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João Maia e Sérgio Praia, durante as gravações de "Variações"

“António era um nerd, certinho nas contas. Não bebia ou fumava, só queria ser cantor”. A entrevista com João Maia, realizador de “Variações”

Da ideia inicial, que começou a esboçar-se há década e meia, até ao filme sobre António Variações estar completo, João Maia fala sobre a escolha do protagonista, complicações na produção, a escolha do guarda-roupa e daquilo que o artista significa hoje para si

A ideia inicial era a de fazer um filme sobre o boom do rock português, mas quando João Maia se cruzou com a história de António Variações e percebeu que o músico, falecido em 1984, só tinha conquistado uma carreira na música com quase 40 anos percebeu que tinha ali algo que poderia explorar mais a fundo. Depois de um ano e meio de investigação intensa, começou a escrever o guião do filme "Variações" - que estreou esta semana nas salas de cinema nacionais - e só década e meia depois deu o trabalho por concluído, muito por culpa de complicações na produção que chegaram a levá-lo a tribunal. Numa longa e esclarecedora entrevista à BLITZ, o cineasta fala da escolha de Sérgio Praia para protagonista, "quando o vi arrepiei-me", das liberdades criativas de um filme que apresenta como sendo de ficção mas baseado em acontecimentos reais, e do percurso atribulado de um barbeiro até conquistar o sonho de ser cantor.

Como surgiu a ideia de transformar a vida de António Variações, ou um pedaço dela, num filme?
Eu era adolescente naquela época e quando me meti no cinema sempre tive a ideia de fazer um retrato de algumas coisas que vivi na altura, daquilo a que chamavam o boom do rock português. Um dia, cruzei-me com o António Variações, que acho que estava assim um bocadinho esquecido… Os Delfins tinham feito uma versão da ‘Canção de Engate’, uns anos antes, e fui pesquisar um bocadinho e vi a idade dele. O que me impressionou mais, na altura, foi o facto de ele ter 37 anos quando gravou o primeiro disco. A partir daí, comecei a tentar saber o que ele tinha feito antes e em vez de fazer um filme sobre o rock português fiz um filme sobre um barbeiro que queria ser cantor numa época em que havia muito pouco rock em Portugal. É mais ou menos um retrato da época… Havia poucas bandas, as bandas rock não faziam discos, as editoras estavam sempre muito renitentes em relação ao rock. A música que se ouvia mais era a música de intervenção. Acabou por ser mais ou menos o que eu tinha em mente mas pegando num caso muito específico que inicialmente não tinha na cabeça. Quando voltei a ouvir os discos dele, que já não ouvia há muitos anos, fiquei muito impressionado com algumas canções que conhecia mal e que retratavam uma pessoa que se expunha muito nelas. É o caso da ‘Visões-Ficções’, o ‘Sempre Ausente’, o ‘Estou Além’, tudo canções muito pessoais. Aliás, julgo que o reportório dele é todo muito honesto e muito pessoal. Isso fez-me começar a pensar em como conseguiria transformar aquilo num filme.

Algumas canções também eram o retrato de um povo…
Ele tem dois tipos de canções, umas mesmo muito honestas, como o ‘Erva Daninha’ e as que já mencionei, e depois outras de observação, como o ‘É Prá Amanhã’, ‘O Corpo é Que Paga’, ‘Quando Fala Um Português’. Nessas, está a falar mesmo de todos nós. Também quis retratar isso no filme, porque tive acesso ao material que ele compunha. Tentou compor em inglês, julgo que na altura que vivia em Inglaterra e na Holanda, mas achei o material dele em português muito mais inspirado. Sem comparação. Portanto, também tentei retratar no filme alguém que volta a Portugal e se deixa inspirar pela língua, o país e o regresso. Julgo que compôs grande parte do cancioneiro dele nessa altura, logo a seguir a vir de Amesterdão.

Que primeiras recordações tem dele e da sua música?
Lembro-me de um programa de televisão, uma espécie de concurso… Não era, de certeza, a Cornélia porque a Cornélia é antes, mas era um concurso. Foi lá cantar. Estava de fato e descalço, era o ‘Povo Que Lavas no Rio’, e a luz baixou totalmente… Lembro-me de ter ficado impressionado com aquilo. Conhecia o fado mas aquilo tinha algo diferente, parecia-me a música moderna que estava habituado a ouvir. Foi a primeira vez que ouvi o ‘Povo Que Lavas No Rio’ num programa de televisão. Ele já tinha cantado antes, tenho essa memória, no programa O Passeio dos Alegres, que quase toda a gente vi. Não me lembro de ter visto, mas lembro-me de se comentar no dia seguinte na escola. Os meus colegas comentarem que tinha aparecido um tipo a cantar rock e que atirava Smarties a fazer de comprimidos.

