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Zé Pedro

Rita Carmo

“A verdade é que parece que continuamos à espera de o ver”. 110 minutos para matar saudades de Zé Pedro no Doc Lisboa

Dois anos após a sua partida, reencontramos o fundador dos Xutos & Pontapés em “Zé Pedro Rock ‘n’ Roll”, documentário que revela o lado íntimo da maior estrela rock portuguesa, com material inédito dos arquivos da família e excertos da grande entrevista à BLITZ em 2016. Diogo Varela Silva, o realizador, fala de um filme que 'nasceu' antes da morte do artista e “ajudou a fazer o luto”. Estreia esta sexta-feira, dia 18, no Doc Lisboa

A meio do filme “Zé Pedro Rock ‘n’ Roll” há um momento despido de gente, de depoimentos, mas carregado de memórias: Diogo Varela Silva, o realizador do documentário que terá estreia no próximo dia 18 no âmbito da secção 'Heart Beat' do festival Doc Lisboa, permite que a câmara se demore naquele que era o recanto mais querido e secreto de Zé Pedro, o espaço da sua casa onde guardava troféus – os diversos galardões conquistados pelos discos dos Xutos & Pontapés –, ‘fan art’, com vários quadros que o retratavam com ícone rock, e, sobretudo, gavetas infinitas cheias dos discos com que o músico alimentava a sua inesgotável paixão pela cultura que abraçou ainda os anos 70 não tinham dado o derradeiro suspiro. É uma passagem reveladora, que confirma que a música nunca foi mero acidente, simples emprego ou apenas distração para Zé Pedro, antes desígnio maior que soube abraçar incondicionalmente.

“O Zé é como se fosse meu tio”, começa por revelar Diogo Varela Sila, que explica que o músico dos Xutos viveu com uma tia sua e que a primeira morada oficial dos Xutos foi, portanto, a da casa da sua avó, Celeste Rodrigues, fadista e irmã de Amália. “Tínhamos uma ligação muito forte e esta ideia do filme data de antes da sua morte”, esclarece. O realizador, ao telefone de Nova Iorque onde se encontra a acompanhar o seu filho, Gaspar Varela, o prodígio da guitarra portuguesa que se encontra em digressão com Madonna, confessa-nos que o desaparecimento do guitarrista travou inicialmente o projeto do filme, mas que depois o retomar da ideia acabou por ser uma preciosa ferramenta para processar o devido luto: “obrigou-me a mergulhar nas coisas, tive que remexer naquelas memórias”. “Sei que acabou por ajudar toda a gente. A Cristina [Avides Pereira, viúva de Zé Pedro] teve que voltar a mexer nas fotos, nas coisas pessoais, e isso ajudou-a a fazer o luto. A verdade é que parece que continuamos à espera de o ver. Parece que a ficha não cai e por isso fazer o filme acabou por ajudar na questão complexa da gestão da saudade”, admite o realizador.

O filme estende-se por mais de 100 minutos e percorre toda a vida de Zé Pedro, recorrendo abundantemente a até aqui inéditos registos fotográficos e fílmicos de família que permitem ter um vislumbre da infância que o então aspirante a músico teve em Timor, da primeira vez que viu uma grande metrópole, em Hong Kong onde – como recorda uma irmã – disse ter pela primeira vez visto a eletricidade. Também da adolescência lisboeta, com o impacto do 25 de Abril, e a descoberta do punk no festival de Mont-de-Marsan, cidade em França que visitou quando fazia Inter-Rail pela Europa e que o levou a regressar a casa já com um alfinete espetado na boca.

As memórias das irmãs, dos seus companheiros de banda, de músicos como Luís Varatojo, de radialistas como Pedro Ramos (Radar) ou Henrique Amaro (Antena 3), e material recolhido em entrevistas – o vídeo da entrevista de vida que a BLITZ lhe dedicou por ocasião dos seus 60 anos e que lhe valeu capa em setembro de 2016 fornece basto material ao filme – contribuem para fazer de “Zé Pedro Rock ‘n’ roll” um imperdível tributo à carreira de um dos mais marcantes músicos portugueses de sempre.

