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Rita Carmo

Valete sugere às “feministas burguesas” que lutem pelas mulheres que vivem como escravas nos subúrbios de Lisboa

Na sequência da polémica causada pelo vídeo de 'BFF', Valete fez um vídeo de esclarecimento, no qual reconhece que nunca o rap foi, a nível mundial, tão misógino

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Valete partilhou hoje um vídeo no qual aborda a polémica causada pelo seu tema novo, 'BFF'.

Na canção e no vídeo que a acompanha, Valete conta a história de um homem traído pela mulher, que reage à situação apontando uma caçadeira à companheira e ao amante.

O vídeo foi acusado de servir de glorificação da violência doméstica, o que o rapper refuta.

Nos últimos dias, Valete envolveu-se numa troca de palavras com Fernanda Câncio, jornalista que no Diário de Notícias assinou o primeiro artigo sobre o tema.

No blogue Jugular, Fernanda Câncio escreveu que Valete lhe enviou posteriormente mensagens ameaçadoras; o músico garante que se referia apenas a uma “guerra de palavras”.

Hoje, Valete partilhou então um vídeo no qual lamenta as “notícias falsas e deturpadas” que têm circulado e a ação de “um grupo de feministas burguesas, pessoal ignorante que não respeita o rap, pessoal preconceituoso que vê o rap de uma forma unidimensional e não o respeita artisticamente”.

Explicando que habitualmente gosta que os seus temas “gerem debate público”, Valete aproveita para lembrar uma situação que lhe é próxima.

Eu venho de uma realidade onde as mulheres são escuras demais para terem empregos que não sejam limpezas. Venho de uma realidade onde as mulheres são humilhadas uma vida inteira pelo SEF quando precisam de alguma documentação ou autorização de residência. São mulheres que vivem em subculturas onde está normalizado terem de trabalhar 12 horas e ainda terem de ir para casa cuidar do lar e dos filhos, subculturas onde a violência doméstica está completamente normalizada. Nunca vi nenhuma dessas feministas popstar, aqui nos subúrbios, a travar luta feminista com estas mulheres que são praticamente escravas em 2019.”.

“Enquanto esse movimento feminista mainstream não estabelecer como prioridade a luta ao lado dessas mulheres que vivem numa situação de escravidão nos subúrbios de Lisboa, para mim esse movimento feminista é caviar”.

“Enquanto eu não vir todas as que se dizem ativistas do feminismo com um projeto de salvação das mulheres escravas nos subúrbios de Lisboa e não só, para mim são todas feministas de sofá, de teclado”.

Valete reconhece, porém, que o rap atravessa o seu momento mais misógino de sempre, não só em Portugal como a nível mundial.

“Se houver algum interesse do feminismo burguês em combater a misoginia no rap, e eu acho que não há, Valete nunca poderá ser alvo, nunca. Todas as feministas do hip-hop sabem disso, todas as feministas do terreno sabem disso”, assegura.

“A luta feminista é a luta mais importante para a sociedade portuguesa e algumas dessas feministas popstar estão a ridicularizar a luta feminista”, remata, admitindo que o movimento anti-racista também teve, outrora, alguns momentos patéticos.

O vídeo de resposta de Valete está aqui.