Essa atuação no Passeio dos Alegres não é retratada no filme e, de certa forma, foi aí que se apresentou ao público…
Foi. Havia dois momentos muito importantes, um era esse e o outro era o primeiro concerto. Estive na dúvida entre qual deles retratar, mas fazia mais sentido que fosse o concerto do Trumps, por causa da relação dele com o Ataíde e com a Rosa Maria… Mas sim, nas primeiras versões tive essa dúvida. Esses momentos foram muito pegados, julgo que o concerto do Trumps é uns 15 dias antes de ele ir ao Passeio dos Alegres, então tinha que ser um ou outro porque pôr os dois já seria demais.

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Portanto, não conhecia muito da história do António Variações antes de partir para este projeto.
Não conhecia nada. Só sabia que era barbeiro. Toda a gente sabia. Eu tinha 16 anos quando ele morreu, portanto lembro-me muito bem da morte, claro. Quando saiu o primeiro single, eu tinha 14. Gastava o meu dinheiro todo em discos e em bilhetes de cinema, portanto sabia muito bem quem era. Mas o segundo disco, o “Dar & Receber”, passou-me quase ao lado. Claro que conhecia a ‘Canção de Engate’ e o ‘Dar e Receber’, mas, por exemplo, aquela ‘Canção’, com um poema do Fernando Pessoa, quando ouvi foi como se estivesse a ouvir pela primeira vez. Conhecia muito melhor o primeiro álbum e depois vim a saber porquê… Quando o segundo saiu, foi em cima da morte dele e a editora não o promoveu. Ninguém estava à espera. Sabia-se que ele não estava bem mas ninguém estava à espera ou sabia como lidar com a morte dele, se se devia tentar pôr o disco nas rádios e fazer daquilo um sucesso ou se deviam ser mais respeitosos e não promover. Foram pela segunda opção. O “Dar & Receber” ouvi-o muito fresco quando peguei nisto.

Ao longo da investigação, em que mais se apoiou? Chegou a pedir ajuda a Manuela Gonzaga, que publicou a biografia de Variações em 2006?
A Manuela Gonzaga estava a escrever o livro na mesma altura em que nós estávamos a escrever o guião, portanto partilhámos notas de pesquisa. Houve coisas que ela nos passou, que a gente não encontrava, e coisas que fui eu que lhe passei. Eu estava a fazer a pesquisa com a Catarina Portas e passámos-lhe o contacto da modista, por exemplo. A Catarina conseguiu alguns contactos que foi ela que lhe passou. O que veio a seguir foram entrevistas com pessoas que lidaram com ele. Infelizmente, algumas já tinham morrido. Comecei pela família, depois falei com músicos… o mais difícil foi colegas de trabalho, outros cabeleireiros ou barbeiros. Músicos era mais fácil, era só ir às capas dos discos, mas também foi difícil encontrar estes músicos que retrato no filme, com quem ele trabalhou no princípio. O José António, nunca o consegui apanhar… Emigrou para o Brasil e não consegui o contacto dele. O Jorge ainda consegui. A vida do Variações era muito compartimentada. Falei com amigos pessoais dele, como o Dino, que entretanto morreu, que fez de comprimido na atuação no Passeio dos Alegres, o Vitor Baeta também ainda falámos. Entretanto, já tinha morrido também uma personagem muito famosa de Lisboa, o Pedro Lata, mas a Catarina Portas era amiga pessoal dele e tinha memórias do que ele contava do Variações. O Dino ouvia-o cantar mas gozava com ele e não fazia a mínima ideia que ele queria ser cantor.

Mas mesmo pessoas que lhe eram próximas não entravam na esfera mais privada, não eram convidadas para casa dele.
Muito pouca gente foi a casa dele. Ele fazia a sua vida no barbeiro e toda a gente disse que ele fazia tudo a pé. Isso foi uma coisas que gostava de ter tido mais no filme, mais cenas dele a andar a pé, mas não deu por questões de produção. Lisboa tornou-se um sítio onde é quase impossível filmar cenas de época sem muita produção… Implica cortes de ruas, tirar placas da EMEL. Mas julgo que ele faria muitas canções a andar na rua, a murmurar, e depois quando chegava a casa pegava no gravador e compunha. Era muito cioso da vida privada.

