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“Variações”: a banda sonora do filme explicada, canção a canção, por quem a criou

Armando Teixeira, responsável pela releitura de clássicos como 'Canção de Engate' ou 'Estou Além', fala sobre o desafio que lhe foi apresentado pelo realizador João Maia e as opções que tomou em cada uma das faixas do álbum

Quando o realizador João Maia convidou Armando Teixeira para pegar nas canções eternas de António Variações e trabalhar com ele na banda sonora do filme "Variações", o músico - que o público ficou a conhecer pelo seu trabalho nos Da Weasel, com Bizarra Locomotiva e o seu projeto Balla - assume ter ficado muito entusiasmado. "Fiquei logo 'quero fazer isto!'", diz, em entrevista à BLITZ. Aquilo que não sabia era que o cineasta tinha uma visão muito concreta daquilo que lhe queria pedir. "Acho que todos os produtores têm o desejo de, um dia, pegar na música do António Variações e fazer algo diferente. Era uma coisa estimulante, mas ao mesmo tempo assustadora. O que é que vais fazer? Vais fazer uma cena mais eletrónica, uma coisa mais acústica, vais seguir as canções, imaginar o que o Variações gostaria agora ou pensar no que está a acontecer agora e tentar atualizar a música dele? Eu pensava nisso, só que o João não queria nada disso".

Com acesso a uma série de gravações, em cassete, feitas por Variações em casa e com as bandas amadoras com quem colaborou antes de o sucesso lhe bater à porta, a intenção era seguir aquelas pistas iniciais para tentar imaginar o que as canções teriam sido se não tivessem sido tocadas pelas mãos de produtores como Ricardo Camacho, Tóli César Machado, Vítor Rua, Moz Carrapa, Carlos Maria Trindade ou Pedro Ayres Magalhães. "Tudo aquilo que eu fiz, a produção e os arranjos, foi inspirado naquelas maquetas, na visão dele e dos músicos que tocavam com ele naquela altura, que é mesmo muito diferente das versões finais, que todos nós conhecemos". O processo "arqueológico", acrescenta Armando Teixeira, colocou-o frente a momentos carregados de emoção, como "a gravação a capella de 'Sempre Ausente'. Só de pensar nela, fico arrepiado".

"Não fazia ideia que o António era tão low profile e tão trabalhador, que é o que transparece naquelas cassetes", acrescenta, "gosto muito daquela simplicidade, daquela coisa que muitas vezes tem poucos segundos sentidos, mas que quando os tem também diz muito da vida dele. É tudo muito direto e de uma pessoa que estava atenta". As dez canções presentes na banda sonora, que ficou hoje disponível nas lojas e plataformas de streaming - e pode ficar a conhecer melhor abaixo - saltaram do filme e do disco para o palco, em concertos que Armando Teixeira e os seus músicos têm dado com o ator Sérgio Praia, protagonista de "Variações". "Depois de fazermos a banda sonora, porque é que decidimos fazer concertos? Para já, porque o Sérgio permitiu que isso acontecesse. No início não sabíamos que ele era cantor e de repente revelou-se", explica o músico, "não queria fazer uma banda de tributo ao António Variações, não queria algo como já fizeram. Então aquilo que procuramos mostrar é o primeiro concerto, o do Trumps, com aquelas bandas… Isto é o mais aproximado possível daquele concerto no Trumps, mesmo em termos sonoros, que nunca existiu na música do António Variações".

‘Anjo da Guarda’
Não havia referência nas cassetes dessa canção, só no álbum, portanto o que procurámos fazer foi adaptar. Não foi das primeiras. Começámos por criar a banda e o seu espírito, pensámos em como aquela banda que inventámos como sendo a primeira que tocou com o António Variações tocaria aquela canção, dentro da sua linguagem, e então, depois, fizemos o 'Anjo da Guarda'.

‘Canção de Engate’
A ‘Canção de Engate’ já foi com base nos concertos do Trumps. O que nos mostrou essa gravação foi a sua falta de estrutura. Não tinha uma inteligibilidade de canção e a maneira de ele cantar também era ligeiramente diferente da versão que conhecemos. Apoiámo-nos no espírito da banda, pegámos, por exemplo, naquela batida que já se ouvia na gravação do concerto e que me fazia lembrar os Joy Division. Imaginei que o baixista pudesse ter ouvido Joy Division, porque faz-me lembrar a ‘New Dawn Fades’, então usei um baixo assim e depois fizemos uma estrutura. O bocadinho que faltava fomos buscar à versão dos Heróis do Mar, para criar a ligação, mas estava lá quase tudo. O teclado, numa das gravações, era uma espécie de mandolim que existia muito nos órgãos daquela altura.

