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Karl Hyde e Rick Smith

Rob Baker Ashton

Até que idade pensam divertir-se os Underworld? “Nunca pensei parar. O nosso trabalho é fazer a festa”, diz-nos Karl Hyde em entrevista

Regressam a Portugal para atuar no festival Neo Pop, em Viana do Castelo, a 7 de agosto, e encontram-se numa das fases mais produtivas de sempre de uma carreira já longa. Karl Hyde, vocalista e guitarrista da banda de 'Born Slippy', falou com a BLITZ sobre Iggy Pop, o trabalho com pessoas sem-abrigo e o fascínio do Instagram

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Durante algum tempo, conta-nos Karl Hyde numa manhã de verão, a amizade que há quatro décadas o une a Rick Smith terá sido “negligenciada”. Agora que Hyde tem 62 anos e Smith 60, não há tempo a perder, e uma das mais veteranas bandas de música eletrónica aposta tudo no diálogo e na criatividade. Embrenhados no projeto Drift, pelo qual se comprometem a lançar material novo todas as semanas, e atentos a tudo o que se passa à sua volta, nomeadamente nas comunidades menos favorecidas, os Underworld são, em 2019, uma voz fresca. Conversa estimulante com metade da dupla que a 7 de agosto toca no Neo Pop, em Viana do Castelo.

A última vez que tocaram em Portugal foi em 2015, no NOS Primavera Sound, no Porto. Lembra-se dessa viagem?
Lembro, pois! Em Portugal, adoramos a comida, o que é sempre muito importante quando se anda em viagem. (risos) E as pessoas, que são encantadoras. E isso faz com que estejamos sempre num estado de espírito muito positivo, quando vamos atuar. Também me lembro da Patti Smith, que atuava nesse festival, e eu fui ver o seu concerto. Recordo-me de a ver da primeira vez que veio tocar ao Reino Unido, nos anos 70. É muito interessante ver como ela evoluiu. Dessa viagem ao Porto também me lembro que fomos a pé até ao mar. E isso é uma coisa bem fixe de se fazer quando se está num festival!

Da última vez que falámos, disse que tentava sempre escrever uma ou duas horas, de manhã, num café. Também o faz quando anda em digressão? Não é difícil encontrar cafés para escrever?
Tento sempre escrever! Começo por escrever no hotel e as pessoas geralmente já sabem que é melhor deixarem-me em paz. Vou e sento-me a um canto, de onde consiga observar a sala e estar sossegado. E escrevo durante uma hora ou duas. De manhã, vou dar uma volta a pé, escrevo sobre as ruas... Às vezes uso o telefone para escrever, porque dá menos nas vistas do que usar um bloco de notas. Se usar um bloco de notas, fico a parecer um polícia à paisana, ou assim.

E há sempre alguém que pode perguntar o que está a escrever...
Sim! Os telefones são ótimos para isto, porque estamos todos habituados a ver as pessoas a teclar nos seus telefones. É invisível e, ao mesmo tempo, algo sinistro. Porque, na verdade, ninguém sabe para o que estão a ser usados estes dispositivos informáticos com câmara e gravador.

Como quando queremos tirar uma foto à socapa e nos esquecemos de tirar o som ao telemóvel...
Exato! No Japão, há uma lei que obriga as pessoas a terem o som do telemóvel sempre ligado. Para que toda a gente saiba que estás a tirar uma foto. Na verdade até é bem fixe.

Mas, a avaliar pelas imagens que partilha no Instagram, tem uma caligrafia bem bonita. Como é que consegue, nesta altura em que, mais do que escrever, todos teclamos?
Eu sempre adorei escrever com papel e caneta. A caneta é muito importante e desperta um prazer diferente no ato de escrever. Não retiro esse prazer de quaisquer outros instrumentos de escrita. Também teclo imenso e uso muito o computador para escrever emails e mandar ideias para o Rick. E é ótimo! Mas o simples ato de escrever com caneta é um experiência linda. Essa é outra das razões pelas quais adoro escrever. (risos)

Há estudos que sugerem que memorizamos melhor o que escrevemos à mão...
Isso é muito interessante! Por acaso, quanto mais anoto as coisas, mais consigo lembrar-me delas. Se calhar o meu cérebro pensa: “OK, já não tenho de me lembrar disso, já está escrito”. E já em criança era assim. Podia escrever cinco ou seis canções e lembrava-me de todas, na sua totalidade. No dia em que tive o meu primeiro gravador e as gravei, já não me lembrava! Se calhar sou eu que tenho algum problema. (risos) Esqueço-me das coisas se não as escrever.

