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Woodstock 1969

Porque falhou o festival Woodstock 50. A anatomia de um fracasso

Em agosto de 1969 quase meio milhão de pessoas imergiu em “três dias de paz e música” numa enorme quinta no sul do estado de Nova Iorque. O festival Woodstock – palco de incensadas atuações de Jimi Hendrix, Janis Joplin ou The Who – tornou-se não só um marco da contracultura dos anos 60, mas também o ‘pai’ de todos os festivais. Cinquenta anos depois, quiseram celebrá-lo. O falhanço foi ensurdecedor

O cancelamento abrupto de festivais de música não é propriamente uma ocorrência alienígena numa indústria que enfrenta desafios decisivos, nem sequer uma nova tendência (até por cá tivemos direito ao nosso festival-catástrofe, há 32 anos), mas não deixa de surpreender que Woodstock 50, o evento que se propôs assinalar com a devida pompa o 50º aniversário dos “três dias de paz e música” de agosto de 1969, tenha acabado no caixote das más ideias, cancelado oficialmente pelo fundador do festim original, Michael Lang. Ao cabo de um calvário de oito meses, o desfecho tornava-se evidente, mas Woodstock estava longe de ser, em teoria, um delírio desmesurado de um lunático (ao contrário do inacreditável Fyre, em 2017): já em 1994 e 1999 se haviam realizado edições comemorativas do 25º e do 30º aniversário do festival, respetivamente (ainda que esta última tenha ficado na história pelas razões erradas, marcada que foi por casos de violência, roubos, incêndios e agressões sexuais). A sucessão de acontecimentos é, contudo, novelesca.

Paz, música e problemas

9 de janeiro de 2019. Michael Lang anuncia a boa nova em entrevista à “Rolling Stone” (a decana do jornalismo nascido na contracultura dos anos 60 foi recipiente da mais completa reportagem do festival, há 50 anos): vêm aí três dias de música, de 16 a 18 de agosto, no autódromo de Watkins Glen, Nova Iorque, num “regresso às raízes” que pretende, também, fazer esquecer o caos pós-apocalíptico da malfadada edição de 1999. Lang, de 74 anos, garante que uma experiente equipa de produção trabalha no projeto há dois anos e promete um cartaz bastante diversificado. Não há, contudo, um gigante do entretenimento associado (como a Live Nation ou a AEG), mas sim a pequena Danny Wimmer Presents, responsável pela organização de festivais de rock de pequena e média dimensão.

Os problemas começam praticamente no início: apresentado com aparato, o evento não tem cartaz anunciado nos dois meses seguintes e consequentemente, não existem bilhetes à venda. O grau de risco é considerado alto e os artistas perfilados estarão a pedir honorários à cabeça. Lang promete um “acontecimento único” com um alinhamento de 80 artistas, finalmente revelado a 19 de março. Os ‘contemporâneos’ Jay-Z, Chance the Rapper, Black Keys, Killers, Miley Cyrus, Imagine Dragons e Halsey convivem com ‘sobreviventes’ do Woodstock original, de Santana a David Crosby ou John Fogerty. Das autoridades locais vêm as primeiras dúvidas: a lotação do recinto terá de ser fixada num número consideravelmente inferior a 100 mil pessoas por motivos de segurança (no Woodstock original esteve quase meio milhão de almas). Uma semana antes da data prevista para a abertura da bilheteira, salta do cartaz o headliner rock, Black Keys, “por conflitos de calendário” – atente-se que, até à data presente, o duo não tem quaisquer concertos marcados para essa altura.

O alinhamento do festival, ainda com os Black Keys

O alinhamento do festival, ainda com os Black Keys

De arraso em arraso

A venda de bilhetes não chega a iniciar-se. A Danny Wimmer Presents comunica às bandas em cartaz que aguarda um comunicado por parte do festival “relativamente a preços e informações gerais”. Aos primeiros indícios de turbulência, Lang responde com um “apenas rumores”. Segundo a “Pitchfork”, ao evento faltará, na verdade, um requisito fulcral: a aquisição de uma licença para empreender um espetáculo ao vivo de larga escala, concedido pelas entidades sanitárias do estado de Nova Iorque. No fim de abril, um dos principais investidores no festival, a Dentsu Aegis Network (empresa ligada à publicidade) emite um comunicado que sugere que o festival está cancelado. Uma injeção de 20 milhões de dólares terá falhado, mediante a recusa da Live Nation e da AEG tomarem as rédeas do projeto. Os organizadores contrariam a versão do financiador – o festival irá para a frente “e vai ser de arraso”, dizem – mas do ‘barco’ salta também a Superfly, ‘braço’ de marketing, ligada também ao importante festival Bonnaroo.

