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Editors: “No início piscámos o olho ao mainstream, mas somos uma banda alternativa”. A entrevista com o vocalista Tom Smith

A banda britânica edita agora a sua primeira coletânea, “Black Gold”, e o vocalista falou-nos sobre o passado, a vontade de ter um segundo best of daqui a 15 anos, a “vergonha” do Brexit e… Taylor Swift

Podia ter sido ontem, mas foi há quase 15 anos. “The Back Room”, o fantástico álbum de estreia dos britânicos Editors tirou o coletivo de Birmingham do anonimato, com uma forte ajuda de canções como ‘Bullets’ ou ‘Munich’, clássicos instantâneos do revivalismo pós-punk. Década e meia volvida, e depois de algumas convulsões – a saída do guitarrista Chris Urbanowicz, em 2012, mudou radicalmente a dinâmica criativa –, Tom Smith e companhia resolveram olhar para trás e editam na próxima sexta, 25 de outubro, a coletânea “Black Gold”. O vocalista esteve 20 minutos à conversa com a BLITZ e além de fazer um balanço da história do grupo, falou sobre a vontade de ter um segundo volume deste “best of” daqui a 15 anos, a “vergonha” do processo do Brexit, os concertos que deram com os Cure e, ainda, o que pensa da música de Taylor Swift.

Por que razão decidiram olhar para trás e editar esta coletânea, “Black Gold”, neste momento?
Demorei algum tempo até aceitar a ideia, para ser sincero. Normalmente, fico um bocadinho assustado e desconfortável com esta coisa da nostalgia, mas senti que era o momento certo. Gravámos três discos com o Chris [Urbanowicz], três com o Justin [Lockey, guitarrista] e o Elliott [Williams, teclista] e há uma simetria aí que me fez sentir que esta era uma boa altura para parar um segundo, refletir, apesar de todos os meus receios, e apreciar o que fizemos nos últimos 15 anos. Não sei se há um momento certo ou errado para este tipo de coisas, mas achei que era fixe. Acabei por aceitar a ideia e estou a gostar muito de falar e pensar sobre o passado. Tenho orgulho da nossa longevidade e isto apesar de não ser o final da banda é o final de um capítulo. Vamos avançar no próximo ano e ver o que acontece.

Editors - "Black Gold"

Editors - "Black Gold"

Já estão a pensar no futuro? Num novo álbum?
São só pensamentos iniciais. Preciso de começar a escrever. As três novas canções que temos neste disco pareceram-me, apesar de terem sido escritas depois de “Violence”, muito ligadas a ele. Parecem canções desse álbum mas em esteroides ou algo do género, versões ampliadas e exageradas do tipo de coisas que fizemos. Portanto, sim, acho que é uma boa altura para refletir e no próximo ano vou começar a escrever novamente. Logo vemos onde isso nos leva. Não sei ainda, vamos ver.

E como foi escolher as 13 canções que representam o melhor do vosso percurso musical?
Levámos algum tempo. Somos uma democracia, portanto falámos longamente sobre isso entre nós e com o nosso management. Assim que decidimos fazer disto apenas um CD criámos ali umas balizas, porque tínhamos de resumir muito. Queríamos, obviamente, ter representados todos os álbuns que editámos, algo de cada um deles, mas depois começou a tornar-se um pouco complicado porque cada um dos nossos álbuns teve um impacto diferente em termos geográficos. Um best of dos Editors seria muito diferente em Itália e em Inglaterra, portanto se tentasses agradar a toda a gente podias ir à loucura. Escolhemos aquilo que acreditamos ser mais consensual. Não somos uma banda com um passado cheio de êxitos de top 10. Há um início no qual flertámos com o mainstream, mas somos uma banda alternativa portanto tentámos escolher canções que se tornaram grandes e importantes para a banda, que marcaram esta nossa viagem. É por isso que temas como ‘Sugar’ ou ‘No Harm’ também lá estão, ao lado de ‘Smokers Outside the Hospital Doors’. São passos importantes no nosso percurso.