"Se calhar, o sucesso dele vem de ser alguém que parecia tão excêntrico mas que provavelmente era muito normal"

Tendo com conta toda esta investigação e o facto de ter tido acesso às maquetas dele, que, presumo, tenham sido decisivas para perceber como ele trabalhava… Aprendeu mais sobre ele com as canções ou as conversas que teve com as pessoas que o rodeavam?
Com as canções dele. Foram elas que me deram o mote para o filme. Aliás, o filme está todo estruturado em torno das canções que considerei mais importantes para retratar este período da vida dele. As canções diziam tudo. A partir de certa altura, quando comecei a escrever, não falei com mais ninguém que o conhecesse. A imagem que tinha na cabeça levou-me a criar a personagem, que seria uma personagem de ficção muito baseada na pesquisa que fiz ao longo de ano e meio. Só na hemeroteca estive uns seis meses, todos os dias. A partir do momento em que parei de entrevistar pessoas, concentrei-me nestas personagens: ele, o Ataíde, a Rosa Maria, aqueles músicos amadores, o manager, o Luís Vitta… e passaram a ser todos personagens de ficção. O guião, tirei-o das canções.

O Sérgio Praia está eletrizante no filme. Em que momento percebeu que era a pessoa perfeita para o papel?
Vou ser mesmo muito sincero, quando o vi arrepiei-me. Isto foi há dez anos, porque o filme esteve para entrar em produção no final de 2008. Começámos a fazer casting e o que eu gostava mesmo era que aparecesse um Sérgio, um Variações, uma pessoa que quase não tivesse que representar. O Sérgio teve uma infância muito parecida com a do Variações. É de um aldeia do norte, também saiu de casa para ser ator, tinha um sonho. E é fã da Amália. Desde o princípio que não quis que a voz do Variações aparecesse no filme. Queria ter um cantor. Preferia ter alguém que gostasse de cantar e tentasse cantar, exatamente como o Variações fez, do que alguém a tentar fazer um playback. Os americanos e ingleses fazem-nos, mas metem muito dinheiro nisto… Eu nunca vi um filme de baixo orçamento com playback bem feito. Aquilo que pesquisei sobre o Variações mostrou-me alguém que adorava cantar. Cantasse bem, cantasse mal, toda a gente dizia que ele não conseguia, mesmo nas gravações, cantar sem estar a dançar. Aquilo era o sonho dele. E o Sérgio transmitiu-me isso. Ele foi a primeira pessoa no casting, estava lá em contraluz a ler o texto que tinha de ler e eu arrepiei-me logo. Depois, quando o ouvi cantar, ele que nunca tinha cantado na vida, achei logo que tinha potencial. E tinha também uma expressão corporal, ele foi bailarino, que batia toda a gente. Continuei o casting, mas ele arrasou. Era um ator muito inexperiente, foi bom termos feito isto mais tarde porque ganhou confiança e a personagem foi entrando nele. Provavelmente, se tivéssemos feito o filme naquela altura, com ele ainda muito verde, teria sido outro filme. Ele conhecia mal o António, depois com o tempo vi que ficava muito emocionado com canções que não conhecia. A primeira vez que lhe mostrei o ‘Sempre Ausente’, ele chorou ao ouvir a letra. Havia qualquer coisa nele, que acho que se sente no filme, que é um pouco diferente do filme dos Queen… “Ah, tão parecido. Ah, tão parecido”. Sinto que, no meu filme, as pessoas esquecem-se que não é o Variações… Achei desde o início que ele estava fabuloso e aquilo que fez no filme foi incrível.

Sérgio Praia é António Variações
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Sérgio Praia é António Variações

Filipe Duarte é Fernando Ataíde
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Filipe Duarte é Fernando Ataíde

Victoria Guerra é Rosa Maria
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Victoria Guerra é Rosa Maria

Augusto Madeira é Luís Vitta
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Augusto Madeira é Luís Vitta

Chegou a vê-lo na peça de teatro “Variações, de António”?
Vi sim… Vou ser sincero. Como no meu filme o Variações fala pouco e a peça é um monólogo, para mim era um pouco difícil de associar. Mas gostei da peça e gostei dele. Se calhar até foi uma coisa muito positiva, ele ter feito outro caminho. No filme, o Variações está a lutar por um sonho, na peça já é artista… A abordagem foi um bocadinho diferente. Na peça ele está num ponto que não aparece no filme, só vemos aquele sonho.

