O ritual dos Pixies no Campo Pequeno. Pode um concerto grande ser um grande concerto?
26.10.2019 às 1h36
2 horas e 10 minutos, três vénias e o adeus. Com um alinhamento a roçar as quatro dezenas de canções, os Pixies souberam agradar a todos. O passado é quando um fã devoto quiser
Sente-se no ar – nas t-shirts, na cumplicidade, até num certo desalinho numa geração que, provavelmente, noutros compromissos oficiais veste fato e demais sobriedades. O 'juízo' perde-se no fim, quando perante um Campo Pequeno esgotado, Black Francis e companheiros decidem jogar as cartas infalíveis. Aí, fecham-se os olhos, abrem-se os braços e grita-se até mais não. Os fãs dos Pixies não se esquecem de onde vêm, do que os faz vibrar, do clique primitivo. Procuram-no, incessantemente. Se não estiveram ‘lá’, acreditam que estiveram – de certo modo, estiveram ‘lá’ todos os que preenchem a praça de touros da capital nesta noite de outono.
‘Lá’, bem entendido, é Lisboa e Porto, 13 e 14 de junho de 1991, noites em que os Coliseus das principais cidades do país tremeram com públicos delirantes, devotos à sua fé e com a certeza de estarem a ver a banda certa na altura certa (mal se sabia que, tal como aconteceria três anos depois por ocasião da vinda dos Nirvana a Cascais, o fim estaria na próxima curva).
De certa forma, a estrondosa estreia nacional dos Pixies inauguraria verdadeiramente os anos 90 da música ‘alternativa’ ao vivo em Portugal, mesmo que Black Francis, Joey Santiago, Kim Deal e David Lovering já viessem de trás e tivessem chegado a Portugal com quatro (cinco, se contarmos com o primeiro mini-LP) álbuns bem cotados na imensa minoria que o semanário BLITZ abraçou no final dos anos 80 e a rádio XFM, em pleno fulgor dos 90, haveria também de voltar a juntar à volta da fogueira.
Nada é como já foi, e os sete concertos que a banda deu entre nós entre 2004 (ano da reunião) e 2016 (o de visita à Invicta sem paragem na capital) nunca foram incensados com o mesmo fervor com que foi exaltada a primeira homilia. A banda era a mesma (pelo menos até à saída de Deal), boa parte dos admiradores também, mas a sintonia perfeita, o momento, estavam praticamente perdidos. Voltar a ver Pixies ao vivo passou a ser uma tentativa infrutífera de reproduzir uma vibração que já não existe porque se dissipou – ficou uma espécie de memória do sabor, exacerbada pela improbabilidade de lhe aceder por completo.
Chegados a 2019, essa reação desconfiada parece, contudo, mitigada pela longevidade da segunda vida dos nativos de Boston. A narrativa do grupo que não comunica em palco (alguma vez comunicou?), que despacha alinhamentos sem alma (há mal em não querer tocar pouco?), que não tem nada de novo para mostrar (alguém reparou que há um disco com poucas semanas, nada desprezível?) está esgotada: queremos, afinal, reencontrar-nos a nós próprios e ao que, sem direito a reprise, já sentimos; paremos, pois, de culpar a banda.
Depois de uma atuação esforçada dos ingleses Blood Red Shoes (que estão há mais de uma década a um passo de conseguir fazer canções), somos envolvidos pela penumbra que as primeiras fotos desta reportagem documentam fielmente. Há, desde já, uma contrariedade: a bateria de David Lovering manterá ao longo de todo o concerto um eco indesejável, como que duplicando o compasso. Não é a primeira nem a centésima vez que tal acontece no Campo Pequeno, sala onde muito raramente o som é mais do que razoável.
O baixo pulsante de Paz Lenchantin e a guitarra crispante de Joey Santiago servem de antecâmara para o vociferar de Black Francis em 'Gouge Away', arranque algo inesperado. O que se segue é uma viagem pelos vários recantos da obra dos Pixies, polvilhando-se o alinhamento com a totalidade de “Beneath the Eyrie”, de 'On Graveyard Hill' a 'In the Arms of Mrs. Mark of Cain' (com intervalos sensatos), nunca deixando a balança pender demasiadamente para território da novidade, claramente aquele que a maioria dos cabelos grisalhos na plateia declaradamente não domina.
As canções são debitadas à boa maneira dos Pixies, sem grandes pausas nem rodeios. A 'setlist', diferente da apresentada há dois dias em Barcelona, também diferente do rumo do concerto da véspera em Madrid, parece tirada de uma tômbola, à sorte. Estranhamente, faz tudo sentido: todo o imaginário Pixies está aqui materializado (a fixação nos filmes de série B, discos voadores, auto-estradas com o México no horizonte, um certo surrealismo fílmico, o surf-rock) e, por mais baralhadas que estejam as cartas, há sempre jogo. Os picos de entusiasmo na assistência são previsíveis: 'Hey', 'Nimrod's Son', 'Holiday Song' e, ainda no primeiro terço do espetáculo, 'Here Comes Your Man'. Mais adiante, 'Caribou' e 'Monkey Gone to Heaven'. A resposta é dada aos primeiros acordes, o povo percebe as senhas.
Ausente nos concertos espanhóis, 'Motorway to Roswell', um dos 'deep cuts' mais saborosos da carreira dos Pixies, faz-se ouvir no Campo Pequeno; a costumeira versão de 'Head On', dos The Jesus and Mary Chain, fica de fora. Como que dividindo o espetáculo ao meio, o instrumental 'Cecilia Ann' (que em várias ocasiões desta digressão foi a escolha para a abertura) perde, na amálgama sonora, o cristalino trinado surf da guitarra de Santiago. O guitarrista tem o seu momento em 'Vamos', alternando entre a boina (que, pela primeira vez, lhe saiu da careca) e os riffs que saca de uma guitarra não suficientemente louvada.
A extensão do concerto poderia começar a fazer 'vítimas', mas é a partir de 'Where Is My Mind' (coro gigante, o primeiro a sobrepor-se ao som do palco) que a contenda começa a ser ganha e as emoções mais fortes se sucedem: 'Velouria', primeiro, antes de novo regresso a 2019, e depois o trio 'matador' composto por 'Bone Machine', 'Wave of Mutilation' e 'Debaser' a fazer levantar as galerias do Campo Pequeno. Quando 'Gigantic' – Paz a fazer de Kim, três letrinhas também – anuncia o fim (três vénias e a mão direita de Francis no coração), a sensação é de que aos Pixies basta isto: fazer parecido. Já não é nada mau.
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