Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

siga-nos

Perfil

Notícias

João Gilberto

Getty Images

O mistério de João Gilberto. O louco que soube fugir, o génio que soube ficar

Há neste momento um filme nas salas de cinema portuguesas que questiona “Onde Está Você, João Gilberto?”. Não lhe contamos o fim. Seis décadas após ter inventado um género musical que embalou sucessivas gerações, e pouco tempo depois do seu desaparecimento 'físico', o mito persiste. Percorremos arquivos, do New York Times à crítica portuguesa dos anos 80, e pintamos um retrato a aguarela, recordando também a célebre vinda a Portugal, “um símbolo que eu já amo mas vim para conhecer”

Há precisamente um mês, o mundo inteiro parece ter-se unido num pranto coletivo que espelha a dimensão universal de João Gilberto. O cantor e compositor de violão triste partiu aos 88 anos deixando-nos o imenso legado de uma obra que emocionou gerações, inspirou incontáveis outros criadores e serviu de banda sonora aos mais doces embalos das nossas vidas. Não é coisa pouca.

Apesar de resolutamente misterioso – pouco falou com a imprensa ao longo da sua carreira –, João Gilberto era uma figura que parecia exigir proximidade, familiaridade, como se cada ouvinte só tolerasse com ele uma íntima relação alimentada por uma música que parecia habitar as margens do próprio silêncio. Em 1964, o New York Times, num artigo não assinado, dava conta da estreia formal do cantor na cidade que nunca dorme para um concerto no Town Hall que se sucedeu a uma curta apresentação no mais prestigiado Carnegie Hall como convidado de Stan Getz, o saxofonista com quem gravou o clássico Getz/Gilberto, que haveria de conquistar o Grammy para Álbum do Ano em 1965. O jornalista não se deixou conquistar totalmente: “Estas canções, tomadas individualmente, são frequentemente maravilhosas e o senhor Gilberto canta-as e toca-as com classe imaculada.” O que terá falhado então? A distância, certamente: “Uma noite inteira numa sala de concertos desta dimensão não será o ambiente mais apropriado para este tipo de apresentação,” argumentava-se. “Será de esperar que um bem composto clube noturno, como o Village Vanguard em que o senhor Gilberto se estreará na próxima quinta-feira, lhe ofereça um cenário e um formato mais adequados.” Na verdade, parece o jornalista querer dizer, mais adequado para si mesmo, nitidamente incomodado pela distância que a sala de concertos clássica parecia impor entre nós e alguém que facilmente se imaginava a sussurrar-nos ao ouvido.

Perante música assim, escrevia, em consonância, João Gobern no já extinto diário A Capital, em 1982, “a atitude adequada é mergulhar pela voz murmúrio, saltar sem rede por dentro dos violões (...), estar ao lado da palavra sempre esperada e conhecida, mas nem por isso menos surpreendente e transcendente”. Entrega absoluta, portanto. Nem mais, nem menos, já que João Gilberto sempre exigiu equilíbrio. E nunca foi apenas a nós, meros e decididamente comuns mortais, que essa rendição incondicional foi exigida. Mesmo aos gigantes, essa vénia nunca foi dispensada. Nas páginas do britânico Guardian, no dia que se seguiu ao desaparecimento de João Gilberto, a 6 de julho último, Ted Gioia recordava um raro concerto do mestre brasileiro em São Francisco, em 1998. Gilberto apresentava-se em São Francisco depois de passagens por Miami e Nova Iorque.

No concerto na Grande Maçã, no Carnegie Hall, convergiu a elite: Tony Bennett, Jon Hendricks, João Bosco, Tommy Mottola, Cornell Dupree e Sónia Braga, “entre outras luminárias”, compareceram ao culto e na cidade californiana, o jornalista, sentado à frente na plateia, também se esforçou para não perder pitada: “Já firmemente instalado no seu banco alto, Gilberto começa a murmurar. Os aplausos ainda não esmoreceram, mas de repente a audiência acalma-se e esforça-se por ouvir o que está ele a dizer. Não, ele não está a sussurrar, apenas parece que sim. Está a cantar, mas muito baixinho. Estou na terceira fila, a poucos metros, e ainda assim levo algum tempo a ouvir até a sua guitarra, que parece soar ainda mais baixinho do que a sua voz”.

