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Hot Chip querem “público dedicado e enérgico” no NOS Alive. Uma conversa sobre sexismo, sensualidade e o psicadélico novo álbum

Banda britânica toca esta quinta-feira no festival de Algés e a BLITZ conversou com Joe Goddard e Owen Clarke sobre as novas canções e o trabalho com Philippe Zdar, recentemente falecido membro dos Cassius

Rita Carmo

Rita Carmo

Fotojornalista

Firmando o seu estatuto de mais consistente banda de pop eletrónica das duas últimas décadas, os britânicos Hot Chip sobem novamente a fasquia no novo álbum, “A Bath Full of Ecstasy”. Psicadélico, conciso e salpicado com alguns dos momentos efervescentes e memoráveis de um percurso inabalável (‘Hungry Child’ e ‘Melody of Love’ já garantiram um lugar entre as canções mais inspiradas do grupo), o sucessor do negro “Why Make Sense?” (de 2015) será apresentado esta quinta-feira no NOS Alive.

A BLITZ esteve à conversa com os multi-instrumentistas Joe Goddard e Owen Clarke sobre o novo longa-duração, primeiro a contar com produção externa à banda – Philippe Zdar, elemento dos Cassius que morreu pouco tempo antes de “A Bath Full of Ecstasy” ver a luz do dia, e Rodaidh McDonald, colaborador habitual dos xx, Savages ou Sampha, foram os eleitos –, mas também sobre a experiência sensorial (e sensual) das canções dos Hot Chip, masculinidade tóxica e o facto de nunca terem conquistado um grande sucesso comercial.

Desde que os Hot Chip começaram a fazer música, têm editado álbuns de forma consistente, sem grandes períodos de intervalo. O que ainda vos move a fazer música, 15 anos depois?
Joe Goddard – Só posso falar por mim, mas penso que é semelhante para todos nós: fazer música é uma espécie de obsessão. Tem tudo a ver com ir para o meu estúdio, uma cave cheia de sintetizadores na zona este de Londres, onde me sinto bastante confortável e feliz só com o processo criativo. Fico muito calmo e realizado com esse prazer de fazer música. Parece-me uma paixão para a vida toda, portanto é importante, até certo ponto, que haja um público para a música que fazemos… Quero ter a possibilidade de continuar o meu trabalho e sustentar esta paixão, mas fico bastante feliz só com o processo de criação.

E o facto de ser um processo cíclico, entre álbuns e concertos, é algo que vos cansa?
Owen Clarke – Faz mossa, mas dá-nos prazer. É um pouco como a passagem das estações do ano. Primeiro, a antecipação de ter um disco para sair, depois vê-lo finalmente cá fora e a seguir tens a oportunidade de mostrá-lo às pessoas e de viajar pelo mundo a dar concertos. É um estilo de vida e um emprego cíclico, um bom ritmo de vida.

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Além de trabalharem com Philippe Zdar, trouxeram também para bordo Rodaidh McDonald, abrindo pela primeira vez um disco dos Hot Chip a contribuições externas. Que impacto teve na sonoridade do álbum e na banda?
OC – A nossa relação, na banda, é como uma linha constante, mas a verdade é que é bom experimentarmos outras coisas para apimentar tudo um pouco. É um bom desafio... Não é bem um teste, mas algo que ajuda o nosso processo criativo e nos leva a questionarmo-nos “o que queremos fazer com isto?”. A composição de música acaba por se tornar uma espécie de hábito, uma obsessão e é bom questionarmos essas obsessões e perceber até onde as podemos levar. Foi divertido, neste disco, tentarmos ter uma visão objetiva daquilo que estávamos a fazer, encontrar novas formas de trabalhar e ver o que mais era possível fazer.

E pensaram nessas parcerias logo no início ou foi algo que se proporcionou?
JG – Chegámos à conclusão de que queríamos abrir o processo criativo a outras pessoas. Pensámos numa série de possibilidades. Discutimos muito a ideia de irmos até Chicago gravar com o Steve Albini, que trabalhou com os Pixies e numa série de ótimos discos, pensámos no Daniel Lanois e em abordar produtores clássicos como o Brian Eno.
OC – Os grandes.
JG – Sim, os grandalhões. A sugestão do Philippe Zdar surgiu da Domino Records, porque ele tinha acabado de fazer um disco com os Franz Ferdinand e disseram que tinha sido um processo fantástico e muito positivo. Pareceu-nos uma ótima ideia, porque seguíamos a carreira dele e eu tinha lido um artigo sobre o facto de ele ter trabalhado com os Beastie Boys no último álbum deles. Antes, tinha trabalhado com a Cat Power, uma artista superinteressante e muito diferente dos Beastie Boys. Obviamente, também tinha feito álbuns com os Phoenix, que são fantásticos e mais virados para o rock, e os seus Cassius, portanto sabíamos que teria referências muito semelhantes às nossas e que poderia funcionar muito bem. Também sabíamos que tinha um estúdio incrível em Montmartre, em Paris, com bom equipamento e sintetizadores fabulosos. Era uma ótima escolha. Ele veio ao meu estúdio, sentou-se connosco, ouviu as nossas maquetas e gostou. Depois, o Rodaidh McDonald tinha acabado de fazer um álbum com o David Byrne, algo que nos pareceu uma parceria criativa interessante e, obviamente, antes disso tinha feito os álbuns do Sampha e The xx, o que, em termos de referências, nos pareceu que ia funcionar também. Acabou por se desenrolar de forma bastante interessante. O Rodaidh é muito diferente do Philippe, são quase polos opostos em termos de personalidade. O Rodaidh é muito controlado, muito centrado na tarefa de desenvolver uma canção até se tornar a canção pop mais polida e sucinta possível. O Philippe é mais expansivo, envolve a música em efeitos e sonoridades mais psicadélicos. Complementaram-se bastante bem no fim, porque aquilo que produzimos com o Rodaidh foi depois misturado pelo Philippe, com o seu toque particular. Estou muito satisfeito com o resultado final.

