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Carlos do Carmo fotografado em 2013

RITA CARMO

Carlos do Carmo: “Cantei no mundo todo e nunca deixei que Portugal fosse tratado como país menor. Não tenho medo de dizer: sou um patriota”

Despede-se, esta noite, dos palcos, mas há 5 anos já nos falava, desassombradamente, da perspectiva de parar. Fê-lo numa entrevista que voltamos a publicar na íntegra. “Se eu, Carlos do Carmo, tivesse 28 anos nos dias de hoje, ficavam malucos com o meu repertório. Mas com a minha idade não vou andar armado em parvo todos os dias”

Em novembro de 2014, na edição especial comemorativa dos 30 anos da fundação do jornal BLITZ, falámos com Carlos do Carmo sobre os assuntos que mais caros são a um dos vultos mais importantes da música portuguesa, então com 75 anos de vida: o fado, Portugal, as pessoas – a vida ao mais ínfimo pormenor. Publicamos de novo na íntegra uma entrevista em que Carlos do Carmos reflete sobre o futuro e assume, sem rodeios, que o seu trabalho está feito.

Que tempo é o de hoje, no fado?
Estamos com vários tipos de fadistas: gente que mexe nas coisas, agitas as águas, e gente que segue uma linha tradicional. Tudo é bem-vindo. Foi sempre assim. Mas um dia destes, já não nos meus dias, há de aparecer o Piazzolla ou o Paco de Lucía do fado. E aí vamos ter o pré e o pós. Eu não creio que isto passe por um intérprete, tem de passar com um instrumentista. O Piazzolla, como os seus estudos em Paris e a sua renovação, levou a que hoje falemos de uma sonoridade pré-Piazzolla e uma sonoridade pós-Piazzolla. Hoje ouço com muito mais encanto o Gardel do que ouvia antes, porque antes só me davam aquilo. Eu tenho a certeza de que quando isto acontecer no fado, será muito mais interessante ouvir Marceneiro. Igual no flamenco: o Paco de Lucía deu a volta ao texto e hoje ouve-se um tradicional de flamenco e tem outro encanto. Porquê? Porque há um contraste. A espaços, houve avanços: quando a Amália avança com o Alain Oulman e diria mesmo, antes, com o Frederico Valério, um homem que esteve na Broadway.

O próprio Carlos do Carmo vai abrindo horizontes...
Passe a imodéstia, diria que “Um Homem na Cidade” é outro salto. Eu tive o privilégio, desde criança, de conhecer os craques todos – os que fizeram o edifício. Mas nessa altura estavam velhinhos ou tinham morrido. Eu, que sou um intérprete, estava completamente sem fornecedores! (risos). E questionei-me: “agora onde é que eu vou buscar isto?”. Eu e o Ary [dos Santos] lembrámo-nos de começar a chamar os miúdos: o [Fernando] Tordo, o Paulo [de Carvalho], além de contemporâneos meus como o [José Luís] Tinoco ou o António Vitorino de Almeida – um do jazz, outro da clássica, outro do pop – e começámos a ver que havia ali muito talento para fazer fado. O resto é uma história conhecida. Há quatro ou cinco anos, fiz a mesma coisa em relação à poesia. A malta nova gosta muito de falar comigo, vem aqui a casa e trocamos impressões – faço como fazia o Marceneiro comigo, “o que eu sei, eu digo” –, comecei a ouvi-los a dizer que não se arranjava ninguém que escreva poesia. “Vocês estão malucos, um país de poetas e não se arranja ninguém que escreva poesia para cantar o fado?”, perguntei eu. Meti-me em brios e convidei para jantar a Maria do Rosário Pedreira, o Fernando Pinto do Amaral, o Nuno Júdice, o Júlio Pomar, que andava a fazer fados desvairadamente… “Têm aqui quatro hipóteses”. Os miúdos começaram a pedir-lhes fados. Há uma coisa que vou dizer publicamente pela primeira vez. Eu tenho imensa vontade [de trabalhar] com aquele rapaz dos Deolinda que compôs o “Desfado” para a Ana Moura [Pedro da Silva Martins]. É um tipo com muito talento! Aquela letra é a desmontagem total do fado, muito bem feita. Quando o encontrar vou perguntar-lhe: “você quer escrever uma coisa para mim? Gostaria muito”. Quem faz um fado destes tem muito talento, este fado é o passo em frente. Está lá tudo, bem feito, bem escrito, muito bem pensado. E atual, completamente atual. A arte não é uma coisa estática. Eu sou filho de uma das grandes fadistas [Lucília do Carmo], a minha mãe cantava o fado tradicional como pouca gente, mas então eu agora vou ficar a cantar os fados da minha mãe, de 1920, 30, 40?

