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James no Rock in Rio Lisboa'18

Rita Carmo

Os James vêm a Portugal dar “uma festa maluca”. A entrevista com Tim Booth e Saul Davies

A veterana banda que insiste em definir-se como “um erro simpático” regressa a Portugal no próximo sábado, para atuar na festa de 15 anos do Rock in Rio Lisboa. À BLITZ, Tim Booth e Saul Davies falaram do seu 37º (!) concerto no nosso país, do Brexit e dos grandes hinos da sua cidade, Manchester

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Ao telefone da Escócia, sob fortes chuvadas, Tim Booth e Saul Davies falaram com a BLITZ sobre o concerto que os James darão nos jardins da Torre de Belém, a 7 de setembro, no âmbito das celebrações dos 15 anos do Rock in Rio Lisboa. Depois de já ter atuado junto à Acrópole de Atenas ou à Estátua da Liberdade, em Nova Iorque, o vocalista mostrou-se entusiasmado com a ideia de tocar com o Tejo por cenário. Já o multi-instrumentista, que há quase 20 anos casou com uma portuguesa, garantiu estar feliz por, com a viagem a Portugal, “poder voltar a ver algo chamado 'o sol'!”.

Onde encontramos os James hoje?
Tim Booth:
Estamos a viajar pela Escócia, pela natureza fora, com muita chuva. Estamos cansados, temos andado a escrever canções. Já escrevemos umas oito canções! Há muita coisa a acontecer, mas estamos a divertir-nos imenso. São tempos mágicos.

Segundo o setlist.fm, este será o 37º concerto dos James em Portugal, desde a primeira vez que cá vieram, em 1992. Ainda ficam contentes por regressar?
Tim Booth:
Claro, sem dúvida! Sobretudo se for para tocar para 30 mil pessoas, em Lisboa! Vai ser uma festa maluca. Ainda por cima alguns de nós - eu, o Saul - temos família em Portugal, então adoramos voltar. Já antes de termos uma banda visitávamos o vosso país. Os portugueses são um público para o qual adoramos tocar; ouvem-nos com muita atenção. Diria que, ao contrário do que acontece em Inglaterra ou na Escócia, não se embebedam tanto. (risos) E ouvem atentamente, seja em Lisboa ou no Porto. Mesmo as canções que não conhecem, respeitam. E ficam malucos com as que conhecem bem. Para nós, é muito entusiasmante. Há públicos mais virados para a festa, que só querem músicas de festa, embora nós não costumemos ir muito por aí. E os países que veem as coisas mais como arte, a quem podemos mostrar as nossas outras canções.

Vão tocar um alinhamento best of ou mais centrado no vosso último disco?
Tim Booth: Vamos tocar muita coisa do último álbum, que tem corrido muito bem. Se fôssemos uma banda jovem, este disco seria um grande êxito, mas ainda assim tem sido um êxito na Escócia e noutros países. Algumas das canções novas correm mesmo muito bem ao vivo, e também vamos tocar coisas mais antigas, do nosso catálogo, e canções de 1984 (risos). Vai ser uma festa, com muita alegria. Vamos tocar uma grande variedade de canções. Mas, quando tens 30 mil pessoas à tua frente, o mais importante é que seja um concerto animado.