Em 2010, o Al Doyle confessou-nos que não é fácil escolher o nome dos vossos álbuns… Como chegaram até “A Bath Full of Ecstasy”?
JG – Este foi, de longe, o mais difícil.
OC – Sim… No passado, tivemos sempre ideias diferentes do que os nomes deviam ou não ser, e geralmente achamos que o título de uma das canções pode dar também nome ao álbum. Desta vez, dissemos que não íamos fazer isso, até pedimos ao engenheiro de som, o Mike, para nos tirar uma foto connosco a jurar que não o faríamos… mas depois de duas semanas às voltas a tentar escolher um nome, acabámos por fazê-lo na mesma porque sumarizava bem o álbum. É convidativo, inclusivo e capta todos os mundos diferentes que temos no disco, mas não deixa de ser o nome de uma canção e algo que jurámos não fazer.
JG – Temos conversas intermináveis de Whatsapp com centenas de potenciais nomes para o álbum e nunca apareceu um com que todos concordássemos, essencialmente.
OC – Tirando aquele que acabámos por usar.

Este novo disco soa quase a uma antítese do anterior, “Why Make Sense?”. É uma reação eufórica a um álbum menos expansivo?
JG – Não houve um esforço consciente nesse sentido, mas tínhamos o desejo de aprimorar as nossas capacidades enquanto escritores de canções e de fazer algo mais sucinto. No início, era um disco com mais de uma hora de duração, mas da parte da nossa editora disseram-nos “vá lá, rapazes! Tentem fazer isso de forma mais cuidadosa” e sugeriram que deixássemos algumas coisas de parte. Foi um choque, porque os nossos álbuns costumam ser bastante expansivos e bizarros, com guinadas criativas, mas depois começou a fazer bastante sentido. Parece uma coleção de canções mais sucinta e não só não sofreu com isso como até ganhou algo. Tentámos aprimorar a escrita e a produção das canções para que fossem mais poderosas e trouxessem uma claridade que nunca tínhamos conseguido atingir antes.

Ouvir um disco dos Hot Chip é sempre uma experiência sensorial, sensual até. Isso está bem presente, aqui, no tema ‘Spell’. É algo pensado ou que acontece naturalmente?
OC – Naturalmente sensuais… Não sei se é a primeira coisa que te vem à cabeça quando nos vês (risos).
JG – Há algum tempo que tenho vindo a pressionar o Alexis [Taylor, vocalista] para ser um pouco mais sexual, sensual. Sempre pensei no Prince, uma das grandes influências dele, que tinha esse lado ultra erótico na escrita de canções. As letras do Alexis são, geralmente, mais cerebrais, portanto talvez isso estivesse lá de forma inconsciente ao escrevermos ‘Spell’. Esse tema surgiu de uma sessão para o último álbum da Katy Perry. Escrevemos uma série de maquetas e passámos alguns dias em estúdio com ela, em Londres, trabalhando na canção que mais tarde se tornaria esta ‘Spell’ e noutra que acabou por ficar no álbum dela [‘Into Me You See’]. Portanto, talvez o Alexis tenha escrito a canção da perspetiva dela e isso o tenha libertado para soar mais sensual. Para mim, tem muito a ver com desenvolver esse lado mais excitante, enquanto líder e cantor, e é sempre bom quando tentamos crescer e discutir assuntos diferentes.

