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Chong Kwong

Rita Carmo

Quem é Chong Kwong? A história da rapper com “muitas misturas” que é a nova sensação do hip-hop em Portugal

Cabo Verde, China, Moçambique e Timor correm-lhe nas veias, cresceu entre a Buraca, a Damaia e o Cacém e prepara-se para editar “Filha da Mãe”, o álbum de estreia. Falou-nos sobre a infância difícil, os tabus do hip-hop e aquilo que a une a Conan Osiris

Rita Carmo

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Fotojornalista

Eu não sou de aço, eu sou de bambu” é um daqueles versos que só fará verdadeiro sentido para quem já visitou um país asiático. Mas quando Vanessa Pires, que renasce agora no mundo do hip-hop português enquanto Chong Kwong, o coloca a rimar com “sa f*da o teu abraço, meu braço é kung fu” tudo começa a fazer sentido. Com sangue cabo-verdiano, chinês, moçambicano e timorense a correr-lhe nas veias, a MC que passou a infância entre a Buraca, a Damaia e o Cacém não é de meias palavras e chegou para lutar pelo seu território. Nada melhor para se (re)apresentar do que um exercício de autoafirmação que serve igualmente de declaração de intenções: “muitos tentaram pedir: ‘Nessa, sou teu ghost writer. Entra no meu videoclip’, baby, não sou dick rider. Tenho barras à Pequim, eu sou made in China”, ouvimo-la dizer em ‘Chong Kwong’, o single que abre a porta do seu palácio. As boas-vindas estão feitas, o chá será servido com “Filha da Mãe”, a estreia nos álbuns que, “se as estrelas se alinharem”, tenciona editar ainda este ano.

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A questão que se impõe, acima de todas, é saber de que forma a mistura de culturas se traduz na sua música. “É uma pergunta difícil de responder”, diz-nos, “acho que também estou a descobrir. Não gosto de rótulos. A minha fundação é o rap, o hip-hop, e sempre será, mas a partir daí não quero ter limites”. As misturas a que nos referimos é algo a que a própria alude quando, momentos mais tarde, entre risos, remata: “é um blasian sauce”, um molho que resulta da sua ascendência africana e asiática. “O meu avô falava-me muito sobre a cor da minha pele, dos meus olhos, do meu cabelo, de onde venho, das minhas misturas, e dizia: ‘vais perceber que não vais pertencer, que vai ser difícil encaixares. Não és branca, não és preta, não és chinesa’. Só percebi muito mais tarde o que ele queria dizer com isso”, recorda antes de dizer que o hip-hop foi a sua “primeira tribo”. “Cheguei, fui bem recebida e não fui questionada. Não te perguntam de onde vens, o que és… Não tentam automaticamente pôr-te um rótulo, mas sem dúvida que tenho vindo a encontrar outras tribos. Tem sido uma surpresa muito boa”.

Foi, em parte, devido a essa dificuldade em encaixar-se – “não tinha exemplos que pudesse seguir. Mesmo fisicamente, quando via televisão ou na escola não tinha alguém com quem me identificasse” – que começou a dar os primeiros passos na música, ainda adolescente. “Comecei a gravar em beats americanos e franceses, em casa. Aquela coisa caseira mesmo”, explica, “mas foi com um beat do Sam The Kid, do ‘Beats Vol. 1: Amor’, acho que se chama ‘Quando a Saudade Aperta’, que tive aquele feeling. Era muito nova, tinha 14 ou 15 anos e foi mesmo aquela coisa de ‘vou fazer, vou-me expressar. Na altura nem sequer sabia o que era ser rapper ou o que isso implicava. Não sabia o que estava a fazer”. Juntando a vontade de querer falar sobre a “relação tóxica” dos pais ao seu amor pela literatura, descobriu que as rimas eram “uma forma rítmica de contar a minha história. Mais tarde, percebi que tinha um nome… Não decidi ‘ah, agora vou ser rapper’”.

“Lá em casa, a música estava sempre alta, a aparelhagem estava sempre a bombar, ouvíamos os últimos êxitos”, recorda, acrescentando que a família do pai estava muito ligada à música africana, “só que era uma família um pouco disfuncional. Havia uma parte um pouco pesada, sobre a qual também quero falar no álbum. Em casa, às vezes, o barulho da música servia para abafar outras coisas”. Os seus primeiros passos na música acabaram por nascer da necessidade de falar sobre o assunto: “era uma forma pessoal de me expressar sem ferir as pessoas que, no fundo, amo, que me educaram, que são a minha família. Poder pôr no papel algumas coisas que eram muito… violência, drogas, álcool… ajudou a moldar-me muito. Acho que aprendi a aceitar muita coisa em mim, sem querer pô-las em caixas. Apesar de o universo Chong ser muito colorido, a minha arte vem de um fundo negro. Quando és criança e as coisas são assim negras, gostas de pintá-las de outra cor para fingir que aquilo não está a acontecer”.

