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Arlindo Camacho

Vetusta Morla, o “grupo do milénio em Espanha”, no NOS Alive: “Dá-nos muita pena que dois países vizinhos vivam tanto de costas voltadas”

A banda que chegou a lugar de culto em terras de 'nuestros hermanos' através de um caminho independente voltou a pisar solo português, pela quarta vez, no NOS Alive. Eles são seis amigos de infância e, juntos, formam os Vetusta Morla. Aquele que foi considerado, pela 'Rolling Stone' espanhola, o grupo do milénio em Espanha esteve à conversa com a BLITZ

Sonhar dá muito trabalho e no caso dos espanhóis Vetusta Morla a realidade do sucesso tem sido bordada através de um refinado fabrico caseiro. Tudo começou em 1998, em Tres Cantos, uma localidade a 20 quilómetros de Madrid, quando seis amigos de infância se juntaram para formar uma banda de rock.

A voz de Pucho, as guitarras de Guille Galván e Juanma Latorre, os ritmos de David “el Indio” e as teclas de Jorge González, acompanhadas pelas linhas do baixo de Álvaro Baglietto almofadavam uma poesia de veludo, a ecoar em castelhano, estendida harmoniosamente em paisagens sonoras com raízes anglo-saxónicas.

Após dez anos de concertos e com uma sonoridade apurada num exercício de pura filigrana, o sexteto estava pronto, em 2008, para levar o público a passear por “Un Día en el Mundo”, mas o desinteresse das editoras mantinha o grupo entrincheirado em “Iglús Sin Primavera”.

Estavam ainda distantes “Los días raros” de um grupo independente, “Valiente” o suficiente para criar uma discográfica própria, um “Pequeño Salto Mortal” que virou o panorama musical de “nuestros hermanos” do avesso. Foi um “Salvése quien Pueda” com um disco de estreia de platina, enquanto “Copenhague” rapidamente se tornava na capital para as vozes de todos os fãs que entoam fervorosamente a canção nas apresentações ao vivo. Ninguém estava preparado para o tsunami provocado pelas ondas sonoras e pela “La Marea” dos Vetusta Morla. Só os próprios.

O peso do êxito comercial do primeiro álbum não os fez perder o norte, e, em 2011, traçaram os “Mapas” para mais um sucesso de vendas. A jornada continuou e, três anos mais tarde, a banda lançava-se à “La Deriva”, com um som mais direto e pungente, agitando uma bandeira de “Fuego”, pintada com mensagens sociais e politizadas.

A melhor parte da viagem é o regresso. Foi essa a conclusão a que a banda chegou em 2017, quando finalmente chegou a um “Mismo Sitio, Distinto Lugar”, com um “Consejo de Sabios” que os fez revisitar “La Vieja Escuela” onde aprenderam que o perigo é o melhor amigo da arte.

Com toda a originalidade e total independência, começaram por conquistar Espanha, depois a América Latina e, pela quarta vez, visitaram Portugal, para um eletrizante concerto no NOS Alive.

Sentados, à conversa com a BLITZ, Pucho, Juanma Latorre e David “el Indio” foram uma “Maldita Dulzura” que se entranha.

Quem eram aqueles seis jovens que, em 1998, se juntaram para formar uma banda? Como se conheceram?
David “el Indio”:
Crescemos juntos em Tres Cantos, uma pequena localidade a norte de Madrid. Estudámos na mesma escola, no mesmo liceu e a, partir dessa amizade que tínhamos, surgiu a vontade de criar uma banda. Começámos a fazer música, mas cada um de nós tinha outras carreiras. O Juanma era jornalista, eu estudei Pedagogia mas abandonei para me dedicar apenas à música.
Pucho: O David é o único músico de verdade. Eu estudei Design Gráfico, o Guille seguiu Comunicação Audiovisual e o Jorge [González] era professor de Educação Física.

Essa convergência de pessoas com experiências e perspectivas tão diferentes também contribuiu para que a banda criasse uma identidade que a diferencia?
Pucho:
Acredito que sim. É certo que partilhamos muitos gostos, mas somos provenientes de coordenadas muito diferentes. Todas essas influências, no final, geram um cocktail e sai o que é Vetusta Morla. Essa cara que cada um de nós tinha serviu-nos muito para gerir a nossa carreira empresarial, digamos assim, porque somos uma banda independente que gerou a sua própria editora discográfica.

