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José Cid

Rita Carmo

José Cid, o visionário da Chamusca que não ia à bola com Jimi Hendrix e detestava os Doors. “Só me arrependo de uma coisa”

Se a pop e o rock feito em Portugal no final dos anos 60 teve alguma coisa que se pudesse assemelhar à avalanche de música incrível que, nessa altura, foi criada em Inglaterra e nos Estados Unidos, tal deveu-se a José Cid. Há dois anos, a propósito dos 50 anos da edição de “A Lenda de El-Rei D. Sebastião”, do Quarteto 1111, Cid deu-nos uma generosa entrevista sobre tempos e feitos irrepetíveis. Hoje é o orgulhoso dono de um Grammy

Publicado originalmente na revista BLITZ - História do Rock nº 1, dedicada ao ano de 1967, em junho de 2017

A banda que, nascida das cinzas do surf-rocker Conjunto Mistério, reunia o cantor, teclista, compositor e poeta José Cid a três ex-Conjunto Mistério – António Moniz Pereira (guitarras), Jorge Moniz Pereira (baixo) e Michel Silveira (bateria). O seu EP de estreia, A Lenda de El-Rei D. Sebastião – que integrava esse tema e mais três, «Os Faunos», «Fantasma “Pop”» e «Gente» –, é ainda hoje um marco do psicadelismo folk nacional e da criação de uma ideia de portugalidade pop que teria depois reflexos, tal como assinala José Cid nesta entrevista, nos Heróis do Mar, Trovante ou Sétima Legião. Falamos do despertar musical, do início e da evolução do Quarteto 111 e de outras músicas de 1967 e não só. Oiçamo-lo.

Celebrou 25 anos de idade precisamente no ano de 1967. Quem era o José Cid ao fim de um quarto de século de vida, visto pelo José Cid que completou há pouco tempos três quartos de século de vida?
O que eu era com 25 anos? Primeiro, um menino de família impedido pelo meu pai e pela minha mãe de cantar.

Mesmo com essa idade?
Sim. Mas era rebelde e nessa altura já tinha casado, portanto tinha mais autonomia. Depois, o José Cid era um músico com já alguns anos de tarimba de cenas jazzísticas e de bossa nova, que é uma base que me ajudou muito a saber como se canta em português com swing. E depois com muitos anos de fado também, de fadistices. Eu venho da geração do João Ferreira-Rosa e da Teresa Tarouca, só que eu vivia na província e não tinha uma carreira enquanto fadista como eles tinham por viver em Lisboa. Antes de entrar para o 1111 eu tocava quase todos os dias acordeão com o Fernando Alvim, que depois mais tarde acompanhou o Carlos Paredes.

O primeiro LP do Carlos Paredes, Guitarra Portuguesa, também saiu em 1967…
Precisamente. E eu e o Alvim começámos os dois a trabalhar exaustivamente e ainda fizemos um programa ou dois de televisão: eu a tocar acordeão e ele a tocar viola, coisas com muita base na bossa nova e com bastante qualidade.

Que rock é que ouvia na altura? No início e em meados dos anos 60?
Ouvia muito rock americano e outras coisas que não eram bem rock mas estavam lá perto: Paul Anka, Chuck Berry, Fats Domino, Elvis Presley… Andava por aí. Só que de repente, com o advento da bossa nova, percebi que gostava mais de bossa nova do que dessas linguagens. Gostava mais de João Gilberto, de Tamba Trio, de Luís Bonfá, da Elis Regina. De uma série de coisas que tinham aparecido na música brasileira e me diziam muito mais na pop e no rock americano.

E o lado inglês? Os Beatles…
Os Beatles surgem-me em 1965 ou 66. E é quando nós começamos também a escrever à nossa maneira.

Quarteto 1111: António Moniz Pereira, José Cid, Jorge Moniz Pereira e Michel Silveira (esq-dta)

Quarteto 1111: António Moniz Pereira, José Cid, Jorge Moniz Pereira e Michel Silveira (esq-dta)

Quem era quem no Quarteto

O primeiro concerto do 1111, e já com este nome, foi na passagem de ano de 1966 para 1967, no Hotel Londres, no Estoril. Cid, António Moniz Pereira, Michel Silveira e Jorge Moniz Pereira…
Sim, esse foi o nosso primeiro concerto oficial com esse nome. Mas já antes disso eu já tinha tocado com eles enquanto Conjunto Mistério, ainda com o Luís Waddington. Só que o Luís Waddington fez uma cena canalha por causa de aparecer um gajo [Cid refere-se a ele próprio] a tocar piano no meio das guitarras elétricas... O Waddington pôs os outros [António, Michel e Jorge] num dilema: «Ou este gajo ou eu». E quando ele disse isto sentenciou-se a si próprio porque toda a gente diz: «o gajo». Eu. E quando entrei para teclista, foram o António e o Michel que resolveram que o grupo iria mudar de nome: de Conjunto Mistério para Quarteto 1111.