Em 2004, lamentava que o fado não cantasse o Portugal de hoje, mas sim os dos anos 50 ou 60. Já não se pode dizer o mesmo...
Gostava de partilhar desse otimismo, mas há repertórios que têm pouco a ver com essa mudança. Esta coisa de ser velho está na cabeça de cada um. Há pessoas que são efetivamente novas, outras são irremediavelmente velhas. Se eu, Carlos do Carmo, tivesse 28 anos nos dias de hoje, ficavam malucos com o meu repertório. Eu andava aí com uma sonda e punha pauzinhos na engrenagem em todo o lado, mas com a minha idade não vou andar aqui armado em parvo todos os dias: já gravei com o Sassetti, com a Maria João Pires, já ajudei a que o fado fosse Património Imaterial da Humanidade, penso que já dei um razoável contributo. E vejo-o reconhecido – em vida, o que é muito bem. Embora, as minhas afirmações públicas fora do fado possam ser polémicas – sejam de teor social e político –, as pessoas foram reparando que eu nunca me servi disso para ter benesses ou cargos. Isso provoca uma assimilação dupla: o cantor e a pessoa, vai tudo junto. E isso é medido na rua porque as pessoas dirigem-se a mim para me dizer isso, é a minha bússola. Um episódio passado hoje: fui deixar o meu carro na revisão e vim a pé até casa, e uma senhora com um ar excelente, viu-me, parou, agarrou-me os braços e disse-me: “que maravilha vê-lo! Eu assisto aos seus concertos, mas gosto de si tanto como artista e como homem”. Uma senhora com um ar vibrante. Isto não é só uma questão de ego – dá um conforto e uma responsabilidade, usando linguagem fadista, do caraças! As pessoas seguiram-me fielmente, e o meu último disco, com os miúdos, foi disco de platina. Numa altura em que não se vendem discos…

Conhecer o fado é uma forma de libertá-lo?
Conhecendo aquilo que fiz ao longo da vida, é fácil antever qual é a minha resposta. Não estou a dizer com isto que sou um homem constante de ruturas, mas sou um homem constante de inquietação à volta do fado. Os fados tradicionais, da pesada, os fados 'a sério', eu tenho-os cantado e gravado. O ABC eu aprendi. E é natural que não me confine ao ABC. O estudo, a meu ver, é uma base sólida de conhecimento. É bom a gente saber porque é que canta o fado, de onde é que isto vem, como é que aconteceu, como se tornou possível, e quanto mais os historiadores e investigadores entram neste assunto, mais consistência tem o ser-se intérprete de fado quando se é 'à séria'.

O que é um intérprete 'à séria'?
O fado, na minha opinião, não dá para pessoas que andam a vender postas de bacalhau. É uma canção de muito desgaste, a gente tem três minutos para contar uma história. Mesmo. Aquela história tem de ser contada e cada palavra tem um peso, e a música é uma sonda. O fado é, para mim, uma coisa muito séria. Como tal, todo o trabalho é bem-vindo porque não se pense que o fado esgotou. A investigação não pára e nós vamos ainda ter grandes surpresas à volta do fado e da sua história. Hoje, qualquer jovem fadista que queira abraçar, cantar e interessar-se pelo fado, deve visitar o Museu do Fado. É a chave. Se passar ali uma semana, vai ficar com uma informação fantástica. Isto era impensável há dez anos. Há ali toda a informação: quem cantou, quem tocou, o quê e porquê. Esta tradição oral foi muito pesquisada, com a ajuda da 'tribo' do fado. Um rapaz que admiro muito, Ricardo Ribeiro, passou semanas dentro do Museu do Fado. Andou a estudar. Isso merece-me muito apreço, sem prejuízo da minha amizade pelo Camané ou pela Mariza. Alguém que chegou ali e como amador – no sentido de amar – foi saber como é.

Defende que “o fado é e será sempre um canto de minorias”. O que é que quer dizer, em concreto?
Acha que as canções do Brel foram de maiorias? Deixou de ter a densidade e a força? Eu ponho aqui um disco do Brel e é de uma atualidade esmagadora. Ele está a falar da vida e da morte. Há coisas que o maior elogio que se lhe podem fazer é dizer que são das minorias. Eu não estou a ver o fado a ser essa coisa da canção nacional; canção nacional é o hino! O fado é, talvez, a canção mais popular e que se projeta lá fora pela diferença – não estamos a copiar ninguém, estamos a dar qualquer coisa de nosso. Mas, efetivamente, é de minorias. Não se pensará certamente que o artista português que canta o fado, que toda a gente o conhece quando chega a França ou a Espanha. Só os interessados. E os interessados são uma maravilhosa minoria. Que compra discos, vai a concertos, que gosta. Nós não somos mainstream.