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Victor Frankowski

Nos últimos meses, têm-se dedicado a um projeto de nome Drift, através do qual lançam semanalmente música (e vídeo) novos. É uma forma interessante de mostrarem o que estão a fazer... mas não implica uma pressão acrescida? Nunca pensa: “oh meu Deus, ainda não fiz a música desta semana”?
Não é uma pressão negativa. É uma promessa que fizemos, de lançar algo [todas as semanas] durante 52 semanas, e estamos muito gratos por termos feito essa promessa. Tem-nos mantido concentrados, faz com que nos encontremos mais vezes, faz com que estejamos sempre à procura de soluções que consideremos excitantes e inspiradoras e mantém a fasquia sempre elevada. E também faz com que apliquemos as nossas capacidades e paixões pessoais, o que é bem especial. Comprometemo-nos a fazer uma exploração a fundo e a sermos quem somos. E penso que criámos um projeto fantástico.

Alguns dos temas têm títulos bem caricatos, como 'Custard Speed Talk' ou 'Poet Cat'... Qual a sua inspiração?
A inspiração vem de estarmos juntos! Passamos mais tempo juntos agora do que alguma vez passámos, nestes 40 anos. O contacto um com o outro e as conversas inspiram-nos. Ajudamo-nos um ao outro a resolver problemas, encorajamo-nos mutuamente e toda a música que lançámos no projeto Drift, até agora, tem beneficiado desse contacto – todas estas coisas acontecem, agora, semanal e até mesmo diariamente. No passado, esses aspetos poderão ter sido negligenciados e não deviam ter sido. A nossa amizade e a nossa colaboração foram altamente negligenciadas. Agora já não temos tempo para as negligenciar. (risos) E isso é ótimo.

Diz que tem conversas muito “francas” com o seu parceiro de banda, Rick Smith. Sempre foi assim?
Sim, sempre foi. Diria é que agora essas conversas têm como objetivo claro podermos ter uma vida mais feliz. É óbvio para nós os dois que as conversas se destinam não só à nossa felicidade criativa como à nossa felicidade pessoal, o que engloba a nossa amizade e a nossa relação de trabalho.

É quase como um casamento, a vossa relação profissional?
Suponho que seja como um casamento, sim. (risos) Muita gente tem dito isso. Eu só sei que me sinto muito grato por ter o Rick como parceiro; é alguém a cuja visão eu gosto muito de pertencer.

Estiveram também envolvidos num projeto intitulado Manchester Street Poem, que parte das histórias das pessoas sem-abrigo daquela cidade. Como surgiu essa ideia?
Esse é um projeto que o Rick e eu começámos há uns dois anos. E é um projeto muito forte que ajudou a transformar a vida de toda a gente que colaborou nele. Eu e o Rick, toda a gente que participou -- entretanto tornou-se numa equipa bastante grande... a ideia é que toda a gente ali ouve toda a gente. Toda a gente tem uma experiência e ideias para encontrar soluções para problemas da vida real, e resulta! É incrível como muda a vida das pessoas. Nós trabalhávamos todos os meses e todos os anos apresentávamos um ou dois grandes projetos públicos. Mas andamos sempre na comunidade, recolhendo histórias, ajudando-nos uns aos outros a expressarmo-nos e a sermos uma comunidade, em vez de um grupo dividido de pessoas, em que alguns são ignorados e outros ignoram. Foi uma forma de pormos o nosso país a conversar consigo mesmo, sem passarmos uns pelos outros ignorando-nos e evitando fazer do sofrimento e do isolamento parte da nossa cultura.

Que tipo de pessoas encontrou nessas circunstâncias?
O que me deixa feliz é que estão motivadas e empenhadas a viver a sua vida. Fico feliz por podermos ter levado alguma mudança às pessoas que se encontram nestas circunstâncias terríveis, aqui no Reino Unido. Mas estão em todo o lado, de uma forma ou outra. Por enquanto, só nos podemos concentrar nesta ilha pequenina. Mas sei que há muita, muita gente, que não é reconhecida pela imprensa, e que trabalha incansavelmente para causar mudança e aliviar o sofrimento [dos outros]. E transmitir muito amor. Penso que são pessoas formidáveis. E nós temos o privilégio de trabalhar com algumas delas.

Qual a sua opinião sobre o Brexit? Acredita que irá para a frente?
É uma confusão. Compreendo que algumas pessoas tenham sentido necessidade de serem ouvidas e tenham usado o seu voto para serem ouvidas. No nosso país, há muitas pessoas que sentem ignoradas pelo governo, muitas das quais viram esse voto como uma oportunidade para serem ouvidas e talvez para atacarem o governo e todos os partidos políticos que deixaram uma parte do nosso país a sentir-se sozinha e excluída da minoria privilegiada. Quer discorde ou não, sinto empatia por essa sensação de ser ignorado pelo governo.

