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Roberta Medina

Rita Carmo

“Não temos pressa. Anunciar antes o cartaz do Rock in Rio faz alguma diferença? Não”. Entrevista a Roberta Medina sobre 15 anos de festivais

Numa conversa que teve lugar no Parque Olímpico do Rio de Janeiro, Roberta Medina diz que os primeiros nomes para a edição de 2020 do Rock in Rio Lisboa vão demorar a chegar, mas revela quais os artistas que mexem consigo. “Sou muito pouco vice-presidente do Rock in Rio na minha vida pessoal, mas o Rock in Rio está sempre presente”

Roberta Medina, vice-presidente do Rock in Rio, diz que não tem pressa para anunciar os primeiros nomes que se apresentarão no Rock in Rio Lisboa, em 2020. Em conversa com a BLITZ, no seu gabinete na edição brasileira, que se realizou no Parque Olímpico do Rio de Janeiro no início do mês, Medina falou sobre a celebração dos 35 anos anos do festival em Portugal, as evolução do mercado português desde que o Rock in Rio veio para Lisboa, os preços dos bilhetes e a nova estratégia anual. Contou-nos também quais são as bandas que mexem consigo, a relação que (não) tem com as redes sociais e o carinho das pessoas que se cruzam com ela na rua.

2019 parece ser um ano de mudança para o Rock in Rio. A 20ª edição no Brasil, 35 anos celebrados em Portugal no próximo ano…
Em Portugal, é um ano de mudança. Estamos a apostar numa nova estratégia no que diz respeito a calendário, queremos estar mais presentes, relacionarmo-nos com as pessoas de forma mais permanente, tanto patrocinadores como o público final. Faz mais sentido num mercado muito competitivo e para a organização, tendo em conta que temos uma equipa fixa no Brasil, uma equipa fixa em Portugal. Eu mesma estou mais concentrada em Portugal agora, por uma opção de vida pessoal. Antes, quando precisávamos de colocar todos os esforços para fazer uma ou outra edição não tínhamos este tempo, esta oportunidade. Então, hoje há a possibilidade de construir um novo olhar, mais atualizado, face a um mercado com tanta oferta… Sendo os festivais extremamente locais, na sua maioria, como é que uma marca faz escolhas? É difícil, porque todos os clientes em qualquer canto do país são relevantes. Houve um ciclo de crescimento, em 15 anos, do volume de oferta de festivais, de entretenimento relacionado com a música. Curiosamente, sinto que há menos concertos do que noutras fases que passámos. É um movimento curioso. O que quisemos fazer foi atualizar essa conversa. Já se passaram 15 anos e fizemos essa reflexão, que começou em 2016: estava na hora de chacoalhar e procurar um modelo mais eficiente, mais próximo. Isso é Portugal.

O mercado português está muito diferente quando comparando com o que encontrou quando o Rock in Rio foi para Lisboa?
É completamente diferente. Quando chegámos, as marcas não investiam na música. A única era a Super Bock. Havia três promotores, o Casimiro [Tournée], a Música no Coração e a Ritmos e Blues, que ficavam brigando entre eles. Havia o Super Bock Super Rock e outros festivais, mas não havia pegada de mercado publicitário. Quando começámos a falar, havia uma desconfiança gigante. Até a Vodafone tomar coragem de ser a primeira a dizer ‘vamos’, ninguém ia… Ficava um à espera do outro. Eram investimentos muito superiores, uma proposta de projeto de comunicação, não era um festival de música. E mesmo nos veículos de comunicação, que tipo de cobertura tinha? Que tipo de relevância tinha essa conversa para o público? Acho que o Rock in Rio, naquele ano, veio contar uma história muito disruptiva para o mercado português. Era um festival para todas as idades, quando antes era só para jovens. Era um festival com infraestruturas para os adultos e as crianças poderem ir, quando os festivais eram mais desestruturados. Foi uma reviravolta. E correu tão bem que, obviamente, e com muita agilidade do mercado português, muito ágil e muito competitivo, as marcas que não estavam com o Rock in Rio rapidamente começaram a investir na evolução dos principais produtos. E quando a Música no Coração se separou, o Álvaro e o Luís, ainda nasceu o Alive, portanto viram duas plataformas. Isso criou possibilidade para o mercado publicitário, que identificou os festivais como uma plataforma rentável e apropriada para as suas marcas, fazer o mercado dos festivais crescer. Mudou tudo.

