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Miles Davis em 1989

Miles Davis, o génio do jazz que um dia sonhou ser ídolo pop

Sabe-se que gravou com Prince sessões que permanecem no segredo dos deuses, que fez versões de Michael Jackson ou Cindy Lauper, que passava horas diante da televisão a ver vídeos na MTV. “Rubberband”, acabado de sair, deveria ter visto a luz do dia em 1985, mas só agora aterra no presente. Nasce da insistência de um homem que ainda hoje trata o génio do trompete por 'tio'

Em 1985, Miles Davis, então estava prestes a completar 60 anos, era uma superestrela de pleno direito, talvez o maior nome do jazz, autor de uma monumental discografia que atravessava com nobreza e autoridade artística diversas eras, do bop clássico ao mais avançado e estratosférico jazz-funk.

Depois de uma curta ligação à Prestige (editora para que o trompetista ainda assim gravou sessões suficientes para alimentar lançamentos bem para lá do final do seu contrato) na primeira metade dos anos 50 do século passado, Miles estreou-se na Columbia com o clássico ‘Round About Midnight no início de 1957, dando aí início a uma relação de quase três décadas que só chegou ao fim com You’re Under Arrest, trabalho de 1985.

Apesar do estatuto de pilar de uma das mais genuínas criações musicais americanas, Miles nunca se interessou por segurar tradições do jazz e sempre manifestou um espírito aberto aos tempos: deixou-se influenciar por Jimi Hendrix, por Sly Stone, Parliament/Funkadelic ou James Brown, eletrificou o seu jazz com In a Silent Way e Bitches Brew e injetou-lhe groove com On The Corner ou Get Up With It alcançando dessa forma na década de 70 um dos seus pináculos de criatividade, mesmo que a crítica não tenha sempre aplaudido entusiástica ou unanimemente cada um dos seus passos.

Miles Davis em 1985

Miles Davis em 1985

Getty Images

Não havia razão para que a década seguinte não revelasse igualmente estímulos vigorosos para a sua criatividade. “Ele estava sempre de olhos postos na MTV”, conta à BLITZ, ao telefone da “sunny California”, Vincent Wilburn, Jr., baterista e produtor que marcou presença em várias sessões que renderam álbuns para Miles no início dos anos 80 (por exemplo, The Man With The Horn, Decoy ou You’re Under Arrest). Vince, como gosta de ser tratado, é também sobrinho do já desaparecido trompetista, curador do seu legado artístico e coadministrador das propriedades que deixou.

Miles assinou contrato com a Warner no verão de 1985 depois de se ter mostrado desagradado com a Columbia, provavelmente por não ter obtido da editora que resguardava as suas gravações clássicas como verdadeiros tesouros a reação que entendia ser apropriada para um trabalho como You’re Under Arrest, com contornos vincadamente políticos e obviamente enamorada dos novos rumos da pop, tal como evidenciado pela inclusão no seu alinhamento de versões de “Human Nature” de Michael Jackson e “Time After Time” de Cindy Lauper.

Decidido a prosseguir essa aproximação aos novos sons que escutava na MTV, com a ajuda do seu sobrinho, que já tinha um crédito de coprodução no álbum Decoy, gravado em 1983, Miles começou a frequentar o estúdio de Ray Parker, Jr., autor do notório hit “Ghostbusters”, o Ameraycan Studio, em Hollywood, paragem predileta de estrelas como Billy Idol ou, mais tarde, Cypress Hill. As sessões que se estenderam até ao início de 1986 deveriam ter rendido um álbum de título Rubber Band, mas a Warner não estava inteiramente convencida do rumo que as gravações estavam a tomar e o executivo Tommy LiPuma, com o baixista de Miles, Marcus Miller, por “aliado”, acabou por marcar novas sessões que renderam o material que haveria de resultar em Tutu, o álbum de dezembro de 1986 que marcou a estreia do lendário trompetista na sua nova editora.

Em estúdio em 1985

Em estúdio em 1985

“O tio Miles passava o tempo a ver a MTV. Ele adorava os Scritti Politti, Prince, Cameo, Toto...”