E, se o Brexit for para a frente, vai complicar muito a vida dos músicos que andam na estrada?
Nós tentamos ver o lado positivo e encontrar soluções. Para o que quer que aí venha, temos de trabalhar em conjunto com os nossos vizinhos e a comunidade global. Pela nossa experiência com a Manchester Street Poem, é evidente que muito do ótimo trabalho que está a ser feito vai continuar a passar despercebido nas notícias. O que é uma pena, porque há muito bom trabalho a ser desenvolvido em todo o mundo, só não aparece na imprensa. Então, muitas vezes olhamos para o mundo como um lugar negro, cheio de medo, quando na verdade isso é apenas o que é noticiado. O que acontecer… acontece! (risos) E nós havemos de encontrar soluções positivas.

No ano passado, lançaram um EP com o Iggy Pop. Mas o Karl já o conhecia, de quando tocou guitarra com os Blondie e andaram em digressão com o Iggy Pop, nos anos 90. Deve ter sido uma experiência única.
Foi, pois! Foi muito importante. Ver o Iggy Pop enquanto performer completamente absorvido e honesto na sua reação à música foi um fator-chave para nós, antes de esta banda emergir da visão do Rick. E conhecer a pessoa, e perceber que é um ser humano encantador, também. Inteligente, muito sossegado, culto, com uma memória fantástica. Quando, anos mais tarde, o Rick instigou o projeto com ele, foi fantástico poder voltar a falar com ele e perceber que continuava a ser a mesma pessoa amável que eu conhecera há tantos anos.

Recentemente os Kraftwerk, veteranos da música eletrónica, estiveram em Portugal para um concerto que atraiu muitas atenções... Nos anos 90, havia um anúncio que perguntava “até que idade pensas divertir-te?”. Qual a sua resposta a esse desafio?
Não penso parar. Nunca pensei. Nem consigo imaginar, a menos que tenha algum problema de saúde. Está ligado com o tipo de cultura em que cresci, suponho. (risos) A cultura da classe trabalhadora, em que é importante continuarmos a fazer o que fazemos. Eu adoro o meu trabalho, adoro trabalhar com o Rick – isso faz-me feliz. Porque é que hei de parar?

O facto de adorar o que faz também há de ajudar...
Claro! E espero que isso se note, no espetáculo ao vivo. No trabalho que lançamos. Espero que as pessoas que vão aos nossos concertos sintam isso. Porque, quando estamos em palco, parece que estamos num outro estado de espírito, que está ligado a uma espécie de energia elétrica, talvez. Essa energia transporta-nos para outro sítio, e esse sítio é uma combinação das pessoas e da música.

É uma abordagem mais orgânica e inclusiva do que a dos chamados “DJs da pen”...
Para nós, o evento propriamente dito sempre foi muito importante. Nós trabalhamos incansavelmente para levar a música para a frente e para melhorar a nossa capacidade de reagirmos ao momento e às pessoas. Mas as pessoas são o nosso número 1. O nosso trabalho é fazer a festa. E isso é importante! Todos queremos ser felizes. (risos) E mostrar alegria. E isso nem sempre é fácil! Sentimos que o nosso papel é o de servir de catalisador à celebração. E se conseguirmos fazer parte disso… isto não é um emprego! (risos) É um estilo de vida, e quando estamos a tocar a nossa música para um grupo de pessoas que foram ao concerto para celebrar juntas… é um privilégio.

Afirmou numa entrevista gostar muito do Instagram. O que encontra por lá que talvez não encontre noutras redes sociais?
É a comunicação instantânea. A possibilidade de ter feedback… Eu provavelmente tenho a mesma rotina, todos os dias, há quase 20 anos. E o Instagram é uma extensão natural disso mesmo. Com a possibilidade de fazer muito mais. E fascina-me. Fascina-me poderes criar um mundo pequenino que as pessoas podem visitar, como se fosse uma casa que fosses descobrindo. E ter uma ideia e poder partilhá-la com pessoas de todo o mundo é fascinante. Até tem que ver com o Manchester Street Poem, na verdade; tem que ver com teres a tua voz e partilhares a tua perspetiva com outras pessoas. Com conversares diretamente com elas e enriqueceres a tua experiência, enquanto outros testemunham o que fazes. Conversar é muito importante. O diálogo é essencial. Caso contrário estamos sozinhos, e eu não quero estar sozinho, obrigadinho. (risos) Agora já nunca me sinto sozinho. Estou sempre à procura de coisas novas.

Os Underworld atuam no Neo Pop, em Viana do Castelo, a 7 de agosto. Veja o cartaz aqui.