“O mais difícil, em termos artísticos, foi procurar que o filme não ficasse demasiado lamechas”, concede Diogo Varela Silva. “Até pelo amor todo que lhe tinha. Isso foi complicado, mas poderia falar da dificuldade que é sempre o mergulho nos arquivos, há muito para selecionar, mas também se encontra muito material que não se pode usar. Esse processo todo de pesquisa é sempre muito complexo. Acho que sobre qualquer outro cineasta tive a vantagem da proximidade familiar que me deu um grande acesso às coisas da família, às suas coisas pessoais e dos Xutos. Tenho noção que nesse sentido fui privilegiado. Mas isso poderia ter complicado bastante e não ser uma mera ajuda: não foi fácil para a Cristina ou para as irmãs fazer aquele exercício de procurar as coisas mais antigas”.

Zé Pedro na infância
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Zé Pedro na infância

Arquivo pessoal

Aos 10 anos, na casa dos Olivais
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Aos 10 anos, na casa dos Olivais

Arquivo pessoal

No seu quarto na casa dos Olivais, aos 16 anos
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No seu quarto na casa dos Olivais, aos 16 anos

Arquivo pessoal

Com Tim, no início do percurso dos Xutos & Pontapés
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Com Tim, no início do percurso dos Xutos & Pontapés

Arquivo pessoal

Em estúdio, com os Xutos & Pontapés
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Em estúdio, com os Xutos & Pontapés

Arquivo pessoal

Na condecoração Grã Cruz da Ordem Militar de Cristo, atribuída pelo então Presidente da República, Jorge Sampaio, em 2004
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Na condecoração Grã Cruz da Ordem Militar de Cristo, atribuída pelo então Presidente da República, Jorge Sampaio, em 2004

Sessão de estúdio, em 2004
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Sessão de estúdio, em 2004

Rita Carmo

2005, fotografia promocional do álbum Mundo Ao Contrário
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2005, fotografia promocional do álbum Mundo Ao Contrário

Sessão dos Xutos & Pontapés para a capa da BLITZ de dezembro de 2006
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Sessão dos Xutos & Pontapés para a capa da BLITZ de dezembro de 2006

Rita Carmo

Fotografia individual para a sessão da BLITZ, 2006
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Fotografia individual para a sessão da BLITZ, 2006

Rita Carmo

Em 2007, com Mick Jagger e João Pedro Pais, aquando do concerto dos Rolling Stones no Estádio de Alvalade
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Em 2007, com Mick Jagger e João Pedro Pais, aquando do concerto dos Rolling Stones no Estádio de Alvalade

Arquivo pessoal

Em 2010, quando os Xutos & Pontapés receberam o Globo de Ouro de Melhor Grupo
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Em 2010, quando os Xutos & Pontapés receberam o Globo de Ouro de Melhor Grupo

Sessão de estúdio, em 2011
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Sessão de estúdio, em 2011

Zé Pedro
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Zé Pedro

Fotografia de promoção do álbum Puro, editado em 2014
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Fotografia de promoção do álbum Puro, editado em 2014

Zé Pedro em 2013
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Zé Pedro em 2013

Filipe Pombo

Ao vivo com os Xutos & Pontapés na Altice Arena, em Lisboa, em 2014
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Ao vivo com os Xutos & Pontapés na Altice Arena, em Lisboa, em 2014

Rita Carmo

Ao lado de Jimmy Page, dos Led Zeppelin, depois de uma entrevista para a BLITZ, em 2015
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Ao lado de Jimmy Page, dos Led Zeppelin, depois de uma entrevista para a BLITZ, em 2015

