Renasceu uma estrela. O concerto mons-tru-o-so de Grace Jones no NOS Alive
13.07.2019 às 3h45
A 'vingança' da diva jamaicana, aos 71 anos, no festival de Algés. Felina, dominadora, magnética. Uma atuação 'impossível' que acabou de forma tão desconcertante como perfeita. Um dos espetáculos mais formidáveis dos últimos anos em Portugal
71 anos. Lembre-se disso. Ou esqueça, tanto faz. Nesta 'crónica dos acontecimentos' da madrugada de 13 de julho no Passeio Marítimo de Algés, a idade não tem lugar. Beverly Grace Jones, segundo e terceiro nomes conhecidos desde 1973, deu um concerto do outro mundo no NOS Alive. Só possível porque ela própria não é deste mundo. Mas a gente entendeu-se.
Uma tentativa de explicar como foi:
10 minutos depois da hora prevista, a cortina negra sobe e vemos uma figura esguia, pernas impossivelmente compridas, com uma máscara de caveira dourada a cobrir-lhe a cara. Numa varanda sobre o resto da banda, Grace Jones apresenta-se a um palco Sagres praticamente cheio. A música é 'Nightclubbing', na sua versão reggae rock do tema de David Bowie e Iggy Pop, incluída no icónico álbum (homónimo) de 1981. Com um vestido-capa a esvoaçar (perdoem a comparação, mas é isto que nos ocorre: uma espécie de protector de colchão), esbraceja e canta com um timbre simultaneamente grave e potente. Por baixo, traz um corpete de vinil de dominatrix, botas de cano alto com um padrão a combinar com as pinturas brancas que apresenta em meia face, no peito e nos braços. Vamos vê-la mudar de traje várias vezes: veste a pele adequada a cada canção; este aparato é essencial.
Em 'This Is' desce para uma plataforma à direita do palco, percebendo-se que atrás de si está um coro feminino (duas vozes) e uma banda oleadíssima (teclados, percussão, bateria, baixo, guitarra) que debitaria reggae, dub, rock, funk e algo mais com uma precisão letal - a secção rítmica, em particular, é tremenda.
Agora com uma máscara carnavalesca vermelha (os motivos do folclore jamaicano, do mais espiritual ao mais pagão serão uma constante), dança teatralmente de forma animalesca, sentada e de gatas, cruzando a perícia felina com a dissimulação aracnídea. Baixo e bateria são ferozmente subtis (é possível? É) em 'Private Life', original dos Pretenders.
Com um manto metalizado na cabeça, torna-se verdadeiramente diabólica, tocando pratos de bateria com baquetas/batutas para controlar a cadência de 'Warm Leatherette' (do álbum homónimo de 1980): ela atira 'warm', o povo (entusiasmadíssimo) devolve 'leatherette'.
Volta com a cores da bandeira jamaicana na cabeça, veem-se máscaras de vudu projetadas no pano de fundo. 'My Jamaican' acaba a cappella. Com o seu 'vestido para a igreja' de saia rodada (Jones é filha de um pastor pentescostal) é desafiante na impressionante 'Williams' Blood', canção de "Hurricane" (2008) composta com Wendy Melvoin e Lisa Coleman (a dupla que acompanhava Prince) - "temos um novo álbum em breve, mas esta é do último". Neste ambiente litúrgico, atentamos num varão de strip que, adiante, será utilizado com outro empenho. Complemento mais do que adequado, uma versão 'cabaré' do hino cristão anglicano 'Amazing Grace'. Rodopia, arredondando a saia, e sai de cena.
Neste rápido jogo de entra e sai, emerge com um conhecido chapéu brilhante em formato próximo de uma bola de espelhos, um feixe de laser a apontar para este, e entrega-se a um intenso momento rock na versão eletrizante de 'Love Is the Drug' (dos Roxy Music).
Com uma longa crina branca e um chicote de plumas, atira-se a um episódio funk irresistível, desempenhando com um bailarino de varão um embate de sedução. Explodem confetis noutro número empolgante, 'Pull Up to the Bumper' (regresso a "Nightclubbing'), durante o qual desce às grades para tocar os fãs da primeira fila.
Espera-nos um mastodôntico momento final, uma interpretação inesquecível de 'Slave to the Rhythm', durante o qual apresenta a banda e se mantém - por longuíssimos minutos - com um arco de hula hoop equilibrado entre os quadris. A despedida é de antologia: debaixo de aplausos inesgotáveis, já com a banda para trás, Jones chega-se à frente do palco e baixa duas vezes o corpete desvendando os seios. Desaparece com o ar matreiro de quem só faz o que quer. Uma vénia.
Alinhamento
Nightclubbing
This Is
Private Life
Warm Leatherette
My Jamaican Guy
Williams' Blood
Amazing Grace
Love Is the Drug
Pull Up to the Bumper
Slave to the Rhythm
Relacionados
-
Grace Jones estrondosa no NOS Alive: as primeiras fotos estão aqui
Aos 71 anos, a diva Grace Jones agraciou o NOS Alive com um grande concerto
-
NOS Alive: a estreia dos jovens Greta Van Fleet em Portugal foi uma festa saudosista
Três irmãos e um amigo numa viagem assumida ao rock dos anos 70
-
Vampire Weekend regressam a Portugal no final do ano
A novidade foi dada no final do concerto no NOS Alive
-
Vampire Weekend no NOS Alive, ou quando os mais melodiosos dos geeks tentaram instalar o verão em Algés
No seu sétimo concerto em Portugal, a banda de Nova Iorque deu um concerto natural como a sua sede (de verão)
-
A estreia dos Greta Van Fleet em Portugal em 14 fotos
A banda norte-americana deu esta sexta-feira o seu primeiro concerto no nosso país
-
Vampire Weekend no NOS Alive 2019: eis 19 fotos do terceiro concerto da banda neste festival
Os norte-americanos apresentaram-se na segunda noite do NOS Alive e prometeram não demorar mais seis anos a voltar
-
NOS Alive: com os Primal Scream a festa é rock and roll toda a noite (só que à tarde)
Um autêntico 'greatest hits' de uma banda com alma e muito rock'n'rave'n'roll para dar. Algés dançou 'Rocks', Bobby Gillespie foi a estrela rock dançante (e cor de rosa) que só ele sabe ser
-
Perry Farrell trouxe extravagância, erotismo e uma garrafa de vinho para a hora do lanche no NOS Alive
O músico dos Jane's Addiction, que há sete anos passaram por este mesmo festival, apresentou um espetáculo caprichado em Algés
-
NOS Alive: o segundo dia mal começou e já vimos um divertido concerto rock
Em dia de Vampire Weekend, Primal Scream, Gossip e Grace Jones, a tarde começou em espanhol mas foi noutras paragens que o indie rock vitaminado nos carregou as baterias