“Arquivar os trabalhos de Rubberband foi uma decisão tomada pela Warner Bros. e por Tommy LiPuma que provavelmente achou que não seria a melhor direção para o tio Miles seguir no seu álbum de estreia para aquele catálogo”, justifica Vince Wilburn. “Penso que o Tommy terá ligado ao Marcus Miller e eles começaram a trabalhar no que viria a ser o Tutu e decidiram arquivar a ideia do Rubberband”.

O baterista não esconde, mais de três décadas depois, a incredulidade perante a decisão daquele que à época era o homem do leme da Warner: “Não faço ideia da razão que os levou a não quererem prosseguir com as sessões. Esta era a música que o tio Miles queria fazer, a música de que gostava. Ele queria muito ter um hit pop, como os que ouvia na MTV. E por isso pediu ao meu amigo Randy Hall que escrevesse um hit. Eu vivia com o tio Miles em Malibu nessa época e sei que ele passava o tempo a ver a MTV. Ele adorava os Scritti Politti, Prince, Cameo, Toto, esse tipo de bandas”.

Randy Hall, que coassina a produção de Rubberband com o sobrinho de Miles, chegou a editar em nome próprio. I Belong to You, álbum que lançou em 1984, foi gravado no mesmo estúdio em que Miles trabalharia nas sessões de Rubberband, e contou até com produção de Ray Parker, Jr. O produtor, compositor e teclista já tinha dado uma mão nos arranjos de The Man With The Horn e por isso o seu envolvimento na equipa montada por Vince foi mais do que natural já que possuía a experiência nos domínios pop-funk que Miles estava interessado em explorar.

“O tio Miles queria esse som do momento, moderno, que era o som das tabelas de vendas e foi esse tipo de som que procurámos ter nas sessões para este álbum”, prossegue Vince Wilburn. “Cheio de baterias eletrónicas e sintetizadores, baixos eletrónicos. Esse tipo de coisa”. Apesar de em Tutu, com a produção de Marcus Miller, se seguir uma via eletrónica igualmente vincada, o som era menos pop, talvez um pouco mais experimental ou vanguardista, à semelhança de algumas das experiências que Herbie Hancock, outro veterano gigante do jazz a braços com a procura da modernidade, andava a conduzir na mesma época. “Mesmo com as ideias postas de lado pela Warner, a verdade é que na estrada nós tocámos muito esse material”, ressalva o músico. “O disco não saiu, mas de tanto o tocarmos, sobretudo na Europa, onde as pessoas adoravam este tipo de som, até já havia um público para ele”.

“Os tempos que passámos em estúdio foram tempos felizes, com o tio Miles em ótima disposição”, explica Vince, fazendo questão de contrariar algumas das imagens de um Miles zangado com o mundo nesta fase da sua carreira. “Ele tinha a casa em Malibu, chegava ao estúdio vindo da praia, e adorava estar ali. Era o Ameraycan, do Ray Parker, Jr.. estávamos na Califórnia, cheia de sol, e aquela música tinha os grooves em que ele estava interessado. Era o som que ele escutava na sua cabeça e saber que o estávamos a traduzir naquelas sessões deixava-o bastante satisfeito. Foram muito bons aqueles dias em estúdio”.

Vince Wilburn Jr. reconhece que o interesse de Miles Davis pelos novos sons da pop que então se passeava pelo topo das tabelas não era muito bem percebido pelos guardiões das tradições jazz. “Miles foi alguém que ajudou a mudar o rumo da música umas três ou quatro vezes”, sublinha. “E sabendo como funcionava a cabeça dele eu não acho nada estranho que ele quisesse um êxito pop, ele queria deixar a sua marca nesse tipo de som. Ele mudava muito de ideias, às vezes em segundos, e nunca ninguém sabia exatamente aquilo em que ele estava a pensar e qual seria o seu passo seguinte. Mas neste momento da sua carreira não tenho dúvidas de que aquela era a direção que lhe interessava”.

Quem, à época, estava também a transformar a pop, lançando uma sucessão de clássicos, era Prince que, aliás, gravava para a mesma editora a que Miles se ligou nesta altura. Há muitos anos que há rumores de uma aproximação entre os dois génios negros que terão mesmo partilhado estúdio nalgumas ocasiões, desconhecendo-se, no entanto, qualquer material que possa ter daí resultado. “Há sessões”, garante Vince Wilburn. “Há sessões e a nossa família está a tentar trabalhar com os gestores da obra de Prince para localizar essas sessões e eventualmente lançá-las num futuro próximo”.