Gioia prossegue: “A confusão não surpreende. O estilo de cantar de Gilberto é tão tímido como a sua presença de palco. Miles Davis disse um dia que a entrega de João Gilberto era tão hipnótica que ele ‘soaria bem até a ler o jornal.’ A analogia é correta de várias maneiras. Gilberto é quase tão calmo como um homem a ler um jornal, quase tão introspetivo, e igualmente alheio ao que vai sucedendo à sua volta. Quando Tom Jobim mostrou Gilberto a executivos de companhias discográficas, há quatro décadas, eles escutaram chocados em silêncio este cantor que quase parecia não mover os seus lábios: ‘O Tom disse que nos ia mostrar um cantor, mas acabou por trazer um ventríloquo.’”

João Gilberto e a filha, Bebel Gilberto, ao vivo no Carnegie Hall, e, Nova Iorque, em junho de 1998

João Gilberto e a filha, Bebel Gilberto, ao vivo no Carnegie Hall, e, Nova Iorque, em junho de 1998

Jack Vartoogian/Getty Images

Uma vida passada a fugir

Essa capacidade de iludir, no sentido da fuga que o termo também carrega, está no centro de Onde Está Você, João Gilberto?, filme do francês George Gachot que há uma semana chegou a algumas salas nacionais. O documentário criado a partir do livro Hô-Bá-Lá-Lá – À Procura de João Gilberto, do autor alemão Marc Fisher, tenta compreender a dimensão de um mito através do retrato de uma demanda, de uma busca íntima, mas intensa, cruzando-se com quem admirou João Gilberto – músicos como Marcos Valle ou João Donato e até Miúcha, sua ex-mulher – ou com quem nunca o tendo conhecido ainda assim estabeleceu com ele uma profunda relação, como o cozinheiro encarregue de lhe preparar as refeições que eram depois entregues no seu apartamento por um rapaz que nunca chegou a entrar ou a cruzar olhares com o recluso mestre, deixando sempre a comida à porta.

Essa história é aliás condizente com outra, já contada por Elba Ramalho, cuja admiração pelo cantor a levou a dada altura a procurar um apartamento no mesmo prédio onde residia João Gilberto, na esperança de poder um dia estabelecer com ele algum tipo de relação. Essa esperança teve um momento alto quando o seu telefone tocou e do outro lado estava João Gilberto, a querer saber se a cantora teria um baralho de cartas que lhe pudesse emprestar. Ramalho prontificou-se imediatamente a satisfazer o pedido, tocou à campainha de Gilberto, mas este, sem abrir, pediu-lhe que ela lhe passasse as cartas, uma a uma, por debaixo da porta. No mesmo prédio, talvez, mas em dimensões diferentes, certamente.

Nascido a 10 de Junho de 1931, em Juazeiro, um sertão da Bahia nas margens do rio São Francisco, João Gilberto tinha apenas 19 anos quando rumou ao Rio de Janeiro para integrar o grupo vocal Garotos da Lua com quem gravou os seus primeiros 78 rotações. A estreia a solo aconteceria pouco depois, em 1952, mas ainda longe do estilo que haveria de desenvolver uns anos mais à frente, colado que estava então aos modelos que imperavam nas rádios nacionais. Sem grande sucesso, João Gilberto decidiu aprimorar os seus estudos, rumou a Porto Alegre no Rio Grande do Sul para estudar harmonia com o compositor, pianista e violinista Armando Albuquerque. De regresso a Juazeiro, João Gilberto percebeu que quando a sua voz se aproximava do silêncio, eliminando o vibrato popular entre os cantores de rádio da época, poderia controlar o tempo e a respiração em relação ao ritmo dominante da canção. “Bim Bom” foi uma das primeiras canções que criou já informado por essa pequena grande descoberta e uma das que colocou na bagagem quando voltou a rumar ao Rio de Janeiro, em 1957.

