Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Notícias

Steve Gunn

Iris Cabaça

Apaixonado pela “culpa romântica” dos portugueses, Steve Gunn regressa esta semana a Lisboa. Entrevista emotiva com um músico “da casa”

Fã de Prince e Jimi Hendrix, Bob Dylan e Lou Reed, Steve Gunn lançou este ano um dos seus discos mais pessoais e falou connosco sobre a sua educação católica, a relação com o pai, recentemente falecido, e a paixão por Portugal, país com cuja melancolia se identifica e ao qual regressa esta semana para um concerto em Lisboa

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Um dos guitarristas mais aplaudidos da sua geração, o norte-americano Steve Gunn é também um escritor de canções de mão cheia. Em 2019, fez as pazes com o passado do pai e falou ao Expresso sobre a importância de conhecer os seus heróis e a identificação com a "culpa romântica" dos portugueses. Atua na Galeria ZDB, em Lisboa, na próxima quarta-feira (4 de setembro).

Tem-se escrito que este disco tem algumas das suas canções mais imediatas de sempre. Concorda com essa ideia?
Se com isso quiseres dizer 'mais acessíveis', penso que sim. A forma como escrevo canções e penso num álbum como um todo tem vindo a mudar ao longo dos anos. Passei a gostar mais da parte de engenharia de som. Desta vez gravei num estúdio mesmo bom, em Brooklyn, o sítio mais porreiro em que já trabalhei, com pessoas - como o produtor, James Elkington, e o engenheiro de som Daniel Schlett - que tornaram tudo mais fácil. As canções foram feitas de forma muito simples. Não quis escrevê-las em demasia, nem colocar demasiadas guitarras, nem fazer nada demasiado complicado. Levei muito tempo a simplificar o que estava a fazer. No fundo, acho que ainda estou a aprender a escrever canções! (risos)

Cresceu nos subúrbios de Filadélfia e andou numa escola católica. Isso marcou-o de alguma forma?
Foi estranho, porque eu andava na que parecia ser a última escola católica antiquada para pessoas da minha idade. As freiras que davam lá aulas batiam aos miúdos na cabeça... Como os meus pais, que levavam reguadas se se portassem mal. Elas tentavam incutir em nós uma data de valores e obrigar-nos a fazer certas coisas. Quando já era mais crescido, comecei a questionar isso tudo. A meu ver, não é isso que se deve fazer para ensinar as crianças a conhecerem-se e a não se sentirem culpadas pelos seus sentimentos. As crianças não devem sentir que são más pessoas por serem diferentes, ou por precisarem de falar de alguma coisa. Isto foi algo que eu aprendi a rejeitar - todas essas coisas que me foram impostas na escola. Quando entrei na adolescência, comecei a gostar muito de música e os meus pais puseram-me nas aulas de música. Aí descobri um outro mundo.

Essa ideia de culpa está muito presente na cultura portuguesa...
Acho que também há uma certa saudade, que se transforma em culpa. Culpa romântica, será? Se calhar é por isso que adoro Portugal! Por me identificar. (risos)

Fez uma residência em Lisboa há alguns anos, gravando um disco com Mike Cooper. O que recorda dessa viagem?
Quando fiz o álbum com ele, não o conhecia. Encontrámo-nos no aeroporto de Lisboa e passámos duas semanas num apartamento muito bonito. Basicamente tocávamos durante o dia e dávamos grandes passeios. E adorámos andar na cidade. Eu já tinha ido a Lisboa algumas vezes, mas ter tempo para absorver a cultura foi ótimo. Tenho grandes amigos em Lisboa, é dos sítios que mais gosto de visitar.

Quando começou a tocar guitarra?
Teria uns 14 ou 15. Queria um instrumento e os meus pais deram-me um baixo. Depois, no meu aniversário, recebi uma guitarra acústica, onde tocava umas coisas à toa. Nem sabia o que estava a fazer. Depois comecei a ter aulas numa loja de guitarras, no meu bairro. E lá comecei a perceber a estrutura, só o básico.

Quando percebeu que isto da música era a sério e não uma mera brincadeira?
Quando acabei o liceu e me mudei para a cidade. Comecei a ir a mais concertos, a conhecer mais músicos que ensaiavam muito e a admirar muitos guitarristas. Começámos a trocar ideias de como tocar estilos diferentes... eu já me andava a desafiar nesse sentido,
já gostava de me fechar numa sala a tocar horas e fio. Então percebi que devia ensaiar o máximo que pudesse, comecei a tocar melhor e a dar concertos. Isto em Filadélfia, onde também conheci pessoas que tinham editoras e amigos que estavam a lançar discos.

O seu amigo William Tyler também só começou a tocar “a sério” no final na adolescência. Contudo, ouvindo os vossos discos, dir-se-ia que nasceram a saber a tocar...
(Risos) O pai do William também é compositor, ele vem de uma família muito musical. Talvez por isso tenha demorado a começar a tocar. De igual forma, os meus pais adoravam música, estavam sempre a tocar… todos os tipos de música. Eu já era muito musical antes de começar realmente a tocar.


Quem eram os seus guitarristas favoritos?
O primeiro foi o Prince. Era obcecado por ele, em miúdo. Os meus pais deixaram-me ver o "Purple Rain", que era um filme bastante maroto! Também adorava o Jimi Hendrix. E ainda são dois dos meus favoritos.

E quem são os seus escritores de canções favoritos? Sei que é fã de Bob Dylan...
O Dylan, sem dúvida. E o Lou Reed. Penso muito nos Velvet Underground e em como as suas canções, tão simples, podem ser tão eficazes. O Lou Reed era um mestre a brincar com a língua e a contar histórias, quase em tempo real, pela mão das personagens. Personagens duvidosas e underground. Vou beber muito às suas palavras e à forma como se deixava inspirar pela literatura e pela arte. Considero-o muito importante e até cheguei a conhecê-lo, o que foi bastante estranho.

