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Gilles Bertin (à esquerda)

REMY GABALDA

Morreu Gilles Bertin, vocalista da banda punk francesa Camera Silens e antigo dono da loja de discos Torpedo em Lisboa

Há cerca de 30 anos, Gilles Bertin refugiou-se em Lisboa, depois de assaltar um banco em França. Em Portugal viveu dez anos e abriu uma loja de discos

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Gilles Bertin, antigo vocalista da banda de punk francesa Camera Silens, morreu ontem, 7 de novembro, aos 58 anos.

Além do seu percurso com os Camera Silens, que estiveram ativos entre 1981 e 1988, Gilles Bertin teve, em Portugal, uma loja de discos, a Torpedo.

O músico esteve também envolvido numa história rocambolesca, que em 2018 contou à BBC.

Há cerca de 30 anos, Gilles Bertin, então ainda vocalista dos Camera Silens, assaltou um banco em Toulouse, em França. Com os seus companheiros de banda, Bertin saiu do banco com 12 milhões de francos (dois milhões de euros) e conseguiu fugir às autoridades, acabando por refugiar-se em Portugal.

Outros dos seus companheiros foram detidos e outros ainda, com um historial de uso de drogas injetáveis, acabaram por sucumbir a doenças como a SIDA. Gilles Bertin viveu durante uma década em Lisboa, onde abriu uma loja de discos, a Torpedo - “tudo pago em dinheiro, claro”, escrevia em 2018 a BBC.

Ocasionalmente reconhecido por fãs franceses que visitavam a loja, o músico negou sempre a sua identidade e confessa que vivia em pânico de ser identificado e detido. Ao cabo de dez anos, mudou-se para Barcelona com a namorada espanhola, onde começou a trabalhar no bar da família da companheira, com quem viria a ter um filho.

Além da namorada, ninguém conhecia o passado de Gilles Bertin, e o seu paradeiro era um mistério para a sua família em França. O músico chegou mesmo a ser dado como morto.

Foi quando recorreu ao serviço nacional de saúde espanhol para tratar uma hepatite que quase o matou que Gilles Bertin decidiu mudar de vida e entregar-se às autoridades.

Impressionado pelo facto de a sua vida ter sido salva a custo zero, sem sequer ser necessário apresentar qualquer documentação, e arrependido por nada ter contribuído para a sociedade, o francês contactou um conhecido advogado do seu país e entregou-se às autoridades, que lhe permitiram aguardar julgamento em liberdade.

Gilles Bertin morreu ontem, em Barcelona, vítima de doença não revelada. O músico estaria hospitalizado há semanas, disse o seu advogado, Christian Etelin, que o descreveu como “uma personagem com um destino extraordinário, trágico, tendo seduzido o absurdo”.