O estrondoso concerto dos Prophets of Rage no EDP Vilar de Mouros. Se a cantiga é uma arma, eles são o gatilho
25.08.2019 às 10h58
Apoteótica atuação da superbanda no terceiro e derradeiro dia do festival, garantindo-lhes, assim, a distinção do melhor concerto da edição deste ano. A banda de Tom Morello não deixou pedra sobre pedra
Emoções ao rubro no arranque do concerto dos Prophets of Rage, ao som de sirenes, com luz vermelha a pintar o cenário e um gigantesco banner com um punho cerrado a ser erguido na retaguarda à medida que os músicos assumem as suas posições no palco, aumentando a tensão do público que, por esta hora, já só está à espera de ouvir o primeiro acorde.
“Prophets of Rage” é a primeira a ser servida. B-Real e Chuck D tomam as rédeas das letras, enquanto, atrás, Brad Wilk sustenta o ritmo, com DJ Lord logo à direita. Na linha da frente, a ladear os MCs de serviço, estão Tim Commerford, com o seu inconfundível baixo, e o indescritível Tom Morello, mestre da guitarra. Juntos, os músicos dão vida a “Testify”, a estreia da noite no que diz respeito ao acervo dos Rage Against the Machine.
Em “Unfuck the World”, original dos Prophets of Rage, presente no disco homónimo de 2017, B-Real pede mosh pits na plateia e é imediatamente correspondido. “Guerrila Radio”, nova visita ao repertório dos “raivosos” californianos, coloca toda a gente aos saltos e levanta tanta poeira que às tantas parece estar qualquer coisa a arder no seio da audiência.
Tom Morello é uma peça fundamental neste coletivo. Vê-lo a solar na introdução de “Know Your Enemy”, com toda a perícia, talento e genialidade, leva-nos a pensar que, se algum dia sair um “It Might Get Loud 2.0”, ele terá certamente que ser um dos objectos de estudo, sem qualquer discussão possível. Do corpo que dá à sua guitarra (cheia, possante, devastadora) aos solos que assina (rápidos, singulares, irrepreensíveis), passando pelos efeitos que explora (Deus sabe o que acontece naquela pedaleira), há uma grande certeza: Morello não precisa de um segundo guitarrista neste projecto. Assume o papel principal, com máxima tranquilidade, e ainda guarda tempo para correr o palco de uma ponta à outra e saltar do estrado da bateria para o chão.
É óbvio que não está totalmente só nesta missão. Os bombos e tarolas da bateria colam-se aos seus riffs e ganham força com o peso do baixo, que em “Take the Power Back” ganha destaque. O público participa, mostra que sabe a matéria e canta a letra a plenos pulmões.
Chuck D (Public Enemy) e B-Real (Cypress Hill) são dois esforçados e muito competentes rappers, com um respeitoso historial no que diz respeito à entrega de rimas ao microfone. Não substituem Zack de La Rocha (nem de perto nem de longe) nas covers propostas, é verdade, mas também não é isso que se pede. Apesar de este ser um projecto que passa em revista muitas das músicas dos seus integrantes, há aqui uma vontade de seguir um caminho próprio, com originais, não obstante o facto de os temas criados até à data, presentes no álbum de estreia, não procurarem ainda uma dimensão policromática. Mas isso é outra história.
Hora de visitar um sagrado museu do hip-hop. Tom, Brad e Tim abandonam o palco e deixam-no entregue a B-Real, que desde o início se apresenta de Keffiyeh na cabeça, e Chuck D, cuja voz por muitas vezes parece estar ligada a um processador de distorção, para estes servirem um medley que desemboca na demente “Insane In The Membrane”, dos Cypress Hill, e, depois de uma pausa para pedir ao público que se agache e prepare para saltar, “Jump Around”, dos House of Pain, seguida à letra pelos presentes. O final da canção cola directamente com “Sleep Fire”, regressando ao repertório dos RATM.
Existe um importante background interventivo nos Prophets of Rage que não pode ser descurado. Não só no que diz respeito ao legado da banda de Morello e Zack de La Rocha, o mais óbvio de todos, mas também aos destemidos Public Enemy (tantas canções que carregam incisivas mensagens políticas) e aos Cypress Hiil (à sua maneira, B-Real sempre teve algo a dizer). É por isso normal sentir que o supergrupo presente em palco procura ter uma voz activa a nível musical – não esquecer que a banda nasceu em 2016 (ano em que Trump foi eleito) e teve como principal slogan a frase “Make America Rage Again”, no contexto do Vilar de Mouros traduzido para um “Façam Portugal Enraivecer Novamente”, exibido em letras brancas sobre fundo vermelho na retaguarda do palco.
Segue-se “Bullet in the Head”, conduzida pela voz de B-Real, com direito a novo solo de Morello, que desta vez vira a guitarra às avessas para mostrar orgulhosamente um autocolante com um sinal de proibido a cobrir uma suástica.
A reta final do concerto é de cortar a respiração. Depois de uma visita ao álbum homónimo dos Cypress Hill, com “How I Could Just Kill a Man”, Morello desenha suavemente uma introdução em que transforma a sua guitarra em algo próximo da sonoridade de um violino (não nos perguntem como) e arranca para “Bulls on Parade”, com o conhecido “scratch” de cordas a ser reproduzido na perfeição. Chuck D agarra-se à letra e dá vida a um dos maiores hinos dos Rage Against the Machine, cantado também do lado de cá.
O ponto alto chega com os primeiros acordes de “Killing in the Name”, depois de Chuck D fazer uma breve passagem por “Fight the Power”, dos seus Public Enemy. A introdução causa o maior momento de euforia dos três dias de festival. Entra a linha de baixo de Commerford, os apontamentos de bateria de Wilk e, claro, a explosão que causa um verdadeiro terramoto na plateia. Braços no ar, poeira por tudo quanto é sítio, mosh a valer, um verdadeiro reboliço, ao nível de uma canção que tem tanto de monumental como de imortal. Caramba, que concertaço.
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