Sabe-se, entretanto, que o advogado do festival é Marc E. Kasowitz (Donald Trump, um dos seus principais clientes), que roga a “acionistas e artistas” que não desistam do Woodstock 50 – “não vamos parar agora”. Lang assegura que os contratos estabelecidos com os artistas não foram anulados; vários agentes contactados pela imprensa norte-americana consideram que dificilmente os nomes anunciados se manterão no cartaz. A luta de Lang é agora a de mostrar que a confiança não está perdida, mas o Woodstock 50 torna-se, cada vez mais, um investimento arriscado para os observadores imparciais. O veterano nova-iorquino, que não evita acusar a Dentsu de traição (vai mais longe: defende que os japoneses pretendem “assassinar” o evento), tem agora poucos dias para angariar 30 milhões de dólares. Não consegue.

Michael Lang em 2019

Michael Lang em 2019

Getty Images

Festival sem casa

A 11 de junho, o Woodstock 50 sobre um revés de monta. O autódromo Watkins Glen recusa albergar o festival, sabendo-se mais adiante que não recebeu a ‘renda’ (150 mil dólares) a tempo. A empresa de entretenimento que, sucedendo à Superfly, se encontra a produzir o evento também bate com a porta. As autoridades sanitárias rescindem o pedido de licença. Um 3 em 1 que, noutras circunstâncias, seria absolutamente fatal a qualquer evento sugere aos organizadores um recurso: mudar de local. Ainda não há, lembramos, bilhetes à venda. Dos artistas anunciados apenas os Imagine Dragons se congratulam com a presença na celebração. O desespero, inimigo dos bons negócios, é dominante: outro espaço, a pista de corridas de cavalos de Vernon Downs, a quase 200 quilómetros do recinto anterior, não se demora a dar nova ‘tampa’ ao festival.

Num downgrade radical, Lang e parceiros procuram em julho um espaço para acolher cerca de 45 mil pessoas, apesar de várias autoridades (nomeadamente o xerife do condado de Oneida) recomendarem o adiamento do Woodstock 50 para 2020, observando que pouco mais de 30 dias é pouco tempo para garantir que a empreitada se concretize em condições aceitáveis. Greg Peck, presidente do Woodstock 50, outra face do ‘desastre’ iminente, continua a acreditar no projeto e mostra-se confiante que, “com planeamento cuidadoso e consideração pelas preocupações da comunidade, vamos ter um festival seguro e de classe mundial”.

Michael Lang no festival de Woodstock, 1969

Michael Lang no festival de Woodstock, 1969

Os acontecimentos precipitam-se: as autoridades de Vernon Downs revelam que, mediante a falta de condições para montar campismo nas imediações da pista, o festival queria transformar o evento de três dias em três eventos de um dia, obrigando os festivaleiros a regressar a casa no final de cada ‘jornada’. A descredibilização torna-se evidente e – recordemos – ainda não há bilhetes à venda. Woodstock 50 só existe no papel.

A estocada final

Os últimos parceiros abandonam Lang, mas o empresário não se dá por vencido e, num último gesto de ‘salvação’, relocaliza a celebração dos 50 anos de Woodstock para o Merriweather Post Pavilion, espaço para espetáculos ao ar livre localizado no estado vizinho de Maryland, a 450 quilómetros do autódromo e a quase 600 das corridas de cavalos. Capacidade do recinto? 19 mil pessoas, menos mil do que a Altice Arena, em Lisboa. Os produtores estão cientes de que, tendo em conta a ‘revolução’ logística que é necessário operar, os artistas originalmente escalados para Watkins Glen têm o direito de recusar aparecer. Assim acontece: um a um, todos os nomes vão caindo, de Jay-Z aos Killers e Miley Cyrus. Woodstock ganha, aparentemente, uma casa mas perde o recheio. A barafunda é total, com o Merriweather Post Pavilion a ter agendados para o mesmo espaço, a 17 de agosto, concertos de Smashing Pumpkins e Noel Gallagher, completamente alheios à suposta programação do evento. Completamente à deriva, Woodstock 50 é ainda anunciado como um festival de entrada gratuita.

Merriweather Post Pavilion

Merriweather Post Pavilion

Reality truth/Creative Commons

Que festival? Não há tempo para responder a esta questão. 31 de julho: “devido a contratempos imprevistos”, o festival é definitivamente cancelado. “Woodstock 50 pede agora a todos os artistas, que já foram pagos, que doem 10 por cento dos seus honorários a uma causa social à sua escolha, imbuídos de um espírito de paz”, pode ler-se num comunicado assinado por Michael Lang. Ninguém esperava outro fim.

Publicado originalmente no Expresso Diário de 1 de agosto de 2019