Alguma vez sentem que os James, formados há quase 40 anos, são como um gato com as suas sete vidas?
Saul Davies:
Implícita na tua pergunta está a ideia de que já devíamos ter morrido! (risos) E se calhar é verdade, às tantas já estamos a abusar. Já andamos nisto há quê, 38 anos? E como o Tim te disse, continuamos a escrever música. É uma longa carreira! Às vezes perguntamos uns aos outros: “vamos fazer isto durante quanto tempo?” Na verdade, a decisão não é bem nossa. Claro que podíamos decidir parar. Mas no que respeita ao que a indústria nos permite fazer, ao que o nosso público nos deixa fazer ou exige que façamos, isso não está nas nossas mãos. Houve alturas na nossa carreira em que parámos, desistimos, e aí, para responder à tua pergunta, gastámos umas vidas. (risos) Mas voltámos sempre e safámo-nos sempre bem. Ainda estamos a fazer música de que nos orgulhamos, que consideramos desafiante. Às vezes ainda damos grandes concertos, às vezes também fazemos asneira, o que não tem mal, pois não somos uma banda especialmente interessados na perfeição. Não somos perfeitos, nem de perto nem de longe. Sei que as pessoas às vezes pensam que somos bastante corporate, até na nossa forma de pensar, mas não, só andamos nisto há muito tempo. Provavelmente parecemos algo que não somos. Somos uma banda sobre a qual é fácil ter uma opinião, que nem sempre é baseada na realidade, o que também é normal. Basicamente, só continuamos a fazer as nossas m*rdas! Só precisamos que haja gente suficiente a gostar para podermos continuar. Nunca nos tornámos extremamente populares. Sei que parecemos muito bem-sucedidos, comparados com bandas pequeninas e em começo de carreira, e claro que temos uma história e longevidade, mas nunca chegámos ao nível de uns Coldplay. E até gostávamos, somos bastante ambiciosos! Mas não sabemos como chegar lá. Não somos científicos, na forma como fazemos as coisas. Somos um erro muito simpático. (risos)

Os James estão juntos desde 1982, tendo feito uma pausa entre 2001 e 2007

Os James estão juntos desde 1982, tendo feito uma pausa entre 2001 e 2007

Nos últimos tempos vários músicos têm morrido, depois de sofrerem de problemas de saúde mental, acabando por suicidar-se. Isto tem acontecido sobretudo com músicos de meia-idade nos Estados Unidos. Têm alguma ideia da razão pela qual estará a acontecer?
Saul Davies:
A minha opinião pode ser um pouco provocadora. Fizemos agora uma digressão pela América e eu não queria ir, porque odeio a América. Não gosto da cultura, da comida, das autoestradas, das salas, das pessoas, da política, da religião, das armas, não gosto de nada. OK, o mar é fantástico, o país muito bonito... Mas depois voltas lá e conheces pessoas fantásticas, e começas a repensar a tua opinião. O que eu percebo, quando lá estou, é que aquilo é stressante como o raio. Se és músico, se representas uma cultura que não está no mainstream, podes sentir-te [à parte]. E quando és músico ou escritor, porque isto atinge todas as formas de arte, e já tens uma certa idade... não há qualquer tipo de apoio. Seja apoio institucional, financeiro... Para mim, a arte - quer seja música, dança, teatro, artes visuais - é parte do batimento cardíaco de uma nação. Se não as apoiarmos, desaparecem. E aquilo de que não se fala é que as pessoas que a fazem estão sob muita pressão, nem as contas podem pagar. Toda a gente pensa que estar numa banda deve ser muito fixe. E pode ser, mas também pode não ser. Mas também diria que nós, músicos, somos iguais a toda a gente. Se fores taxista ou jornalista... toda a gente está lixada e tem problemas. Não há vidas mais importantes que outras. Mas as pessoas que sentem a vontade de fazer arte... somos os esquisitóides. (risos) Malucos já somos! Não é um ato de sacrifício? Quase como um suicídio. Quando tens 15 ou 16 anos e dizes aos teus pais que queres ter uma banda, eles olham para ti e dizem: “és um idiota do ca*****. Isso não vai resultar, nem sabes tocar”. E é assim que começas a ser um esquisito, um outsider. Se a isso juntares muito stress e pressão e muito disparate político, algumas pessoas dizem: “olha, não consigo. Vou andando para a próxima vida”. É f*dido. Ao mesmo tempo, algo de estranho se passa. Eu tenho filhos e encorajo-os a fazer o que quiserem, desde que não seja perigoso. Educo os meus filhos num ambiente de muito apoio. Mas é falso, porque o mundo não é nada assim. O mundo é uma m*rda e algumas pessoas, quando lá chegam, têm de acordar. E isto está tudo de pernas para o ar.

Tim, ainda vive na Califórnia?
Tim Booth:
Sim, ainda vivo lá.

