu não era grande músico e por isso compreendia-os muito bem.

Graças à tecnologia, muitos miúdos estão a gravar-se a si mesmos, nos seus quartos, a misturarem tudo no computador e a mostrar singles online, nas plataformas que permitem uploads directos, como o Soundcloud. Acha que os produtores da velha escola são uma espécie ameaçada?
Espero que não. Espero que continue a haver lugar para gente como eu. Eu continuo a trabalhar e a fazer álbuns, acabo de fazer um disco muito bom com uma banda chamada The Empty Hearts, com malta que conheço há muitos anos: o Clem Burke que era dos Blondie é o baterista e eu devo conhecê-lo para aí desde 1976 ou 1977, dos tempos do CBGB. O Elliot Easton dos Cars toca guitarra, o Wally Palmer dos Romantics é o vocalista principal e segundo guitarrista, e o Andy Babiuk dos Chesterfield Kings, que é o autor do gear book dos Stones e do equivalente dos Beatles, é o baixista. Juntos fizemos um álbum novo – acabámos de o masterizar na semana passada – e ontem estive a ouvi-lo e soa como um verdadeiro álbum, com 13 canções, com o flow certo. Não sinto nada que esse formato tenha morrido e que tenha deixado de haver espaço para o conceito clássico de produção. Faço singles de vez em quando, é verdade, mas trabalho sobretudo em álbuns. Fiz um álbum com os Long Ryders também, por exemplo, e em vinil teve que ter uma edição tripla por ser tão longo, com prensagem a 45 rotações para ter um som fantástico. Não me sinto mesmo parte de uma espécie ameaçada.

Abraçou as possibilidades digitais de gravação?
Faço tudo de forma digital desde 2001, sou um adepto do Pro Tools. Dessa forma posso ter um estúdio em casa. Conheço gente que tem SSLs e Studers em casa, mas só a manutenção de um estúdio assim levar-me-ia à ruína. É tudo muito caro. O meu estúdio digital é muito mais económico e permite-me ter outro tipo de ferramentas, faço tudo in the box, porque os plug ins hoje são simplesmente incríveis, conseguem emular todos os equipamentos clássicos. Por isso posso dizer que sou muito feliz no mundo digital. Costumo dizer que pelos meus cálculos devo ter gasto uns três anos da minha vida só a fazer fast forward e rewind nas máquinas analógicas de fita, a mudar bobines. E nunca vou recuperar esses três anos.

Sabe se algum dos seus masters se perdeu no incêndio dos estúdios da Universal, em 2008?
Penso que não, pelo menos não fui informado de nada. Estes projetos que tenho feito, box sets como esta dos Ramones, acredito que seja a última vez... Estas são as edições definitivas, é muito importante preservar estes momentos da história. Penso que em breve vamos fazer o End of the Century [álbum de 1980 dos Ramones, produzido por Phil Spector] e não sei se avançaremos mais depois disso.