‘Na Lama’
O ‘Na Lama’ é muito engraçado. A Valentim, a dada altura, pôs à disposição do António alguns músicos, que pareciam mais dotados, e já é um tema um bocadinho mais complexo. Pus alguns órgãos, porque me parecia que tinha tudo a ver com esse ambiente. Era quase canção de verão, assim leve mas com uma letra muito dura. Tínhamos duas ou três versões e numa delas a malha de teclado era ligeiramente diferente daquela que os Humanos usaram, então usei essa. Nem sei porque é que o ‘Na Lama’ não saiu em disco nenhum, mas se calhar foi porque mostrava muito da vida dele e ele não queria mostrar.

‘O Corpo É Que Paga’ e ‘Estou Além’
A abordagem foi a mesma na 'O Corpo É Que Paga', ‘Visões-Ficções (Nostradamus)’ e ‘Estou Além’. Como esses temas não estão no filme, primeiro pensei fazer como no ‘Anjo da Guarda’: pegar naquela banda e fazer algo com base na maneira como tocariam essas músicas. Fiz o arranjo, a bateria e tal, mas depois comecei a pensar “bem, isto é um disco. Nestas canções já não estamos preocupados com o filme”. No filme, só havia dois ou três instrumentos, guitarra, bateria e baixo, às vezes teclados, mas muito pouco. Como estávamos a fazer um disco, podíamos ter uma produção muito maior. Então, imaginei quais seriam as bandas de que o António gostaria naquela altura, como os Roxy Music. Há um solo no ‘Estou Além’ meio à Brian Eno. Todos os instrumentos, em todas as músicas, são instrumentos da época. Não há teclados pós 1980, portanto todo este som poderia ter existido naquela altura. Usei aqueles arpejos da versão original do ‘Estou Além’, mas com teclados da altura, portanto tudo podia ter acontecido antes de 1980. Nessas canções, tive mais liberdade de pensar como o produtor da altura que pegou no António Variações para fazer um disco.

‘Visões-Ficções (Nostradamus)’
A estrutura do ‘Visões-Ficções (Nostradamus)’ é o António que a dá, tal como no ‘O Corpo É Que Paga’. São canções com um respirar que mesmo ao vivo será diferente. Em estúdio, tivemos que fazer uma estrutura para nos podermos guiar, mas agora, ao vivo, é o Sérgio que nos guia. Muda quando quer, faz o que quer. Há um compasso a mais? Fixe, há um compasso a mais. Não é no sítio? Não faz mal. A música do António Variações também é isso. E acho que o Sérgio, pelas “limitações” de não estar tão habituado à estrutura das canções, da música, como nós estamos, tem essa liberdade.

‘Teia’
Também existem muitas versões da 'Teia' nas cassetes e é uma música em que o António está sempre a cantar fora de tom. Tem uma ideia na cabeça, mas está sempre a cantar fora de tom… Ele quer uma coisa e a banda nunca chega àquilo que ele quer, portanto nessa tivemos uma liberdade um pouco maior. Tentámos ir mais de acordo com aquilo que nós achámos, enquanto músicos, que o António gostaria, com base também em músicas de que gostamos dessa época.

‘Toma o Comprimido'
A 'Toma o Comprimido' está muito ligada à versão original que existe, talvez um pouco mais bem tocada. Quisemos mesmo que tivesse aquele espírito punk, que tem... é das poucas músicas que tem. No nosso caso, tentámos replicar também isso no ‘Anjo da Guarda’. São as que imagino mais punk, algo que deve ter sido uma influência importante para o António nessa altura.

‘Perdi a Memória’
É um dos melhores exemplos de como fizemos este trabalho e aquele que mais orgulho me dá. Existia, de facto, aquela base, aquela malha de guitarra no início, quase Led Zeppelin, mas só existia isso. Tudo o resto foi com base nesta arqueologia de que falo: pegar no espírito da canção. O António tentava cantar refrão, mas a banda não o acompanhava. Felizmente, tínhamos a versão dos Heróis do Mar [Carlos Maria Trindade e Pedro Ayres Magalhães], então pegámos naquilo que eles fizeram, que é a canção em si, e completámos com base na banda que estaria a tocar aquela primeira malha.

‘Quero Dar Nas Vistas’
Se não existisse mais do que uma versão dessa gravação nas cassetes, poderíamos pensar que aquilo era a apresentação do António à banda. Que um dia foi a uma sala de ensaios, encontrar-se com os músicos que lá estavam, respondendo a um anúncio, sei lá... o João fala disso no filme e acho que pode muito bem ter acontecido algo desse género. Ele foi ter com os músicos que estavam lá a tocar, começou a cantar e a apresentar-se por cima daquilo que eles tocavam. Mas não é, porque há muitas versões dessa música, não é uma coisa que só existiu uma vez. Essa canção é muito influenciada pelo rock progressivo da altura. A banda ia para todo o lado, para o punk de um lado, depois rock progressivo, depois Led Zeppelin, depois uma coisa assim mais funk, talvez... Não se percebe bem qual era o estilo. Isso também é interessante. Tivemos de tirar os 50 solos que a música tinha e fizemos uma estrutura de canção. Basicamente foi isso. Mas é muito inspirada no original, no fundo é só depurar aquilo que já existia.