Uma coisa que os Hot Chip sempre trouxeram foi uma vulnerabilidade que não se sente na música de muitas outras bandas. Num momento em que discutimos uma masculinidade tóxica, é mais importante do que nunca falar honestamente sobre sentimentos?
JG – Acho que sim, é incrivelmente importante. Estamos a viver num tempo em que irrompem movimentos como o #metoo e em que vemos muitos exemplos de homens que abusam das suas posições de poder. Penso que isso vem do facto de, no geral, não darmos as ferramentas certas aos jovens rapazes para se expressarem e não permitimos que sejam sensíveis e vulneráveis. Esta masculinidade tóxica, agressiva e intimidante vem daí. E alguns homens sentem que é difícil identificarem-se com outros homens ou mulheres sem cair nessas armadilhas horríveis e agressivas. É, sem dúvida, um tópico super importante. Neste momento, os homens estão a ser vilificados e muitas vezes com muita razão por fazerem coisas horríveis a colegas do sexo feminino ou mulheres que conhecem em bares ou assim… Isso é horrível, mas penso que temos de olhar para a forma como os rapazes são ensinados a expressarem-se quando são mais novos e tentar trabalhar isso. Não querendo entrar numa conversa demasiado profunda ou psicoanalítica, a mãe e o padrasto do Alexis são psicanalistas, portanto ele foi criado num ambiente muito mais aberto e podia expressar-se de forma livre. Era-lhe permitido ser vulnerável, mas muitos miúdos não têm essa oportunidade. Portanto, sim, é uma das coisas mais importantes que podemos fazer, porque ainda há tantos problemas entre homens e mulheres. É algo que já deveríamos ter resolvido nesta altura, no século XXI, mas ainda é um assunto gigantesco.

De que formas os vossos trabalhos a título individual ajudam no momento de criar música com os Hot Chip? É fácil selecionar o que entra num projeto ou noutro?
JG – Quando estou a fazer uma maqueta passo por um momento em que fico ali a tentar perceber qual seria a forma mais interessante de completá-la. Se me vierem à cabeça, rápida e naturalmente, algumas palavras, gravo-as e isso significa geralmente que encaixa num disco a solo, porque a canção fica quase pronta. Mas não me acontece muitas vezes, portanto tento sempre perceber se essa música seria inspiradora e interessante para o Alexis. Se sentir que sim, envio-lhe um email a perguntar o que pensa daquilo. Se for uma canção mais virada para a pista de dança envio-a para o Raf [Rundell] e pergunto-lhe se seria boa para os The 2 Bears. Às vezes, deixo as coisas em modo instrumental e faço algo completamente diferente com elas. Mas tento não fazer com que essas considerações ocupem demasiado a minha cabeça, tento concentrar-me em fazer um bom tema. Trabalho com o Alexis há quase 20 anos, talvez um pouco menos, e sei que tipo de coisas o deixam entusiasmado.

Por muito que as vossas canções tenham apelo pop, nunca tiveram um grande sucesso comercial. Por que razão pensam que isso acontece?
JG – Quando olho em restrospetiva, e sendo honesto, no segundo ou terceiro álbum deveríamos ter trabalhado com um produtor externo. Podia ter acontecido quando assinámos com a EMI, porque tínhamos todos os recursos disponíveis e eles teriam dito logo que sim, mas permitiram-nos continuar a fazer aquilo que queríamos fazer e deixaram-nos entregues a nós próprios. Gravámos álbuns dos quais me orgulho muito, mas com a ajuda de alguém como o Philippe ou o Rodaidh… Não sei, não é algo que me tire o sono. Sempre nos mantivemos num nível confortável de sucesso, não lidaríamos bem com um maior nível de fama. Somos recatados, gostamos de poder apanhar o metro em Londres sem sermos incomodados. Tendo dito isto, toda a gente gostaria de ser milionário.

Voltam agora a atuar em Portugal. Que boas memórias guardam das primeiras passagens pelo país?
JG – Há um concerto em Lisboa que foi muito especial para nós. Tocámos num bar muito pequeno, não me lembro do nome, mas sei que era numa zona adorável da cidade. Aconteceu já a noite ia longa e estava muito calor. Tínhamos algumas centenas de pessoas a assistir e o suor caía do teto para dentro dos teclados, fazendo com que funcionassem mal. Deve ter caído água para o meu antigo sintetizador e isso fez com que passasse de tocar a linha de baixo para imitar sons de pássaros, a meio do concerto. Tivemos de parar durante algum tempo para fazer com que se comportasse como deve ser. Houve experiências assim, mas tivemos noites fantásticas no Lux e nos grandes festivais… Adoramos a experiência de tocar às 2h30 da manhã e termos público dedicado e enérgico. Isso não acontece muito no Reino Unido. A essa hora já toda a gente caiu para o lado, tal a bebedeira.
OC – Adormecem a comer batatas fritas. (risos)

Os Hot Chip regressam a Portugal esta quinta-feira para atuar no NOS Alive, subindo ao palco Sagres por volta das 03h00. O NOS Alive é um dos festivais presentes na revista especial BLITZ Festivais, que se encontra nas bancas ao preço de €4,90.

Capa da BLITZ Especial Festivais 2019

Capa da BLITZ Especial Festivais 2019

100 páginas profusamente ilustradas com tudo o que importa saber sobre os grandes nomes que vêm a Portugal este verão e a informação pormenorizada sobre um vasto leque de festivais para todos os gostos. Pode contar com entrevistas, perfis e retrospetivas sobre os 'figurões' do verão nacional, dos Cure a Lana Del Rey, passando por New Order, Ornatos Violeta, Slipknot, Sting, The Roots ou Vampire Weekend.