Os 'filósofos' Muse ao vivo no Passeio Marítimo de Algés. Ninguém os controla, eles vão sempre ganhar
25.07.2019 às 1h37
O trio britânico regressou a Portugal com um espetáculo que tanto teve de aparato como de filosofia. Néones, imagens computorizadas e robôs: não faltou nada. Nem a música, claro
Ofuscados com os avanços tecnológicos e com a avalanche de dados a que somos sujeitos diariamente, deixámos de conseguir percecionar aquilo que é de facto real ou não. Inventámos termos como fake news; apegámo-nos a mundos que criámos como forma de escapar a este que nos rodeia; ligámo-nos todos uns a outros e, no processo, ficámos cada vez mais distantes. Cada uma destas premissas parece ter servido de base a “Simulation Theory”, álbum e espetáculo que os Muse trouxeram ao Passeio Marítimo de Algés. A mensagem que logo ao início surge no gigantesco ecrã ali montado dá o mote: estamos todos aprisionados em simulações. Simulamos gostos, debates, ideias. Simulamos até dentro dessas mesmas simulações.
Há uma imagem que exemplifica isso mesmo, razoavelmente a meio do concerto: um enorme esqueleto metálico, em CGI, é visto dentro de uma caixa, a qual vai progressivamente quebrando em busca da sua liberdade. É isso que, de certa forma, fica deste concerto dos Muse; há que quebrar a simulação, voltar a sentir o corpo, a ser real. Voltar a tempos físicos ao invés de virtuais. Abandonar o clarão dos néones.
Paradoxalmente, o trio britânico usa e abusa deste jogo de luzes, criando ao mesmo tempo um enorme e pomposo espetáculo visual e advertindo-nos para essa mesma sociedade do espetáculo em que estamos inseridos. Depois disto – e isso mesmo já foi prometido pelos Muse – vai dar-se um regresso às raízes, à música pela música, à fisicalidade do som por oposição à alienação provocada pela imagem.
Porque essa alienação existe e existiu; durante vários momentos ao longo da hora e meia em que os Muse se apresentaram em Algés, quase que relegámos a música para segundo plano em detrimento da ficção que ia surgindo no ecrã, em detrimento dos confetes que choveram em 'Mercy', em detrimento dos balões que no final, com 'Knights of Cydonia', foram lançados para a plateia (e disputados e perseguidos como numa caça). Tudo carregado de exorbitância, ou não estivéssemos a falar de uma banda cuja fotografia surge ao lado da palavra “grandioso” no dicionário.
O que não quer dizer que esta simulação montada pelos Muse não crashasse de vez em quando. Assim foi ao início, quando apanhámos Matt Bellamy no meio de um exército de soldados luminosos, “Tron” adaptado ao rock'n'roll; quando os efeitos que o músico imprime à sua guitarra nos soavam a vozes distantes, como se o seu conhecido falsete se diluísse no feedback; ou quando um sargento metálico virtual ditou as ordens, as mesmas que nos transformam em 'Psycho's.
'Uprising' é talvez a chave deste espetáculo. Tudo no refrão: They will not control us / We will be victorious. E mesmo 'Uprising' traz consigo o enorme paradoxo que é desejarmos ardentemente que nada nem ninguém nos controle, ao mesmo tempo que nos predispomos a fazer tudo aquilo que uma estrela rock nos pede – no caso, cantar a letra e erguer bem alto os punhos. Como escreveram Deleuze e Guattari, o desejo deseja a sua própria repressão. Não que os milhares de fãs que acorreram a Algés tenham dedicado qualquer minuto que fosse à filosofia – não valia a pena, tantas foram as luzes que viram em seu redor. E houve 'Propaganda', tema do novo álbum (batida digital e minimal, que a meio rebenta de assombro e que é ladeada pelos supracitados soldados a despejar fumo), para espicaçar tal facto.
De humano, só as poucas brincadeiras de Bellamy, que foi jogando com os botões da sua guitarra antes de 'Plug In Baby', com o público a acompanhá-lo com a voz; que se sentou ao piano para uma versão gospel de 'Dig Down' ao mesmo tempo que pedia aos presentes para que acendessem as luzes dos seus telemóveis; que cumprimentou os pagantes que se posicionaram junto às grades em 'Mercy'. E, claro, o algum romance que ainda vamos captando nas canções, sobretudo as mais antigas, quando os Muse não eram ainda tão assumidamente políticos: 'Time Is Running Out' (continua extraordinária, caramba!), 'Take a Bow' (com direito a uma citação visual de “Hamlet”, com o guitarrista mirando uma caveira: helás, pobre humanidade!), ou 'Starlight' (onde segurou uma bandeira portuguesa, para gáudio geral).
Os relatos dos concertos anteriores prometiam mais espetáculo que não apenas aquele gerado em computador, e os badalados exosqueletos de que se vinha falando fizeram uma aparição antes de nova incursão por 'Algorithm', que foi a primeira canção a ser escutada esta noite. Durante o medley final, com uma fusão entre 'Stockholm Syndrome', 'Assassin', 'Reapers', 'The Handler' e 'New Born', o robô que se havia libertado da caixa fez a sua aparição final, desta feita em formato insuflável, apadrinhando o palco e os últimos momentos do concerto.
'Knights of Cydonia', como habitualmente, colocou o ponto final num espetáculo que mais que se ouvir, teve como objetivo fazer pensar – mesmo que o que muitos dali retirem seja, apenas, o que viram e fotografaram e filmaram. Um “obrigado Lisboa” e os mimos da praxe (baquetas, palhetas et al e um novo soerguer da bandeira nacional) foi a forma que os Muse arranjarem para se despedirem da sua plateia, de voltarem à sua própria realidade. Se é que não foi esta a realidade, e sejam as suas vidas ditas “normais” o virtual. Depois de tamanha sobredose de luz, será difícil dizê-lo com exatidão. Mas que foi grandioso, lá isso foi.
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