Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Notícias

Primeira formação dos Xutos & Pontapés: Zé Leonel, Tim, Zé Pedro e Kalú

Arquivo Gesco

A história dos Xutos & Pontapés contada pelos próprios. Pré-publicação da autobiografia “À Minha Maneira”

A BLITZ apresenta, em regime de pré-publicação, um capítulo importante da autobiografia dos Xutos & Pontapés, “À Minha Maneira 1979-1999”, uma história oral da banda narrada pelos seus elementos à jornalista Ana Ventura. “Éramos a geração do pós-25 de Abril e fomos os primeiros em muita coisa: na nossa geração houve um salto na agulha, uma coisa que tremeu e que continua a tremer. Para sempre”

Senófila, Lisboa, 22 de Dezembro de 1978

Zé Pedro: A Senófila era uma sala de ensaios, que tinha várias salitas, com aparelhagens lá dentro, para os grupos ensaiarem. Já durava há algum tempo – quando fomos lá parar, o fundador já era velhote, e dava aulas, e era o filho quem tomava conta daquilo. Era junto à [Avenida] Gomes Freire, ao pé da Judiciária, num prédio antigo. Tinha essas salas de ensaio, acho que não mais do que duas; no andar de cima, funcionava uma escola de música, onde ensinavam a tocar orgão, bateria... Pagávamos à hora: tínhamos lá instrumentos, guitarras, amplificadores, bateria – tudo escalavrado, claro. Fomos para lá porque não tínhamos instrumentos – quer dizer, eu tinha uma guitarra e o Kalú tinha uma bateria mas não a levava porque estava lá uma e era difícil de transportar.

Tim: Lá consegui arranjar dinheiro para o barco mas não sei se tinha para o eléctrico, ida e volta. Ainda havia outro problema, pior: eu ia para Lisboa, que não era o meu território, no barco das nove da noite ou das oito e meia, que seria dos últimos dos pequenos, apanhar um tal de eléctrico, para ir para um tal de sítio que nunca tinha visto... Nunca tinha ido para ali e tinha apanhado poucos eléctricos mas lá ia, com um baixo emprestado por um amigo. Era uma situação.

ZP: Fomos para a Senófila porque era o único sítio onde podíamos ensaiar: não tínhamos instrumentos, os Faíscas tinham saído da minha garagem e estavam a acabar e, para nós, era muito mais prático – tanto que estivemos lá nos primeiros anos. Marcávamos por duas horas e tentávamos repartir [os 640 escudos] pelos quatro: normalmente, era eu e o Zé Leonel que pagávamos porque tínhamos mais dinheiro. Na altura, eu estava a trabalhar numa empresa de distribuição de publicações – da Tele-Culinária e da Heidi. O Kalú também contribuia, o Tim contribuia menos vezes.

T: Suponho que quem pagava era o Zé Leonel. Ele já tinha o seu emprego – aliás, por causa do emprego é que ele apareceu em Almada: ele trabalhava nos TLP [companhia de Telefones de Lisboa e Porto], andava a montar redes telefónicas; andou a montar uma no Pragal, ao pé do nosso liceu, e aí conheceu o pessoal que, em vez de estar nas aulas, estava no café.

Kalú: Acho que pagava eu e o Zé Pedro, em dinheiro, cada um metade, porque éramos os únicos que trabalhávamos. O Tim estava a estudar, não sei se o Zé Leonel já estava a trabalhar na companhia dos telefones, acho que não. A malta arranjava a coisa assim, orientávamo-nos uns aos outros.

T: É nesse dia que os conheço a todos.

Capa de “À Minha Maneira 1979-1999”, de Xutos & Pontapés e Ana Ventura. Disponível nas livrarias esta quinta-feira

Capa de “À Minha Maneira 1979-1999”, de Xutos & Pontapés e Ana Ventura. Disponível nas livrarias esta quinta-feira

“Eu era punk e aparece-me um Tim com uns óculos, um pulloverzinho de bico com uns losangos. Fiquei a achar que estava tudo estragado” - Zé Pedro

ZP: Lembro-me tão bem do que pensei quando cheguei à Senófila! Foi um choque: eu era punk – e tentava meter a cultura punk em tudo – e aparece-me um Tim com uns óculos como os que uso agora, um pulloverzinho de bico com uns losangos... Fiquei a achar que estava tudo estragado.

