O rock and roll dos The Cult no EDP Vilar de Mouros. “Vamos todos fazer a festa na casa da Madonna!”
23.08.2019 às 11h41
No regresso a Portugal, os The Cult encerraram o primeiro dia do festival minhoto com os grandes êxitos da sua longa carreira e ainda convidaram o público para uma festa em casa alheia
A longevidade dos britânicos Cult permitiu-lhes atravessar várias fases: a inicial, gótica; a do hard rock, muito ligada a um imaginário de longas viagens a rasgar o asfalto; e uma mais comercial que deu à luz a balada 'Painted On My Heart', banda sonora do filme "Gone in 60 Seconds" e especialmente do romance entre Angelina Jolie (suspiro…) e Nicolas Cage. Em 2019, volvidos 35 anos da edição do seu primeiro disco, os The Cult gerem o repertório como bem entendem. Não há baladas lamechas para ninguém e agarram-se com unhas e dentes à fase mais roqueira da sua carreira – não deixa de ser interessante ver uma banda com uma génese ligada ao negrume ter um espectáculo tão policromático como o que se ergue diante de nós (grande parte das músicas, como o exemplifica 'New York City', usam e abusam da paleta de cores da luzes colocadas à disposição).
Excluindo a introdução ao som de 'Angel', retirado do enorme "Mezzanine", dos Massive Attack, não se pode dizer que o concerto dos The Cult tenha começado, porém, da melhor forma: mistura desequilibrada, com o baixo a não se ouvir, os pratos da bateria completamente descompensados das restantes peças e um par de 'soluços' que quase comprometeram o arranque da banda. 'Sun King' foi a grande prejudicada.
As coisas resolveram-se pelo melhor em “New York City”, com a mistura a ganhar o equilíbrio normal mas a deixar o baixo quase sempre para segundo plano. Este nunca chega a desempenhar um papel principal na trama do concerto, excetuando momentos como 'Sweet Soul Sister', onde a guitarra se silencia para dar espaço para os outros instrumentos dialogarem e então se ouve o baixo lá no fundo a servir de cama para as teclas, que, por sua vez, aproveitam a ausência da quase omnipresente guitarra para solar.
Pelo caminho, os The Cult vão largando os seus grandes êxitos. Ouve-se uma arrastada 'Automatic Blues', uma 'Soul Asylum', que evidencia a sua tarola reverberada (não há qualquer coisa de 'Kashmir', dos Led Zeppelin, nesta música?), e umas mexidas 'Rise' e 'Rain', isto depois de Ian Robert Astbury, vocalista e fundador do colectivo, ter sacado três importantes coelhos para testar se a plateia, com o avançar da hora, ainda se mantém acordada. Começa por falar de Cristiano Ronaldo, pergunta quem é do S.L. Benfica e, logo a seguir, do F.C. Porto. A aposta funciona na perfeição, cumprindo com a sua missão, e nem é preciso ser-se grande génio para perceber quem levou vantagem nesta disputa.
Serviço de despertar realizado, atenção restabelecida, chega a hora de avançar para o grande sprint da noite. 'She Sells Sanctuary', 'Wild Flower' e 'Love Removal Machine' (qualquer semelhança com 'Start Me Up', dos Rolling Stones, é mera coincidência) são os derradeiros temas a serem escutados, com o público a corresponder com dança e canto. No final, ouvem-se alguns pedidos de encore. Tal não acontece, mas Astbury larga uma sugestão antes de sair do palco: “vamos todos fazer a festa na casa da Madonna!”.
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