Como é ver o que acontece no Reino Unido, com o Brexit e outros fenómenos, à distância?
Tim Booth: O Boris Johnson parece uma versão inglesa e mais pequena do Trump. E está disposto a infringir as leis da democracia para conseguir o que quer. Eu sou, obviamente, contra o nacionalismo e contra o racismo, que me parecem ser a 'trela' do Brexit. Não acredito que toda a gente que votou a favor do Brexit seja racista, de todo. Mas as pessoas que serviram de força motriz ao Brexit, que o organizaram e mentiram durante a campanha, são inerentemente racistas. E influenciadas pelo que vem da América de Trump e pelo medo.

Em tempos disse numa entrevista que, para que o planeta se salve, tem de haver uma “mudança de consciência”. Ainda iremos a tempo?
Tim Booth: Acredito que sim! Sou uma pessoa bastante otimista. Por isso é que o [último] álbum [dos James] se chama “Living in Extraordinary Times”. Acho que já está a acontecer uma mudança de consciência e podia explicar porquê, com pormenor, mas não sei se tens tempo. Podia falar-te de livros como “How To Change Your Mind”, de Michael Pollan, ou do Ellon Musk que, apesar de ver o seu comportamento muito escrutinado pelos media, está a tentar salvar o planeta, e está a fazer um bom trabalho, ou a fazer o melhor que um indivíduo pode fazer. Como tal, acho que há muita esperança.

O que pensa da ativista Greta Thunberg? Parece recolher tanta admiração como ódio e desconfiança, sobretudo online...
Tim Booth: Claro. Mas as mulheres vêm aí, os jovens vêm aí. E é disso que precisamos. Pessoalmente, acho que as pessoas de 70 anos têm menos consciência social e política e menos direito a votar que um miúdo de 12. As pessoas mais velhas já não vão sentir as consequências [destas mudanças] da mesma forma. Então, a juventude tem de ter uma palavra. E a Greta Thunberg é uma revolucionária fantástica. A crise climática vai afetar muito mais os jovens do que as pessoas da minha idade. Eles têm de ser ouvidos, têm de poder votar. Eu sou suficientemente maluco para dizer que um jovem de 14 anos deveria poder votar, porque pode ter um entendimento melhor destes temas do que uma pessoa de 70.

O que sentiram quando a vossa canção 'Come Home' foi eleita o maior hino da cidade de Manchester?
Saul Davies:
Foi muito engraçado! Porque o melhor hino de sempre de Manchester é a 'Love Will Tear Us Apart', não há mais nada. É de génio, mesmo de génio. É a Mona Lisa, percebes? Para mim, a 'Come Home' ter ficado em primeiro é uma anedota. É uma canção incrível, mas se souberes alguma coisa sobre o nosso trabalho, percebes que é um hino de Manchester feito por uma banda que não fazia música de Manchester. Em 1989, quando eu me juntei aos James, éramos uma banda folk. Se ouvires a gravação original da 'Sit Down', é uma coisa estranha, linda, muito inglesa e melancólica. Depois regravámo-la quase como se fosse uma música dos Pixies: mais forte, maior. Mas a 'Come Home' foi um engano. Estávamos a jammar no estúdio e alguém começou a tocar os acordes da 'Sit Down'. Mas o feeling e o ritmo eram completamente diferentes.Nunca ninguém iria reparar que eram os mesmos acordes, a embalagem é completamente diferente. Atitude diferente, energia diferente, música completamente diferente! Foi na brincadeira que fizemos essa canção, o que é fixe, porque foi um engano! A 'Come Home' foi o bebé não planeado que os pais decidiram ter. (risos) É uma música que é incrível, que tocamos muito, adoramos tocar e vamos tocar em Portugal. É simples, cool, groovy... aquela gravação era muito limpinha, entretanto tornámo-la um pouco mais suja. É energética, forte, aguçada. Mas quando foi eleita o maior hino de Manchester, fiquei chocado. Pensei: “não! Está mal! Devíamos ter ficado em segundo lugar!”.

Mas deve ser bom ter esse reconhecimento.
Saul Davies: Claro, o mais importante é perceber que Manchester produziu tantos grandes artistas e tantas grandes canções ao longo de tantos anos.

Os James tocam na festa dos 15 anos do Rock in Rio Lisboa, a 7 de setembro, nos jardins da Torre de Belém, em Lisboa. A entrada é livre. No dia 6 atua Rui Massena e a 8 Ivete Sangalo.