A peça surge também num ponto em que o filme estava parado. A complicação legal com a produtora inicial fez com que o filme ganhasse ainda mais importância para si?
Talvez sim… Eu estava já um bocadinho em desacordo com algumas coisas que estavam a acontecer, mas isso é natural na relação entre realizador e produtor. Depois a nossa relação azedou e a única coisa de termos ido para tribunal foi o facto de ele ter dito “então, mas faço à mesma o filme”. E tinha sido eu a pesquisar o filme e a escrever o guião. Mesmo com um guião diferente, a minha pesquisa estava no escritório… Havia muito trabalho feito por mim. Estou muito contente com o resultado, mas, claro, não há ninguém que não queira ter um bocadinho mais de dinheiro para fazer as coisas…

Mas mais dinheiro também pode atrapalhar.
Sempre tive um filme muito pessoal na cabeça, um Variações muito honesto, e sempre quis fazer um filme inspirador. A história do Variações tinha tudo para dar errado… Alguém que nasce numa aldeia, nos anos 40, com a orientação sexual que ele tinha, que queria ser músico… Ele tinha tudo para dar errado e acabou por mostrar que os sonhos são possíveis. Tinha um bocadinho esta coisa do punk que pensa que tudo é possível. E foi o que aconteceu. Infelizmente, teve um final trágico, que não merecia depois de ter lutado tanto. Quando finalmente estava a conseguir começar uma carreira, morreu.

Filmaram em alguns lugares marcantes de Lisboa, como o Trumps ou Alunos de Apolo. Como foi feita a reconstituição da época?
Não foi muito fácil… Queria filmar ao máximo em sítios reais, onde ele tenha estado. Consegui nos Alunos de Apolo, que está mais ou menos igual, mas o Trumps está muito diferente. Conseguimos umas fotografias que a Rosa Maria, que foi gerente do Trumps, nos disponibilizou e vimos como era o espaço na época. O Trumps aparecia em dois momentos, mas tivemos que optar por ser só um porque o espaço mudava de decoração de três em três anos. Depois, tivemos outro décor, que foi a casa do Variações. Filmei mesmo no prédio onde ele morava… Ele vivia no primeiro andar e eu filmei no terceiro. Conseguimos que uma pessoa nos deixasse pintar a casa, o quarto de cor-de-rosa, a sala de verde, exatamente como ele tinha. Depois repusemos tudo, claro. Faltava-me um décor que era muito importante, que era a barbearia. Só por razões de produção é que não filmámos no espaço onde ele tinha a barbearia, que hoje é um supermercado. O valor era incomportável, portanto filmei numa barbearia mais pequena. Era, também, essencial filmar em Amares, porque é o início e o fim do filme. Foi um bocadinho de peso para a produção, provavelmente preferia que filmássemos num sítio mais perto, mas a semana que ali passámos… Criou uma energia, uma emoção por estarmos naqueles sítios e sabermos que a campa dele estava ali ao lado, que as pessoas que ali estão ainda o conheceram, aos irmãos ou aos pais. A figuração foi toda fabulosa. E depois tínhamos a cena da procissão, que também só podia ser feita ali. O rio é aquele. Quando a equipa estava nos sítios reais, onde as coisas tinham acontecido, ficava com uma energia que nem sei bem explicar.

"Foram as canções do António que me deram o mote para o filme"

Relativamente aos figurinos… Como lidaram com a questão da roupa, visto que era, obviamente, muito importante para o retratar?Quando estava a entrevistar pessoas, toda a gente se lembrava perfeitamente do que ele tinha vestido no dia em que o conheceram. Fui criando um ficheiro onde guardava os fatos que as pessoas me iam descrevendo. Tínhamos fotografias, também, mas a certa altura dei um bocadinho mais de abertura criativa à figurinista, a Patrícia Dória, e acho que ela fez um trabalho incrível. Não só relativamente à roupa dele, como também da figuração e dos outros atores. Adorei trabalhar com ela. É uma coisa muito importante quando se faz filmes de época… Não queria nada que fosse setas apontadas, anos 70, e ela fez algo discreto. A equipa dizia-me, todos os dias, que ficava contente quando o Sérgio aparecia com uma roupa nova, porque os fatos estavam incríveis. Isso veio muito da minha pesquisa e da pesquisa dela dele e da época.

