Se a guitarra é uma luva, o ouvido é um saco de boxe pronto a ser espancado. A filosofia dos Therapy? no EDP Vilar de Mouros
23.08.2019 às 14h20
A banda da Irlanda do Norte calçou as luvas de boxe e não poupou os tímpanos dos festivaleiros. Houve 'covers', dedicatórias, diversão e muita intervenção
“Vilar de Mourossshhh, viemos da Irlanda, vão fazer barulho para nós?”, questiona o guitarrista e vocalista Andy Cairns na primeira oportunidade que tem de se dirigir ao microfone, isto depois de servir uma possante 'Wreck it like Beckett' e antes de se atirar a 'Die Laughing', um dos temas mais emblemáticos dos Therapy?, retirado do clássico "Troublegum" (álbum que também guarda “Trigger Inside” e “Nowhere”), imediatamente reconhecido e celebrado na plateia.
Apesar da vertente descontraída e quase gozona (“desculpem falar em inglês, mas o meu português é terrível, e sendo que venho da Irlanda, também o meu inglês o é”, partilhou Cairns a dada altura), os Therapy? não estão aqui para brincadeiras. Em 'Kakistocracy', uma das canções que marcou presença no alinhamento, endereçam um monumental “que se f*da Donald Trump, Boris Johnson e o governo britânico” e fazem os seus riffs soar bem alto, um volume no limite do suportável que se manteve até ao final do concerto - 'Teeth Grinder', lá mais para o meio, contou com uma massiva soma de subs que fez estremecer o chão; 'Nowhere' colocou novamente os amplificadores nos valores máximos.
Há tempo para dedicatórias ('Callow' foi directamente para os Manic Street Preachers), uma cover de Joy Division ('Isolation' evoca o fantasma de Ian Curtis), a poderosa 'Trigger Inside', prontamente correspondida pelo público, e a promessa de irem beber copos na zona depois do espectáculo acabar (se a sede de imperial destes meninos for equivalente à de palco, imagine-se o consumo de cerveja).
A interacção com o público é uma constante no concerto dos Therapy?, venha ela de forma directa, com incentivos ao microfone, ou indirectamente, com a própria presença em palco de Andy Cairns e Michael McKeegan, o irrequieto baixista (na retaguarda, Neil Cooper dá o litro na bateria e há ainda um quarto elemento, colado à lateral, quase escondido, destacado da banda, que garante linhas de guitarra e vozes de apoio; uma espécie de Pat Smear - nos Foo Fighters - do coletivo, portanto).
'Success? Success is Survival' é a última a dar a cara neste verdadeiro espancamento de decibéis. Foi bom mas há que dar descanso ao ouvido depois disto.
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