Que memória é que guarda desse concerto no Estoril?
Gajas boas e gente nova. E tias de Cascais.

Jorge Moniz Pereira saiu em 1968...
Sim, ele saiu do Quarteto depois da edição de um EP que tinha dois temas meus – «Balada para D. Inês», que eu tinha cantado no Festival da Canção de 1968 acompanhado por eles, e «Partindo-se» – e dois temas dele muito bons que são o «Vale da Ilusão» e o «Dragão». Eu tinha ido para a tropa e eles gravaram isso sem mim na garagem. Disseram-me: «tu não estás e vamos editar também os temas do Jorge». E eu disse «maravilha!» porque essas duas canções eram mesmo muito boas.

Além de Jorge, como eram os outros?
Eles eram muito diferentes como pessoas. O Michel era um anjo, uma joia de pessoa. Depois, o António era um homem muito inteligente, com um sentido de humor muito inglês, muito à frente em termos de sonoridade na sua guitarra. Não era um grande guitarrista mas era um músico já com um grande som de guitarra e com muito bom gosto. Muito bom rapaz, sempre conciliador, sempre a querer fazer as coisas… O Jorge? O Jorge era bom compositor, como já disse, mas como pessoa era insuportável.

A saída era previsível...
Sim, porque era mesmo insuportável. Criava mau ambiente, queria dominar tudo, tinha mau humor, era arrogante, era azedo… Compunha bem, era um homem inteligente, tocava bem baixo até, mas não se podia, não se aguentava…

Ele foi substituído, no baixo, pelo Mário Rui Terra…
Sim, o Mário Rui… que é agora, oficialmente, o guitarrista do Quarteto 1111 quando nós nos reunimos, nomeadamente quando eles intervêm nos meus concertos. Voltando ao Jorge: foi o próprio irmão, o António que disse ao Jorge que não queria tocar mais com ele – nem sequer fui eu. O Michel disse-lhe o mesmo eu deixei-o ir… (risos) Cheguei a ameaçá-lo de porrada no camarim. Ele também era extremamente agressivo: não se podia dar uma balda em palco… Era exaustivo, era absorvente. Então saiu, entrou o Mário Rui Terra e depois da saída deste [Mário Rui Terra foi forçado a abandonar o Quarteto 1111 porque, como tantos outros músicos durante os anos 60 e início dos 70, foi para a guerra no Ultramar entrou o Tozé Brito, e com a entrada dele ficámos então com a formação certa.

Considera que o António era o George Harrison do Quarteto 1111…
Era, sem dúvida. O António foi sempre o esteta do grupo. Sempre com um extremo bom gosto e quando eu era mais repentista, era ele que punha um travão nessa minha tendência. E tinha um sentido estético apuradíssimo. Eu quase que me atrevia a dizer que sem ele «A Lenda de El-Rei D. Sebastião», instrumentalmente, não teria acontecido. E tocava melhor até viola de doze cordas do que guitarra elétrica, mas na guitarra elétrica tinha um grande som, sempre um grande som. Simples, sempre muito simples e sem nada de complicar; não era um corredor de escalas.