Quando foi isso?
Pelo menos há uns 12 anos... talvez há 15? Eu trabalhava numa galeria de arte e ele foi lá. Eu e um amigo meu 'apanhámo-lo' e apertámos-lhe a mão... bem, praticamente obrigámo-lo a apertar-nos a mão. (risos) Mas até foi amigável e falámos um minuto. Foi muito excitante.

Neste disco dedica ao seu pai uma canção, 'Stonehurst Cowboy', sobre o tempo que ele esteve na Guerra do Vietname. Ele falava disso ou, como muitos homens da sua geração, evitava o tema?
Entre as pessoas que estiveram na guerra, há uma dor que não é discutida. E também muita confusão. O meu pai e os seus amigos eram tão jovens, quando isso aconteceu, e muitos não chegaram a recuperar. Durante muitos anos, estas pessoas quiseram proteger a sua família, não lhes falando desse tempo e dos seus atos. Mas estavam a sofrer psicologicamente. Quando somos mais novos, estamos a tentar perceber a nossa própria psicologia, queremos ser autónomos. Entretanto fui aprendendo mais sobre os anos 60 e ganhei um novo interesse na história do meu pai. Ele era muito pobre, em criança, e basicamente não teve escolha. Nem ele nem os seus amigos e irmãos. Depois voltaram para as suas famílias, tentaram aguentar-se mas há sempre aquele sofrimento que nunca é falado e vai passando para o resto da família. Quando o meu pai ficou doente, aproximámo-nos e eu aprendi muito sobre a história dessa guerra e de como foi horrível, a tantos níveis. Aí ele já estava preparado para se abrir um pouco mais e até para fechar um ciclo. Foi uma altura especial para nós, nem só como pai e filho, mas quase como amigos próximos, em que ele resolveu problemas muito enraizados sobre as decisões que tomou na vida e as experiências horríveis que teve. Ele também perdeu amigos; foi uma época muito confusa, que ainda causa sofrimento nas pessoas. Para mim é muito importante ficar em paz, não só com a história do meu pai, mas em geral. Tenho a esperança de encontrar essa paz. E encontrei-a com o meu pai. Esse é o tema implícito deste álbum.

Como foi produzir um disco do veterano Michael Chapman?
Foi maravilhoso. Ele estava com uma inspiração renovada, tinha escrito umas 20 canções e tivemos de decidir em quais trabalhar. Fui a casa dele, pegámos nas canções e fomos de carro para o País de Gales, onde gravámos com o BJ Cole, que é um guitarrista de pedal steel incrível, que toca com o Michael desde o final dos anos 70, e a Bridget St. John. Era um belo grupo de pessoas e foi tudo muito intimista, numa casa de pedra antiga, no campo, em Gales. O Michael está mais velho e tem uma certa fragilidade que eu quis captar. Seria fácil fazer um álbum com muita gente e muitos instrumentos, mas eu quis concentrar-me nele; quis que parecesse que estamos a sós num quarto com ele. Ele é um dos meus heróis, ouvi tanto os seus discos! Inspira-me muito que ainda esteja a trabalhar, com aquela idade [78 anos]. É muito especial.

Está a funcionar como uma espécie de Rick Rubin para este Johnny Cash?

O William Tyler escreveu um artigo muito belo sobre isso. Fala um pouco sobre a forma como conhecemos o Michael Chapman e sobre como a nossa relação é especial. Muitos músicos não pensam sobre a trajetória dos songwriters, mas saber que alguns destes songwriters mais velhos que nós admiramos ainda cá andam é muito importante, tal como o é homenageá-los.

Também contribuiu para a recuperação de um disco perdido da japonesa Sachiko Kanenobu. Como é que isso aconteceu?
Eu já tinha ouvido o álbum ["Misora", de 1972], numa rádio independente local chamada WFMU, mas não sabia muito sobre ela. Anos mais tarde, ia no carro a ouvir rádio e ela estava a dar uma entrevista, contando a história da sua vida, que é fascinante. Não só o disco é espetacular como a história dela é uma loucura! Casou-se com um jornalista musical americano bastante importante, nos anos 70, e mudou-se para a Califórnia. Muita gente no Japão nem sabia o que lhe tinha acontecido e aquele disco tornou-se um objeto de culto, de colecionador. Foi muito interessante saber que ainda tocava! Quem a estava a entrevistar era um amigo meu; mandei-lhe um mail e lá nos pusemos em contacto. Convidei-a para um festival na Califórnia e ela ficou tão grata pelo feedback a um álbum que gravara há tanto tempo! Entretanto, a editora Light in the Attic já estava a planear reeditar o disco, que sairá daqui a uns meses. Tentei ajudá-la e tornámo-nos amigos.

Quando esteve em Portugal foi a casas de fado. Acha que há uma raiz comum a músicas como os blues?
Creio que sim! Falávamos daquela culpa romântica. (risos) O fado é muito belo e parece-me que a cultura portuguesa tem essa saudade, e um certo orgulho. Admiro muito o som da guitarra portuguesa, que é muito singular e bonito. E o Carlos Paredes, que é um dos meus guitarristas favoritos. Sei que tocava com a Amália, mas é interessante que tocasse a solo, também. Era único no mundo do fado e o facto de se ter distinguido tanto é incrível.

Versão integral da entrevista publicada no Expresso a 27 de abril de 2019

Steve Gunn atua na ZDB, em Lisboa, a 4 de setembro (quarta-feira). Os bilhetes custam 10 euros