Zane Giles, Vince Wilburn, Jr. and Randy Hall

Zane Giles, Vince Wilburn, Jr. and Randy Hall

“Eu nunca esqueci Rubberband por uma razão muito simples”, prossegue o baterista. “A reação dos fãs sempre que tocávamos o disco era muito intensa. Se não me engano usávamos o tema “Rubberband” como um encore nesses concertos. Deixava sempre uma impressão forte porque representava algo de novo, normalmente soava diferente do resto do material que andávamos a tocar na altura. Era só gente levantada naquelas salas a dançar nos corredores (risos). Por isso quando a Warner nos veio propor lançarmos essas sessões, o que eu disse imediatamente foi, ‘vamos a isso, podemos manter o vibe e o formato original, mas vamos polvilhar alguma modernidade naquela música’”.

Juntamente com Randy Hall, Vincent Wilburn, Jr. voltou ao estúdio e recrutou as vozes de Loleatta Hathaway e Ledisi para terminar os temas, dando-lhes a aura pop que Miles perseguia em meados dos anos 80. E, como é claro, Vince não enjeita a oportunidade de nos dizer que tem uma muito bem recheada agenda de contactos.

Miles David ao vivo em julho de 1991, dois meses antes da sua morte

Miles David ao vivo em julho de 1991, dois meses antes da sua morte

Getty Images

“Aquela foi de facto uma grande época para se gravar, a tecnologia era fantástica, o som era muito bom. O que acrescentámos agora foi, obviamente a Ledisi e a Lalah Hathaway, duas vocalistas incríveis. Chamámos o enorme King Errison, percussionista, o Isaiah Sharkey, guitarrista que toca com o John Mayer... Conforme o que achávamos que a faixa estava a pedir fomos chamando gente. Havia uma faixa em que era suposto ter entrado o Al Jarreau, mas ele faleceu. Falámos com o Bruno Mars, com o Gregory Porter, mas eles estavam ocupados com os seus próprios projetos, por isso o Randy acabou ele mesmo por cantar. Ele já tinha cantado no The Man With a Horn, por isso eu disse-lhe: ‘Porque não cantas tu?’ E ele cantou”.

Tanto Ledisi como Lalah Hathaway, conta Vince, agarraram imediatamente o convite para cantarem num disco de Miles: “Adoro-as, são como minhas irmãs, são amigas íntimas. E ficaram muito entusiasmadas quando lhes liguei. E só precisaram de um take ou dois para gravarem as suas participações. São cantoras cheias de talento, líderes dos seus próprios projetos, e muito profissionais. Foi uma honra e um prazer tê-las no estúdio”, admite o produtor.

Miles estava, de facto, enamorado da pop, e via-se, apesar da idade, como um potencial criador de êxitos radiofónico, não temendo aproximar-se desse universo nas versões que assinou no final da sua carreira discográfica. E pode haver ainda uma ou duas surpresas à espera nos arquivos, concede Vince. “Há uma faixa que adorava terminar, ‘Broken Wings’, uma versão dos Mister Mister que o tio Miles gravou, mas não terminou. E há mais material. Quem sabe? Se calhar temos até o suficiente para um Rubberband Part 2...”.

Depois de John Coltrane ou Prince, cabe agora a vez a Miles Davis se reencontrar com o presente através da recuperação de material inédito, prova de que continuamos fascinados com a presença destes “fantasmas”: “A nostalgia é uma coisa maravilhosa”, explica Vince Wilburn. “Permite-nos reviver coisas com 20 ou 30 anos ou mais, permite-nos voltar a pensar em quem éramos, o que usávamos, aquilo em que pensávamos quando estas estrelas ainda eram vivas e faziam a música que queríamos ouvir. E todas estas memórias são um tesouro, muito frágil como sabemos depois do que aconteceu com o fogo nos estúdios da Universal. É importante preservar este som, esta música. Poderemos não ter uma segunda oportunidade”.