Perfil

Blitz

Uma parceria com o jornal EXPRESSO

Notícias

Cat Power

“Isto não são sabores de gelado, é a minha alma e o meu coração”. Cat Power em entrevista antes do concerto no Super Bock Super Rock

Chan Marshall regressa esta semana ao Meco, onde atuou há cinco anos, para um concerto no Super Bock Super Rock. À BLITZ, falou do filho, de Eddie Vedder (“um homem lindo”), da morte do amigo Philippe Zdar e da razão pela qual se sente livre e orgulhosa após ter sido despedida da sua antiga editora

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Esta quinta-feira, 18 de julho, no Meco, onde atuou há cinco anos, Chan Marshall, aka Cat Power, deu-nos uma entrevista longa e emotiva sobre o momento de paz em que se encontra na sua carreira. Conversa com uma das grandes vozes das últimas duas décadas.

Está de regresso a Portugal para um concerto no Super Bock Super Rock. Como tem corrido, até agora, esta digressão europeia?
No dia 19, dia em que cheguei a Paris, perdi um querido amigo. Antes de entrar em digressão, tive uns dias de férias, então essa primeira semana foi muito complicada. E a que se seguiu também, porque já ia dar concertos. Os espetáculos foram muito emotivos, só pensava que gostava de poder trazer alguém de volta ao planeta Terra, sabes?

Está entusiasmada com o regresso a Portugal?
Mal posso esperar! Adoro Portugal. As pessoas, a comida, as conversas… é um sítio tão especial. Sempre que aí vou, é muito especial. Estou muito feliz por estar de regresso. Já no ano passado quis voltar, mas por alguma razão não consegui. Quando lanças um disco novo, recebes as primeiras ofertas. E é como se fizesses bolos e essas primeiras pessoas comprassem os teus bolos. As primeiras a chegar conseguem afastar as outras. Houve países a afastar outros.
Mas eu lá expliquei que seria impossível não ir a Portugal.

Lembra-se do último concerto no Super Bock Super Rock? Na mesma noite que o Eddie Vedder, com chuva...
Lembro-me, pois! Mas não me lembro da chuva. Estava a chover?

Durante o concerto do Eddie Vedder, sim...
O Eddie falou nas eleições, não foi? Falou dos políticos… é, ele é bom rapaz. Gosto muito dele.

Cat Power no Super Bock Super Rock 2014
1 / 5

Cat Power no Super Bock Super Rock 2014

Rita Carmo

Cat Power no Super Bock Super Rock 2014
2 / 5

Cat Power no Super Bock Super Rock 2014

Rita Carmo

Cat Power no Super Bock Super Rock 2014
3 / 5

Cat Power no Super Bock Super Rock 2014

Rita Carmo

Cat Power no Super Bock Super Rock 2014
4 / 5

Cat Power no Super Bock Super Rock 2014

Rita Carmo

Cat Power no Super Bock Super Rock 2014
5 / 5

Cat Power no Super Bock Super Rock 2014

Rita Carmo

Antes do concerto a solo do Eddie Vedder em Portugal, há poucas semanas, esteve a tocar o seu último disco, “Wanderer”...
A sério? Oh meu Deus. Isso deixa-me tão feliz. Eu não costumo saber destas coisas. Quando os Pearl Jam foram tocar a Miami, onde eu vivo, há uns anos, o manager dele, muito querido, disse-me: “toma a setlist. Queres vir?”. Eu lá fui mas, quando ele me perguntou se eu queria cantar, eu disse: “não, não estou preparada, está muito barulho...”. Então ele apontou para a canção, mas eu não consegui ver, estava escuro. Aquilo era um concerto num estádio enorme, eu fui à casa-de-banho e pensei: “ai que porra, perdi o papel! Deixei-o na casa-de-banho e ainda nem olhei para ele”. Pedi ajuda à minha amiga, mas ela tinha ido comer um cachorro quente. Pensei: “aposto que o deitei fora!”. Voltei para ir buscar o papel, meti a mão no caixote do lixo e ouço a minha canção! Ouço o Eddie Vedder a cantar a 'Good Woman'! Então apanhei o papel, fui a correr para o meu lugar e comecei a cantar. Sei que ele vai defendendo a minha música. Mas nem sabia que gostava assim tanto. Então, quando me contas isso, fico a pensar. Ele é um homem lindo, gostava de o ver mais vezes.