Como surgiu a decisão de criar uma editora própria [Pequeño Salto Mortal]?
Pucho:
Por sobrevivência, basicamente.
Juanma: Foi a decisão que nos tomou a nós.
David: Não tínhamos outra alternativa.

Mas não conseguiram fazer chegar o vosso trabalho às editoras ou preferiram fazer as coisas à vossa maneira?
Pucho:
A nossa música não chegou às editoras. Se o barco não passava, tinha chegado o momento de construirmos um. Ninguém se interessou e não nos restou outro remédio que não fosse trilhar o nosso próprio caminho. Tivemos de lutar muito, mas também é verdade que nos agradava a ideia de fazermos tudo da forma que queríamos.
Juanma: Se tivéssemos assinado com uma discográfica, teria sido um desastre.

Porquê?
Juanma:
Porque imagino alguém chegar ao estúdio e dizer-nos: "têm de fazê-lo assim!" A resposta imediata seria "isso a nós não nos serve, adeus". É importante ter em conta que, no momento em que gravámos o primeiro álbum e começámos a apresentá-lo às editoras, nós já levávamos dez anos a fazer as coisas à nossa maneira. Não éramos um grupo recém-formado que se deixaria manipular. Nós já organizávamos os nossos próprios concertos...
Pucho: E já fazíamos todo o trabalho de produção e pós-produção, geríamos a nossa própria estratégia de marketing.

Juanma Latorre, um dos guitarristas da banda, durante o concerto no NOS Alive

Juanma Latorre, um dos guitarristas da banda, durante o concerto no NOS Alive

Essa viagem de independência fez-vos chegar a um “Mismo Sitio, Distinto Lugar”, o quarto álbum da banda, muito diferente dos três primeiros, principalmente em relação ao último [“La Deriva”, 2014], que era mais direto e político. Que mesmo sítio num lugar diferente é este? É um olhar para dentro?
Pucho:
É o resultado de uma intenção de dar um salto em frente e evoluir. Fizemos mudanças na forma de compor e de gravar. Fizemos muitos movimentos para soar de outra maneira, mas sem perder a essência. Só quando chegámos ao final do processo é que percebemos que, se pretendíamos olhar para o futuro, precisávamos de regressar às nossas origens. Não estamos assim tão afastados das coordenadas que começámos a traçar, em 2008, com o primeiro álbum [“Un Día en el Mundo”]. O mais importante, faças o que fizeres, é saber de onde vens e em que momento te encontras.

Mas, quando surge uma mudança, nem sempre as pessoas a querem aceitar. Como foi recebido o álbum por parte do público?
Juanma:
É um risco que quisemos correr. Propusemo-nos, com este álbum, perceber quais são as coisas que nos fazem querer estar juntos, nos emocionam e nos definem. Passámos por um processo de autoexploração, até compreendermos que o perigo é aquilo que nos mantém juntos. Gostamos de arriscar e ver o que acontece dentro do desconhecido. As pessoas que nos seguem, em geral, valorizaram o arrojo. Agradou-lhes a aventura e devo confessar que isso, para mim, foi um alívio. [risos]
Pucho: Acontece um pouco isso com todos os álbuns que gravámos. As pessoas, num primeiro momento, ficam sempre apreensivas — como se estivessem a entrar num carrossel que as leva para um lugar estranho —, mas depois começam a escutá-lo verdadeiramente. Percebem que, afinal, até lhes agrada e que é bom. Gosto de imaginar que se passa assim. [risos]

Quando se tem um álbum de estreia tão marcante e com tanto êxito, é complicado gerir e lidar com o peso das expectativas nos trabalhos seguintes?
Pucho:
Não pensamos muito no que esperam de nós e não sentimos essa carga. Não somos uma banda que se deixe pressionar. Cada álbum é um novo desafio e estamos apenas centrados nisso. Mas admito que, quando o disco está praticamente terminado, aí começamos a pensar no que irá acontecer, como irá ser recebido.