Quando a banda acabou, conta-se que ele meteu as guitarras debaixo da cama e nunca mais voltou a tocar uma nota na vida… Isso é verdade ou é mais uma lenda para juntar a todas as outras?
Não sei. Nós tínhamos um espírito de grupo muito engraçado... mas, quando – por volta de 1973 – entra para o grupo o baterista Vítor Mamede, o António Moniz Pereira mudou. Ele ligou-se muito ao Vítor Mamede. Eles tinham muita cumplicidade e abriram uma casa, ali no Largo do Rato [Lisboa], de importação e exportação de material de som. E o Vítor tinha uma certa hegemonia mental sobre o António. Eu e o Vítor chocávamo-nos bastante na nossa forma de ser. Antes disso, a primeira coisa que o Vítor quis fazer foi correr com o Michel [Vítor Mamede entrou para o Quarteto 1111 e para a banda paralela Green Windows, para substituir Michel, quando este não podia ir aos concertos devido ao seu trabalho na TAP] e o próprio António acedeu porque tinha quase medo – ou se não medo, obedecia ao Vítor. Os outros ficaram calados e fui eu que disse: «não senhor, o Michel não sai. O Michel é da formação do grupo; toda a vida comemos e ensaiámos na garagem do Michel. O Michel quando não puder tocar, não toca; temos o Vítor. Quando o Michel puder tocar, tocamos com dois bateristas». Foi isso que nós fizemos e surpreendemos imenso. O Michel, como baterista, era mais quadrado e batia mais a direito enquanto o Vítor tinha muita técnica. E isso funcionava muito bem. A verdade é que o António Moniz Pereira saiu do 1111 em 1974, depois de termos gravado o LP Onde, Quando, Como, Porquê, Cantamos Pessoas Vivas; eu saí no ano seguinte, porque estava um bocadinho cansado. E também já não tinha muita pachorra para uns jogos de bastidores. Depois de ter gravado esse LP, entreguei-lhes a mistura do álbum a eles [António e Vítor] e, conclusão, o álbum tem a bateria do Vítor no primeiro andar e tudo o resto – quando o que era mais importante ali era o texto, a poesia fantástica que o disco tinha – no rés-do-chão. O Vítor era tecnicamente, como músico, muito bom mas faltava-lhe o sentido de estratégia, de produção, de sensibilidade, que muitas vezes grandes músicos não têm porque só olham para notas e não veem mais nada: a alma, as raízes. Só veem a técnica pela técnica. Eu saí e, por causa disso, o António sentiu-se um bocado desasado e também acabou por decidir sair. O Vítor Mamede reorganizou o Quarteto 1111 com outros músicos [Armindo Neves, Luís Duarte e Rui Reis] e seguiu em frente.

Voltando a 1967… O Michel era também quem tinha a garagem que vocês transformaram em estúdio logo no início do grupo. Não era algo muito normal para a altura...
Aquilo era uma garagem que nós, com o Paco Ayuso e o outro técnico de som, o Zé Leitão, transformámos num estúdio quando levámos para lá dois gravadores Revox. E aí descobrimos como devíamos fazer: gravar bateria, baixo e guitarra num Revox e depois passar para o outro Revox, em que gravávamos teclas, voz e outros instrumentos que pudessem aparecer, como uma flautita ou assim…

A Lenda de El-Rei D. Sebastião, do Quarteto 1111

A Lenda de El-Rei D. Sebastião, do Quarteto 1111

A história de um EP histórico

Isso não terá contribuído também para a qualidade do som final do primeiro EP, editado em 1967, que tinha a «A Lenda de El-Rei D. Sebastião», «Os Faunos», «Fantasma “Pop”» e «Gente»?
Nós tínhamos um som muito próprio, que começou logo aí a manifestar-se. É curioso porque «A Lenda…» foi o último tema desses quatro a ser gravado. Sempre achámos que o tema mais forte desse EP, aquele single em que as rádios iriam pegar, era «Os Faunos», muito psicadélico, ritmicamente muito forte e com esse carisma de ser diferente: vozes gravadas ao contrário, com o Zé Leitão a procurar o som dos faunos numa voz humana. Conclusão: nós acabámos por ficar um bocadinho surpreendidos quando o Pedro Albergaria, do programa Em Órbita, entra na nossa garagem e diz-nos que, apesar de gostar de todos os temas, queria era passar «A Lenda de El-Rei D. Sebastião»... Eu escrevi a música e a letra em casa e depois, quando cheguei ao estúdio, trauteei-a vagamente para os outros músicos. O António Moniz Pereira agarrou na viola e começou a desenvolver a ideia, tendo sido aí que começámos. O Paco Ayuso tinha em casa uma espécie de saltério medieval, juntámos tudo e siga…

Começou logo a ter problemas com a censura porque na primeira versão gravada de «A Lenda…» cantava, logo no início, «Fugiu de Alcácer-Quibir, El-rei D. Sebastião»...
Exatamente. E foi imediatamente censurada. Porque foi assim que passou quando foi estreada no Em Órbita, mas alguém ouviu e disse-nos logo que dessa maneira aquilo não passaria em mais lado nenhum e eu regravei – porque o acetato do disco ainda não era o definitivo – só a primeira palavra: em vez de «fugiu de», cantei «depois de».