Mesmo a relação do público com os festivais mudou…
Completamente. Ficou mais sofisticado, o público é mais exigente, mais exigente com as infraestruturas. Foi uma revolução. É muito diferente o que encontrámos atrás e o que encontramos hoje. Hoje é um mercado sólido, muito competitivo, com uma oferta gigantesca. Há um desafio grande no mercado, que é aquilo de que estávamos a falar: o público exige mas não quer pagar. E não é não poder pagar, é não querer pagar. Então, há essa discrepância de valorização: quanto é que o público está disposto a pagar? Quanto vale mais infraestrutura?

Essa desvalorização justifica a diferença do preço dos bilhetes entre a edição portuguesa e a edição brasileira?
Isso é o poder de compra. Não tem a ver com valorização de produto.

Se aumentasse o preço em Portugal para o preço que pratica aqui no Brasil…
As pessoas não podem. O que é impressionante é que €69,00 é muito dinheiro. Não é caro, se houver oferta, mas é muito dinheiro. Um dia, um amigo que trabalha na McKinzie falou-me de um estudo que eu não conhecia que diz que o orçamento médio da família portuguesa depois de pagar a casa são 800 euros. Isto é a média. Nós não fazemos o festival para a média, obviamente. O que é irónico é que quando a gente saiu do Brasil o poder de compra era muito baixo e era impossível suportar com o mercado publicitário, e em Portugal encontrámos um modelo onde o mercado publicitário e o poder de compra equilibraram para a venda de ingressos. E hoje o mercado brasileiro está mais aquecido no poder de compra. Em muito pouco tempo! Isso é muito doido. Agora, obviamente, o mercado publicitário também caiu durante a crise em todo o mundo. Se o mercado está em crise, todo o mundo está em crise. Mas é óbvio que a dimensão do país, neste caso é determinante. Se falássemos só do Rio de Janeiro talvez a situação fosse diferente, mas estamos a falar do Brasil. Temos 60% das pessoas a vir de fora, então em 210 milhões de pessoas há de haver 700 mil com poder de compra para vir ao festival. Trabalhamos para o mercado em que estamos.

Em que pé estão as coisas para a edição de 2020 em Lisboa? Quando vão anunciar os primeiros nomes?
Não temos pressa para anunciar os primeiros nomes. Já fizemos várias experiências nestes 15 anos. Anunciar antes faz alguma diferença? Não faz nenhuma diferença. Zero. Mudámos a estratégia de comunicação, a meu pedido, para ver o que acontecia porque toda a gente me dizia que o melhor era anunciar com muita antecipação. Fizemos isso e não fez a menor diferença. Então, estamos a estruturar as coisas de uma outra forma. Não gosto de falar de estratégia de comunicação porque Portugal é danado no sentido de copiarem. O povo é muito rápido a copiar as coisas. Então, este ano, mudámos a estratégia do kit, começámos a vender um pouco mais cedo e colocámos experiências em vez de brindes, tentando trazer alguma inovação já que as experiências é aquilo que as pessoas consideram mais importante. O kit na FNAC, o Continente entrou, como sempre, com os seus 20% em cartão… Vai só até ao final do ano, isso é uma mudança. Não há desconto no ano que vem em dia nenhum. Estamos na batalha para acabar com essa dinâmica dos descontos. E vamos, agora no final do ano, falar da Cidade do Rock. Das atrações, da festa… Quanto aos artistas, vamos deixar rolar. Na verdade, há uma hora em que queremos falar e os artistas não deixam, há uma hora em que eles querem falar e a gente não quer. Confesso que não quero isso. A nossa estratégia original era falar o mais tarde possível de artistas para poder vender a festa e agora estou muito mais interessada nessa conversa, resgatar essa conversa mais em volta da vontade de estar lá do que dos artistas que vão. A nossa venda de bilhetes é muito no final. É aborrecido, mas é assim! (risos).