Guilhe Galván é poeta e, em palco, é um dos guitarristas da banda, juntamente com Latorre, com quem também divide as funções de letrista

Guilhe Galván é poeta e, em palco, é um dos guitarristas da banda, juntamente com Latorre, com quem também divide as funções de letrista

Arlindo Camacho

Fazer rock, com influências melódicas anglo-saxónicas, cantado em castelhano é também um risco? Porque mesmo entre Portugal e Espanha, dois países com idiomas tão semelhantes, parece haver um muro cultural a impedir que a música de dois países vizinhos se faça ouvir do outro lado.
Pucho:
Sempre apostámos cantar em castelhano. Parece-nos natural cantar no nossa língua materna, e tanto o Juanma como o Guille [Galván] — os autores das letras — sentem-se mais cómodos ao usar o nosso idioma como ferramenta de trabalho. Acreditamos igualmente que, mesmo para o tipo de música que fazemos, com uma raiz musical anglo-saxónica muito forte, há novos territórios que podemos explorar com o nosso idioma. É um risco, porque toda a gente está habituada a ouvir indie rock em inglês, e ao princípio pode parecer estranho. Mas já temos uma forma de criar e de funcionar em espanhol que é para manter.
David: As emoções e os sentimentos gerados pela música são o passaporte para cruzar fronteiras. Há muitas bandas britânicas ou norte-americanas com letras que eu não era capaz de entender quando as ouvia na adolescência. Mas nada disso me interessa, na verdade. Gosto da música pela música e a língua é-me indiferente.
Pucho: Acho que os anglo-saxónicos estão tão habituados a consumir a sua própria música que lhes custa bastante ouvir música cantada noutros idiomas. Agora, com a Rosalía, isso está a passar-lhes.
Juanma: Um inglês a ouvir Rosalía deve ter a mesma sensação que nós teríamos se ouvíssemos flamenco cantado em polaco. Mas deixaríamos de gostar por isso? Não.

Que palavra tem um vocalista a dizer quando as letras são escritas por dois guitarristas?
Juanma:
O Pucho tem uma participação fundamental em toda a parte da integração do texto com a melodia. Costumamos dizer que temos um software chamado "Puchator". [risos] Ele é muito importante, porque um dos aspetos que pretendemos alcançar é que a letra e a melodia não sejam assimiladas de forma separada. Tem de chegar como algo coeso, que flua de forma natural para contar uma história. Toda a parte rítmica e harmónica deve passar uma única mensagem, juntamente com as palavras. Não temos uma proposta de canção de autor, onde a letra se impõe sobre a música. Nem tampouco se trata de groove, onde o texto não tem nada a dizer. Procuramos um caminho próprio e intermédio.

E quais são os caminhos líricos que nos levam a este "Mismo Sítio, Distinto Lugar"?
Juanma:
Mudámos um pouco a nossa criação metafórica habitual para este último álbum. Algumas canções são tão literais que as pessoas pensam que devem ser complexamente metafóricas. [risos] Querem apenas dizer o que dizem. Não somos tão intelectuais assim.
Pucho: Incluímos ingredientes que, embora pudessem ser encontrados nas letras dos álbuns anteriores, agora estão mais evidentes, como a sátira, a ironia e o humor. Parecia que éramos um grupo muito sério. Acho que conseguimos compor letras menos etéreas e mais terrenas.

Este foi o quarto concerto de Vetusta Morla em Portugal. Qual é a sensação de regressar?
Juanma:
Recebemos muito carinho sempre que vimos e sentimos uma conexão muito forte com as pessoas. Todos nós somos grandes amantes de Portugal. Somos fãs das pessoas, dos lugares e da gastronomia. Queremos regressar cada vez mais. Dá-nos muita pena que, sendo dois países vizinhos, vivamos tanto de costas voltadas uns para os outros.

O que chega da música portuguesa a Espanha? Que artistas apreciam?
Pucho:
Conhecemos The Gift desde há muitos anos, porque partilhamos o mesmo manager. Mais recentemente, ouvi Paus, que é uma banda experimental muito curiosa. E, há pouco tempo, fui convidado para ir a um concerto, em Madrid, do Salvador Sobral. É um personagem eurovisivo, como o próprio se descreve, mas surpreendeu-me muitíssimo. Alucinei ao ouvi-lo, porque não estava à espera de tanta qualidade. É tão jazz, mas está constantemente a sair da norma. É uma ave rara que consegue romper com todos os padrões, sempre com um imenso sentido de humor e uma ironia muito refinada, algo que é bastante português.