Gravaram essas três novas canções, ‘Frankenstein’, ‘Black Gold’ e ‘Upside Down’, com o produtor Jacknife Lee… Como foi voltar a trabalhar com ele 12 anos depois de “An End Has a Start”?
Foi uma espécie de mistura entre o passado e o presente dos Editors. Primeiro que tudo, foi fantástico reunirmo-nos com um amigo de longa data. Temos amigos em comum, portanto às vezes via-o por aí, na Califórnia, mas não trabalhávamos juntos há 12 anos. Foi muito bom completar este círculo e sermos criativos com ele novamente. É um produtor musical único, porque tem uma energia muito positiva. O apetite que tem por música é infecioso e está sempre a apresentar-nos coisas novas e a dizer que é a melhor coisa que vamos ouvir… dez minutos depois diz o mesmo sobre outra coisa completamente diferente. Seja um disco antigo de jazz africano ou algo new wave dos anos 80. O apetite dele por música nunca se esgota e isso é bastante único. Muitas vezes, os produtores, e já trabalhámos com muitos que são fantásticos, fazem o que têm a fazer e pronto, mas ele parece uma criança. É muito inspirador estar perto dele. Foi ótimo tê-lo connosco nesta fase da nossa carreira. O Elliott e o Justin nunca tinham trabalhado com ele, portanto vê-los a trabalhar com ele foi muito bom. Ele vive na Califórnia e estivemos lá, nos arredores de Los Angeles, com o sol, as montanhas e o oceano… Foi um sonho fazer estas três canções.

No ano passado, disse-nos que, de certa forma, os Editors ainda estavam a recuperar da saída de Chris Urbanowicz. Já ultrapassaram completamente ou as marcas ficarão para sempre?
Continuamos aqui e este disco marcou o final dessas dores de ajustamentos criativos. Já estamos muito afastados disso, mas é algo que faz parte da história da banda e que ajudou a definir a nossa personalidade. Nunca vamos escapar desse acontecimento mas em termos criativos já ultrapassámos isso. Fazer estas três novas canções foi uma prova de que ainda temos combustível nosso tanque que nos permite sermos criativos juntos. Foi fantástico. Ao falar deste “best of” acabo por recordar muito esse período porque as pessoas perguntam-me sobre os altos e baixos dos últimos 15 anos. Esse foi, sem sombra de dúvida, o período mais difícil que atravessámos.

Falaram com ele sobre esta coletânea?
Sim. Não falei pessoalmente com ele, mas precisávamos do aval dele para isto ir para a frente porque ele fez parte de algumas destas canções.

No final do vídeo de ‘Frankenstein’ surge uma campa com o nome “Sailor Twyft”. São fãs da Taylor?
Sou fã desse vídeo. A canção pedia um vídeo ridículo, precisava de ser um pouco feio, divertido e confrontador. Se sou fã da Taylor Swift? Porque não? Dei uma escutadela ao novo álbum dela. Não é bem para mim, mas sempre tive interesse no que artistas com ela andam a fazer. Ela, o Ed Sheeran ou assim. Tenho interesse mas não compraria os discos em vinil, digamos assim.

Os Editors falaram há pouco tempo sobre as alterações climáticas nas redes sociais. Quão importante é hoje, para uma banda como os Editors dar voz a causas e falar sobre o que se passa no mundo?
Penso que, à medida que vais envelhecendo, ficas mais envolvido com essas questões. Cada assunto é diferente, mas as viagens que fizemos nos últimos três anos com a Oxfam [grupo de organizações que têm como objetivo combater a pobreza mundial] a dois ou três campos de refugiados foram muito importantes. Certamente não me teria sentido muito confortável com isso no início da banda. Penso que tem a ver com o facto de estarmos mais velhos. Não é como se, subitamente, tivesse desenvolvido uma nova inteligência no que diz respeito a assuntos muito complexos, não é isso, mas às vezes as pessoas pedem ajuda e essa colaboração com a Oxfam pareceu-nos a coisa certa a fazer. São problemas que estamos todos a enfrentar.

No ano passado, perguntei-lhe como estava a lidar com o Brexit… Um ano depois continuamos aqui…
E no próximo ano pode perguntar-me novamente (risos).

Como encara a situação, neste momento?
É cada vez mais difícil perceber o que se passa, porque é um assunto que continua a arrastar-se. Tomou proporções gigantes. Quando divides um país ao meio nunca vais chegar a uma situação com a qual todos fiquem felizes. Mesmo que tivéssemos votado para ficar na União Europeia, o país ficaria dividido em dois. É feio. E temos um partido conservador cujos líderes, um por um, tentaram fazer algo que nem sei bem o que é. Não sei o que eles estão a tentar fazer. É vergonhoso. Continua a ser uma vergonha. É algo que me deixa zangado, porque se arrasta há tanto tempo. É difícil perceber o que se passa. É ridículo, completamente ridículo. Uma loucura completa.