Vai atuar na mesma noite que a Lana Del Rey, que participa no seu último disco...
O quê? Ela toca na mesma noite? Oh meu Deus! Tenho de lhe mandar uma mensagem!

Será que as vamos ver a cantar juntas?
Quem me dera! Mas não posso dizer. Adoraria, mas não sei. Seria incrível que ela me surpreendesse. Sei que, antes de tocar, ela fica muito concentrada. Faz meditação e é muito dedicada e disciplinada, não quero perturbar essa energia. Mas adorava, seria fantástico.

Quando andaram juntas em digressão, davam conselhos uma à outra, partilhavam histórias?
Sem dúvida. Enquanto mulheres, e daí a canção ['Woman', em que ambas cantam]... Quase todas as mulheres e até raparigas que conheço já passaram por certas coisas, porque o mundo não é feito para nós, então tivemos conversas especiais sobre os nossos pais, os homens na indústria discográfica, amantes, os nossos irmãos… E temos continuado a falar disso desde então. Tal como o Eddie, ela tem muita energia vital. A forma como se motiva através da dedicação e da saúde... Ela escreve muitas canções tristes, mas é muito forte, toma bem conta de si, para poder perseguir a sua felicidade. Isso é muito raro e faz dela um exemplo perfeito: não podia ser um exemplo mais perfeito do que é mostrar amor e dizer as coisas como elas são. A maior parte das mulheres tem problemas de autoestima. Alguns homens também, mas o sistema criou um padrão para nós seguirmos, de comportamento e submissão. Adoro a Lana, acho-a fantástica. E diverte-se, o que é importante para os mais novos. É muito brincalhona, e isso é bom para os miúdos verem que podemos ser brincalhões e tímidos e engraçados e diretos… e dizer a verdade de forma bonita.

Há cinco anos, quando esteve no Meco, ainda não era mãe. Como está o seu filho, que idade tem agora?
Fez 4 em abril. Está ótimo. É alto e muito parecido com o pai… também tem traços meus, físicos e de personalidade, mas é muito parecido com o pai. Quando se olha para ele, vê-se logo o pai, mas quando o vamos conhecendo
acabamos por ver a mãe, também.

Ele anda consigo quando está em digressão?

Sim, essa é uma das razões pelas quais não consegui falar contigo mais cedo, porque estava sem babysitter. E ele adora a sua mamã, então se eu estiver ao telefone, começa [imita voz de criança]: “com quem é que estás a falar?” e “desliga o telefone!”. “Não gosto, diz para ligarem mais tarde!”.

É fácil andar com uma criança em digressão?
É fácil, porque a única coisa que quero é tê-lo comigo. Então torna-se fácil. Mas ser mãe solteira de um menino de quatro anos não é fácil. (risos) Garantir que ele está bem, que come bem e faz exercício, isso e fácil. Mas ser mãe solteira, tentar dormir, mesmo quando estou em casa, como uma pessoa normal... Ele tem 4 anos e quer brincar, a dinâmica é a mesma.

O filho de Chan Marshall, Boaz, na capa do último disco de Cat Power

O filho de Chan Marshall, Boaz, na capa do último disco de Cat Power

Ele costuma ir ver os seus concertos?
Às vezes. Mas ele gosta de andar a correr muito depressa e fica todo entusiasmado com coisas elétricas e metálicas, por isso vai a poucos concertos; há muitas coisas técnicas e de palco que me deixam nervosa. Muitos dos recintos têm escadas perigosas, não há ventilação nos bastidores, as casas-de-banho são sujas... Às vezes é melhor irmos ao parque da cidade onde estivermos, ou ficarmos mais tempo no banho, ou irmos para a cama mais cedo. Hoje ele vai ao concerto, porque é ao ar livre, num anfiteatro romano [5 de julho, em Lyon].

Agora que “Wanderer” já saiu há alguns meses, como se sente em relação ao disco? Satisfeita, orgulhosa?
Muito, muito orgulhosa. Penso que o disco de que me senti mais orgulhosa, em termos de produção, foi o “Sun”. Mas também produzi outros, como “The Greatest”, “You Are Free” e “Myra Lee”, mas não pensei que fosse importante dizê-lo, até que, com o último, me tiraram isso. O Philippe Zdar, que acaba de morrer e era um querido amigo meu, como um irmão para mim... amo-o muito. Ele misturou o álbum [“Sun”]. E a minha antiga editora discográfica, com quem eu já não estou, sabia que não tinha sido ele a produzir o disco, mas sem eu saber lançou um comunicado de imprensa dizendo ao mundo que ele o produzira. Ainda está na Pitchfork e nos blogues. Não sei se te identificas com isso, como mulher, mas eu fiz um grande esforço. Não devia ter confiado neles, devia ter sido mais assertiva e ter escrito no álbum que o produzira.