E «Os Faunos»?
Esse é um tema muito engraçado porque eu tinha lido um livro de Aquilino Ribeiro, Andam Faunos pelos Bosques, e nós estávamos sempre a gozar, entre nós e particularmente com as raparigas que andavam ali à nossa volta – a Betty Wilkinson, que era mulher do Michel, e outras amigas – e que achavam que essa ideia, no sentido mais erótico, dos «faunos» era ótima. Principalmente o Zé Leitão, que era particularmente atiradiço. Eu já era casado, o António Moniz Pereira sempre foi muito calmo nos sentimentos que teve com as suas namoradas, principalmente a Filipa [Van Uden]… E então, o que é que acontece? Comecei a brincar com a ideia dos faunos, figuras ancestrais, mitológicas, e fui por aí. Comecei a escrever o início da letra: «Há muitos milénios atrás, os faunos saíram das grutas…» e daí para a frente comecei com a malha de piano. E quando nós chegámos à conclusão do final, em que há efeitos de vozes, com aquilo que seriam os faunos a falar, é que pensámos que aquilo poderia ser o primeiro single do 1111.

«Fantasma “Pop”» também é bem curioso: ouve-se o cão de Michel a ladrar e vocês deixaram-no ficar…
É um instrumental que nós começámos a inventar e essa participação do cão acaba por fazer todo o sentido, musicalmente, no tema. É muito engraçado porque nós não estávamos a pensar em nada de especial, mas tivemos uma grande alegria com o resultado final…

Nesse tema também há umas fitas magnéticas a andar ao contrário, não há?
Há. E, lá está, isso eram as invenções do Paco Ayuso, do Zé Leitão e também do António Moniz Pereira, que era o mais experimentalista de nós todos. Inclusivamente, também gravou várias guitarras ao contrário, coisa que o Peter Frampton também fez dez anos depois.

Por fim, «Gente».
Esse tema é, nitidamente, a primeira canção que eu escrevo já politizada, a falar da gente, das pessoas mais humildes que trabalham no campo e no mar.

Como é que caracteriza a sonoridade, o estilo do Quarteto 1111, nesse início da banda?
Na altura do primeiro EP pode falar-se perfeitamente de psicadelismo, mas tenho que confessar pela primeira vez uma coisa: um ano depois, o meu cunhado trouxe-me de Inglaterra o primeiro álbum dos Tyrannosaurus Rex, de Marc Bolan, e eu achei que aquilo era por onde eu queria ir mas à minha maneira. Mas já antes, com o «Lucy in the Sky with Diamonds», dos Beatles, nós tínhamos agarrado no psicadelismo… mas sem a parte das drogas, porque não precisávamos.

Como viu a ideia de «portugalidade» que o histórico texto de apresentação lido no Em Órbita atribui a «A Lenda...»?
No sentido de uma nova direção que a música portuguesa deveria tomar. Esteve em muitas outras das nossas canções… E essa direção é encontrada depois nos Heróis do Mar, nos Sétima Legião, nos Trovante, que são grupos que fizeram um pop épico, étnico e português. Todos eles com grandes poemas e muito nossos. E é por aí que a música portuguesa tem que ir. Tanto nós como, depois, eles fazemos uma celebração de uma cultura comum, das mesmas raízes.

Portugal, o mundo e os grandes álbuns de 1967

Referiu que «Gente» já tinha uma carga política muito grande. Como é que, aos 25 anos, via a situação política, social e económica do país? A guerra colonial, a emigração em massa, a miséria, a repressão…
Com essa idade a minha consciência política estava em formação, em evolução. Já existia mas ainda não estava completamente formada. Eu lia, informava-me, tinha acesso a algumas coisas que eram importantes no mundo e em Portugal. Tinha vindo de Coimbra, onde já era amigo do Adriano Correia de Oliveira e que era um homem politicamente muito coerente. E, depois, na tropa ficámos no mesmo pelotão e na mesma camarata, em camas ao lado. Ao longo dos anos, sinto que a minha escrita – no 1111 e a solo – foi crescendo cada vez mais nesse sentido, até culminar em coisas como o «Camarada» ou a maioria das letras do primeiro LP do Quarteto 1111; coisas que foram completamente censuradas e proibidas… E só não fui preso pela PIDE porque eles sabiam que eu não estava inscrito no Partido Comunista. O grande terror do Salazar e do Marcelo eram os cantores que estavam inscritos no PC. E eu não estava; era monárquico, tal como eram o Michel e o António Moniz Pereira.

Como é que a música e o movimento pop que vinham de fora – e estamos a falar do ano de 1967, com o Verão do Amor – batia cá deste lado?
Nós, 1111, tínhamos que sobreviver a tocar como grupo de baile. E, como grupo de baile tínhamos que tocar de tudo um pouco, desde que fosse bom. E, por esses anos, tocávamos Kinks, Beatles, Stones, Simon & Garfunkel… tudo o que estivesse na moda. E tocávamos e fazíamos as vozes, nós todos. Lembro-me bem de alguns temas de Crosby, Stills, Nash & Young em que cantávamos todos. Ou, anos depois, quando ouvi e gravei – a partir de uma transmissão da Radio Caroline – o «Mrs. Robinson», de Simon & Garfunkel, e eu e o Tozé Brito começámos logo a cantar aquilo; eu a fazer a voz do Art Garfunkel e ele a fazer a do Paul Simon.