Colaborou com os UNKLE e tem uma parceria com Andy Burrows. Olha para essas atividades extra como algo que, em última instância, é bom para a banda?
De forma bastante egoísta, acho que é bom para mim. E se é bom para mim, acaba por ser bom para a banda. Estive umas cinco semanas nos Estados Unidos a fazer o disco de Smith & Burrows. Andámos a escrevê-lo nos últimos quatro anos e demorámos muito tempo a ter as canções prontas porque andamos sempre muito ocupados. Mas volto disso sempre entusiasmado e sinto-me logo mais criativo com os Editors. Mantermo-nos estimulados, quando tentamos ser criativos, é algo importante. E mudar o tipo de estímulos e agitar as coisas só pode ser positivo.

O que retira dessas experiências que não retira do trabalho com os Editors e vice-versa?
Tem tudo a ver com o contacto humano. A forma como trabalho com o Andy… Claro que sou a mesma pessoa, mas a energia criada com a nossa relação, a forma como nos relacionamos e comunicamos em estúdio e a como isso se manifesta na música… É uma energia diferente e inspiradora. Há aqueles momentos em que sentes que estás a conquistar alguma coisa junto com outra pessoa ou com a banda que não consegues quando estás sozinho. É poderoso. São duas pessoas ou cinco pessoas a explorar uma ideia e a transformá-la em algo que nunca conseguirias fazer sozinho. Sentir isso, de forma diferente, com o Andy é ótimo para mim. A música que faço com ele tem muito menos escuridão. É muito mais imediata, muito mais pop, por falta de melhor palavra. É uma forma diferente de escrever canções e há uma energia diferente. Talvez depois de fazer este álbum com o Andy, que as pessoas poderão ouvir algures no próximo ano, aquilo que farei com os Editors seja a coisa mais negra possível.

Uma espécie de reação…
Exato. Talvez isto me empurre para um caminho mais negro.

Falando de escuridão… Os Editors abraçaram o seu lado negro desde o início. De onde pensa que isso vem? Sei que fizeram alguns concertos com os Cure recentemente…
Os três concertos que demos com os Cure no último ano foram três dos melhores concertos que alguma vez vi. Simplesmente brilhantes. Conhecia os grandes sucessos deles e o álbum “Disintegration”, mas não conhecia o catálogo mais antigo como conheço o dos R.E.M. ou dos Radiohead. Eram essas bandas que ouvia quando era adolescente. Mas são perfeitos no que diz respeito a casar sentimentos mais negros e góticos com melodia e uma sensibilidade de escrita pop. De onde isso veio para mim, não sei, mas penso que há uma natureza estranha na minha personalidade. Uma estranheza na forma como interajo com as pessoas. Quando escrevo canções, é natural para mim habitar um mundo menos luminoso. Isso não significa que não haja alguma esperança, calor e amor também. Não sou uma pessoa miserável, de todo, mas acho interessante habitar um espaço que possa ser, por vezes, mais assustador do que o da maioria da música pop.

Como se imagina daqui a 15 anos?
Não sei, é muito difícil de dizer. Espero que continue a manter o meu cabelo (risos) e que continuemos a fazer música juntos. Tem sido sempre uma das nossas missões: ser uma banda com longevidade. Para lá de modas, daquela ideia de sermos jovens e fixes, conseguirmos manter-nos aqui. Uma das razões pelas quais começas uma banda é a vontade de te manteres jovem, uma coisa meio à “lost boys”. Estar numa banda com os teus amigos, não fazer aquilo que a maior parte das pessoas faz, não ter os constrangimentos horários da maioria, escapar a essa realidade. Mantermo-nos jovens, no fundo. Mas fazer um “best of” é o contrário disso, porque é uma espécie de reconhecimento da nossa idade, da nossa existência para lá dessa motivação inicial. Há um compromisso aí e penso que, tal como disse, demorei algum tempo a aceitar fazer isto… Quem sabe se daqui a 15 anos não poderemos ter uma segunda parte. Estive na rádio, no outro dia, com o Suggs dos Madness e é uma loucura ver a carreira musical dessas pessoas. Espero que venhamos a ser assim.

Essa ideia de não querer crescer e de estar sempre rodeado dos amigos… Quando crescemos acabamos por nos tornar mais individualistas. Sente que um dia fará música completamente sozinho?
Sim, provavelmente. Por que não?

Quando podemos ver os Editors em Portugal novamente? Há Paris, Barcelona, Madrid na vossa próxima digressão, mas não Lisboa ou Porto…
Pois é… Torna-se cada vez mais complicado. Mas espero que no próximo ano consigamos ter convites para festivais aí.