“Meio louco e genial, fabuloso no violão”

Ruy Castro, em Chega de Saudade (Tinta da China, 2016), pinta um admirável fresco desse tempo de invenções, relatando a intensa atividade que se desenvolvia nos apartamentos de Copacabana por gente como Nara Leão, Carlos Lyra ou Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli. Em meados de 1957, alguém bateu à porta de Menescal em dia de festa das bodas de prata dos seus pais. Quando o músico abriu a porta, um rapaz que nunca tinha visto perguntou-lhe se tinha um violão em casa, informou que o endereço lhe tinha sido dado por Edinho, do Trio Irakitan e apresentou-se: “Eu sou o João Gilberto”.

“Para Menescal, se aquele era João Gilberto”, relata Ruy Castro, “o nome de seu ex-professor Edinho era dispensável como recomendação. Ele já ouvira falar em João Gilberto – e, no meio dos jovens músicos cariocas nos últimos meses, quem não? Sabia que se tratava de um baiano meio louco e genial, fabuloso no violão, cantor afinadíssimo e que às vezes aparecia sem avisar no bar do Plaza. Convidou-o a entrar. João Gilberto atravessou as dezenas de convidados como se eles fossem feitos de vapor – da mesma forma, ninguém o viu – e foram para um quarto dos fundos. Não disse mais nada. Apenas examinou o violão, afrouxou uma ou duas cravelhas, testou o prolongamento das notas e cantou ‘Hô-bá-lá-lá’, sua própria composição”.

O escritor explica depois que Roberto não prestou grande atenção à letra: “E quem queria saber de letras diante do que ele estava ouvindo?”, justifica. “A voz de João Gilberto era um instrumento – mais exatamente, um trombone – de altíssima precisão, e ele fazia cada sílaba cair sobre cada acorde como se as duas coisas tivessem nascido juntas. O que era espantoso, porque o homem cantava num andamento e tocava [noutro]. Na realidade, não parecia cantar – dizia as palavras baixinho, como Menescal já ouvira outros fazendo. Mas ele sentia que João Gilberto, se quisesse, seria capaz de se fazer ouvir lá na sala, com ou sem festa.”

Esta insuperável capacidade de convocar e concentrar a atenção – de uma pessoa naquele quarto, de uma plateia inteira numa sala de concertos ou de toda uma geração, várias até, num país tão vasto como o Brasil – marcaria os passos seguintes da carreira de João Gilberto, que em 1958 se começou a fazer ouvir por todo o Brasil: primeiro como acompanhante de Elizete Cardoso nos temas ‘Chega de Saudade’ e ‘Outra Vez’, incluídos no extraordinário álbum que a cantora lançou pela etiqueta Festa, contendo composições de Vinicius de Moraes e Tom Jobim, Canção do Amor Demais – foi essa a primeira gravação oficial da sua notória “batida de violão”; depois, João Gilberto estreou-se em nome próprio com o 78 rotações que continha a sua própria versão de ‘Chega de Saudade’ e ainda ‘Bim Bom’, para muitos o primeiro real registo de bossa nova. Outro EP, já lançado já em 1959, com os temas ‘Desafinado’, de Tom Jobim, e o seu próprio ‘Hô-bá-lá-lá’, anteciparia o seu álbum de estreia, lançado em março do mesmo ano, e que receberia o título “Chega de Saudade” – a bossa nova tinha chegado ao seu formato de eleição, o álbum, perfeito para se estender o doce balanço nas festas dos apartamentos de Copacabana, há precisamente 60 anos.

Como Sinatra, mas em português

Ben Ratliff, notório crítico do New York Times, escreveu em 2008 sobre os discos de João Gilberto que, de forma totalmente coincidente com o seu espírito de ermita, pouco gravou em mais de cinco décadas de intermitente carreira (são 12 os álbuns de estúdio lançados, na sua maior parte, entre 1959 e 1981, com apenas João e João Voz e Violão a prolongarem a sua discografia para 1991 e 2000, respetivamente; a esta dúzia há que acrescentar mais nove LP que resultam de registos de concertos...). “E depois chegou o álbum do senhor Gilberto, ‘Chega de Saudade’, gravado em 1958 e 1959. As canções desse disco e dos seus dois trabalhos seguintes – ‘O Amor, o Sorriso e a Flor’ e ‘João Gilberto ‘– foram muito proximamente os primeiros exemplos de um novo estilo musical. Mais importante, esses registos definiram de forma permanente esse estilo. Bossa nova é o raro exemplo de uma música cujas linhas de história e influência continuam a remeter, mais ou menos, para uma pessoa – algo que não se pode dizer dos blues ou do jazz ou do country ou rock ‘n’ roll”.