T: Quando lá cheguei, pensei que a banda já existia há séculos. Quando o Kalú chegou e começou a falar... Pensava que eles já se conheciam todos. Eram mais velhos do que eu, já tinham tocado e eu ia lá tocar com eles.

ZP: Eu estava muito nervoso porque era muito inexperiente. A única coisa que tinha era a vontade de fazer uma banda com aquele tipo de som mas não sabia nada. O Tim e o Kalú sabiam tocar mas eu não sabia o que eles sabiam: não conhecia o Tim de lado nenhum, só tinha as referências do Zé Leonel, que o tinha visto tocar numa guitarra de caixa, que dizia que ele se ajeitava no baixo. Eu estava muito nervoso mas sem poder mostrar que estava: eu é que era o chefe do conjunto. Tinha que manter a pose de que quem mandava ali era eu, a pose de durão, de que eles tinham que conquistar o lugar.

K: Cheguei atrasado uns 20 minutos, já não sei bem porquê – acho que tive um furo na mota.

ZP: Eu não tinha aprendido a tocar mas tinha as músicas: tinha um livrinho, escrevia os acordes, ia-me guiando pelos pontinhos da guitarra, não sabia bem o que é que estava a tocar mas o que me soasse bem ficava. Andava ali um bocadinho à volta. Começámos logo a tocar – expliquei ao Tim como é que era, disse-lhe que as músicas que havia eram aquelas e ele rapidamente meteu os baixos. Achei-o fascinante: alguém que sabia tocar! Quando o Kalú chegou, entre os três, já tínhamos umas coisas – com o baixo, a coisa estava a ganhar corpo.

K: Não senti, logo ao princípio, que aquilo era exactamente o que queria.

T: Tínhamos estado a dar uns toques na guitarra, a fazer um bocado de força, um bocado de barulho, sem falar muito... E, quando a situação estabiliza, o Zé Pedro diz “vamos tocar uma música”. E o Kalú diz “é binário ou é quaternário”. Eu e o Kalú sabíamos o que era mas acho que não tínhamos bem noção do que era... E o Zé diz “é quaternário”, sem saber o que era.

“O Zé Leonel era mais fora do que eu, muito mais esgroviado. Dentro da minha loucura, eu sabia bem o que queria. Ele, como vocalista, vivia aquela cena dos cinco minutos de fama” - Zé Pedro

ZP: Lembro-me que saí de lá contentíssimo, radiante: as músicas tinham soado bem, tínhamos ensaiado não sei se duas ou três músicas, tínhamos dado umas voltas, o Kalú tinha perguntado se eu queria “binário ou quaternário” e eu tinha-me saído bem – portanto, saí de lá todo contente.

T: Começámos a tocar o “Morte Lenta”, “O Sacaninha”, o “Rock’n’Roll”: o Zé Pedro tinha algumas malhas e tinha uma desenvoltura muito grande na mão direita – conseguia ter um ritmo muito diferente e conseguia dançar muito bem com a mão direita. Depois, para não haver muitas confusões, as músicas não tinham muitas diferenças de notas nem muitas partes. Eram um bocado modais mas com jogos de dinâmicas e rítmicos comigo e com o Kalú. Nós entendemo-nos e as coisas começaram a funcionar muito rapidamente – da primeira vez que tocámos, aquilo pegou logo. E, nessa construção, ­sentíamo- -nos muito à-vontade. O Zé Leonel preparava-se, nesta primeira fase, para dizer coisas, fazer declarações, performances: aquilo não era muito cantado, era mais uma atitude. As canções tinham umas partes que avançavam para uns sítios diferentes e, depois, voltávamos ao mesmo – e, assim, íamos andando.

ZP: O Zé Leonel era mais fora do que eu, muito mais esgroviado. Dentro da minha loucura, eu sabia bem o que queria. Ele, como vocalista, vivia aquela cena dos cinco minutos de fama, o máximo possível que pudesse; quando chegou à fase das drogas – que também já consumia antes –, ele consumiu muito mais exageradamente do que toda a gente. E isso trouxe-lhe os encargos que trouxe.

T: Era difícil não dar por ele – grosso modo e mal comparado, parecia o Pirata das Caraíbas. Com esse tipo de posição na vida, com uma forma de estar completamente diferente: era arrogante mas era humano, brincalhão; era muito exuberante e com uma consciência de vida muito própria.