Antes de dar vida a Chong Kwong, projeto que começou a esboçar no ano passado, teve um grupo chamado La Dupla. Pelo meio, foi para a Ásia, mais precisamente para Macau, para conhecer de perto parte das suas origens. “Esta pausa de sete anos que fiz não foi propositada”, explica, “dediquei-me à minha carreira profissional. Trabalhava em turismo, eventos e marketing. Fui para lá estudar e para beber um pouco dessas vibes asiáticas, porque sempre ouvi falar de África e Ásia em casa mas, de facto, nunca tinha estado lá. Tive a mesma experiência em Timor. Foi a maior lição de humildade que tive na vida”. E diz também ter saído de Portugal “um bocado chateada com o rap”. “Detesto pressões e havia muita pressão para fazer o meu álbum, o meu projeto a solo. Não encontrei as pessoas certas, que entendessem aquilo que gostava de fazer, que é o que estou a fazer hoje. E, se calhar, também havia o medo desse encontro comigo própria, porque sabia que quando fizesse isto tinha de ser real, senão não fazia sentido. Como perfecionista e sonhadora que sou, aquilo que idealizava na minha cabeça exigia tempo, responsabilidade, compromisso… Exigia mudar a minha vida e contar toda essa história de quem sou. Para criares, tens de voltar ao teu passado e lidar com muita coisa”.

“Queria que o meu primeiro single resumisse parte daquilo que foi a minha carreira e abordasse muitos assuntos tabu que existem no hip-hop”, explica, acerca de ‘Chong Kwong’. Quanto aos elementos asiáticos que ouvimos igualmente em ‘Não te Convidei’, a segunda canção que deu a conhecer, no início do verão, acrescenta: “quando estive lá não pesquisei muito, mas, obviamente, quando não tens intenção é quando absorves mais e tudo te influencia. A cultura asiática tem essa componente de sonho, de fantasia, de que gosto muito”. O regresso ao rap mostrou-lhe um cenário bem diferente do que tinha deixado para trás. “Neste momento, o hip-hop é considerado a nova pop. Passa nas rádios e nas discotecas, coisa que na altura não acontecia. E há muito mais rappers”, defende, “antes, competias de igual para igual. Não havia tanto dinheiro envolvido, sabes? E quando começa a haver dinheiro envolvido há mais rasteias envolvidas, então tive de pensar ‘se calhar, também não podes olhar com os olhos puros que tinhas antes’. É um misto de emoções”.

Quanto à pouca expressão feminina na “primeira liga” do hip-hop nacional, Kwong diz ter “sentimentos dúbios”. “A expressão rap no feminino faz-me ficar logo com urticária. Penso assim: porque é que, sendo tão poucas, quando te dizem rap feminino estão automaticamente a pôr-te na liga dos últimos?. Vá lá… Porque é que me estão a pôr na liga dos últimos? A ideia é competirmos de igual para igual. Nunca penso no género quando faço a minha música e mesmo em termos de atitude nunca fiz ou deixei de fazer porque sou mulher. Nunca”. Apesar de se sentir muito respeitada pelos seus pares, afirma: “claro que o hip-hop é… uma faca de dois gumes. Há tantas coisas que questionas quando é uma rapper que não questionas quando é um rapper. Porque é que quando uma MC lança um som e ele é bom perguntam se há ghost writing? Obviamente que nos Estados Unidos isso é uma coisa assumida, tudo bem, mas porque é que há de ser um assunto? Aprendi a interpretar isso, ao longo do tempo, como um elogio, mas não é fixe”.

“O álbum vai chamar-se ‘Filha da Mãe’, que é uma expressão muito conhecida, mas as pessoas vão descobrir porque é que se chama assim quando ouvirem”, revela, antes de dizer que o disco vai ter “algum r&b, algum afro, muitas vibes asiáticas, claro. Não gosto de dividir boom-bap e trap, mas vai ter boom-trap para deixar toda a gente feliz. E, acima de tudo, o que posso prometer é que vai ser um álbum honesto. Espero que as pessoas consigam ter tempo para aprender a digeri-lo. Não tentem colocá-lo numa categoria. Por favor, não façam isso. A música é para ser vivida com liberdade”. Chamando a si a tarefa de “representar jovens que nasceram cá mas que têm outra ascendência”, defende que “a aceitação da diferença é o primeiro passo para a mudança”. E diz ter encontrado uma espécie de alma gémea em Conan Osiris. “Respeito muito o trabalho dele e é engraçado porque tivemos um clique muito fácil. Antes sequer de eu lançar o single já me tinham dito que tínhamos muitas semelhanças. Costumamos falar e, às vezes, trocamos umas ideias. Foi das primeiras pessoas… Achei tão… Dois extraterrestres assim a contactar. Sinto que ele percebe de onde vem a minha cena e eu percebo de onde vem a cena dele”.

A vontade de construir a sua história é aquilo que liga Chong Kwong ao hip-hop. “Desde o fim dos La Dupla, deixei a minha história meio enevoada, então, obviamente, quero construir esse legado. Quero poder inspirar outras pessoas, claro, mas acima de tudo quero divertir-me. Às vezes, sou muito dura comigo neste processo, muito perfecionista. Então, estou nessa fase de aprender a dar aquela palmadinha nas costas. As mensagens que recebo de outras pessoas, que se reveem no meu trabalho e naquilo que transmito, tem sido uma bênção. Agora, vamos navegar essas águas”.