Já em 1982, o crítico português João Gobern defendia a mesma ideia na sua coluna (de título bem brasileiro, aliás...) “Os Discos ‘Mais’ da Semana”: “João Gilberto é (...) a fonte inesgotável que se deixa usar com o sorriso calmo e perene dos inovadores. E sabe, em contrapartida, rodear-se da melhor gente, dos seus amigos, velhos e novos, para ir ainda mais longe”, escrevia, a propósito de Brasil, álbum de 1981: Rita Lee, os conterrâneos baianos Gilberto Gil e Caetano Veloso e ainda a “mana” Maria Bethânia, ou a filha Bebel acompanhavam o “pai” da bossa nova nesse disco. Na mesma coluna, Gobern dava ainda conta da reedição local de “João Gilberto Prado Pereira de Oliveira”, registo ao vivo datado de 1966, explicando que o músico e cantor estava para a música na língua portuguesa “como Sinatra para a música na língua inglesa”. “Intérprete de síntese, ‘embaixador e trovador’, padrão que nem o metro ou o litro, nos sistemas internacionais. E tem mais: é que João Gilberto não tem voz, não sabe cantar com a garganta. Mas tem um sobressalente de valor infinito lá dentro, chamem-lhe coração ou sentimento, intuição ou arte. ‘João Gilberto Prado Pereira de Oliveira’ e ‘Brasil’ mais não são, talvez, que eletrocardiogramas de um homem-cantor. Da cor brasileira. Único, sem reticências”.

Desaire e redenção em Portugal, o último país “genuíno” da Europa

Em 1982, como o escritor alemão Marc Fisher cujo livro deu origem ao já citado documentário “Onde está Você, João Gilberto?”, João Gobern já buscava o mito e haveria de cruzar-se com ele dois anos mais tarde, quando se apresentou ao vivo no Coliseu dos Recreios, em Lisboa. Nas páginas d’A Capital, o jornalista Belino Costa deu conta do desaire de uma primeira de três noites programadas para o Coliseu, titulando, a 8 de Junho de 1984, “Crónica de um espectáculo inacabado – Bronca no Coliseu”: “Foi com o bater de cadeiras, gritos e protestos vários por parte da assistência que terminou ontem o espectáculo lisboeta de João Gilberto. Tudo porque depois de interpretar 15 canções e protestar várias vezes contra as deficiências de som, o cantor brasileiro acabou por abandonar o palco sem dizer boa noite”.

"A Capital", 8 de junho de 1984

"A Capital", 8 de junho de 1984

João Gobern recorda bem o sucedido. O veterano jornalista, uma das maiores autoridades nacionais na chamada MPB, reagiu no seu mural de Facebook à notícia da morte de João Gilberto abrindo o seu próprio “livro” de memórias: “Vi-o chorar como uma criança a quem tivessem destruído o brinquedo favorito. Disse, várias vezes: ‘Isso não podia acontecer comigo aqui, logo aqui...’. Foi logo a seguir ao primeiro dos concertos que deu no Coliseu, em junho de 1984. Acabou com vaias quando ele decidiu abandonar o palco muito mais cedo do que a espera e a expectativa exigiam”, contou quem sabe e esteve igualmente presente.

“Acontece que ele era mesmo um perfeccionista obsessivo e, já depois do ensaio geral, uma qualquer luminária decidiu mudar a localização da orquestra e, dessa forma, infringiu as regras, rígidas, de um cantor que não perdoava esse tipo de 'subversões'. Em pranto, ele estava sentado no banco de trás de um Citroën, o mesmo em que já tinha passeado – comigo à pendura, para sempre privilegiado – por Lisboa. O calor era condizente com a chegada dos Santos Populares mas nem assim ele abdicava de camisa com gravata, colete, casaco e sobretudo. Da mesma forma que não perdia de vista o seu saco de remédios. Cantarolou, com uma insistência muito própria, alguns versos de algo que decidira somar ao alinhamento dos seus clássicos: 'Uma Casa Portuguesa'.”