Em 2016, num concerto acústico com os Xutos & Pontapés
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Em 2016, num concerto acústico com os Xutos & Pontapés

Uma das fotografias da sessão realizada para a capa da BLITZ de setembro de 2016
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Uma das fotografias da sessão realizada para a capa da BLITZ de setembro de 2016

Rita Carmo

Uma das fotografias da sessão realizada para a capa da BLITZ de setembro de 2016
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Uma das fotografias da sessão realizada para a capa da BLITZ de setembro de 2016

Rita Carmo

Uma das fotografias da sessão realizada para a capa da BLITZ de setembro de 2016
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Uma das fotografias da sessão realizada para a capa da BLITZ de setembro de 2016

Rita Carmo

Uma das fotografias da sessão realizada para a capa da BLITZ de setembro de 2016
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Uma das fotografias da sessão realizada para a capa da BLITZ de setembro de 2016

Rita Carmo

Uma das fotografias da sessão realizada para a capa da BLITZ de setembro de 2016
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Uma das fotografias da sessão realizada para a capa da BLITZ de setembro de 2016

Rita Carmo

Uma das fotografias da sessão realizada para a capa da BLITZ de setembro de 2016
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Uma das fotografias da sessão realizada para a capa da BLITZ de setembro de 2016

Rita Carmo

Uma das fotografias da sessão realizada para a capa da BLITZ de setembro de 2016
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Uma das fotografias da sessão realizada para a capa da BLITZ de setembro de 2016

Rita Carmo

“O filme também tenta explorar a ligação que o Zé Pedro sempre teve à música pelo lado da banda sonora”, esclarece o realizador. “Tentámos imaginar o que é que se ouvia em cada período e, por exemplo, o momento do filme em que se mostra a chegada ao 25 de Abril, penso que foi a primeira vez que alguém fez a associação com o ‘Há Que Violentar o Sistema’ dos Aqui del Rock, mas acho que, para quem viveu aquela época com a mesma idade que o Zé Pedro tinha, mais punk do que aquilo não há de ter existido. O 25 de Abril foi o grito da libertação absoluta. Foi isso que quisemos transpor com a escolha dessa música”.

O realizador explica que depois da estreia no Doc Lisboa o filme deverá chegar às salas de cinema, havendo para tal conversas a decorrer com a NOS. “Queremos fazer a estreia comercial do filme no princípio do ano que vem. Antes disso. e depois do Doc Lisboa, queremos levar o filme ao Porto Post Doc, e o filme há de também passar em duas partes na RTP, já depois de ter sido exibido em sala”, revela o realizador que adianta ainda não haver, para já, planos para edição em formato físico.

“Acho que o Zé Pedro iria sentir um enorme orgulho em saber que um filme sobre si abriria uma secção do festival designada como Heart Beat”, avança Diogo Varela Silva. Será esse, enfim, o momento em que as pessoas que participam no filme, sobretudo as da família, poderão finalmente ver o resultado da sua abertura das memórias. “Nunca mostrei os meus filmes aos retratados antes da estreia”, explica o realizador, “porque acho que isso nunca é justo para eles ou para mim. Não fiz isso com a Beatriz da Conceição, nem com a minha avó: elas só viram os filmes em sala, mesmo. Tenho sempre algum medo quando se mexe nestas coisas. Sei que custa ver um filme de alguém querido, fica-se sempre com a sensação que ficou algo por dizer ou que há coisas que foram ditas e que se calhar não deveriam ter sido... São sempre coisas melindrosas e eu nunca permiti que esses melindres perturbassem a forma como imagino os filmes”.

“Zé Pedro Rock 'n' Roll” é exibido na secção 'Heart Beat' do Doc Lisboa, a 18 de outubro, às 21h30, no Cinema São Jorge (Sala Manoel de Oliveira). O evento apresenta também documentários sobre Daniel Johnston, Bob Dylan, Dorival Caymmi e Bill Wyman.