Apresenta “Variações” como um filme de ficção baseado em acontecimentos reais. Que linha se impediu de cruzar, em termos criativos, para não adulterar demasiado a história?
Há coisas, certos acontecimentos, que… Por exemplo, ele dizia à família que se não fosse para Lisboa, se matava e a cena dele em miúdo a cortar a mão porque queria sair da aldeia é um toque de ficção. Ficava mais forte. Mas nunca houve nada que eu tivesse dito “quero mesmo fazer, mas não porque…”. Tinha a minha pesquisa toda por anos, cronologicamente, todas as coisas que tinham acontecido. Sabia que algumas personagens iam ter um peso que não tiveram na vida dele. O Luís Vitta representa as pessoas que ouviam as cassetes e lhe diziam que ele tinha talento… Ele dava cassetes a toda a gente, até aos vizinhos do lado. Podia ser que gostassem e conhecessem alguém. Ainda entrevistei o Luís Vitta, que morreu há pouco tempo, mas percebi que era ele a pessoa que representaria aquelas pessoas todas que tentaram, com as cassetes, fazer algo por ele. Não era bem um manager, trabalhava na rádio. Tinha um programa de rock, gostava de rock, e sempre gostou daquilo e viu ali potencial. Portanto, o Luís Vitta é uma personagem um bocadinho ficcional. Todos os outros, são mais ou menos quem eram. O Fernando Ataíde era alguém muito próximo dele. O Variações trabalhou no cabeleireiro dele. A Rosa Maria ainda está viva, contou-me tudo… Foi casada com o Ataíde e depois separaram-se. As coisas foram mais ou menos como está no filme.

Falou do “Bohemian Rhapsody”… Gostou? Viu o “Rocketman” também?
Quando vi o “Bohemian Rhapsody” já tinha acabado de montar o meu filme, estava a fazer as afinações finais. O “Rocketman” ainda não consegui ver. Mas o que achei do “Bohemian Rhapsody”? Achei um filme um bocado frio. Estava a ver o filme e parecia que estava a ouvir os advogados de cada um deles, por trás da câmara, a dizer o que se devia fazer. O que achei com “Variações” foi que se conseguíssemos que o espectador entrasse logo dentro da história iria perdoar o facto de o Sérgio não cantar exatamente como o Variações, não ter o timbre exato. Um dos filmes que fez isso melhor foi aquele sobre o Johnny Cash, o “Walk the Line”. O Cash tem uma voz única e o [Joaquin] Phoenix cantou bem, mesmo não sendo um Cash. Mas conseguiram que as pessoas ficassem logo dentro da personagem e acabas por te esquecer. Essa foi uma decisão que tomei muito no início do guião: queria alguém que cantasse.

O que aprendeu com António Variações que mais o fascinou? O que representa para si hoje?
O sonho. Por vezes, a vida das pessoas não é fácil e temos de fazer coisas de que não gostamos. Toda a gente diz que o Variações estava à frente do seu tempo, e provavelmente estaria, mas, de tudo o que li, o que acho é que não sei se teria muito mais discos dentro dele. Tinha aqueles discos que fez e se calhar tinha mais dois… E isto agora estou a especular, mas se calhar o sucesso dele vem de ser alguém que parecia tão excêntrico mas que era provavelmente alguém muito normal. O Variações só arrancou a carreira dele quando tinha dinheiro, quando já tinha feito dinheiro a ser barbeiro e conseguia ter a vida organizada. Ele era um nerd, era ultra certinho nas contas, ultra certinho na vida dele, ultra regrado, não bebia, não fumava e tinha só um sonho de ser cantor. E centenas de pessoas lhe devem ter dito “tu desafinas muito, não entras no tempo, não podes fazer isso”. E ele “ah, não posso? Então vou fazer as minhas canções”. “Não sabes música, como vais fazer as tuas canções?”. “Tenho um gravador, vou tentando, faço os instrumentos…”. Ele nas cassetes até punha as guitarras… Tinha um talento natural com as palavras. É dos poucos compositores portugueses a fazer isso. Disseram-me que o José Afonso fazia a mesma coisa que ele: escrever música e letra ao mesmo tempo. Ele tanto estava à procura da palavra como da melodia. Mas estamos numa época em que as pessoas sonharem com sonhos bons, fazerem algo por eles e pelos outros, é importante e acho que é isso que ele mais simboliza para mim.