Gobern junta à sua ilustre carreira o raro “troféu” de uma entrevista com mestre Gilberto, algo que sucedeu muito poucas vezes ao longo da sua carreira. No igualmente já desaparecido semanário Sete, na sua edição de 13 de Junho de 1984, publicou-se o resultado desse especial encontro, com Gobern a assinar o texto e Pedro Múrias a carimbar os retratos que documentaram essa passagem do cantor brasileiro por Portugal. Mas uma semana antes, na edição de 6 de Junho, a voz de João Gilberto, então acabado de chegar, já se fazia “ouvir”: “Estou chegando em casa. Venho a Portugal pela primeira vez mas nunca deixei de estar com Portugal. Mas é com muito prazer que eu vou poder mostrar aqui o meu trabalho, as minhas canções...” Vir ao nosso país, garantia então o cantor de ‘Bim Bom’, era mesmo uma questão de “dever”. “Eu sempre preferi responder às perguntas através do canto, deixando as pessoas conhecer de mim cada um dos personagens que idealizo nas canções. Se tivesse o dom da palavra, seria poeta ou orador. Mas, assim, fico sempre com a impressão de ter faladode mais ou de, pelo contrário, me ter esquecido do essencial. E por isso que eu evito as entrevistas ...”

"Se7e" de 6 de junho de 1984

"Se7e" de 6 de junho de 1984

“Em 25 anos de carreira, João Gilberto Prado Pereira de Oliveira tem andado assim, às fintas e em fugas, perante os ‘perguntadores profissionais’,” escrevia Gobern. “Até agora, havia duas exceções, longínquas, e das quais o cantor da voz tímida fala como de uma memória penosa. Agora, aconteceu a terceira “entrevista” de João Gilberto, somatório de uma série de conversas quetiveram como condição prévia que os gravadores, o papel e as canetas ficassem de fora, porque ‘estragam sistematicamente o prazer de um papo de amigos, informal sem deixar de ser importante’.” Prince, pelos vistos, não era o único a exigir aos poucos jornalistas que o puderam entrevistar que apenas a memória servisse para fixar as suas conversas. Génios que pensam igual...

Informal, talvez pudesse então ter sido assim o “papo”, mas também pleno de pequenas e deliciosas revelações: “Por favor, não se imagine que eu chego ao quarto e fico horas em êxtase, ensaiando algo de transcendental. Nada disso: eu limito-me a ficar pensando, assimilando sensações. Por exemplo, eu ainda estou a perceber, lentamente, aquilo que aconteceu nos concertos de sexta-feira e sábado, duas das emoções mais fortes que vivi na minha vida ...”, assegurava o cantor que parecia viver tudo com a intensidade dos que são “condenados” a sentirem tudo, por nós: “É como na música: se eu acerto uma canção, se sou capaz de a mentalizar, de pintar à minha frente o quadro do que canto, sinto a realização plena, a compensação por um desafio que é sempre uma mortificação. Se alguma coisa falha, a minha dor é física, fico perdido, tudo aquilo que foi trabalhado com carinho transforma-se quase em náusea. E aí eu só penso em fugir ...” Exatamente o que aconteceu na primeira noite das apresentações lisboetas. “Eu queria até morrer ali, como um toureiro em plena praça. Mas estragaram- me os arranjos, alteraram a disposição do palco, obrigaram a que eu me desconcentrasse. Eu fiquei até sem fala, incapaz de explicar o que quer que fosse, pensando na desventura de quem esperou todo esse tempo para agora acontecer isto ...” O lamento, escrevia então João Gobern, foi proferido entre lágrimas, manifestação profunda de um pesar de quem cantava baixinho porque parecia carregar nas costas o peso de todas as emoções do mundo.