Consegue tirar o chapéu de vice-presidente do Rock in Rio quando não está a trabalhar ou está de férias?
De vice-presidente do Rock in Rio consigo, de sócia, herdeira, sucessora, esse pacote todo não. Porque há uma coisa muito especial no Rock in Rio: as pessoas olham para a minha cara e falam do festival. Eu posso não falar, e tento… Agora, de vez em quando, até tenho uma coisa ou outra em casa do Rock in Rio. O Vik Muniz fez um trabalho lindo na época da nossa campanha de arrecadação de instrumentos, uma imagem que criava a guitarra do Rock in Rio com os instrumentos arrecadados. Linda, a foto. E depois ofereceu-me um quadro e fiquei um tempão para colocá-lo na parede porque tinha a guitarra do Rock in Rio. Já me basta. Não dá para ter Rock in Rio em casa. Na minha casa atual não tenho nada, acho. Tenho um quadro no escritório, mas tem de ser uma coisa leve porque não dá para desligar, assim. Eu desligo, sou muito pouco vice-presidente do Rock in Rio na minha vida pessoal, muito pouco ou quase nada, mas o Rock in Rio está sempre presente. Ninguém se vai sentar naturalmente ao teu lado para discutir indústria, só alguém que gosta, mas o Rock in Rio interessa a qualquer pessoa. Há muito interesse público, então a conversa surge naturalmente. Mas o que eu acho é que eu tenho um pouco de aversão… No meu dia-a-dia, não há vice-presidente de coisa nenhuma. Não há mesmo.

Há alguma banda de sonho que queira contratar para uma edição futura do Rock in Rio?
Não vou falar nisso, porque depois vocês assumem que vamos tentar contratar, não é? Aqui, no Brasil, quero o Bruno Mars ainda. Conseguimos tê-lo em Las Vegas e em Lisboa. Sou fã dele e dos Maroon 5. Agora, fiquei encantada com Panic! At The Disco… Performer, voz e é tanto rock como pop, é bem Elvis… Super eclético. Brutal. É incrível. Tinha visto a performance dele com a Taylor Swift e achei brutal.

Como lida com as redes sociais?
Não lido. Na época do “Ídolos”, achei que ia usar o Facebook como canal de trabalho, aceitei toda a gente… Foi um problema, porque queria começar a interagir, mas era para toda a gente… O que é que eu falo para toda a gente? Abandonei… Está lá. Mas a grande verdade, agora que penso nisso, é que não quero ver o que está a acontecer ali, porque é extremamente destruidor, é sufocante, gera um nível de ansiedade brutal. Mais uma falsidade brutal, porque essa coisa de estar todo o mundo bem… O estar toda a gente a chingar os outros. Dizem-se coisas ali que não se dizem olhando nos olhos. Então, não me interessa. Tenho um Instagram num nome que não é o meu porque de vez em quando preciso de ir ver o que se está a passar lá, mas não suporto aquilo. Acho absolutamente destruidor. Sei que faço papel de retardada. ‘Você não sabe?’. Não. Faço esse papel, mas é uma opção. Em termos profissionais, tenho uma vantagem: o Rock in Rio tem a sua rede, eu não preciso de ter. No dia em que achar que a Roberta quer fazer uma determinada convocatória, etc, que não seja através do Rock in Rio, talvez seja o dia em que vá precisar e faça algum sentido. Mas será uma coisa com um objetivo. Para ficar ali a dizer o que comi hoje… Não quero que as pessoas saibam onde estou.

E pedem-lhe muitas selfies na rua?
Ah, mas isso é super carinhoso. Adoro. Nem me deslumbro nem coisa nenhuma. As pessoas são muito carinhosas. Em Portugal, porque o "Ídolos" fez essa onda, e aqui por causa da paixão deles pelo festival. As pessoas agradecem… Mas tem as duas moedas, não é? Não deixo de sentir alguns constrangimentos. Em Lisboa menos, aqui como estou menos na operação se andar na rua e as pessoas me questionarem fica aquele constrangimento… Não tenho uma resposta imediata para dar. Isso é constrangedor. Especialmente se a pessoa estiver insatisfeita. Em Lisboa, como tenho a operação mais sob controlo, estou à vontade para o ruim e para o bom. Há as duas coisas… o carinho e pessoas que dizem que é uma porcaria, chateados. Tenho de estar preparada para os dois lados, mas felizmente aqui tem sido só carinho, muito suave.