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Criolo: “O Brasil é o país que mais mata a comunidade LGBTQI+. Esse massacre tem de acabar”

O músico de São Paulo, que na próxima sexta-feira atua em Lisboa, falou com a BLITZ sobre o seu novo projeto, destinado a combater a homofobia, e sobre a forma como “a ansiedade e a depressão estão a assolar o Brasil”

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Nascido há 44 anos em São Paulo, Kleber Cavalcante Gomes, mais conhecido como Criolo, tem construído um eclético percurso musical onde cabem o rap, o samba e, mais recentemente, a pop eletrónica. 'Etérea', canção que é um manifesto de apoio à comunidade LGBTQI+, serviu de pretexto para a conversa com o artista que, a 20 de setembro, se apresenta ao vivo no Lisboa ao Vivo.

Lançou este ano a canção 'Etérea', que no Youtube tem quase um milhão de visualizações. Está contente com o impacto da canção?
É uma honra muito grande ser autorizado a cantar essa canção, ser autorizado a participar nesse projeto audacioso e maravilhoso que envolve toda a história por trás dessa canção, ‘Etérea’. Sinto-me muito honrado e o ponto crucial é entenderem, também, a vossa força para ajudarem a canção a chegar a mais pessoas, porque essa reflexão é necessária e urgente.

Nos comentários do Youtube, há fãs muito entusiasmados, não só com a música como com a mensagem da letra e a estética do próprio vídeo. O vídeo tinha de ser assim, forte, para melhor servir a música?
O vídeo foi conduzido a partir de um ambiente criado pelos realizadores para deixar as pessoas que estão a participar no vídeo – para nós, uma grande honra – terem total liberdade para fazerem o que quiserem. Então, eles é que conduziram esse trabalho – e ficou maravilhoso. É como nós dizemos: essa música é só uma moldura. Essas pessoas, as suas histórias, o seu amor e a sua luta pela sobrevivência é que são a grande arte. Eles é que são a tela.

Nesta tema canta “é necessário quebrar os padrões”. É importante passar essa mensagem, no momento que o Brasil atravessa?
O Brasil é o país que mais mata a comunidade LGBTQI+. As pessoas estão a ser assassinadas. Não é só importante, é urgente. É gritante. Esse massacre tem de acabar.

Como está o ambiente na cidade onde vive, São Paulo?
São Paulo sempre foi uma cidade tensa, muito tensa. Um barril de pólvora prestes a explodir a qualquer momento. O que nos dá esperança, o que nos enche de fé, é toda uma juventude que luta para mudar este quadro. Para essas pessoas ficam aqui a minha saudação e o meu carinho.

Este verão esteve em Portugal, tocando no festival Mimo, em Amarante. Que recordações guarda dessa experiência?
Especial demais! Foi espetacular, maravilhoso. Foi uma troca de energia muito linda. Muito lindo, mesmo.

Já este mês volta a Portugal, para dar um concerto em Lisboa. Vai tocar sobretudo canções já conhecidas ou apresentar temas novos?
Vamos levar a tour Boca de Lobo. Vamos cantar músicas de todos os álbuns, que estão com novas roupagens, novos arranjos. E vai ser bem especial!

'Etérea' é um single isolado ou vai ser incluído num novo álbum?
Essa canção tem uma força tão ímpar, uma energia e um porquê tão especiais, que independe.

O primeiro álbum que ouvi seu foi “Convoque Seu Buda”, de 2014. Mas o seu trabalho comporta tantos estilos musicais – rap, samba, eletrónica – que se torna difícil definir. Para si, não há fronteiras de estilo? É uma espécie de mutante musical?
A liberdade é muito importante. [O essencial] é sentirmo-nos bem e deixarmos o coração cuidar de como vai ser a estética do que apresentamos. O coração é que diz. E manter essa tranquilidade, entender essa força e dar vazão a tudo isso.

Em 2015, deu-nos uma entrevista em que dizia: “Tenho percebido que sou uma criança, um aluno deste planeta, que precisa da paciência, do carinho, da solidariedade de todos para continuar a aprender”. Continua a pensar assim?
Eu não sei nada! A cada dia que passa percebo que me vejo embrutecido e [entendo] o tanto que tenho a aprender. Somos todos alunos, com força de vontade, com sede, com gana de conhecimento e isso traz um ambiente extremamente positivo para novas construções, novas ideias e novos pensamentos.

O que acha da nova vaga de músicos “queer” vindos do Brasil? Aqui em Portugal, temos ouvido falar muito de Linn da Quebrada, Johnny Hooker, Pabllo Vittar… é importante haver liberdade para que estes artistas vinguem?
Esses músicos, esses artistas, essas pessoas já existem desde que o mundo é mundo! Apenas nunca houve espaço para elas. E esse espaço só está a acontecer, só existe, porque elas lutaram muito. Eu tenho-os num lugar de muito carinho pois são extremamente talentosos, inventivos, criativos, cheios de boa energia. Tenho respeito total por cada um desses artistas. A censura tenta calá-los e boicotá-los, mas esses artistas têm uma força gigantesca e dão-nos uma lição de força, amor e resistência.

‘Não Existe Amor em SP’, canção que editou em 2011, já pode considerar-se um clássico. Porque será que essa canção diz tanto a tanta gente diferente?
São Paulo não é uma cidade fácil para se viver. O Brasil não é um país fácil para se viver e sobretudo nesse momento, as coisas pioram mais ainda. Existe um olhar de ódio que toma conta da cidade. As pessoas parece que estão a viver com a cabeça por baixo de um tanque de guerra. Todos os dias somos amassados por pessoas que cultivam o ódio, por pessoas que cultivam a raiva, criando assim um jeito de fazer com que percamos o nosso chão, a nossa vontade de viver, o nosso amor próprio. A ansiedade e a depressão estão a assolar o Brasil.

Criolo atua no Lisboa ao Vivo, em Lisboa, a 20 de setembro. Os bilhetes custam 25 euros.