“Nunca subestimei Portugal, cantei em tudo o que era mundo e nunca permiti, em cima de um palco, que Portugal fosse tratado como um país menor. Não tenho medo da palavra: eu sou um patriota”

No início dos anos 90, deu um raspanete à sua filha Cila em direto na televisão. Teve conflitos ideológicos com a prole?
Não foi bem um raspanete, foi como que uma observação. Lembro-me como se fosse hoje. O Herman encontrou-me no Coliseu numa cerimónia. Eu tinha estado muito doente, estive à beira da morte por causa de três operações à aorta abdominal, sobrevivi e aparecia ali em público pela primeira vez com a Maria Judite [esposa]. O Herman diz-me assim: “Carlos, há uma coisa que te quero pedir. Vais reaparecer comigo”. E eu respondi-lhe: “Tu mandas. Quando eu estiver em forma, telefono-te e digo assim: 'quando quiseres, marca'”. Foi ao vivo, com a minha mulher a minha filha. Era para ser 10 minutos, acabou por se fazer 25. A conversa foi muito interessante e às tantas, como sempre, vem a questão social e política. A minha filha sempre foi assim… Aqui em casa, todos foram educados na democracia. Cada um vota no que quer, eu não faço perguntas, aqui não se impõe nada a ninguém – nem aos netos! À mesa somos 12 e é uma mesa democrática, toda a liberdade com toda a responsabilidade. A minha filha esqueceu-se de que não estávamos à mesa em casa; estávamos num programa de televisão visto por um milhão de pessoas e desata a mandar vir. E eu, “epá, isto está a complicar-se”. Então acalmei-a. Ela fez questão de vincar a personalidade ao dizer “eu não penso como o meu pai”. Isto tem a ver com quê? Com o facto de os meus filhos terem sido muito prejudicados pelas minhas opções políticas. Discriminados nas escolas, foram maltratados, são traumas que não se apagam. Hoje, passados estes anos todos e com netos de 20 anos, é diferente. Eu tive alguma coerência, não fiquei anquilosado no tempo, fechado em dogmas, estou atento a tudo o que se me cerca, e os meus filhos percebem isso. Mas há vinte anos ainda marcava pontos o lado negativo que estava dentro deles, porque passaram maus bocados. Perseguições, discriminações... “Ah, tu és Carminho, não és?”. Isto só num país que não tem chá democrático. Não havia escola. O Kant dizia há 300 anos que era preciso investir na educação. Eu agora leio as entrevistas que se dão nas eleições e “é preciso investir na educação”. Trezentos anos depois, descobrimos a pólvora. Existe algum povo livre, capaz de intervir no que quer que seja, sem ter uma base de educação cívica e e uma base cultural – não tenham medo da palavra! Não é obrigatório que seja uma coisa livresca, que seja universitária. Conhecimento! Ir ao teatro, ir ao cinema, ir a um concerto. Mas ouvir, saber ouvir. Não é estar de braços para o ar o tempo todos aos gritos, a ouvir porra nenhuma! Eu gosto de ouvir e a última vez que fui ver o Sting foi para ouvi-lo. Quando o gajo ao meu lado estava aos gritos eu disse-lhe: “desculpe lá, eu vim aqui para ouvir o Sting, não foi para o ouvir a si”. E o gajo olhou-me com aquele ar de “o velho, e tal”.

Politicamente falando, é reconhecidamente admirador de António Costa [então Presidente da Câmara de Lisboa, em vésperas de se tornar Secretário-Geral do Partido Socialista]...
Posso dizer publicamente, sem rodeios, que sou amigo pessoal do doutor António Costa. Tenho nele um amigo e um político de quem gosto, admiro e respeito.

Por que mudanças anseia?
Ainda em vida? Não se pense que eu vou cá estar muito mais anos…

Manoel de Oliveira ou Kirk Douglas são exemplos magníficos de longevidade...
Mas isso são casos. Eu sou um gajo todo marcado: tenho um pacemaker, seis anestesias gerais, uma tuberculose…

Quem diria que Keith Richards chegasse aos 70?
O Keith Richards é que tem um organismo à prova de bala! A minha lista telefónica é um obituário. Um gajo chega à minha idade e perdeu pelo caminho gente com 40, 50, 70 anos. Todos os dias há um amigo que tem um cancro, outro tem não sei quê.

Então, independentemente do otimismo face à sua esperança de vida, o que gostaria de ver mudado na sociedade?
O tempo que viva, eu já não sou capaz de desinserir Portugal de um plano maior. Falar isoladamente de Portugal é uma perda de tempo porque isto é um comboio com várias carruagens. Globalmente falando, se a malta não ganha juízo, qualquer dia não respira. Vale mesmo a pena estar a falar de Cultura, Arte ou Economia! Se a malta não respira, morre! O clima responde todos os dias. Por outro lado, se por acaso esta gente louca que nada tem a ver com o Islão e com a bondade de uma religião... A Igreja Católica teve a sinistra Inquisição e estes tipos que aparecem isolados… Mais: em vez de se respeitar o trabalho – você trabalha, tem um salário – há um gajo que num computador ganha 2 milhões de dólares. Transformaram isto num casino. O dinheiro fica concentrado em poucas mãos e aumenta-se gigantescamente a fila de pobres. Devíamos ter vergonha na cara do que se passa em África. O Velho Continente está triste, decadente, sem juízo, egoísta. Recuperando o raciocínio inicial, é isto: Portugal vai nesta carruagem. Nunca subestimei Portugal, cantei em tudo o que era mundo e nunca permiti, em cima de um palco, que Portugal fosse tratado como um país menor. Eu não tenho medo da palavra: eu sou um patriota. Gosto muito de Portugal, de ter nascido aqui, e acho que a minha terra tem potencialidades que estão todas por tratar.