K: Encontrava-o muitas vezes, à noite, nas festas, quando comecei a sair. Ao princípio, até tinha medo de falar com ele: dizia aos meus amigos “olha, aquele gajo é da minha banda” e os meus amigos achavam que eles tinham todos um ar muito maluco – o Pedro costumava andar com uma casaca de grilo, cheio de correntes e alfinetes, mas sempre foi aquele gajo porreiro, boa pessoa, boa gente. Houve muitas coisas que o Zé Leonel fez, logo no início dos Xutos, que são muito boas; algumas as pessoas nem conhecem, só nós é que temos.

ZP: Ao princípio, o Zé Leonel participava muito nos ensaios mas, depois, começou a desleixar-se, não sei se num misto de entrar numa de já ser uma “rock-star” ou por incapacidade. O Tim e o Kalú ajudaram-me muito a andar para a frente, talvez como reflexo de, desde o princípio, eu ter mostrado que queria aquilo sério – ensinaram-me muito. Mesmo nas fases mais desleixadas da carreira, ao longo do tempo, puxaram sempre muito por mim – só tenho que lhes agradecer. Desde o princípio, entre os três, tivemos uma ligação muito boa, saudável, de conversas – entendemo-nos, houve logo uma química boa. Senti isso logo à saída do primeiro ensaio.

Xutos & Pontapés: Tim, Zé Pedro, Zé Leonel e Kalú

Xutos & Pontapés: Tim, Zé Pedro, Zé Leonel e Kalú

Arquivo Gesco

“Éramos a geração do pós-25 de Abril e fomos os primeiros em muita coisa: na nossa geração houve um salto na agulha, uma coisa que tremeu e que continua a tremer. Para sempre. Não passa com a idade” - Tim

K: Quando entrei na sala de ensaios, no primeiro dia, não senti nada. Acho que só depois do primeiro concerto é que senti que tínhamos banda.

ZP: Lembro-me de sair, a seguir ao ensaio, ir beber copos com o Zé Leonel, e as nossas conversas passarem todas por termos acertado na “mouche”: o baterista, que porreiro, grande bola, o baixista, muito bom. Certamente foquei o aspecto físico dele, no meio da banda, mas que se podia dar a volta e aproveitar: como era um bom baixista, havia esperança de recuperação. A questão não era emendar o Tim na sua maneira de vestir, era pensar como é que, fisicamente, o podia aproveitar, que posição é que ele podia ocupar no meio de nós. Lembro-me, por exemplo, de pensar que o [John Entwistle] baixista dos Who estava sempre encostado ao amplificador. E, então, dizia-lhe “olha, Tim, não tens que te mexer”, e ele ficava um baixista como nas bandas de antigamente, pouco participativo. À partida, musicalmente, a sua importância era grande mas, a nível de palco, era uma figura que ficava ali, que até podia fazer as pessoas questionarem-se: o que é que estava ali aquele tipo a fazer, no meio de uns gajos com alfinetes?! A tocar baixo?! E a tocar bem!

T: Gostei logo deles. Aliás, sempre me identifiquei bastante com o pessoal de Lisboa – até nas questões dos movimentos, aquilo de que gostavam de fazer, a maneira como as coisas estavam a acontecer. Éramos a geração do pós-25 de Abril e fomos os primeiros em muita coisa: na nossa geração houve um salto na agulha, uma coisa que tremeu e que continua a tremer. Para sempre. Não passa com a idade, faz parte da nossa situação – somos a geração onde se conhecem os “numerus clausus” na faculdade, os primeiros gajos a trabalhar com Recibos Verdes, a levarem com o ovo do 90 na traseira do carro... Nunca tive certezas de nada e a nossa geração é a da incerteza.

ZP: Depois do primeiro ensaio, começaram logo os rumores de que havia uma banda nova: e isso era normal. Daquele núcleo da Munique partiam todas as ramificações, para todos os lados – juntávamo-nos ali para, depois, cada um ir para o seu lado. Aquilo começou a ferver e estava toda a gente ansiosa: os Faíscas estavam a acabar e abria-se um espaço – quem é que íamos seguir? Porque, em parte, era isso que unia o grupo. O simples facto de, entre as bandas que se formavam ali, à volta da cervejaria, haver uma que começava a tomar consistência e que tinha tido um ensaio marcado – havia uma esperança.

T: O facto de estarmos a tocar juntos tornou-se rapidamente a parte mais cheia da nossa vida: era para aquilo que tínhamos caminhado e estar com aquelas pessoas era o que fazia com que tudo o resto tivesse sentido.