Desta vez, trabalhei muito para proteger a psique e a espiritualidade do disco. Tinha um pressentimento de que a minha antiga editora não iria gostar do disco, e não gostou. Queriam êxitos, porque se esqueceram de quem são, enquanto editora -- deviam ser uma editora indie rock, de artistas com credibilidade. Tive de trabalhar muito, quase como numa oração constante, para que cada canção fosse ouvida. E depois rejeitaram o disco e despediram-me. Durante um ano não tive editora e pensei que não ia voltar a ser música. Desde os meus 20 anos que aquelas pessoas me diziam que eram a minha família. Não era medo que sentia, nem desilusão, mas sim uma grande perda, como se tivesse perdido família. Senti-me muito traída. Foi muito duro, uma altura muito difícil na minha vida.

E no fim do ano tinha quatro editoras à minha espera. Mas eu nunca duvidei que o disco fosse bom. Sabia que era suficientemente bom para mim, como todas as minhas canções o haviam sido, porque é para mim que as escrevo! Se não forem suficientemente boas para mim, não as gravo. Depois, quando a minha antiga editora me libertou, o que não queriam fazer, como um marido que não nos dá o divórcio, assinei contrato com a Domino.
Foi muito difícil ter aqueles homens todos a brincar com a minha vida. Aqueles homens que se diziam minha família. É por isso que tenho tanto orgulho deste disco. Porque estava grávida, tive o meu filho, passei por coisas com estes homens, perdi uma pessoa por quem estava apaixonada para o cancro... Foi muito duro passar por estas coisas sozinha, enquanto mãe solteira.

Tenho orgulho deste disco porque dá-me força, é sossegado e às vezes é disso que precisamos. Às vezes só precisamos de alguma coisa suave para nos reconfortar ou para nos explicar um processo; para mim, este disco é um processo, de que eu precisava. Um exemplo daquilo que eu sempre soube: que sou suficientemente boa, a minha música é suficientemente boa, as pessoas que gostam da minha música [são suficientemente boas]. Fizeram-me acreditar que nunca ninguém iria gostar dela, e isto não são sabores de gelado, é a minha alma e o meu coração, porra. As pessoas gostam de música porque a música as toca. Não tem a ver com Grammys ou ter êxitos na rádio. Ou se pareço magrinha numa sessão fotográfica. Há muita pressão.

Cat Power

Cat Power

Nas suas entrevistas à imprensa norte-americana, os jornalistas referem com frequência que ainda tem algum sotaque do sul dos Estados Unidos. Sente que ele regressa em força quando fala de assuntos mais íntimos, ou com pessoas mais próximas?
Provavelmente… Toda a água que me nutriu. Eu sou do sul, então é como se tivesse tudo aquilo no meu corpo. Nunca serei outra pessoa. Ontem toquei em Paris e senti que tinha 7 anos outra vez, que estava em Atlanta, com um microfone falso -- chamavam-lhe Mr Microphone. Senti que era uma menininha outra vez, de rabo de cavalo, de sapatilhas… prestes a cantar para 3500 pessoas. Nunca posso deixar [de ser isso], é parte de quem eu sou.

Cat Power toca no Super Bock Super Rock a 18 de julho (quinta-feira), pelas 19h15.

O Super Bock Super Rock é um dos festivais presentes na revista especial BLITZ Festivais, que se encontra nas bancas ao preço de €4,90.

Capa da BLITZ Especial Festivais 2019

Capa da BLITZ Especial Festivais 2019

100 páginas profusamente ilustradas com tudo o que importa saber sobre os grandes nomes que vêm a Portugal este verão e a informação pormenorizada sobre um vasto leque de festivais para todos os gostos.

Pode contar com entrevistas, perfis e retrospetivas sobre os 'figurões' do verão nacional, dos Migos a Lana Del Rey (nomes cimeiros do Super Bock Super Rock), passando por New Order, Ornatos Violeta, Sting e Cure.