Já que fala de Tozé Brito, que foi dos Pop Five Music Incorporated antes de ir para o Quarteto, como vê os outros grupos portugueses da altura? Havia muita concorrência?
Ainda antes de lhe responder, posso dizer-lhe que tenho um dueto brutal com o Tozé nesse meu próximo disco: «João Gilberto e Astor Piazzolla», em que eu toco acordeão e ele toca viola…

Amigos agora, mas no final dos anos 60 eram rivais... Faziam maldades uns aos outros?
Não, nada disso. Não havia concorrência. Nós íamos ouvir os outros, víamos como tocavam e cada um tinha o seu estilo… Nós sabíamos que éramos os mais originais. Uma vez fui à FIL, ali em Alcântara, ouvir os Sheiks – ainda com o Fernando Tordo com eles. Lembro-me de ouvir os Deltons – também com o Tordo – e achávamos piada e ficávamos a ouvir. Os Pop Five, mas também outro grupo do Porto, os Psico, que tinham o António Garcês e o Tony Moura, que ainda cantava melhor que o Garcês. Lembro-me de ouvir uma noite o Garcês a cantar em inglês, onde não dizia uma palavra certa (risos). E os Chinchilas, do Filipe Mendes… Havia alguns bons músicos em Portugal.

Falemos agora de alguns dos discos mais marcantes de 1967 e da sua opinião sobre eles. O primeiro é Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles.
Todos nós, no 1111, devorávamos o Sgt. Pepper, que era altamente criativo e interiorizado, muito inspirado. Dávamos muita atenção aos arranjos, que também eram muito importantes. Não eram só as canções, mas também os arranjos… Eu adorava o álbum, ouvi-o inúmeras vezes e influenciou-nos muito.

Outro: que tem a dizer sobre Are You Experienced, de Jimi Hendrix?
Eu não ia muito à bola com o Jimi Hendrix. Estava mais interessado em ouvir Beatles e Rolling Stones. O Jimi Hendrix metia muita droga, muita coisa, e eu não tinha paciência para essas coisas, para esse lado decadente que a droga traz. Eu achava que a inspiração deveria ser pura e não precisava de aditivos.

Já que falou de Stones, passemos ao Their Satanic Majesties Request…
Eu já antes gostava dos Rolling Stones. Há temas deles que eu admirava muito, como o «Street Fighting Man», o «Sympathy for the Devil», que não são desse álbum mas são muito bons.

O primeiro álbum dos Doors também sai em 1967...
Eu não gostava dos Doors. Para já, detestava o som do órgão deles… Eu tinha um Hammond fantástico, um M102, e o teclista deles tinha um parecido…

Ray Manzarek...
Nem quero saber como é que ele se chamava. Eu, com o meu órgão, tinha um sonzão mais parecido com o do Jon Lord, dos Deep Purple… E achava que o Jim Morrison era muito engatatão de meninas. Estava ali mais para engatar meninas e por ser bonitinho do que para cantar…

O álbum de estreia, também homónimo, dos Procol Harum talvez já seja mais do seu agrado...
Brutal! Eu gosto muito deles, ainda hoje. No meu álbum anterior ao Menino Prodígio, o Quem Tem Medo de Baladas tenho uma versão do «Homburg», dos Procol Harum [single editado em 1967 mas não incluído nesse álbum], em português: «Os Cavalos de Fão». E no meu recente álbum em espanhol uso essa mesma música do Gary Brooker, para um poema que é o «Playas de Rosalia».

E The Piper at the Gates of Dawn, dos Pink Floyd?
Não me lembro se me chegou na altura, mas ouvi muito Pink Floyd depois disso. Agora, há gente que diz que o meu 10000 Anos Depois… é influenciado pelos Pink Floyd, mas isso não é verdade. É uma obra completamente pessoal e original.

Agora, dois mais desviantes, digamos assim: Forever Changes, dos Love, e The Velvet Underground & Nico, dos Velvet Underground.
Não, nenhum deles me disse o que quer que seja.

Olhando para trás, e acabando o que começámos, há alguma coisa que o José Cid com 75 anos se arrepende do que fez com 25?
Não, absolutamente nada. (pausa) Quer dizer, há uma coisa de que me arrependo: se soubesse o que sei hoje não me teria casado.