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Cat Power

Cat Power no Super Bock Super Rock: voz, alma e coração ao pôr-do-sol

De longo vestido negro, Chan Marshall voltou ao festival onde atuou há cinco anos. Hoje, coube-lhe espalhar charme antes da hora do jantar. (A artista não se deixou fotografar)

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Rainha dos concertos imprevisíveis, mas capaz também das mais comoventes entregas vocais, Chan Marshall, figurão da música independente que nos habituámos a conhecer como Cat Power, chegou esta tarde ao palco principal do Super Bock Super Rock acompanhada de um trio capaz de fazer a cama perfeita para o seu blues tão personalizado como quente. Há cinco anos, a norte-americana já passara por este festival, para um breve concerto no palco secundário; nesta tarde, antecipando aquilo a que outrora se chamava pôr-do-dol (hoje: golden hour), protagonizou aquele que talvez tenha sido o mais acertado dos espetáculos que lhe vimos em Portugal.

Cantando bem, muito bem, sem nunca perder a alma, Cat Power começou o seu concerto quando Marlon Williams, outro romântico incorrigível, ainda maravilhava no palco EDP. À sua frente, um público já numeroso mas inquieto, ora ansiando pela chegada da grande estrela do dia (Lana Del Rey, amiga e colaboradora de Chan), ora distraído com as tecnologias que a toda a hora nos fazem cócegas nos dedos.

Como um gato, Cat Power não pode ser domada e comportamento previsível é característica que não lhe assiste. Por isso, num ambiente que tinha tudo para ser hostil, deu um concerto sólido, digno, honesto.

Pelas sete da tarde de uma tarde de julho, ainda há demasiado sol para o timbre de meia-noite da menina de Atlanta brilhar em todo o seu esplendor. Ainda assim, ela comove: 'Me Voy', do novo "Wanderer", recorda-nos quando, em entrevista, nos confessou que lhe custou ler as cartas de Janis Joplin no documentário sobre a cantora, por se identificar com ela e sentir que poderia, também, ter conhecido um fim tão precoce. De colheita mais clássica, 'Metal Heart' (de "Moon Pix",de 1998) dá a mão às 'irmãs' mais novas e, com a ajuda daquela banda que tão bem entende o silêncio de que todas as 'manas' precisam, desenha um fio condutor entre passado e presente da artista para sempre conhecida como Cat Power. Quando pouco parecia jogar a seu favor, jogou os seus maiores trunfos: voz, alma e coração.