Excerto da capa do "Se7e" de 13 de junho de 1984. Entrevista exclusiva com João Gilberto, mas havia outro vulto brasileiro na capa

Excerto da capa do "Se7e" de 13 de junho de 1984. Entrevista exclusiva com João Gilberto, mas havia outro vulto brasileiro na capa

“No dia seguinte, sexta-feira, João Gilberto estava outro, predisposto a ser encorajado para o grande concerto que deu. Recordando os êxitos que todos esperavam (‘Desafinado’, ‘Insensatez’, ‘Wave’) e pediam (‘O Pato’, ‘Tristeza’, ‘Aquarela do Brasil’), oferecendo mesmo um brinde que considerou especialmente adequado para este primeiro ‘cumprimento’ ao público português: o clássico ‘Casa Portuguesa’, reportou Gobern. “Pela imagem que eu mantenho de Portugal, essa canção quase podia ser o vosso hino nacional: fala da singeleza, da simplicidade, da simpatia que ainda é possível encontrar em vocês que são possivelmente o único país genuíno que resta à velha Europa. A ideia que eu tenho de Portugal é um pouco a de uma procissão, com um ritual e um ritmo todos especiais, próprios...” Nos elogios que nos teceu, João Gilberto encontrou até espaço para enaltecer o vinho do Porto, bebida que, dizia, tem “aquela 'renda' no sabor, só podia ser ‘inventada’ por um povo capaz de acarinhar aquilo que constrói, que faz nascer, que sente aquilo que tira da sua terra com o seu Sol.Confesso ainda que, à primeira, me senti impressionado pelos olhos das portuguesas, profundos e sinceros, misturando uma candura que me traz à memória a imagem de uma mãe e um ardor que eu acho quase cigano...”

Tudo sincero. Até os medos: “Mas eu tenho muito medo de estar aqui a desfiar uma série de lugares-comuns sobre vocês, que já toda a gente tenha dito ou escrito. E não gostaria nada que ficassem com a impressão de que sou um sujeito bajulador, que pensa estes comentários apressados para agradar. Não é nada disso. Portugal, para mim, é algo de ancestral e de novo, ao mesmo tempo; é um símbolo que eu já amo mas vim para conhecer...”

E, à época, aquele que há um mês foi universalmente reconhecido como o pai da bossa nova, quando toda a imprensa internacional se uniu num coro de elogios após o seu desaparecimento, já resistia ao peso dos rótulos: “Eu acho que ficaria até meio sem jeito de falar hoje em Bossa Nova, quando tudo entrou numa confusão de nomes, quando as canções reflectem cada vez influências mais estranhas. Eu sei o que a minha música não é — ela não é dessa barulheira anglo-saxónica que o poder americano nos impinge todos os dias, igual, violenta, sem graça. Quanto ao que ela é, só posso dizer que gosto de lhe chamar música brasileira.”

“Último episódio”, escrevia João Gobern na conclusão da sua peça para o Sete: “10 de Junho de 1984, Dia de Portugal e de Camões. Data do aniversário de João Gilberto Prado Pereira de Oliveira. Agarro no telefone para lhe dar os parabéns e é quase uma surpresa ouvi-lo falar sem o ‘espectro’ dos espectáculos, concluídos na véspera. Agora, está ali um homem disposto a ir à descoberta de Lisboa ‘dos avós’ e do Portugal que lhe falta conhecer: ‘Agora é minha vez de querer descobrir os vossos segredos, de querer conhecer a sério a 'casa portuguesa'. Se isso não acontecer, apesar dos espectáculos, acho que a minha viagem terá sido até em vão, sabe? Eu é que vim para entrevistar vocês...”

Na verdade, João Gilberto veio para nos fazer sonhar, para nos ajudar com as alegrias e as tristezas, com a vida. Porque quem fez música assim, sussurrada em cada ouvido, como um segredo que se deve guardar para sempre, pode partir, mas nunca vai realmente desaparecer. Um mês depois dessa partida, quando nalgumas salas de cinema se pergunta onde está João Gilberto, é seguro responder que está aqui mesmo, ao nosso lado, a cantar baixinho, “que isto é bossa nova, que isto é muito natural”. Tão natural que não esmorece. Fica. Para sempre.